segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Queda Livre

[Terminado há já algum tempo, este romancece breve, tem estado esquecido na gaveta. Hoje, constatando que tenho escrito muito pouco neste blog, lembrei-me de o ir aqui deixando.]

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Antes da primeira bica nunca acordo, dizia sempre Cecília ao empregado, como uma senha, uma promessa ou um talismã, nem ela o sabia e muito menos ele, a frase pontuada com um sorriso reflexo. Com a bica curta vem o jornal da casa, quando está disponível, é claro. Privilégios de cliente habitual. Nenhuma aldeia é mais provinciana do que a grande cidade, pensa Cecília, olhando o trânsito intenso da Avenida através das amplas vidraças do pequeno café de bairro. Neste dia tinham-lhe trazido o jornal, e ela folheou-o sem grandes demoras. Gosta de ler o jornal de trás para a frente. Os destaques da última página, as tiras cómicas, um relance céptico mas interessado ao horóscopo, as páginas dedicadas à cultura e por adiante, se assim se pode dizer, quando como se disse, a leitura avançaria de trás para a frente. Ao mesmo tempo observa as pessoas à sua volta, com atenção, como se fosse possível ler-lhes a vida, os anseios e as desilusões. Ouve-lhes as conversas, adivinha-lhes os pensamentos, segue-lhes os gestos. Sorri a alguns, a outros diz bom dia. Muitos só os conhece do café, e com a maior parte nunca trocou mais que duas ou três palavras de conveniência.

“Olhe que se vai atrasar”, avisou Artur, o empregado novo, o rosto contorcido num esgar matreiro. Cecília sorriu-lhe. Bem lhe apeteceu responder, “Mas o que é que tem com isso?”, nem que fosse apenas para o chocar, o atrevido armado em galã, o cabelo muito curto e um bronzeado permanente, cópia mais que perfeita de um qualquer famoso do momento. O telemóvel tocou, interrompendo-lhe o devaneio.
“Estou.”
“Sou eu amor, onde estás?”
“No café. Vou sair agora.”
“Olha que te atrasas. Vamos almoçar juntos?”
“ Sim. Depois telefono para combinar.”
“Beijinhos.”
“Beijinhos.”
Olha que te atrasas, resmungou Cecília num murmúrio.
Levantou-se e saiu.

Os homens são todos iguais, repetiu para si mesma enquanto descia a Avenida para apanhar o Metro.
Lojas de móveis e de electrodomésticos sucediam-se nas arcadas dos prédios. Cecília foi andando devagar, parando aqui e ali, atenta aos preços. “Quem casa quer casa”, pareceu-lhe ouvir a voz da mãe. “E quem quer casa tem de querer mobília e electrodomésticos”, apetecia-lhe completar. E tudo isso custava dinheiro. Muito dinheiro. Andava irritada. A mãe, mais uma vez ela, já lhe tinha dito “Até parece que não te queres casar”, e ela respondera a brincar, “Mãe, não agoures”, mas para si mesma dissera, “Será?”, pergunta esquecida ainda mal fora formulada.
Olhava as montras e revia a lista, tentando classificar os produtos segundo a prioridade de aquisição, o que não era fácil, concluiu. Esquentador. Imprescindível! Fogão. Fogão? Podiam optar por um micro ondas, seria suficiente! E se prescindissem do esquentador, reflectiu, o fogão podia ser fundamental, isto se quisessem aquecer água para o banho. Máquina de lavar, sim, sem dúvida, mas melhor seria mandar para a lavandaria. E casa, ainda era preciso comprar casa. O que gostaria mesmo era de ir viver para um hotel. Isso sim é que seria boa vida. Não ter de se preocupar com a lavagem, secagem e passagem a ferro da roupa, enfim, tratamento completo da roupa. E não ter de fazer camas e fazer limpeza e fazer qualquer coisa que fosse daquelas coisas que temos de fazer a não ser que tenhamos dinheiro para pagar a outros para que o façam. Para quê uma casa, quem casa quer casa? ou quem quer casa, casa? ao preço que as casas estão. Parou a interrogar uma cama, será que é preciso? Talvez um colchão fosse suficiente, ou um daqueles não sei quê japonês, que se abrem de noite e de dia se guardam.
Ia retomar a marcha quando reparou no homem sentado no chão. Demorou nele o olhar, surpreendida pelo contraste entre os seus pensamentos e a visão que se lhe oferecia. Se não fosse isso talvez tivesse seguido caminho sem mais.

O homem estava imóvel e silencioso.
Parecia suspenso entre dois momentos. Os olhos estavam caídos no chão, imóveis.
Agora que Cecília olhava melhor, parecia-lhe que o homem estava mais deitado que sentado. Por momentos pensou que estava morto.
Sim, foi isso que lhe chamara a atenção, disse a si mesma, o homem devia estar morto. Acercou-se dele e chamou-o, “Desculpe!”, primeiro a medo, depois com mais vivacidade, “Desculpe! Está a ouvir-me?” Estendeu a mão e tocou-lhe no ombro repetindo as mesmas palavras, “Desculpe! Desculpe! Está a ouvir-me?” Procurou à volta alguém a quem pedir ajuda mas todas as pessoas passavam apressadamente.
Que fazer? Ir embora? Afinal não era problema seu.
Examinou o homem com atenção e pareceu-lhe que o tronco ondulava num movimento suave, quase imperceptível.
Respirava. Não estava morto! Ainda estava vivo. Era preciso fazer alguma coisa! Não devia estar bem.
“A senhora precisa de alguma coisa?”
Sim, respondeu Cecília ainda antes de olhar para o dono da voz que vinha em seu auxílio.
“Este homem precisa de ajuda.”.
“O Calado está bem! Deixe-o estar sossegado. Não é da sua conta. Vá mas é à sua vidinha!”, respondeu-lhe o homem moreno, virando-lhe as costas.
Afastou-se desconfiado e retomou a sua ocupação, espreitando de vez em quando sobre o ombro, a ver se ela já se tinha ido embora. Isto há gajas que não podem ver um pobre sem entrarem em histeria, pensou. Se calhar quer chamar a polícia, ou a assistência, se não é uma coisa é outra. Vigiava o Calado com cuidado, nunca se sabia o que aquele ia fazer. Podia estar um dia parado mas também podia pisgar-se de um momento para o outro. Era como uma criança. Recebeu um euro, gesticulou para um carro que passava, olhou outra vez para trás a ver se a gaja ainda lá estava. Tinha-a topado logo que parou perto do Calado.

Cecília afastou-se alguns metros olhando ora para um ora para outro dos homens. Hesitava. Olhou o relógio. Estava atrasada. Era óbvio que o velho estava bem. Pelo menos nada podia fazer por ele naquele momento. Amanhã passo por aqui outra vez, deve aqui estar de novo, amanhã vejo o que posso fazer, convenceu-se a si mesma.

Correu para a entrada do Metro sem olhar para trás.

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