terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO?

II


Rui Manuel Amaral, por exemplo, quando lhe é pedido que classifique os seus textos, responde habitualmente que não gosta das expressões "microconto" ou "micronarrativa" porque estão demasiado conotadas com um conjunto de regras que não segue, e o mesmo quanto à expressão microficção, aplicada cada vez mais aos seus textos, inclusive na publicidade dos seus livros, sendo mesmo designado pela sua editora como “o nosso grande microficcionista”.


Não gostando assim dos termos micro-narrativa, micro-conto ou micro-ficção Rui Manuel Amaral afirma que os seus contos são geralmente breves, de facto, mas porque essa é a forma que mais lhe convém para contar uma história. Prefere, refere ainda, dizer que escreve histórias ou ficções.

Rui Manuel Amaral escreve pois ficção, mas não microficção.


Confesso que não vejo a razão para Rui Manuel Amaral negar que escreve microficção, pelo menos se pensarmos a microficção como o conjunto dos textos breves de ficção que escapam actualmente a qualquer classificação. Até porque o Rui Manuel Amaral não se importa de dizer que escreve contos, ou histórias ou ficções.


A verdade é que os textos de Rui Manuel Amaral escapam na minha opinião à designação de contos, não porque sejam menos, mas porque são algo mais. E não é só, nem de longe, a brevidade que lhes confere essa diferença. Curioso é que o seu editor e muitos dos que comentam os seus textos os considerem microficções, enquanto o seu autor se tem afadigado a negá-lo.


Se há um preconceito em relação à microficção, nomeadamente por parte da crítica e dos editores, não posso deixar de estranhar que seja um autor de microficção ele próprio a alimentá-lo. O Rui Manuel Amaral ou qualquer outro autor que escreva microficção não precisa assumi-lo, mas também não me parece que precise negá-lo, o que de certa forma já não o faz quando diz, numa entrevista recente, lembrando que tem sido sistematicamente associado à microficção, que é uma espécie de rótulo com o qual não se identifica, mas que também não o incomoda.

Seja como for, Rui Manuel Amaral parece revelar, face à microficção uma desconfiança que não se percebe, ainda que se aceite como opção do autor.

Mas passemos à frente.

[CONTINUA]

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