sábado, 26 de novembro de 2016

RESPOSTA TARDIA


 
CATARINA EUFÉMIA
Sophia de Mello Breyner Anderson

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua
 
 


 


Ontem, depois da peça, na frente do teatro, perguntaram-me o que tinha achado. Respondi que não sabia, que tinha de deixar passar mais tempo. A pessoa insistiu, disse que se sentira desiludida, que não correspondera às suas expectativas, que não vira a ligação com a Antígona. Perguntou-me também se me sentira agarrado, pediu de novo a minha opinião, queria mais do que um gostei ou não gostei. Continuei calado.

Quando à ligação com a Antígona nada sabia, não tinha lido as páginas do programa que a essa intenção se referiam, ação aconselhada pelo Luís Vicente antes de a peça arrancar e não dera atenção a essa referência no poema lido no final, indicado como ponto de partida e de chegada. No entanto tinha sentido algo de clássico, algo de inevitável, algo de trágico, algo de coro, que me agradou e me desagradou, talvez me tenha incomodado, na rigidez e intensidade excessiva da voz e dos gestos. E fiquei agarrado, sim, fiquei agarrado, não me entediei, não desejei que tudo passasse mais depressa. Gostei do quase círculo dos espectadores, como num anfiteatro, gostei do movimento quase mecânico das mulheres e do seu continuo ir e vir, gostei dos guardas monstruosos cujos pés não tocavam o chão. Interroguei-me sobre a necessidade do cavalo em cena (cavalo que era uma égua, diga-se), esperei o poema que só surgiu no final, quase me entediei aqui e ali com o que me pareceu demasiada simplicidade e o gosto por metáforas fáceis, a criança, a faixa vermelha. Estranhei o latifundiário que repreende os guardas e carrega Catarina morta.

 Não entrei em êxtase, não exultei, mas fiquei agarrado, sim, fiquei agarrado e deixou-me a pensar, ainda estou a pensar. O que aqui escrevo é apenas uma resposta tardia à pergunta que me fizeram ontem e que ontem poderia ter respondido como agora o fiz, com muitas dúvidas.

PS Também gostei bastante do boneco Salazar e da forma como foi manipulado. 

 



CATARINA EUFÉMIA
Sophia de Mello Breyner Anderson

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua



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