segunda-feira, 6 de maio de 2013

ESPELHO MEU (3.ª e última parte)


[Um final possível e o conto acabou por contar-se. Faltaram alguns pequenos acertos que ficam a esperar nova oportunidade.]


III


            Não voltou ao cruzamento, ainda que para tal tivesse de abandonar os seus passeios, não fosse o caminho levá-lo de novo àquele lugar. Passou a ficar muito tempo em casa, saindo apenas por breves períodos e nunca para muito longe. Estava determinado a esquecer todas as circunstâncias ligadas ao aparecimento e subsequente desaparecimento do outro, que em tudo se assemelhava a ele próprio, e havia algo de profundamente infantil na atitude do homem, uma teimosia egoísta que lhe dizia que só assim seria capaz de reconquistar a serenidade perdida. Semanas a fio manteve a nova rotina e depois, pouco a pouco, retomou os seus passeios sem destino, chegando todos os dias a um lugar diferente, voltando porém sempre a sua casa. Algo havia mudado, e ainda que caminhasse sem procurar o que quer que fosse, a visão de uma qualquer árvore mais imponente fazia-o sempre dirigir-se até ela e trepá-la, o mais alto possível, até encontrar um lugar onde se pudesse sentar confortável, a olhar bem de cima. E depois ficava ali horas a fio, tranquilo, até ser tempo de voltar a casa. Demorou algum tempo até reconhecer neste comportamento um eco da sua infância, em que subia às árvores para estar sozinho. Gostava daquela sensação de entrar num mundo a que só ele tinha acesso, e divertia-se a observar como os outros passavam por baixo sem o ver, como se ele se tivesse tornado subitamente invisível. Sentia-se tranquilo em cima das árvores, e podia estar várias horas sentado em qualquer delas, sem pensar, sem quase sentir, porém chegava sempre uma altura em que era assaltado por uma ténue angústia e se recordava da outra árvore e do homem que em tudo se assemelhava a si próprio. E apesar de continuar determinado a esquecer todas as circunstâncias ligadas ao aparecimento e subsequente desaparecimento do outro, daquele que em tudo se assemelhava a ele próprio, acabou por concluir que só conheceria de novo a serenidade perdida se encontrasse o lugar onde afinal a perdera.

Recomeçou a sua busca pelo cruzamento que recordava, porém os resultados que obteve, apesar de multiplicados os esforços até à exaustão, não foram diferentes. Estava certo que aquele era o cruzamento a que chegara, e não conseguia perceber como não era capaz de, a partir dele, encontrar a árvore. Desanimado, já não retirava qualquer tranquilidade dos seus passeios, e nunca mais teve vontade de subir às árvores, voltando a ficar cada vez mais tempo em casa, deitado no sofá, os olhos fechados. Pensou que, se tinha encontrado por acaso aquele lugar, só por acaso o poderia voltar a encontrar, e se era verdade que bastava querer encontrá-lo para já não ser por acaso que o encontraria, não era menos certo que talvez bastasse procurá-lo onde era mais provável que não estivesse, para assim o encontrar por acaso. Recomeçou os seus passeios, apontando sempre para uma direção o mais contrária possível ao ponto mais próximo do lugar que procurava. E se não encontrou o lugar nas duas semanas seguintes em que retomou os seus passeios, também nunca mais voltou ao cruzamento que lhe ficava próximo, e assim voltou a passear completamente ao acaso, caminhando a direito, não pensando e quase não sentido. Num dia em nada diferente dos outros, o caminho levou-o à cidade e ele deixou-se ir. Atravessou a cidade da periferia para o centro. Era uma tarde sombria de um qualquer dia de semana de uma Primavera que teimava em esconder-se. Por todo o lado havia casas abandonadas, ruínas perfeitas que se repetiam numa geometria decadente. Os carros passavam por ele como máquinas insensatas que insistiam em funcionar sem qualquer objetivo. Dentro de alguns edifícios pressentiu pessoas que se escondiam, trabalhavam, viviam, amavam-se talvez. Não tentou saber, muito menos compreender, o que ali se passara, só conseguia continuar a caminhar, aturdido, os sentidos saturados. Não acontecera ali nem peste nem guerra que explicasse o que via, o que sentia, o que nele se instalava e devorava. Chegou ao centro da cidade e vislumbrou um velho jardim murado; esgueirou-se pelo portão semicerrado e caminhou a direito, até junto da velha árvore descarnada que se erguia gigantesca contra o céu cinzento. Não se sentia perturbado nem perplexo, tudo nele era serenidade e alívio.

            As pernas balouçavam de leve como que agitadas pela suave brisa que se levantara, e o homem sentado no topo da velha árvore descarnada, os olhos fechados, não parecia pensar em coisa alguma. Permaneceu ali dias sem conta, e nem por um momento pensou em ir-se embora, alheado de tudo ao seu redor. Uma voz despertou-o, levando-o a olhar para baixo, vendo-se a si próprio a olhar para cima, um sorriso a dançar-lhe no rosto. “Quem és tu?” perguntou o homem, e o outro respondeu, “Eu sou tu e tu és eu, somos os dois o mesmo”. O homem abriu muito os olhos, abriu muito a boca, mas continuou fechado num silêncio pesado. “Eu sou tu e tu és eu, somos os dois o mesmo”, repetiu, e acrescentou, “Somos um só”. Fechou os olhos por um momento, e quando os abriu, deu por si a olhar para cima da árvore, para si próprio. Ficou tão perturbado e perplexo que voltou as costas e saiu dali sem olhar para trás. Não pensava, quase não sentia, esforçava-se apenas por andar em frente. Quando voltou a si, a sua casa estava à vista. Parou. Soltou uma gargalhada. “Vou à procura de mim próprio”, disse. E recomeçou o caminho, para longe dali.