terça-feira, 29 de setembro de 2009

Queda Livre (cont.)

[Aqui fica o segundo capítulo de Queda Livre.]

2


Já passavam bem mais de quinze minutos da hora de entrada quando Cecília chegou ao trabalho. Cumprimentou a chefe, sempre à espreita de algum deslize, desculpou-se com os transportes, e refugiou-se no gabinete que partilhava com mais uma colega. Não tinha pensado mais no Calado. Mesmo que o tivesse feito não recordaria o seu nome, pronunciado apenas uma vez. Esquecera-se por completo do vagabundo triste. Sentou-se à secretária e acendeu o computador. Confirmou na agenda que a reunião marcada para essa manhã fora adiada à última hora. Na parede à sua frente, uma reprodução da Alegria de Viver, de Matisse. Gostava sempre de a contemplar. A harmonia do conjunto tinha sobre ela um efeito calmante.
Era preciso tempo para observar a pintura, não pensar e deixar a emoção dominar. Levantou-se e avançou lentamente, concentrando-se nas cores, na pequena roda que animava todo o quadro, como se todas as cores girassem na sua imobilidade. Como para a amizade, como para o amor, era preciso tempo. Tempo e disponibilidade. Esquecimento e despertar. Esta ideia ocorreu-lhe de repente e pareceu-lhe que nunca a tinha pensado antes. Esquecimento e despertar. Interior e Exterior. Agradam-lhe os contrastes. Acredita que as coisas só existem umas em relação às outras, que só assim ganham novos significados. Juntemos duas coisas e teremos sempre duas coisas novas, ou mesmo uma terceira. Cecília divaga. Acontece-lhe com muita frequência. Mas dificilmente os que a conhecem a considerariam uma sonhadora. Acham-na uma pessoa de ideias fixas, com uma visão simples da vida, uma mulher e uma profissional determinada embora um pouco limitada. Cecília gosta do quadro também pelo seu nome. Acredita na alegria de viver. Acredita na felicidade. Vai ser feliz. Não tem dúvidas. Assim como gosta do quadro de Matisse, gosta mesmo!, também as suas outras certezas se perfilam rígidas, incontestáveis. É preciso ajudar os que precisam... só o amor dá sentido à vida... vou casar... vou ser feliz. Quando uma certeza derrui, logo a substitui por outra, e nem dá conta.

Mais tarde tinha de telefonar ao Mário, combinar o almoço, lembrou-se.
Mário Branco estava a pensar em Cecília. Pensa muitas vezes nela. Não será pois de espantar que ao mesmo tempo aqui pensem um no outro. Não o faz por mera exigência do dia-a-dia: a que horas nos vamos encontrar? onde estará agora? será que lhe disse que... Recorda-a por puro prazer. Sem qualquer motivo a não ser o amor que tem por ela. Nunca amou outra mulher, a não ser sua mãe, mas essa não conta, que é de outro amor que aqui se fala. Ama-a sem dúvidas, incondicionalmente. É assim Mário, é assim o amor de Mário e de Cecília: ele ama-a, logo amam-se. Vão casar um com o outro, vão ser felizes.
Cecília marca o número de Mário, ele responde de imediato.
“Está.”
“Sou eu.”
“Olá amor, estava a pensar em ti.”
“Vens buscar-me para almoçar?”
“Vamos aí perto, que achas? Podes ser tu a escolher. Muito trabalho?”
“Nem por isso. E tu?”
“O costume.”
“Então até logo. Beijinhos.”
“Beijinhos.”
Mário virou-se para o amigo que estava parado à frente da sua secretária, à espera que ele lhe desse atenção.
“Desculpa, queres vir beber um café?”
“Tenho coisas para fazer. Não pode ficar para mais tarde?”
“Preciso de desabafar!”
“Vamos lá ouvir essa história”— disse agora Mário, ao mesmo tempo que se levanta. Veste o casaco, ajeita a gravata, e empurra o outro, a mão firme nas suas costas, dando-lhe o sinal de partida.

Mário sabe o que Joaquim lhe vai dizer e sabe também que mais nada poderá fazer senão ouvir o amigo. Há anos que lhe escuta sempre a mesma história. A história do seu casamento com Joana. A história da sua vida.
“Estamos casados há dez anos. A Marta tem nove. Conhecemo-nos desde sempre. Eu amo a Joana, tu sabes. Sempre amei. Sempre amarei. Desapareceu outra vez. Não sei onde está. Eu sei que volta sempre. Mas estou preocupado. Com quem terá fugido desta vez? Porque é que tem sempre de o fazer? Porque é que eu espero sempre por ela?” — dirá Joaquim e Mário escutará.
Uma vez, há dois ou três anos, Joana telefonou a Cecília. Estava triste, desesperada, não sabia o que fazer. Cecília temeu que ela se suicidasse. Tinha voltado a acontecer e mais uma vez Joana sentia-se culpada, derrotada. Cecília perguntou-lhe onde estava, como se sentia, que lhe contasse tudo, tintim por tintim, deixou-a contar a sua história, encorajou-a a falar de si. Entretanto, telefonou a Mário e pediu-lhe que fosse ao encontro de Joana, ela estava a pouco mais de cinquenta quilómetros numa pousada onde tinha passado o fim-de-semana. Joana é a mulher que trai compulsivamente o homem que ama e que a ama — é esta a sua história e não consegue sair dela. Mário trouxe Joana consigo, telefonou a Joaquim, que a veio buscar, e essa tinha sido a última vez antes de voltar a acontecer.
“Tu ou a Cecília sabem onde ela está? Estou preocupado. Tu sabes como ela fica. Estou desesperado. E se faz algum disparate?” Mário gostaria de lhe dizer qualquer coisa mas limita-se a escutar. Talvez devesse convidar o amigo para almoçar? E Cecília? Levá-lo consigo. Desmarcar o almoço. Não, não lhe parecia boa ideia!
Joaquim olha fixamente o interior da chávena vazia ao mesmo tempo que fala sem parar. Mário não consegue deixar de pensar que o outro procura nas marcas deixadas na chávena um qualquer presságio.


Joana estava só. Ele tinha ido comprar tabaco.
Já não tens cigarros? — perguntara ele.
Não — respondera ela.
Durante o fim-de-semana amaram-se longamente, assim pensou Joana, por estranho pudor, pois melhor seria dizer foderam longamente, que foi isso que fizeram, e ela sabe-o. Amar não o ama, então, mesmo que ele a amasse, como se poderiam ter amado. Acendeu um cigarro que retirou de um maço quase cheio e soprou o fumo para o tecto, seguindo-lhe o rasto difuso. Não sabe o que está ali a fazer. Não sabe porque veio. Não sabe porque vai voltar. Para casa. Para o Joaquim. Para a filha. Para o amor. Olha o seu corpo nu e sente-se bela. Abandonada e bela.


Mário não compreende Joaquim e ainda menos Joana. Gosta de ambos mas gosta sobretudo de os ver juntos, de os saber juntos, um casal, um casal que se ama, porque apesar de tudo eles amam-se. É isto que Mário acredita. É isto que diz a si mesmo. Joaquim ama Joana. Joana ama Joaquim. Mas então porque o trai? Isso é que ele não percebe. Trair é uma estranha palavra. Amor e traição, um estranho par. Estranho, muito estranho, quase murmurou Mário, esquecido por momentos de Joaquim que continuava a falar, e teria vindo a preceito, tal era o teor e o rumo da conversa. Traição. Infidelidade. Trair é enganar. Mas Joana não engana Joaquim. Ele sabe. Não engana o seu amor, pois ela ama-o e continua a amá-lo. Sexo? Será uma questão de sexo? Mário nunca perguntou ao amigo e não é agora que o vai fazer. Diz-me lá, ó Joaquim, mas tu satisfazes sexualmente a Joana? — isto é pergunta que nunca lhe fez e nunca lhe fará.
— Não sei o que pensar! Há tanto tempo que não acontecia isto. Na sexta-feira telefonou-me e comunicou-me que ia estar fora o fim-de-semana. Depois desligou. Ela diz-me sempre. Não percebo. Depois não falamos sobre o que aconteceu. Eu sei que tudo voltará ao normal. Nem sei porque me preocupo. É claro que ela se sente culpada. Não o pode evitar mas culpa-se, e às vezes tem medo que não aguente essa dor. Afinal o que é que sabemos do que se passa no nosso íntimo. Quantas vezes conhecemos os verdadeiros motivos dos nossos actos? Que me importa! Põe-me os cornos, é verdade, mas não me engana, não me deixa de amar, nem chega a amar esses gajos, esses cabrões, esses filhos da puta...
Às vezes chorava, outras gritava. Já estavam a olhar para eles. Mas quem nunca foi enganado, sim, enganado, encornado, porque é assim que ele se sente, que lhe atire a primeira pedra, poderia dizer Mário se alguém se metesse na conversa, que em conversa de cornos todos têm sempre alguma coisa a dizer.
“Não ligue amigo, mulheres há muitas” — poderia dizer aquele velho que está ao canto do balcão a beber um bagaço.
“Se fosse a si dava-lhe uma sova” — diria o careca franzino que lê o jornal.
“Cá por mim, se ela o engana é porque você não a fode como deve ser” — pensa o dono do café que tem estado furtivamente à escuta.
No café não estão mulheres, por isso e só por isso, elas não dão aqui a sua opinião.
— Tem calma — disse Mário ao mesmo tempo que lhe passava o braço por cima do ombro e o empurrava para fora do café. — Tem calma. A vida é assim, tem destas coisas. As coisas vão voltar ao normal. Não te preocupes. Ela vai voltar. Não posso estar contigo mais tempo. Vão-me chatear. Depois passo por tua casa. Se souber de alguma coisa telefono-te.
Subiram a rua e separaram-se à entrada do banco. Um e outro pensam em Joana.


Joana levantou-se e olhou o dia lá fora. Desde sexta quase não tinha saído do quarto. Ele tinha sido gentil, meigo. Possuíra-a com doce ardor. Falara com ela. Contara-lhe em voz baixa, quase num sussurro, como a desejava há tanto tempo. Queria-a muito. Foderam? Amaram-se? Joana hesita. O que contar a si mesma fará qualquer diferença?
Na sexta-feira tinham-se encontrado por acaso.
“Há tanto tempo que não te via”, disse ele, olhando-a com atenção, a tentar notar-lhe diferenças. Era mais velho que ela. Tinha sido seu professor. Falava-lhe sempre com uma familiaridade cortês.
“E estás contente?”, disse ela com um sorriso maroto.
Beijaram-se.
Ele correu-lhe a mão pelo cabelo ondulado, afastando-o do rosto, num gesto terno — Deixa-me olhar para ti. Pareces mais nova.
Ele era sempre carinhoso com ela. Ela sabia que ele a desejava.
Tinham se encontrado algumas vezes depois que ela terminara o curso e nunca haviam perdido o contacto. As amigas diziam-lhe que ele tinha um fraco por ela. Joana sabia. Sempre o soubera.
Ele — o seu nome é Artur Portela, mas aqui pouco importa —, ele não sabe, mas aqui será o outro, apenas o outro. Só Joana verdadeiramente interessa, e se dela se fala é porque Joaquim entrou nesta história, puxado por Mário, e este por Cecília.
“Quando fugimos os dois?”, disse ele, numa piada que se pretendia privada.
“Vamos embora mesmo agora, se quiseres”
Por momentos ele ficou a pensar se ouvira bem. Sim, ouvira, concluiu. Mas as alucinações também são bem reais e os sonhos há muito tempo acalentados não lhes ficam atrás e às vezes pregam partidas. Fosse como fosse, ouvira o que queria ouvir. Ela parecia séria, mas podia estar apenas a estender o riso, a gargalhada trocista podia soltar-se a qualquer instante — Não me digas que acreditaste?
Ele abraçou-a pela cintura e conduziu-a rua abaixo.
“Tenho o carro estacionado aqui perto.”
Ela abraçou-o também e depositou-lhe um beijo furtivo no pescoço.
Quando vai acabar a brincadeira?, pensou ele, mas nada disse, que estava demasiado feliz para falar.
Mais à frente perguntaria a si mesmo: Estou a sonhar? O carro atravessou a ponte em direcção ao Sul. Joana encostou a cabeça no seu ombro e assim se deixa estar apesar da posição que ele acredita incómoda. Ele acaricia-lhe o joelho ossudo. Estou a sonhar? Afastam-se da grande cidade. A noite cai sobre eles. Estão perto do mar. Estou a sonhar? Param o carro no parque de estacionamento da pousada. Ele corre a abrir-lhe a porta. Ela sorri-lhe. Estou a sonhar? Ele acaricia-lhe o rosto num gesto cego. Joana segreda-lhe ao ouvido, “Queres-me”, e mordisca-lhe a orelha. Estou a sonhar?
Custou-lhe separar-se dela. Pediu-lhe para ir com ele comprar cigarros mas ela recusou-se. Já ia desistir quando ela insistiu, “Vai, que eu também me apetece fumar um cigarro mas estou cheia de preguiça.” Ele vestiu-se sem olhar para ela. Ainda a desejava. Ainda perguntava a si mesmo: “Estou a sonhar”.
Não estava a sonhar, mas daqui a pouco iria ter de acordar. Joana ia contar-lhe que amava o marido e que o encontro entre eles não podia passar dali. Quando ele voltasse amar-se-iam ainda, ou foderiam ainda., pouca diferença faz neste caso ainda que a haja, porque ela lhe pedirá para se ir embora e a deixar ali. Ele obedeceu-lhe. “Terei sonhado?”, pensava ele sempre que se recordava desse fim-de-semana.


Joaquim percorreu a cidade sem destino.
Os dois homens desciam abraçados a Avenida. Um conduzia e o outro deixava-se levar. Não era difícil ver quem conduzia e quem se deixava levar. Um parecia estar doente, ou embriagado, tal era a lentidão dos seus movimentos arrastados. O outro amparava-o com firme ternura, proferindo palavras que deviam ser de encorajamento, ao mesmo tempo que ora o puxava ora o empurrava, conseguindo um movimento prodigioso que os levava em direcção ao pequeno jardim fronteiro à Sé. Pela idade poder-se-ia acreditar que eram pai e filho, mas pela aparência ninguém duvida que são irmãos, companheiros de vagabundagem. Não iludem aqui as aparências ainda que haja neles mais do que os olhos vêem. Um é o Calado, o outro é o Chico.
Joaquim não os viu.
Eles não o viram.
“A minha vida nem sempre foi esta, Calado”, ia dizendo Chico, “Deixa-me contar-te a minha história.

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