terça-feira, 27 de setembro de 2016

A SUL


AQUI ESTOU EU (A SUL) A COMER PEIXE GRELHADO

 


Procuro a rude serenidade que me permita viver o tumulto do ser. Procuro as raízes ensombradas que perseguem sem descanso o negrume da luz. Procuro um centro a partir do qual possa desenhar um círculo mais que perfeito. Procuro o silêncio necessário para despertar as palavras que dormem no branco da folha. Procuro a distância necessária  para me aproximar de mim próprio e do mundo.

Tavira, 28 de Junho de 2016

 

 

Aqui estou eu (a sul) a comer peixe grelhado, dizia a legenda, e a fotografia mostrava um homem de meia idade (com mais de sessenta anos), magro e com fartas barbas grisalhas, de óculos escuros, tronco nu, calções e chinelas. Seria um poeta? Um filósofo?

Estava num pátio e à sua direita, atrás dele, avistava-se um grelhador. Não me lembro de muito mais, a frase intrigou-me mais do que a fotografia, se assim o posso dizer, nem sei bem porquê.

Aqui estou eu a comer peixe grelhado, uma frase banal, mas a que a menção “a sul”, entre parênteses, me pareceu conferir-lhe um indefinível mistério. Depois, claro, há a fotografia, que reflete e/ou aumenta o mistério. O homem, vou chamá-lo Virgílio (não me perguntem porquê), não está a comer peixe grelhado nem se vê qualquer peixe à vista. Vê-se o grelhador, é verdade, mas até parece apagado. E Virgílio está só. Aqui estou eu, diz ele, como se estivesse admirado de estar ali (a sul). Estará reformado e procurou o sul, ou estará apenas de férias? E onde será aqui? Talvez o melhor seja perguntar-lhe.

“Virgílio, onde é aqui?”, pergunto, e Virgílio olha-me em silêncio, como a avaliar se vale a pena responder-me. Insisto. “Virgílio, onde é aqui?”, mas ele parece desinteressado e volta-se para o grelhador atrás dele.

Aqui é sempre onde um homem está, ouço, mas sou eu que o penso, e não Virgílio, ainda que acredite que ele o poderia dizer, ou até escrevê-lo.

Aqui é sempre

onde se está,

aqui e agora,

diz Virgílio, enquanto observa o grelhador. Diz e repete, que não lhe apetece agora sair de onde está, e não tem consigo nada com que escreva, que papel até arranjava, bastava procurar na carteira que está no bolso esquerdo das calças, o da frente, claro. Talvez seja o princípio de um poema ou, quem sabe, de uma pequena história. Aqui é sempre onde se está, repete, aqui e agora, e acrescenta, mas ele não estava ali e muito menos agora. Volta a olhar para o grelhador. Está quase, diz e repete, está quase.

Ele está ali e vejo-o cada vez melhor. Mas onde é o ali que Virgílio chama aqui? A sul, afirmava ele, e eu digo-o no Algarve, não sei bem onde, talvez em Tavira, nem sei bem porquê. Olho-o  mais vez, olhos nos olhos, tentando lembrar-me do que nele me intrigou.

“Estás a enganar-te”, ouço. É Virgílio que fala comigo.

“Conheces a pessoa da fotografia e estás a introduzir em mim, que sou uma personagem de ficção, alguns traços e circunstâncias dessa pessoa real.”

Hesito em responder, mas ele continua a olhar-me à espera de uma resposta, digo-lhe que a ficção é mesmo assim, mistura-se realidade e imaginação, para dar força à mentira, para dar força à verdade; é assim mesmo que se faz. Ele parece ir responder, mas volta-me as costas e vai ver o lume. Está quase diz, está quase, e volta a olhar-me, para minha surpresa.

“Mas eu não sou essa pessoa que tu conheces, disso tenho a certeza e, embora nada saiba dele, sei de mim, e muito do que avançaste não sou eu nem são as minhas circunstâncias.”

Espero que continue, mas ele cala-se, e só passado algum tempo acrescenta, com um tom entre o pedido e a ordem, “O que quiseres saber, pergunta-me”.

“Já te tinha perguntado. Não me respondeste.”

“Queres saber onde é aqui? Era essa a tua pergunta?”

Assenti com um breve aceno de cabeça e esperei em vão por uma resposta que tardou a chegar.

“Não te vou dizer onde é aqui, isso é pouco importante e tu sabes que é no Algarve. Deixo à tua escolha o lugar exato, assim como outras considerações que só a ti competem, mas deixa-me que te diga que não sou escritor como tu, e atribuíres-me a criação de textos que são teus parece-me incorreto.

“Virgílio, é esse o teu nome, não é? Ou será que me enganei?”, perguntei-lhe com arrogância.

“É sim. Esse é o meu nome”, respondeu com alguma rispidez.

“Se não te importas vou retomar a minha narrativa. Sei muito bem que terás sempre a última palavra, mas cada coisa a seu tempo, se não te importas”

 

*

 

A fotografia é só um ponto de partida. E talvez mais do que a fotografia, a legenda seja ela mesma um  ponto de partida e um trampolim. Decido retomar a frase inicial e com ela dar inicio a um novo parágrafo e também um novo rumo a esta narrativa.

Aqui estou eu (a sul) a comer peixe grelhado, isto pensou Virgílio, ou talvez o tenha mesmo  dito em voz alta. O que quereria ele dizer? Que estar a sul é comer peixe grelhado? Peixe fresco, peixe que ele próprio pescou? Estar a  sul é ser livre, por oposição a uma outra vida. Será isso? Estou a sul e como peixe grelhado, que  é assim o mesmo que dizer estou no sul e sou livre, olhem para mim a experimentar a liberdade.

No dia anterior foi com um amigo de longa data à pesca, à noite, e divertiu-se bastante, tanto mais que foi ele que apanhou o peixe maior, o mesmo que vai agora comer com o amigo, este que lhe está agora a tirar-lhe a fotografia, um ar sério, o olhar em frente, as brasas a esperarem o ponto certo no grelhador. Queria tirar uma fotografia com o peixe mas o amigo recusou-se, a rir, chamou-lhe arrogante, convencido e lisboeta.

“Já escalei o peixe, agora é que a fotografia está fora de questão. Isso de tirar fotos com o peixe que se apanhou é coisa de americanos e de rabetas.”

Estão a beber cerveja e já lhes perderam a conta, mas o amigo teve o cuidado de esconder as garrafas para que não aparecessem na fotografia.

“É preciso manter uma imagem, isto de ser livre tem as suas responsabilidades”

O amigo não nasceu a sul, mas o seu pai e o seu avô sim, e pertence a uma longa e corajosa linhagem de pescadores e de bêbados. O Algarve não é só mar, mas quando Virgílio pensa em sul, pensa no mar, pensa no azul banhado de luz.

“Estar a sul não é comer peixe grelhado, mas comer peixe grelhado que nós mesmos pescámos. Assim é que é devia ser.”

“Tens razão, Virgílio, meu grande cabrão, mas quem é livre não precisa de se afirmar livre e muito menos precisa de tirar e mostrar nas redes sociais a sua liberdade.”

“Já que sou cabrão, ao menos que seja grande.”

Virgílio ri, está feliz, está no sul e sente-se livre. Apanhou o seu próprio peixe, tem o amigo de longa data consigo. Vão grelhar o peixe, comer e beber até fartar.

 

*

 

“Aqui estou eu (a sul) a comer peixe grelhado. E o importante é estar a sul, o sul como espaço de liberdade, o sul como estado de felicidade bruta, felicidade que não só inclui a melancolia mas até a suporta. Por isso escrevi sul entre parênteses, se é que me faço entender.”

Virgílio olha para mim com um sorriso aberto, uma cerveja em cada mão. Estende-me uma e eu aceito. Bebo pela garrafa uma longo gole gelado.

“Já acabaste de escrever?”

“Nunca se acaba de escrever, tu sabes que é assim. Só se acaba de escrever quando se morre. Ou será o contrário?”

Batem as garrafas uma na outra e bebem as cervejas até ao fundo.

Está quase, está quase.

 

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