domingo, 5 de dezembro de 2010

A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO?


Um quase ensaio em formato de folhetim e "work in progress"


I


Rui Costa, co-organizador da Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, afirmava-se “surpreso com o facto de esta ter sido a primeira antologia de micro–ficção portuguesa, sabendo nós como ela vem sendo praticada há alguns anos em Portugal e noutros países”. Editada em 2008, ela foi na verdade a primeira e mantém-se ainda a única antologia de microficção portuguesa.


Por outro lado, no “Esboço para um ensaio sobre micronarrativa”, prefácio da Primeira Antologia, Henrique Manuel Bento Fialho afirma que “ninguém pode negar que, sob a capa de poema, poema em prosa, aforismo, ou o que quer que seja, a micronarrativa vai marcando presença na literatura portuguesa.”


Apesar do termo utilizado por Rui Costa e Henrique Manuel Bento Fialho ser diferente, quer um quer outro afirmam o mesmo, reconhecendo a presença crescente na literatura portuguesa de um conjunto de textos literários breves que parecem não caber exlusivamente em qualquer dos géneros consagrados.


Rui Costa afirma que aquilo que mais o “atrai na micro-ficção é a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A micro-ficção não é um género literário, é a riqueza da impossibilidade de o ser. Confunde os géneros e deixa-nos (bem) perdidos no caminho para qualquer definição.”


A expressão “micronarrativa” foi usada pela Minguante, publicação digital dedicada exclusivamente ao que definia como narrativas breves que não deveriam exceder duzentas palavras e poderiam apresentar-se em prosa ou em verso. A Minguante, com uma participação de centenas de autores, confirmou, se necessário fosse, a presença forte da microficção em Portugal.


Qualquer que seja o termo utilizado, pode assim concluir-se com facilidade que existe a realidade que qualquer um desses termos pretende abarcar: textos literários breves (ficções ou narrativas) que parecem fintar todos os géneros. Pode também concluir-se sem grandes considerandos que a prática desses textos breves vem marcando presença na literatura portuguesa já há alguns anos.


No entanto, Henrique Manuel Bento Fialho, no prefácio à Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, sinaliza a não assunção em Portugal da micronarrativa enquanto tal, afirmando no entanto que não caberia averiguar ali os factores que a determinam.


A brevidade e a seu carácter ficcional (ou narrativo) não serão as únicas características destes textos literários, que designarei a partir de agora por microficção, expressão que parece ganhar alguma projecção internacional, e que uso não para afirmar a existência de um novo género ou a escolha definitiva desta nomenclatura, mas apenas de forma prática para abranger todos esses textos breves que parecem escapar a todos os géneros, participando muitas vezes em vários deles, e que vêm a ser cada vez mais praticados na literatura portuguesa.


Tal como o Rui Costa, também eu fico surpreendido, não só pelo aparecimento tardio e isolado de uma antologia de microficcção portuguesa, mas também pela desconfiança com que a microficção vem sendo recebida em Portugal, como se de um filho bastardo se tratasse, por parte da crítica, das editoras, e até por parte de alguns daqueles que as escrevem.


Existirão sem dúvida factores que condicionam e determinam que assim seja, e gostaria de os tentar perceber, mas de momento apenas quero dar conta de alguma desconfiança e receio relativamente à microficção que tenho sentido por parte dos próprios autores, mesmo dos que a escrevem hoje em dia em Portugal.


Para tanto, não como ponto de chegada mas como ponto de partida, pretendendo ser provocador mas não ofensivo, passarei em revista de forma sumária algumas posições e declaraçãos de autores que em Portugal têm escrito microficção e participaram na primeira (e única) antologia de microficção bem como na Minguante, publicação exclusivamente dirigida à microficção. São eles, para além do Rui Costa e do Henrique Manuel Bento Fialho já referidos, o Rui Manuel Amaral, o Paulo Rodrigues Ferreira e o Paulo Kellerman. Poderiam ser outros, muitos ficam sem dúvida de fora, mas eram os que estavam mais à mão, por assim dizer. Foram utilizadas sobretudo as suas declarações em entrevistas à Minguante.


Vejamos então algumas das posições destes autores que escrevem microficções relativamente à própria microficção. Mas antes, que fique claro que escrevo não como um estudioso da microficção, que não sou, mas apenas como um praticante que sou, já de longa data.


[CONTINUA UM DIA DESTES]

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