quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Crónica publicada hoje no Barlavento - Semanário Regional do Algarve

DA MINHA JANELA VÊ-SE O ALGARVE

Quem te critica teu amigo é!


Existe uma ideia amplamente difundida em Portugal de que criticar é sempre falar mal de algo ou de alguém e também que é sempre mais fácil dizer que se gosta do que dizer que não se gosta. São duas ideias diferentes mas que em muito convergem.

Consulto um dicionário comum e ele parece confirmar que criticar é “dizer mal de”e “pôr defeitos”, mas uma das suas entradas, a última, diz que também pode ser “exercer a crítica”, e se procurarmos o significado de crítica ficamos a saber que se refere a uma análise, feita com maior ou menor profundidade, de qualquer produção intelectual. 

Criticar reconduz-se ainda, no seu sentido mais geral, à actividade de apreciar, avaliar e outras semelhantes. Criticar só será assim dar uma opinião desfavorável num sentido figurado e restrito, pois é óbvio que é muito mais do que isso. Não será também, tão só, falar bem, elogiar, dizer que se gosta, que se gosta muito, que se gosta bastante, pois assim se cairia no extremo contrário, na bajulação, que é uma designação possível para tal atitude e uma palavra de que gosto muito.

É mais politicamente correto, direi ainda, afirmar que se gosta, ou mais fácil, arriscarei, do que dizer que não se gosta. É que em Portugal não gostamos de criticar, desde logo porque não queremos ser criticados. Mas se criticamos, então o que fazemos em regra é apenas dizer mal, pôr defeitos, pequeno mas eficaz poder que desta forma exercemos sobre os outros.

A prática ainda não extinta de avaliações muito mais por favor do que por merecimento também não ajuda e por isso muitos fogem como o diabo da cruz de avaliar e/ou ser avaliados.

Mas se queremos criticar – e é importante que se critique - e se a crítica é uma análise, deveremos não só tentar explicar porque gostamos ou não gostamos, mas também tentar ver o conjunto e apontar os pontos positivos e os negativos, realçando uns e outros. Muitos fracassos são muito mais honestos e esforçados do que muitas vitórias fáceis e previsíveis.

Criticar exige que pensemos e pensar exige alguma honestidade, quer com os outros quer com nós próprios, e mesmo assim erramos e mesmo assim mudamos de opinião.


Quem nunca se engana e raramente tem dúvidas (ou será ao contrário?) não é certamente humano. Eu erro muito e tenho sempre dúvidas;se me criticarem ficarei sem dúvida mais forte, aceitando ou negando as vossas críticas. Por isso e pela liberdade de opinião, estejam à vontade, critiquem-me!

4 comentários:

  1. A crítica exige tempo e dedicação ao que é criticado. Não há muito quem dispenda do seu tempo para 'dar atenção a'.

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  2. Poucos são os que criticam, certo? Conheço uma pessoa que critica de forma frontal - e tu também conheces - tanto para dizer bem, como para dizer mal e o resultado está à vista. Uns sentem-se ofendidos, outros injustiçados, outros desconfortáveis. Quer dizer que, de um modo geral, lidam mal com a crítica quando dela são alvo. O teu apelo não vai resultar, pois ninguém te vai criticar. Fiquemos por aqui.
    Adília César

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  3. Não percebo o que dizes, Adília, mas estou certo que nem tudo passa pelo Fernando Esteves Pinto, nem como único repositório de todas as virtudes, nem também como único repositório de todos os defeitos. É normal que as pessoas se sintam ofendidas, injustiçadas e desconfortáveis quando são insultadas com meros ataques pessoais de caracter, e eu também sinto-me mal com osso, já com as críticas nem por isso, aceito bem, e fico por aqui. Se me criticam ou não isso pouco me interessa, mas o apelo está feito. Obrigado pela tua critica ;)

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