quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Marina Colasanti


A microficção tem sido muito utilizada nos cursos de criação literária partindo do princípio equivocado de que elas sejam mais fáceis, de que elas sejam um bom caminho para começar. Eu acho que elas são mais um ponto de chegada porque é muito mais difícil que fazer um conto comprido.


Marina Colasanti


*


Semelhança


I

Vivia dizendo que eu parecia uma pantera.

Que o andar, que os olhos. Eu

Deitava a cabeça no seu ombro e miava baixinho


II

Vivia dizendo que eu parecia uma pantera.

Que o andar, que os olhos. E

eu me apanterava toda para agradá-lo


III

Vivia dizendo. Mas só acreditei no dia

em que, saltando do armário,

cravei-lhe os dentes na carne e o devorei


(Marina Colasanti, Zooilógico: 58)


*


Rêmulo e Ramo


Dei de mamar aos lobinhos porque tinham ficado sem mãe. Os dentes feriam os seios, as unhas lanhavam, mas a língua lambia o leite que escorria, e o pelo era suave.

Criei os dois. Com a idade ganharam carne crua. E um ar esquivo. Rosnavam entre si disputando meu afeto.

Quando cheguei em casa e encontrei um deles estirado, soube quem o tinha morto.

Então despi o casaco e ofereci o seio ao vencedor.

(Marina Colasanti, Zooilógico:137)


*


Sexta-feira


Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clítoris das esposas

Com dedos molhado de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Marina Colasanti


11 comentários:

  1. Muito giras todas estas coisas da Marina Colasanti. Não conhecia.
    Sara

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  2. Onde arranjaste o livro?
    Sara

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  3. Mais Marina:
    http://omuroeoutraspgs.blogspot.com/search?q=colasanti

    ::::::::::::::

    E ainda a respeito da microficção, com a palavra o poeta e minicontista José Eduardo Degrazia:

    "O miniconto é um gênero difícil, todos os que até agora escreveram sobre ele o dizem. E é verdade. Nada mais aparentemente fácil quanto meia dúzia de linhas, alguns caracteres, um enredo sucinto, um personagem com caraterísticas marcantes, e eis um miniconto. Nada mais longe da verdade. E os bons escritores que se dedicam a ele, e já são tantos, o sabem a duras penas. Nada pior do que a aparente facilidade. Nada mais distante do fácil e do fóssil, como dizia Drummond, do que o miniconto.
    Pois o miniconto é um híbrido de conto e de poesia. Tem do primeiro a história, o fato, o personagem, e, do segundo, o imprevisto, o trabalho de linguagem, a síntese e a metáfora. Tem mais, da poesia, o fecho como o verso de ouro de um soneto. Não acerta um miniconto quem não sabe terminá-lo. Mesmo que se inicie o mais comum dos relatos, o miniconto termina sempre de uma maneira insólita e impactante, ou não termina, o que vem a dar no mesmo.
    Mas quem escreve minicontos sabe que o leitor precisa de pontos de apoio, que não pode prescindir de um enredo para entreter-se com as coisas da vida, matérias do cotidiano, pequenas vidas de outros que são como as nossas, às vezes piegas, outras fantásticas, de qualquer modo realistas, pois no mundo e no miniconto tudo é possível."

    Abraços.
    Gorj

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  4. Eu tenho uma opinião diferente, por acaso. Toda a gente parece achar o miniconto difícil, mas eu não acho. Não escrevi muitos, gosto bastante de alguns, em relação aos quais diria que me saí mais do que apenas bem.:)
    Não é nada o meu género o miniconto, naturalmente não o escreveria, escrevi os primeiros como brincadeira e depois para a Minguante, porque me serviam como exercício lúdico. O miniconto que me sai bem é como um flash, um acontecimento condensado em breves imagens, um minifilme que vejo passar na parede. Ele "mexe". Os minicontos que mais gostei de escrever são de um género que "mexe". Quanto aos outros são apenas razoáveis. Vê-se muito bem a diferença entre, por exemplo, um miniconto como "O Paninho Bordado" ou "O Lenço Preto", para citar apenas dois, e os outros. E esses foram ainda mais fáceis de escrever que os outros. Nunca mais escrevi minicontos desde que a Minguante acabou. Porquê? Acho que é porque não é o meu género, mas não sei porquê, se é assim tão fácil.Deve ser apenas porque o que eu quero dizer não cabe nesse formato.
    Sara

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  5. Sara,
    eu penso que é mais fácil escrever uma microficção e também acho que é mais difícil.
    O Rui Zink diz isto bem quando afirma que "Fazer um texto muito bom em forma breve é mais difícil do que um romance. Mas fazer um micro “apenas bom” é mais fácil."
    Quanto a esse mexer, concordo em absoluto.
    Tenho também uma teoria algo estranha que é que em bons ROMANCES encontram-se verdadeiras microficções que poderiam ser retiradas e que são com ogãos vitais do romance.
    :)

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  6. Os microcontos são como a poesia. Tudo o que é depurado tem de ser mais pensado. Ou "acontece" e aí é uma revelação.
    Ei li o que o Rui Zink escreveu. Mas o que ele diz sobre o microconto pode ser aplicado a todos os géneros, não é exclusivo da micronarrativa.
    Quanto a microcontos que podem ser retirados de um romance: talvez. Mas um microconto vale por si.
    Sara

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  7. Imagina que eu escrevia: "Fazer um texto muito muito bom em forma longa é mais difícil do que escrever uma micronarrativa." Não é verdade?
    Sara

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  8. Tudo o que é muito bom é logo mais raro. E é mais comum fazer coisas medianas em todos os géneros e me todas as artes e não extarordinárias. Não é uma questão de facilidade ou dificuldade.E não é uma questão de género.Nem por um momento acredito nisso.
    Sara

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  9. Sara, sim dúvida, as microficções são literatura e aplicam-se as regras gerais :)

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  10. Pois, penso que o debate não passa por géneros (irrelevante!) mas pela discussão entre boa e má literatura. Porque para debater géneros bastardos e subvalorizados, podemos falar com muito mais propriedade sobre literatura infantil. Para dar um exemplo que conheço bem.
    Sara

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