sábado, 31 de dezembro de 2016

NOVE ANOS DEPOIS


Correu o mundo à procura da verdade. Quando regressou finalmente a casa, nove anos depois, encontrou a verdade sentada no velho sofá da sala. Há nove anos que o esperava.

 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

(...)

A OLIVEIRA DO CENTRO COMERCIAL
Luís Ene



Ao fim-de-semana costumo ir com o meu pai ao supermercado que fica no centro comercial junto à entrada oeste da cidade. Os meus pais separaram-se e eu fiquei inicialmente a viver com a minha mãe, no entanto, alguns anos depois, decidi viver com o meu pai e os dois concordaram. A minha mãe voltou a casar e o meu pai não, mas isto não vem ao caso, é outra história completamente diferente.
No parque de estacionamento ao ar livre existem várias oliveiras que o meu pai me garantiu, quando ali fomos pela primeira vez, terem vindo do Alqueva, no Alentejo, por ocasião da construção da barragem. Na altura não liguei muito, eram apenas árvores, e o meu pai, apesar de estar muitas vezes mal-humorado , também gosta de dizer piadas, algumas, verdade seja dita, sem piada absolutamente nenhuma.
Olhei as oliveiras espalhadas pelo parque, aprisionadas em pequenos compartimentos murados e pensei se ele não estaria a fazer uma comparação mais ampla do que a minha simples origem comum com as árvores. Eu tinha deixado o Alentejo para vir para o Algarve, mas a decisão tinha sido minha, ao contrário das árvores, e sorri, pois por momentos pensei nas árvores a deslocarem-se para o Algarve em carros próprios ou mesmo de autocarro e nem digo a pé porque é muito longe. Às vezes dou por mim a imaginar coisas impossíveis, completamente estapafúrdias, como o meu pai gosta de dizer, mas isso é outra história.
Ao longo da entrada do parque de estacionamento, num largo canteiro que acompanha uma das paredes do centro comercial e que conduz à entrada principal, alinhavam-se várias oliveiras, maiores e com melhor aspeto, pareceu-me, do que as outras que se misturavam com os carros estacionados. Tinham a folhagem mais compacta e brilhante e pareciam ter umas saias vestidas, e sorri outra vez, que afinal não eram mais do que uns tufos floridos que lhes rodeavam os troncos curtos, ideia decorativa que eu não estava certa que as oliveiras apreciassem, mas que era sem dúvida divertida.
A oliveira é uma planta de folha persistente, o que significa que nunca perde totalmente a sua folha; em vez disso, as folhas mais velhas vão caindo ao longo do ano. As folhas, pequenas e luzidias, são verde acinzentadas na frente e de um cinzento prateado e brilhante por trás. Na parte de trás têm pequenos pelos, que protegem a árvore da desidratação recapturando a água e conduzindo-a de novo para a folha. Não pensem que sabia isto; procurei na Internet informação sobre as oliveiras e esta foi uma das que obtive e pude até confirmá-la observando as folhas das oliveiras do parque de estacionamento do centro comercial. A verdade é que passei a olhá-las com mais atenção, especialmente a que ficava mais perto da entrada, mesmo ao lado da passadeira.
O meu pai nem sempre deixava o carro no estacionamento exterior, embora o preferisse, e por isso muitas vezes eu só via as oliveiras da estrada, quando nos dirigíamos para o parque subterrâneo, ou de relance, por uma das grandes vidraças, ao subir as escadas rolantes. Num dos dias em que o meu pai tinha deixado o carro no parque exterior e estávamos quase a entrar, mesmo ao lado daquela primeira oliveira, ele disse que se esquecera de não sei do quê no carro e pediu-me para esperar. Aproximei-me da oliveira, olhei-a com redobrada atenção e disfarçada reverência e disse-lhe: “Olá, como estás?”
Não sei porque é que o fiz! Nunca tinha feito uma coisa assim. Onde já se viu falar com uma árvore? Mas por mais estapafúrdio que fosse, a oliveira respondeu-me, numa voz que mais parecia um murmúrio, como uma brisa suave que lhe agitasse de mansinho as folhas estreitas e pontiagudas.
“Vim para a cidade contra a minha vontade e contra a minha natureza. Fui trazida do campo, onde sempre vivi e cumpria as minhas funções, e colocada num centro comercial para mero embelezamento do espaço e recreio dos visitantes que me mal me olham.”
A voz parecia triste, pelo menos foi o que eu pensei, a própria oliveira parecia triste, e o tom era claramente de lamento, mas a voz era sussurada e, talvez por isso, a emoção revelava-se atenuada. Pensei se devia dizer alguma coisa, mas a oliveira parecia falar para si mesma.
“Não sei ao certo a minha idade, mas algumas das minhas irmãs têm hoje mais de dois mil e quinhentos anos. Uma oliveira, perto da cidade de Tavira, no aldeamento turístico de Pedras d’el Rei tem mais de 2000 anos e julga-se que foram os fenícios que a teriam trazido da Mesopotâmia. É contemporânea da civilização romana e para abraçar o seu tronco são necessários cinco homens.”
A voz deixou de se ouvir por uns instantes, mas logo recomeçou, e o tom era agora manifestamente de orgulho, ainda que, tal como antes, surgisse sempre mitigado.
“ Eu vim do Alqueva, com outras árvores realojadas por altura da construção da barragem. Somos há muito apreciadas pelo óleo que o homem aprendeu a extrair dos nossos frutos e que utilizou como ungento, combustível e também na alimentação. Por isso fomos veneradas desde a antiguidade por diversos povos. Fomos sempre associadas à força e à vida e por esses facto respeitadas e louvadas, mas aqui, onde agora estou, sou apenas ignorada.”
E de novo parou e de novo recomeçou.
“O maior olival do mundo é o da empresa Sovena, produtora de azeite do grupo português Mello. São 9.700 hectares. A sede do grupo é em Ferreira do Alentejo, Beja, Alentejo e seu mais famosos azeites são Andorinha e Oliveira da Serra, de Portugal; Soleada - Espanha; Olivari - Tunísia. A maior parte de seus olivais são intensivos, com 1600 oliveiras por hectare.”
Fiquei admirada com esta última fala, cheia de informações tão detalhadas que me perguntei como poderia ela saber tudo aquilo e senti uma vontade urgente de a interpelar. Acho que ia mesmo a abrir a boca para fazer a pergunta quando de repente me senti puxada por um braço e ouvi a voz do meu pai a perguntar-me se estava outra vez com a cabeça na lua. Disse-lhe para esperar, interroguei a árvore com uma mirada firme, mas percebi de imediato que toda a magia tinha desaparecido.
Apanhei uma azeitona do chão, das várias que ali estavam caídas e estendi-a ao meu pai que a olhou meio desconfiado. Ele viveu em cidades desde que nasceu e, embora seja sensível ao mistério e à atracção da natureza, diz sempre que não percebe nada das coisas do campo.
Cheirou a azeitona, esmagou-a um pouco e cheirou-a de novo, entre o surpreso e o sorridente. “Cheira a azeite”, disse, “é um aroma muito ténue mas cheira ao azeite extra-virgem, que resulta da primeira pressão a frio das azeitonas, assim como se fosse um sumo suave.” Cheirei também a azeitona, mas nada disse e limitei-me a sorrir também.
“Se quiseres podemos comprar azeite daquele melhor”, disse ele e soltou uma pequena gargalhada. O meu pai gosta de comer torradas com azeite, diz que é à espanhola, e eu habituei-me também, embora prefira de longe pão com um doce qualquer. Compramos sempre um azeite melhor e mais caro, apenas para temperar e colocar no pão.
Não lhe contei que a oliveira tinha falado comigo, no entanto contei-lhe o que ela me tinha dito, como se fosse alguma coisa que eu tivesse lido ou ouvido. Fiz-lhe também algumas perguntas e pareceu-me que ele ficou contente por me ver interessada por alguma coisa, mesmo que fossem apenas oliveiras. Acho que andava preocupado comigo e se interrogava também sobre se estaria a relacionar-se comigo da melhor maneira e a conversa pareceu amenizar por momentos essas preocupações.
Perguntei-lhe se as oliveiras do centro comercial tinham mesmo vindo do Alqueva e se para lá voltariam, e ele respondeu-me que lhe tinham dito que sim, que num dado momento foram redistribuídas porque as terras em que se encontravam iam ser inundadas, o que veio mesmo a acontecer. Disse-me ainda que achava que estavam de novo a desenvolver o olival naquela região, mas que agora usavam uma espécie de oliveira diferente das anteriores, mais pequena e jovem, que produzia azeitona de forma super-intensiva; se com melhor ou pior qualidade não sabia, mas achava que só podia ser pior.
O meu pai é mesmo assim, sempre disposto a acreditar em tudo e ao mesmo tempo sempre disposto a duvidar de tudo. Se lhe tivesse contado que a oliveira do centro comercial, a primeira a contar da entrada principal do centro, tinha falado comigo, ele estaria sem dúvida disposto a acreditar, mas também estou certa que logo duvidaria e diria certamente qualquer coisa do tipo como é que oliveira podia falar se não tinha boca ou talvez me perguntasse desde quando é que eu falava oliveirês. Ou ainda, talvez me tivesse piscado o olho e convidado a contar a história da oliveira do centro comercial.
Quando tinha nove anos escrevi várias pequenas histórias que o meu pai se encarregou de fazer publicar numa revista e muitas vezes disse a quem o quis ouvir que eu escrevia muito melhor do que ele. Acho que ele gostaria que eu voltasse a escrever mas nunca mais o fiz. Seja como for, não lhe contei que tinha ouvido a oliveira falar.
Algum tempo depois o meu pai levou-me ao aldeamento das Pedras d'el Rei, junto a Tavira. Disse que íamos à procura da tal oliveira milenar de que eu lhe tinha falado, e eu concordei. Estacionámos junto à recepção do aldeamento e o meu pai perguntou a um homem que por ali passava se conhecia a oliveira, ao que o outro respondeu que sim, que era logo ali, duas ruas acima, que tinha uma placa, que era muito fácil de encontrar.
Ao lado do carro, um gato malhado, sem coleira, chamou-me a atenção. Era amarelo e cinzento e castanho e branco, numa profusa e invulgar mistura de cores. Era muito manso, fiz-lhe duas ou três festas e ele seguiu-me como se fosse um cão, quando fui atrás do meu pai, que queria chegar à árvore antes que se fizesse noite e já ia lá à frente. Era Dezembro, o dia mais curto do ano estava próximo e já passava um bom bocado das cinco da tarde. Curiosamente, o gato seguiu-me até à oliveira, como se também estivesse interessado em vê-la, mas quando lá chegámos não lhe ligou nenhuma. O meu pai ainda o colocou em cima da oliveira para lhe tirar uma fotografia, mas o gato esquivou-se sem cerimónias.
A oliveira milenar parecia a soma de várias oliveiras e o tronco era larguíssimo, oco e torturado. Peguei o gato ao colo e dei-lhe mimos, enquanto o meu pai fotografava a oliveira e falava dela com respeito e admiração. Continuei com o gato ao colo e passado um bocado o meu pai aproximou-se e fez-lhe também festas. Ainda pensei que me ia perguntar porque me interessava tão pouco pela oliveira, dizer-me que tinha vindo ali de propósito para que eu a visse, e outras coisas assim, porém ele ficou calado, a fazer festas ao gato e a olhar a velha oliveira.

O meu pai consegue à vezes ser um grande chato, mas gosta muito de mim e tenta agradar-me sempre que pode. É claro que isso nem sempre lhe é fácil e muitas vezes eu também não ajudo nem um bocadinho.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Crónica publicada hoje no Barlavento - Semanário Regional do Algarve

DA MINHA JANELA VÊ-SE O ALGARVE

Quem te critica teu amigo é!


Existe uma ideia amplamente difundida em Portugal de que criticar é sempre falar mal de algo ou de alguém e também que é sempre mais fácil dizer que se gosta do que dizer que não se gosta. São duas ideias diferentes mas que em muito convergem.

Consulto um dicionário comum e ele parece confirmar que criticar é “dizer mal de”e “pôr defeitos”, mas uma das suas entradas, a última, diz que também pode ser “exercer a crítica”, e se procurarmos o significado de crítica ficamos a saber que se refere a uma análise, feita com maior ou menor profundidade, de qualquer produção intelectual. 

Criticar reconduz-se ainda, no seu sentido mais geral, à actividade de apreciar, avaliar e outras semelhantes. Criticar só será assim dar uma opinião desfavorável num sentido figurado e restrito, pois é óbvio que é muito mais do que isso. Não será também, tão só, falar bem, elogiar, dizer que se gosta, que se gosta muito, que se gosta bastante, pois assim se cairia no extremo contrário, na bajulação, que é uma designação possível para tal atitude e uma palavra de que gosto muito.

É mais politicamente correto, direi ainda, afirmar que se gosta, ou mais fácil, arriscarei, do que dizer que não se gosta. É que em Portugal não gostamos de criticar, desde logo porque não queremos ser criticados. Mas se criticamos, então o que fazemos em regra é apenas dizer mal, pôr defeitos, pequeno mas eficaz poder que desta forma exercemos sobre os outros.

A prática ainda não extinta de avaliações muito mais por favor do que por merecimento também não ajuda e por isso muitos fogem como o diabo da cruz de avaliar e/ou ser avaliados.

Mas se queremos criticar – e é importante que se critique - e se a crítica é uma análise, deveremos não só tentar explicar porque gostamos ou não gostamos, mas também tentar ver o conjunto e apontar os pontos positivos e os negativos, realçando uns e outros. Muitos fracassos são muito mais honestos e esforçados do que muitas vitórias fáceis e previsíveis.

Criticar exige que pensemos e pensar exige alguma honestidade, quer com os outros quer com nós próprios, e mesmo assim erramos e mesmo assim mudamos de opinião.


Quem nunca se engana e raramente tem dúvidas (ou será ao contrário?) não é certamente humano. Eu erro muito e tenho sempre dúvidas;se me criticarem ficarei sem dúvida mais forte, aceitando ou negando as vossas críticas. Por isso e pela liberdade de opinião, estejam à vontade, critiquem-me!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016