sábado, 9 de julho de 2016

DA MINHA JANELA VÊ-SE O ALGARVE


[ficam aqui os dois artigos publicados no jornal barlavento]
 
 
[publicado em 16/06/16]

 

Caro leitor

 

Fernando Cabrita, poeta que vive em Olhão, a nove quilómetros de onde eu próprio vivo, costuma dizer que existe uma genealogia na escrita (na verdade ele diz poesia) que leva a que na escrita de um escritor sejam sempre acolhidos muitos outros escritores. Isto porque o escritor escreve o que é, mas também o que lê. Assim, o que eu escrevo, o que qualquer escritor escreve, tem sempre raízes numa literatura que lhe é anterior e que lhe serve de estrume, porque o escritor é sempre e antes de mais um leitor. Se chegaste até aqui, caro leitor, tem paciência e segue-me até ao próximo parágrafo.

 

Ainda estás aí, leitor? Sim? Está bem. Dá-me então mais um pouco de atenção, para que tente explicar-te porque te considero tão importante. A língua define-nos como ser humanos, e o mesmo vale para a arte, comum a todos nós, que é a arte de contar histórias. Eu sou escritor, daí esta familiaridade contigo, leitor, daí a importância que te dou, porque só em ti o que escrevo se lê e existe verdadeiramente. Um grande escritor, Jorge Luís Borges, que cito de cor, correndo o risco de errar, disse que as bibliotecas são cemitérios. Na verdade um livro que não é lido está morto e só o leitor pode dar-lhe de novo vida. Daí a tua enorme importância, leitor, daí a tua enorme responsabilidade. Permiti-me então que te convide para um novo parágrafo.

 

Procuro ainda um ponto de partida comum para estes textos, escrevo, mas na verdade já o tenho, ainda que só agora me tenha apercebido. É assim a escrita, cheia de dúvidas e de revelações. Escreve-se, escrevendo; e é assim que escreverei estas rubricas. Sei que o que escreverei estará à sombra de uma verdade que é a de que da minha janela se vê o Algarve, título e tema que afinal escolhi para estas conversas com o caro leitor.

 

Qualquer mentira deve, já dizia certeiro o poeta António Aleixo, trazer à mistura qualquer coisa de verdade. E é o que acontece neste caso. Da janela (do meu quarto) vê-se realmente o mar, vê-se o azul, e o Algarve é azul, disso não tenho eu dúvidas. Assim,  da janela que será esta rubrica poderemos, eu e tu, caro leitor, espero eu, ver sempre o Algarve, o Algarve em letras, porque eu sou um escritor e estou no Algarve.  Mas, caro e paciente leitor, tal como agora me seguiste parágrafo a parágrafo; se me quiseres continuar a ler, e ver o que escreverei, terás de me seguir até uma próxima vez, que agora vou ficar por aqui.

 

Desculpa-me ter dito tão pouco, é o que sinto, mas acredita que quanto mais eu me calar mais tu te dirás.

 

Até à próxima.


 ***
 

 

[publicado em 06/07/16]

 

Escritores Algarvios?

 

Resido em Faro, no Algarve, e ainda que essa circunstância em nada influencie a minha escrita, é muito provável que a mesma tenha mais reflexos em Faro e no Algarve do que em qualquer outro lugar onde não resido e não intervenho. Assim, ainda que me afirme, acima de tudo e tão só escritor, a circunstância (desejada) de viver em Faro não é certamente de desprezar e, nesse sentido, não rejeito nem desprezo a designação de escritor algarvio, exatamente porque aqui resido e intervenho com mais frequência.

Não pretendo aqui, longe de mim, discutir ou defender a existência de uma literatura algarvia ou mesmo a sul. Outros já o fizeram muito melhor do que eu o faria! Leia-se por exemplo “A criação literária e o Algarve, no Algarve ou do Algarve? – Reflexões sobre literatura regional(ista), de Adriana Nogueira.

Mas aqui estou eu, em Faro, no Algarve, e relaciono-me e agrupo-me com outros escritores e editores que como eu aqui residem, como Fernando Esteves Pinto ou Pedro Jubilot, ambos escritores e editores algarvios, ambos olhanenses, atrevo-me a dizer, o primeiro por escolha e o segundo por nascimento.

Por mim, ainda que nascido na Damaia, e algarvio apenas por circunstância e escolha, aceito e agrada-me ser descrito como um escritor farense, como o diretor deste jornal em que escrevo me designou, e a verdade é que aqui e ali Faro entra na minha escrita. Deixa-me, caro leitor, que traga para aqui um texto que é exemplo disso, retirado de um pequeno livro inédito, com o titulo genérico de “O meu café”.

 

“Na cidade onde vivo é tão fácil encontrar o seu café como é fácil encontrar o meu café, e não é que eu queira dizer com isto que na cidade onde vivo qualquer um pode encontrar um café que seja seu.

A verdade é que na cidade onde vivo existe um café que se chama O Seu Café, e, embora O Seu Café não seja o meu café, ficam os dois no mesmo largo, um opondo-se ao outro.

Assim, posso dizer que o meu café fica no largo em questão e é aquele que não é o seu café, não só localizando-o assim na perfeição, como fazendo-o ainda mais meu.”

 

Claro que só quem conheça o café em questão sabe do que falo, mas quem não souber não fica em nada prejudicado na sua leitura.

O leitor que me desculpe pelo facto de me citar e também de trazer aqui a questão (sem dúvida inócua) da existência de escritores e editores algarvios, porque pode ou não acreditar-se nisso, mas que existem, existem, e estão por aqui, pelo Algarve, e querem (e devem) ser levados em conta.

Até à próxima leitor, e toma atenção aos escritores perto de ti.

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