domingo, 8 de janeiro de 2017

A OLIVEIRA DO CENTRO COMERCIAL (3)


A OLIVEIRA DO CENTRO COMERCIAL

 


            Eu precisava de ajuda, precisava mesmo. Pela primeira vez na minha longa vida precisava de ajuda e precisava dela com urgência, com extrema urgência. Porém depressa descobri que não ia ser fácil. Para obter ajuda é preciso pedir ajuda e para pedir ajuda é preciso primeiro que nos ouçam, e eu não conseguia que me ouvissem ou, melhor dizendo, às vezes até conseguia que me ouvissem, mas não conseguia que ouvissem o meu pedido. Estava ali, atenta, à espera que alguém passasse, e quando tal acontecia, dizia com suavidade, “Olá, desculpe incomodar, posso falar consigo só um bocadinho?”, mas a maior parte da pessoas nem parecia ouvir, continuavam o seu caminho como se nada fosse, sem qualquer sinal de terem ouvido o meu pedido. É verdade que alguns olhavam à volta desconfiados, como se estivessem a ouvir, mas penso que eram mesmo assim, desconfiados, e muitas vezes olhavam à sua volta como se tivessem medo de ser surpreendidos por alguma coisa. Só as crianças pareciam ouvir-me, mas não tinha a certeza, porque algumas paravam e chegavam a olhar e até apontar para mim, no entanto os pais logo as puxavam sem cerimónia e levavam-nas com eles. As mais pequenas pareciam ouvir-me melhor e entre elas mais as meninas do que os meninos, vá-se lá saber porquê. Por isso passei a dar-lhes mais atenção, mas nem por isso conseguia melhores resultados, porque ainda que tivesse a certeza que algumas meninas me ouviam, não conseguia que parassem para me ouvir, porque os adultos, e elas estavam sempre acompanhadas de adultos, adultos que não me ouviam nem ouviam as meninas quando estas lhe diziam que eu estava a falar com elas. A maior parte zangava-se com elas, alguns riam-se, outros pareciam ficar intrigados, mas todos sem exceção, apenas variando o pouco tempo que demorava, se apressaram a puxar pelas meninas e a ir-se embora. Já estava tão desesperada que um dia, um homem parou mesmo à minha frente, a olhar-me, e eu concentrei-me tanto e fiz tanta força que quase gritei: “Olá, desculpe incomodar, posso falar consigo só um bocadinho?” Qual não foi o meu espanto quando percebi que o homem me ouvira, era um homem velho, pois abriu muito os olhos, resmungou entredentes alguma coisa que não percebi, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, já ele se afastava, resmungando e deixando-me ali a falar sozinha. Bem que me apeteceu ir atrás dele, mas não podia e por ali fiquei, dizendo a mim mesma que alguns adultos até me conseguiam ouvir, talvez os mais velhos, talvez aqueles que ainda mantinham viva em si a criança que um dia tinham sido. Tentei outras vezes, com os mais velhos, alguns tão velhos que tinham grande dificuldade em andar, mas os resultados foram os mesmos, ficar a falar sozinha, coisa que há muito estava habituada, mas que se torna desagradável quando precisamos de ajuda e ninguém nos ouve. Então um dia, quando estava quase a desistir, e já há muito que estava quase a desistir, ainda que muito faltasse para eu deveras desistir, uma menina parou à minha frente, de costas para mim. Estava sozinha. Não lhe conseguia ver o rosto mas parecia perturbada. Dava murros e pontapés à sua volta, como se estivesse a defender-se, mas não estava ali mais ninguém a não ser ela e eu. E depois ficou quieta e pareceu soluçar, estava a chorar.
 
 

            “Olá”, disse eu, quase num sussurro, como uma brisa suave a agitar mansamente as folhas. A menina passou as mãos pela cara e deixou-se ficar onde estava, mas eu sabia que me tinha ouvido, tinha sentido a sua curiosidade e até o seu medo, ainda que este fosse bem menor que a sua curiosidade. “Olá”, repeti ainda com maior suavidade, “estás bem?” E então a menina voltou-se e olhou na minha direção e senti a sua curiosidade aumentar ainda mais, de tal forma que o seu medo quase desapareceu. “Olá”, disse eu mais uma vez, “estás a ouvir-me bem?”

            “Sim”, disse a menina,” mas…”, e levantou muito as sobrancelhas, mais uma do que outra, e eu senti de imediato que tinha de explicar-me.

            “Preciso de ajuda, preciso mesmo de ajuda e não tenho ninguém a quem recorrer. É que eu não posso sair daqui, sou uma oliveira, tenho muitos recursos mas nenhum que me possa ajudar na situação em que me encontro. Preciso de ajuda e ainda que consiga falar com outras árvores e até com animais, eles não me podem ajudar, tem de ser um humano, estou convencida, mas os humanos não me ouvem e se não me ouvem como podem ajudar-me?”

            A menina olhava para mim e sorria e o seu sorriso era como a primeira luz do dia.

            “Estou a ouvir-te”, disse a menina, os pequenos braços cruzados sobre o peito. E por instantes eu não soube o que dizer-lhe, mas o melhor era começar pelo princípio e foi o que fiz.

            “ Eu sou uma oliveira, como tu bem sabes, e a minha família, por assim dizer,  é há muito tempo conhecida dos humanos. Somos apreciadas pelo óleo que o homem aprendeu a extrair dos nossos frutos e que utilizou como unguento, combustível e também na alimentação. Por isso fomos veneradas desde a antiguidade por diversos povos. Fomos sempre associadas à força e à vida e por esses facto respeitadas e louvadas. Mas tu deves saber isto, tu andas na escola, não andas?”

            A menina abanou a cabeça numa clara afirmativa, mas continuou calada. Estava muito atenta e concentrada e senti sem qualquer sombra de dúvida que queria que eu continuasse.

            “Vim do Alqueva, com as outras árvores que aqui estão no parque de estacionamento, fomos realojadas por altura da construção da barragem, antes que morrêssemos todas afogadas.”

            “Espera só um pouco, se faz favor”, interrompeu a menina, colocando educadamente a mão no ar.

            “Tu também vieste do Alentejo, não é?”, afirmei, e a menina voltou a abanar a cabeça numa clara afirmativa. Esperei um pouco e como ela nada mais disse, continuei.

            “Vim para a cidade contra a minha vontade e contra a minha natureza. Fui trazida do campo, onde sempre vivi e cumpria as minhas funções, e colocada neste centro comercial para mero embelezamento do espaço e recreio dos visitantes que mal me olham. A mim e às minhas companheiras, claro está, que quando falo de mim falo afinal de todas, apesar de eu ser a mais velha.”

            A menina tinha de novo levantado o braço.

            “ Eu sei que, ao contrário de nós, tu vieste porque quiseste, não é? Os teus pais separaram-se e tu ficaste a viver com a tua mãe, não é? Mas agora vives com o teu pai e...”

            “Sim, é tudo verdade, mas conta lá porque precisas de ajuda, estou curiosa. E sobretudo como é que eu te posso ajudar”, interrompeu a menina, desta vez sem levantar a mão.

            “Tal comos humanos, ainda que de forma diferente, também nós estamos em rede...”, interrompi-me ao ver a menina sorrir mas senti que não era nada importante e continuei, “ou seja, dependemos muito umas das outras, pois estamos de alguma forma ligadas como se fossemos uma só oliveira. Não te consigo explicar melhor, porque com os humanos é muito diferente, mas estamos todas ligadas umas às outras e perdida essa ligação não conseguimos sobreviver durante muito tempo, pois como que uma grande tristeza toma conta de nós e já não queremos viver. Sinto que me estás a perceber, apesar das nossas diferenças, e isso é a primeira coisa que eu queria, que me acreditasses e que confiasses em mim.”

            “Mas como te posso ajudar?”, interrompeu-me a menina, que estava a ficar impaciente.
 
 

            “As oliveiras estão sempre ligadas em rede a partir da oliveira mais velha e por aí abaixo, como uma pirâmide, até às oliveiras mais novas, e quando essa ligação se perde, por exemplo com a morte de uma de nós, que até as mais velhas de nós morrem, essa rede restabelece-se por si mesma, e tudo volta ao normal, ainda que aqui e ali já tenham existido casos em que demorou mais tempo para que a rede se reconstruísse, mas neste caso parece ser diferente, talvez porque fomos mudadas de lugar e isso não é frequente, não sei. Só uma oliveira muito antiga, uma oliveira de topo da pirâmide poderá restaurar a ligação e eu, como é evidente, não consigo contactá-la e não tenho meios de a procurar.”

            Estava a sentir-me um pouco desanimada e não queria que a menina percebesse, mas também eu estava a pensar como poderia ela ajudar-me, tão pequenina e frágil, por isso calei-me um pouco a pensar o que devia dizer, mas a menina já ia um passo à minha frente.

            “Olha, estou aqui a ver que perto da cidade de Tavira, no aldeamento turístico de Pedras d’el Rei existe uma oliveira que tem mais de 2000 anos e julga-se que foram os fenícios que a teriam trazido da Mesopotâmia. É contemporânea da civilização romana e para abraçar o seu tronco são necessários cinco homens.” Fez uma pequena pausa dramática e concluiu, antes de eu dizer fosse o que fosse. “Esta oliveira pode resolver a tua situação! O que é preciso fazer?”

            A menina parecia muito admirada por poder contribuir para uma solução e eu ainda estava ainda mais admirada, que se pode ser muito velha, como eu sou, e ainda nos surpreendermos. A verdade é que eu não sabia bem o que era preciso fazer e não estava habituada a tomar decisões. A minha recente autonomia, que me levara a pedir ajuda, crescera na medida em que a minha ligação diminuíra e eu ficara cada vez mais isolada até ficar completamente sozinha pela primeira vez. Olhei as árvores mais novas, incrustada nos muros do parque de estacionamentos que formavam os vários compartimentos que acolhiam os muitos automóveis, e não as senti, era como se não existissem, ou como eu não existisse. Nunca me tinha sentido assim e pela primeira na minha longa existência senti-me triste. A menina estava ainda a olhar para mim e esperava uma resposta. Tentei acalmar-me e comecei a falar muito devagar, à espera de saber afinal a resposta àquela pergunta, como sempre soubera até então a resposta a todas as perguntas a que precisava de responder.

            “O importante é que vás até à oliveira, ela saberá a que vais e saberá obter a informação de que precisa para refazer a rede e voltarmos a ligarmo-nos todas umas às outras.” Acabei de dizê-lo e soube de imediato que essa era a solução, mas senti a perturbação da menina e percebi que nada estava ainda resolvido.

            “Eu não posso fazer isso sozinha, preciso de contar ao meu pai e, ainda que ele acredite que não é um capricho meu, está zangado comigo e não sei se corresponderá ao meu pedido.”

            Estive para lhe dizer alguma coisa mas fiquei calada, à espera que ela tomasse uma decisão, e não tardou muito até que me disse: “Vou contar ao meu pai, ele vai perceber que precisas de ajuda e não te vai dizer que não! E não me vai dizer a mim que não, tenho a certeza, só preciso de lhe explicar tudo muito bem explicado.” Já se ia embora, mas parou e terminou o que tinha para me dizer: “Disse ao meu pai que o esperava no carro. Insisti tanto que ele disse que sim e me deu as chaves. Não o vi passar mas estive distraída, até pode já ter ido ao carro e não me encontrou. Vou até lá e depois telefono-lhe. Espera por mim aqui!” E foi-se embora com o pedido absurdo de que eu esperasse ali, como se eu pudesse ir a algum lugar. Esperei e pouco tempo depois a menina voltou com o pai. Fiquei muita surpreendida quando percebi que o pai da menina conseguia ouvir-me, ainda que fizesse de conta que não e perguntasse sempre á menina o que eu lhe tinha dito. Fosse como fosse o que é certo é que ele disse que iria procurar a oliveira e levaria a filha consigo.
 
 
            Disse-lhes que agradecia muito, que eram muito simpáticos, e eles sorriram os dois o mesmo sorriso feliz e foram-se embora de mãos-dadas. Nesse mesmo dia, depois do almoço, a menina e o pai foram ao aldeamento das Pedras d'el Rei, junto a Tavira, à procura da  oliveira milenar . Estacionaram junto à receção do aldeamento, porque não sabiam ao certo onde estava a oliveira, e o pai disse que ia perguntar a alguém, mas a verdade é que não se via quem quer que fosse. Ao lado do carro, um gato malhado, sem coleira, chamou a atenção da menina, que se baixou para lhe fazer festas. Era amarelo e cinzento e castanho e branco, numa profusa e invulgar mistura de cores. Quando o pai disse para a menina ficar ali que ele ia ver se encontrava alguém, logo o gato se afastou alguns metros, voltou-se para trás, e começou a miar, como se estivesse a chamá-la. A menina aproximou-se do gato e este voltou a fazer o mesmo, e ela não teve qualquer dúvida que o gato os levaria à arvore. Chamou o pai e disse-lhe que deviam seguir o gato. O pai olhou-a surpreendido e deu-lhe a mão, o que o gato só parecia esperar para se pôr em movimento, parando aqui e ali só para confirmar que eles ainda estavam a segui-lo. A oliveira ficava logo ali, duas ruas acima, e tinha uma placa, não deixando qualquer dúvida sobre a sua identidade. Parecia a soma de várias oliveiras e o tronco era larguíssimo, oco e torturado. A menina pegou o gato ao colo e deu-lhe mimos, enquanto o  pai fotografava a oliveira e falava dela com respeito e admiração. A menina continuou com o gato ao colo e passado um bocado o  pai aproximou-se e fez-lhe também festas. Não sei como, mas logo tiveram a certeza de que estava tudo bem, que tudo tinha acontecido como eu tinha previsto e que eu e as oliveiras do parque estacionamento estávamos de novo em rede, como se fossemos só uma.

            Esqueci-me de dizer à menina e ao seu pai que, muito provavelmente, se tudo corresse bem, eu deixaria de ser ouvida por eles, mas sinto que eles souberam isso naquele momento em que tudo voltou ao normal e não me levaram a mal por eu não falado com eles quando me vieram cumprimentar e perguntar se estava tudo bem. Estavam de mãos dadas e o mesmo sorriso feliz iluminava-lhes o rosto.




 
 


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