quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Não me perguntem porquê [14]

[…]



“O que achaste do Ângelo Durão?” perguntou Francisco Aresta a Celestino, enquanto olhava em volta, passeando o olhar pelas mulheres na sala.

“Acho que fiquei com vontade de ler o romance dele.”

“Gostas mesmo de perder tempo”, disse Francisco Aresta, as sobrancelhas negras e hirsutas a sublinhar o escárnio da afirmação. Bebeu mais um gole de cerveja pela garrafa e encostou-se ao balcão do bar, olhando para além dele, para o átrio.

“Tu também não gostas de nada nem de ninguém, a não ser de ti próprio e do que escreves”, afirmou Celestino.

“Não gosto é de fraudes. Tu não viste que aquilo não passa de uma forma de ele vender mais livros?”

Celestino olhou Francisco Aresta com surpresa. Mas como é que este gajo consegue estar sempre do contra?

“Tens de me explicar como é que ele vai vender mais livros se o que ele quer é retirar o romance do mercado.”

“Mas tu acreditaste? És mesmo anjinho.”

E Francisco Aresta lançou a sua gargalhada sardónica, que a todos irritava, e olhou Celestino com a única expressão que, segundo o próprio Celestino, o seu rosto conhecia.

“És mesmo anjinho!”, repetiu, e bebeu mais um gole de cerveja.

Já Celestino desistira de uma explicação e pensava voltar ao salão, onde ainda decorria a tertúlia, quando Francisco Aresta, agarrando-lhe no braço, apresentou a sua tese.

“Tu não disseste que ficaste com vontade de ler o romance do Ângelo Durão?”

“Sim”, disse Celestino, mas Francisco Aresta já continuara a falar.

“Pois bem, então vê lá se não tenho razão. O Ângelo Durão começa uma campanha contra a editora para retirar o livro do mercado e as pessoas interrogam-se porquê. O que terá o livro? Quem é que tem razão? E compram o livro, e lêem o livro. Não estás a ver? É um grande golpe! De mestre!”

Celestino não disse nada e dirigiu-se para o salão onde ainda decorria a tertúlia, com Francisco Aresta ainda agarrado ao seu braço. Saíram do bar, atravessaram o átrio na diagonal e só quando estavam já à porta do salão, é que Celestino picou Francisco Aresta, adivinhando-lhe a resposta.

“Vais comprar o livro do Ângelo Durão?”

“Antes beber um litro de azeite do que comprar essa merda. E muito menos lê-la!”

Entraram no salão e sentaram-se à frente, ao pé do palco estreito, onde alguém lia um poema. Nem um nem outro se interessaram pelo que se passava no palco. Francisco Aresta passeava o seu olhar miúdo pelas mesas, Celestino parecia pensativo. Será que o Francisco tem razão? Pode lá ser! O Ângelo Durão pareceu-me tão autêntico! Mas é preciso um oportunista para apanhar outro. Essa é que é essa! E olhou para o palco, onde um jovem se preparava para ler alto. E ficou a ouvir.

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