domingo, 29 de agosto de 2010

em Faro não há "cena artística"

[o estado da literatura]

Pedro Afonso responde:

Não me é fácil responder a estas perguntas, pois aquilo com que se prendem são assuntos não estanques e que se ramificam e vêm enraizados para e de muitos sítios. Aliás, não sei se a literatura tem um "estado", acho que ela até se livra disso, felizmente. Mas vou tentar.

Que escritores residem em Faro?

- o que é um escritor? Para mim "escritor" é uma profissão, sendo um "escritor" alguém que vive da escrita. Estando nós aqui a falar de literatura estaríamos a falar de pessoas que vivem da escrita de literatura. Assim sendo, de que eu tenha conhecimento, não há nenhum escritor em Faro. Poder-se-á dizer que haverá escritores em Faro que estão desempregados, talvez, mas neste momento não creio que os haja também, não tenho conhecimento de ninguém em Faro que tenha vivido da escrita e que agora já não o consiga fazer. Há alguns de Faro que são escritores, mas para isso tiveram que ir embora de cá.

É claro que há em Faro quem escreva. Há autores ou criadores em Faro. Conheço algumas pessoas que escrevem e que têm trabalhos de qualidade, um ou outro de muita qualidade, e muitos outros que escrevem coisas banais e sem grande interesse. Haverá muitos também que eu não conheço, até porque não sigo os blogs desde há uns tempos e estes são, sem dúvida, uma plataforma importante para quem escreve e mostra o que escreve. Mas há quem escreva e quando isso é um prazer e uma busca é sempre importante, para o próprio.

Que grupos de escritores ou de escrita ou de leitura existem em Faro?

De escrita e de leitura de momento, não sei bem. Creio que o texto-al se mantém, não sei se só na net ou se também "fisicamente".
Há o Sulscrito, o qual durante muito tempo teve vários projectos, e que é agora uma "entidade" que se transformou na base de vários projectos coordenados pelo Fernando Esteves Pinto, como a participação portuguesa nos projectos de Punta Umbria (colecção, prémio e encontro Palavra Ibérica), a Editora 4águas, a Editora PopSul. Mas nenhum destes projectos tem já base em Faro, pois nenhum deles teve nunca apoio das entidades locais. Mas são dos projectos mais importantes na área da literatura do Algarve.

Há, creio, alguns grupos de leitura, privados, fechados, grupos de amigos que se reunem para falar do que lêem, para mostrar o que escrevem. Estes há-os e haverá sempre, independentemente daquilo que sai para a rua.

Há também a iniciativa do Draculea, às 3ªs feiras, que à semelhança do LerAlto (espaço de leitura que existiu 2 anos nos Artistas), reune vários dos autores que andam por Faro. Infelizmente, apenas pude ir a essas 3ªs feiras um par de vezes, mas foi bom e tentarei lá voltar, vale a pena, copos e literatura sempre me fizeram muito bem.

Em que locais em Faro se reúnem os escritores?

Partindo do princípio que não há escritores... De qualquer forma, creio que os autores reúnem-se com os seus amigos e não uns com os outros. Acho que em Faro não há um sítio em que se reúnam autores e artístas, ou pelo menos não o há naquela perspectiva de uma tertúlia, de um GRUPO identificável de artistas. Aliás, em Faro não há "cena artística", por isso também não há "vivência" artística. Muito teria que mudar para se chegar até esse nível, novamente (porque já houve).

Que editores e que edições literárias têm sede em Faro?

Que eu saiba há o J. Carrapato e as Suas Ed. Sotavento, algumas coisitas publicadas pela Câmara e coisas dispersas. Já não há revistas literárias sediadas em Faro e os projectos editoriais mais interessantes do Algarve têm sede em Olhão e Tavira.
A revista Sulscrito, que continua, já não está em Faro, mas o mais recente nº (junho de 2010) saiu com o apoio de um comerciante da baixa de Faro. Tem vários autores de Faro e do Algarve, mas também de todo o resto de país. Não tenho conhecimento de mais nenhuma revista literária de momento.
Haverá, com certeza, coisas na net que têm origem por cá, mas, de momento, não sigo muito esse fenómeno.

Que apoios existem em Faro para a literatura?

Nenhuns, nunca houve e nem tão cedo há-de haver. Há a compra de exemplares de livros de autores locais por parte da Câmara, apoios pontuais a projectos ou edições, mas apoios há literatura não há nem nunca houve. Apoiar um projecto ligado à literatura implica continuidade, formação de públicos, fomento de condições para a criação, divulgação dos projectos e dos criadores locais. Isto nunca aconteceu e não há mostras de vontade para que aconteça.

Quem divulga/apoia em Faro os escritores que aqui residem?

Ninguém.

Fim.

Espero que o meu contibuto possa ser útil á tua investigação.

[Obrigado Pedro, e já agora deixa-me que te responda que a literatura tem um estado, é pena é que pareça ser mais um estado de sítio do que um estado interessante.]

6 comentários:

  1. "Poder-se-á dizer que haverá escritores em Faro que estão desempregados, talvez, mas neste momento não creio que os haja também", diz o Pedro Afonso. Eu acrescentaria uma acha mais à fogueira: em Faro existem certamente muitos escritores desempregados à busca do primeiro emprego!

    Isto leva-me a tecer a seguinte consideração acerca do "ser-se ou não escritor, eis a questão": o importante, no fundo, é escrever (e ler antes de escrever e escrever depois de ler...); aliás, escrevermo-nos continuamente, para irmos descobrindo a nossa voz, a nossa identidade - que porventura será o feito mais difícil de conseguir nesta coisa da escrita... o ser-se publicado ou não... bem, cada vez é mais fácil ser-se publicado, basta pagar - há umas quantas editoras "especializadas" neste tipo de edição... mas terá uma edição um efeito de, digamos, upgrade qualitativo na obra de um escritor? Creio que não. Aliás, o conceito de qualidade varia de pessoa para pessoa e de época para época... Aliás, na primeira aula de "Estudos literários", o prof. Paulo Pereira fez uma pergunta a que não sei responder nem ninguém ma respondeu durante toda a frequência do curso: "o que é isso da literatura?"...

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  2. Quando leio o Pedro a dizer que em Faro não há uma vivência artística por não haver sequer uma cena artística, lembro-me de uma coisa que costumo dizer: "as cidades são as pessoas", o que vai dar mais ou menos à mesma coisa se disser que "as cenas são as pessoas (que as fazem)". Não tenho dúvidas que em Faro (e arredores - sendo que os arredores de Faro têm necessariamente de ser todo o Algarve, não fosse esta a sua capital...) existe muita qualidade, não só ao nível da escrita, como da música, das artes plásticas, das artes performativas etc. E as pessoas existem, estão aí, e se estão as pessoas estão também as obras - feitas ou por fazer... Acima de tudo, o que noto é que há uma grande falta de vontade (por vergonha? por pessimismo? por falta de auto-estima?) em reunir essas pessoas... a malta prefere os copos à arte, esquecendo-se de que a combinação da arte com a boémia pode dar coisas muito bonitas... Foi o esse o motivo principal da abertura de um sítio como o DRACULEA, mas... "as cidades são as pessoas" e as pessoas em Faro não querem nada mais para além do que é fácil e do que já está implementado. É fácil ouvir e criticar; o complicado (mas que é "d'homem"...) é falar e ter estofo para ser-se criticado...

    P.S.: discussão boa esta que se gerou aqui no blog do Luís... só falta uma coisa: pessoas... entendem-me?

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  3. As pessoas estão desligadas, dizia o Tiago Nené.

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  4. Enfim. Li. Liguei-me. Sou pessoa. Queremos quantidade para sentir forte a nossa vontade. Já nem sei o que vale a pena ser dito. Sei que é preciso comer, beber, vestir, ter computador com net, tecto e cama. Sei que é preciso ir para a rua. Sei também que só fabricando um mosteiro aberto à educação, à recriação e à investigação sob o lema de pobreza, caridade e alegria se conseguirá porventura fazer algo consistente em Faro. A cena artística existe nesta cidade e vê-se nas gerações mais velhas o quão desprezada é, formando corpos transeuntes ou corpos abutrivos. Esta cidade é um poço de ecos a tentarem escapar da espiral de vento enrolado. Impregnados por uma viscosa densa. Sufocados de tanta incompetência labiríntica sem rosto, sem sensibilidade, sem visão de um povo. Tacanho modo de vida. Escrevam carros e praias sujas na moda de salpicos presunçosos sem lonjura de pensamento.
    Quem, do que tem sido sempre feito em faro, sabe dar seguimento físico? Aqui só se fala... não se apoia! Não se abre a porta e arrisca! Não se partilha do que é "seu" pois não se sabe ter maior ceu! Aqui tem-se medo que um comerciante tenha um sucesso maior do que o seu! Quando o sucesso de um ser maior é alimento para muitos seres maiores! Continuamos a reunirnos sim... mas longe daqui! e a nossa obra não precisa de ser esquecida pois a nossa obra já não existe! E o que ficar escrito será sempre pouco para dizer o que esta cidade foi. Não sei muito. Não tenho medo de fazer. Mas quem quer que eu faça? Todos querem. E o que como eu? Como como comia antes de saber como comer - não comendo! Morro então mais sossegado. Afinal não estava desligado como pessoa, apenas não existia comida em Faro! É fácil dizer que as pessoas estão desligadas quando não se assume a responsabilidade de nos alimentarmos uns aos outros! Vão-se queixando que eu já fui! Abraços e Boas investigações. Estou na brasileira a falar com o Fernando Pessoa! (Não levem a mal porque existo e estou errado)

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  5. "Não se abre a porta e arrisca":
    DRACULEA Café Bar, Rua Dr. Rodrigues Davim, 44, Faro

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  6. Aqui vai uma investigação fecunda, aparentemente prenha, grávida mesmo talvez, cedam lugar qu'ela vai num estado interessante...

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