segunda-feira, 23 de novembro de 2009


UM POEMA


Estou sem fala. Imerso.

Se eu quisesse eu podia

escrever um poema. Há

dias assim, em que tudo

me é ___________ fácil.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009



AS PALAVRAS



O que dizem as palavras? As palavras são apenas

palavras; não interessa o que dizem, mas sim o que

nos dizem (ou nos fazem dizer). As palavras não são

certezas, as palavras são _______ possibilidades.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009



Percorro
o mesmo caminho
uma e outra vez


e o mesmo caminho
uma e outra vez
conduz-me


a diferentes
e estranhos
locais

O bloqueio do escritor [ainda mais uma versão...]



Leu o que tinha escrito na noite anterior e, mais uma vez, não era o que ele tinha escrito, nem no conteúdo nem na forma.

Gostava de afirmar que não era ele que escrevia o que escrevia, mas nunca lhe tinha acontecido uma coisa assim: o que escrevia era substituído e nada restava que lembrasse, ainda que remotamente, o que ele escrevera.

Leu mais uma vez o que tinha escrito e mais uma vez concluiu que não era em nada parecido com o que costumava escrever.

Já tinha tentado de várias formas controlar esse estranho fenómeno, mas sempre sem sucesso. Fez cópias digitais e em papel, mas todas elas apresentavam as mesmas alterações. Chegou mesmo a escrever à mão, o que há muito tempo não fazia, mas o texto que depois surgiu, exactamente com a sua letra, era outro, em tudo diferente.
Na maior parte das vezes, bastava que se afastasse do acto de escrever, que o interrompesse ainda que por breves instantes, para que o texto fosse já outro quando o retomava. Aliás, tudo o que escrevia se transformava em algo que ele não escrevera, apresentando no entanto uma continuidade singular: era um romance que se escrevia, percebeu pouco tempo depois de aquele estranho fenómeno ter começado a acontecer.

A primeira vez que tal aconteceu, atribuiu o facto a um qualquer mistério informático, talvez um vírus, talvez um hacker. Como vivia sozinho e ninguém o visitava essa pareceu-lhe a única explicação possível. Por essa altura estava convencido que tinha voltado a escrever, que ia finalmente começar a escrever depois de vários meses de inactividade, e aquelas eram as primeiras palavras que escrevia, pelo que o desaparecimento de quase duas páginas o deixou bastante sobressaltado, nem tanto pelas duas páginas em falta, mas sobretudo pelo mau presságio que lhe parecia constituir o seu desaparecimento.

Dessa primeira vez limitou-se a apagar o ficheiro, com o mesmo nome do anterior, mas agora metamorfoseado num texto apócrifo. Tinha lido o texto de relance, mas quando aconteceu pela segunda vez, não teve dúvidas que era o mesmo texto que agora reaparecia. Foi o primeiro sinal de que era sempre o mesmo texto que substituía tudo aquilo que escrevia, um texto de uma dimensão desconhecida, mas que adivinhava longo, e na verdade em pouco tempo tinha quase uma centena de páginas.

Quando se convenceu que tudo o que escrevia se transformava noutra coisa, pensou em parar de escrever, mas há muito tempo já que não escrevia, e agora, ainda que de uma estranha forma, estava a fazê-lo, e continuou ainda a escrever.

Não tentava dar qualquer continuidade ao que escrevia, o que lhe parecia tarefa impossível, uma vez que nada do que escrevia se mantinha, e por isso tudo o que escrevia tinha um carácter fragmentário e não sistemático. Escrevia sobre o presente, sobre o passado, sobre o que lhe estava a acontecer e sobre o que gostaria que acontecesse. Escrevia sem preocupações, sem prazer nem angústia, como se traçasse, foi o que pensou, riscos na areia de uma praia. Fosse como fosse, tudo o que escrevia, desaparecia mal ele voltava costas à escrita. E se num primeiro momento se sentiu quase inebriado com esta sensação de escrever apenas por escrever, sem se preocupar com o resultado, não demorou muito tempo até que começasse a exasperar-se com o facto de tudo o que escrevia desaparecer e ser substituído por aquele texto que não lhe pertencia.

Foi por acaso que descobriu a relação entre o que escrevia e o que depois aparecia escrito. Na verdade, já tinha desistido de tentar encontrar alguma relação quando finalmente a descobriu. Inicialmente esforçara-se por perceber se algumas das palavras que escrevia permaneciam no texto, ou se de alguma forma o que escrevia influenciava o que aparecia escrito, mas não encontrara qualquer relação e concluiu pela sua não existência.

E um dia contou as palavras do que escrevera e do que apareceu posteriormente e verificou que o número era idêntico. Aliás, não só o número de palavras era o mesmo, como o mesmo era o número de caracteres, de parágrafos e até de linhas.

Esta descoberta deixou-o ainda mais inquieto e reforçou a sua ambiguidade para com a escrita. Se por um lado o que aparecia escrito parecia ter uma ligação directa com o que escrevia, por outro lado o resultado sempre lhe escaparia por completo. E a vontade de escrever, como há muito lhe acontecia, era naquele momento tão intensa como era intensa a vontade de não escrever.

Sempre fora metódico no que se referia à escrita ou, pelo menos, disciplinado, e não lhe fora difícil sentar-se para escrever todos os dias, sempre à mesma hora. O que sempre fazia quando estava a escrever, como ele dizia, pois os períodos em que não estava a escrever sucediam-se cada vez mais, e chegou uma altura em que tinha tanto medo de escrever como de não escrever. E depois deixou mesmo de escrever. Já não escrevia quando aquilo lhe começou a acontecer, mas não tinha consciência disso.
Depois de meses em que a única coisa que escrevera tinham sido intermináveis listas de razões que o impediam de escrever, abandonara-as dizendo a si mesmo que era finalmente capaz de voltar a escrever. E escrevera aquelas primeiras palavras, aquelas primeiras linhas, aquelas primeiras páginas.

Acreditava assim que tinha voltado a escrever e que depois lhe acontecera aquilo, mas foi exactamente ao contrário, aquilo aconteceu-lhe e então ele voltou a escrever, voltou a sentar-se para escrever, todos os dias, à mesma hora, como há muito não lhe acontecia, apesar de tempos a tempos fingir que tentava a sério voltar a escrever.

A partir da centena de páginas deixou de tentar perceber o que estava a acontecer e limitara-se a escrever, fazendo assim avançar o texto. Quando não estava a escrever, dava longos passeios pela cidade e demorava-se nas praças e nos cafés. Lia sempre o que escrevera, antes de retomar a escrita, mas nunca tentara exercer qualquer influência sobre o que leria mais tarde, limitando-se a cumprir esse ritual, em tudo semelhante ao seu próprio ritual: parava de escrever e, quando retomava a escrita, normalmente no dia seguinte, lia primeiro o que escrevera da vez anterior.

Um dia sentiu que estava a chegar ao fim, e a vontade de não continuar a escrever aumentou ainda mais, e durante dias não escreveu, lendo e relendo as páginas que durante meses escrevera cada vez mais contra a sua vontade.

Aquele texto não era seu, não o ia continuar. Ainda que só dele dependesse, não o faria. Não voltaria a escrever.

Abriu uma última vez o ficheiro e, para sua surpresa, o texto apresentou-se completo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O bloqueio do escritor [uma outra versão]



Leu o que tinha escrito na noite anterior e, mais uma vez, não era o que ele tinha escrito, nem no conteúdo nem na forma. Gostava de afirmar que não era ele que escrevia o que escrevia, mas nunca lhe tinha acontecido uma coisa assim: o que escrevia era substituído e nada restava que lembrasse, ainda que remotamente, o que ele escrevera. Leu mais uma vez o que tinha escrito e mais uma vez concluiu que não era em nada parecido com o que costumava escrever.

Já tinha tentado de várias formas controlar esse estranho fenómeno, mas sempre sem sucesso. Fez cópias digitais e em papel, mas todas elas apresentavam as mesmas alterações. Chegou mesmo a escrever à mão, o que há muito tempo não fazia, mas o texto que depois surgiu, exactamente com a sua letra, era outro, em tudo diferente. Na maior parte das vezes, bastava que se afastasse do acto de escrever, que o interrompesse ainda que por breves instantes, para que o texto fosse já outro quando o retomava. Aliás, tudo o que escrevia se transformava em algo que ele não escrevera, apresentando no entanto uma continuidade singular: era um romance que se escrevia, percebeu pouco tempo depois de aquele estranho fenómeno ter começado a acontecer.

A primeira vez que tal aconteceu, atribuiu o facto a um qualquer mistério informático, talvez um vírus, talvez um hacker. Como vivia sozinho e ninguém o visitava essa pareceu-lhe a única explicação possível. Por essa altura estava convencido que tinha voltado a escrever, que ia finalmente começar a escrever depois de vários meses de inactividade, e aquelas eram as primeiras palavras que escrevia, pelo que o desaparecimento de quase duas páginas o deixou bastante sobressaltado, nem tanto pelas duas páginas em falta, mas sobretudo pelo mau presságio que lhe parecia constituir o seu desaparecimento.

Dessa primeira vez limitou-se a apagar o ficheiro, com o mesmo nome do anterior, mas agora metamorfoseado num texto apócrifo. Tinha apenas lido o texto de relance, mas quando aconteceu pela segunda vez, não teve dúvidas que era o mesmo texto que agora reaparecia. Foi o primeiro sinal de que era sempre o mesmo texto que substituía tudo aquilo que escrevia, um texto de uma dimensão desconhecida, mas que adivinhava longo, e na verdade em pouco tempo tinha quase uma centena de páginas.

Quando se convenceu que tudo o que escrevia se transformava noutra coisa, pensou em parar de escrever, mas há muito tempo já que não escrevia, e agora, ainda que de uma estranha forma, estava a fazê-lo, pelo que não conseguiu tomar essa decisão, e continuou ainda a escrever.

Não tentava dar qualquer continuidade ao que escrevia, o que lhe parecia tarefa impossível, uma vez que nada do que escrevia se mantinha, e por isso tudo o que escrevia tinha um carácter fragmentário e não sistemático. Escrevia sobre o presente, sobre o passado, sobre o que lhe estava a acontecer e sobre o que gostaria que acontecesse. Escrevia sem preocupações, sem prazer nem angústia, como se traçasse, foi o que pensou, riscos na areia de uma praia. Fosse como fosse, tudo o que escrevia, desaparecia mal ele voltava costas à escrita. E se num primeiro momento se sentiu quase inebriado com esta sensação de escrever apenas por escrever, sem se preocupar com o resultado, não demorou muito tempo até que começasse a exasperar-se com o facto de tudo o que escrevia desaparecer e ser substituído por aquele texto que não lhe pertencia.

Foi por acaso que descobriu a relação entre o que escrevia e o que depois aparecia escrito. Na verdade, já tinha desistido de tentar encontrar alguma relação quando finalmente a descobriu. Inicialmente esforçara-se por perceber se algumas das palavras que escrevia permaneciam no texto, ou se de alguma forma o que escrevia influenciava o que aparecia escrito, mas não encontrara qualquer relação e concluiu pela sua não existência. E um dia contou as palavras do que escrevera e do que apareceu posteriormente e verificou que o número era idêntico. Aliás, não só o número de palavras era o mesmo, como o mesmo era o número de caracteres, de parágrafos e até de linhas.

Esta descoberta reforçou a sua decisão de parar de escrever e despertou-lhe, talvez pela primeira vez, o desejo de preservar a todo o custo o que escrevia, de fazer prevalecer a sua escrita sobre o que aparecia escrito.

Sempre fora metódico no que se referia à escrita ou, pelo menos, disciplinado, e não lhe fora difícil sentar-se para escrever todos os dias, sempre à mesma hora. O que sempre fazia quando estava a escrever, como ele dizia, pois os períodos em que não estava a escrever sucediam-se cada vez mais, e chegou uma altura em que tinha tanto medo de escrever como de não escrever. E depois deixou mesmo de escrever. Já não escrevia quando aquilo lhe começou a acontecer, mas não tinha consciência disso.
Depois de meses em que a única coisa que escrevera tinham sido intermináveis listas de razões que o impediam de escrever, abandonara-as dizendo a si mesmo que era finalmente capaz de voltar a escrever. E escrevera aquelas primeiras palavras, aquelas primeiras linhas, aquelas primeiras páginas.

Acreditava assim que tinha voltado a escrever e que depois lhe acontecera aquilo, mas foi exactamente ao contrário, aquilo aconteceu-lhe e então ele voltou a escrever, voltou a sentar-se para escrever, todos os dias, à mesma hora, como há muito não lhe acontecia, apesar de tempos a tempos fingir que tentava a sério voltar a escrever.

A partir da centena de páginas deixou de tentar perceber o que estava a acontecer e limitara-se a escrever, fazendo assim avançar o texto. Quando não estava a escrever, dava longos passeios pela cidade e demorava-se nas praças e nos cafés. Lia sempre o que escrevera, antes de retomar a escrita, mas nunca tentara exercer qualquer influência sobre o que leria mais tarde, limitando-se a cumprir esse ritual, em tudo semelhante ao seu próprio ritual: parava de escrever e, quando retomava a escrita, normalmente no dia seguinte, lia primeiro o que escrevera da vez anterior.

Um dia sentiu que estava a chegar ao fim, e combateu ainda mais a vontade de continuar a escrever, lendo e relendo as páginas que durante meses escrevera cada vez mais contra a sua vontade.

Sentiu pela primeira vez o texto como seu, ainda que continuasse convencido que muito pouco dele, quase nada, dependia de si, quer no seu desenvolvimento quer no seu desenlace.

E então convenceu-se que podia fazê-lo seu, passando a escrevê-lo a partir desse momento, fixando definitivamente na folha aquilo que escrevia. Sentou-se e continuou a escrita do romance, acrescentando-lhe uma frase, intensa e poderosa.

[...]

Quando mais tarde tentou ler o que escrevera, essa pequena frase não só não estava lá como nem sequer fora substituída por outra.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O bloqueio do escritor [uma versão...]




Leu o que tinha escrito na noite anterior e, mais uma vez, não era o que ele tinha escrito, nem no conteúdo nem na forma.

Gostava de afirmar que não era ele que escrevia o que escrevia, mas nunca lhe tinha acontecido uma coisa assim: o que escrevia era substituído e nada restava que lembrasse, ainda que remotamente, o que ele escrevera.

Leu mais uma vez o que tinha escrito e mais uma vez concluiu que não era em nada parecido com o que costumava escrever. Já tinha tentado de várias formas controlar esse estranho fenómeno, mas sempre sem sucesso. Fez cópias digitais e em papel, mas todas elas apresentavam as mesmas alterações. Chegou mesmo a escrever à mão, o que há muito tempo não fazia, mas o texto que depois surgiu, exactamente com a sua letra, era outro, em tudo diferente.

Na maior parte das vezes, bastava que se afastasse do acto de escrever, que o interrompesse, ainda que por breves instantes, para que o texto fosse já outro quando o retomava.

Aliás, tudo o que escrevia se transformava em algo que ele não escrevera, apresentando no entanto uma continuidade singular: estava a escrever um romance, percebeu pouco tempo depois de ter começado.

A primeira vez que tal aconteceu, atribuiu o facto a um qualquer mistério informático, talvez um vírus, talvez um pirata informático.

Como vivia sozinho e ninguém o visitava essa pareceu-lhe a única explicação possível. Por essa altura tinha voltado a escrever, depois de vários meses de inactividade, e aquelas eram as primeiras palavras que escrevia, pelo que o desaparecimento de quase duas páginas o deixou bastante sobressaltado, nem tem tanto pelas duas páginas em falta, mas sobretudo pelo mau presságio que lhe parecia constituir o seu desaparecimento.

Dessa primeira vez limitou-se a apagar o ficheiro, com o mesmo nome do anterior, mas agora metamorfoseado num texto apócrifo. Tinha apenas lido o texto de relance, mas quando aconteceu pela segunda vez, não teve dúvidas que era o mesmo. Foi o primeiro sinal de que era sempre o mesmo texto que substituía tudo aquilo que escrevia, um texto de uma dimensão desconhecida, mas que adivinhava longo, e na verdade em pouco tempo tinha quase uma centena de páginas.

Quando se convenceu que tudo o que escrevia se transformava noutra coisa, pensou em parar de escrever, mas como há muito tempo já que não escrevia e agora, ainda que de uma estranha forma, estava a fazê-lo, não conseguiu tomar essa decisão, e continuou a escrever.
Não tentava dar qualquer continuidade ao que escrevia, o que lhe parecia tarefa impossível, uma vez que nada do que escrevia se mantinha, e por isso tudo o que escrevia tinha um carácter fragmentário e não sistemático. Escrevia sobre o presente, sobre o passado, sobre o que lhe estava a acontecer e sobre o que gostaria que acontecesse. Escrevia sem preocupações, sem prazer nem angústia, como se traçasse, foi o que pensou, riscos na areia de uma praia. Fosse como fosse, tudo o que escrevia, desaparecia mal ele voltava costas à escrita.

Foi muito mais tarde e completamente por acaso que descobriu a relação entre o que escrevia e o que depois aparecia escrito. Na verdade, já tinha desistido de tentar encontrar alguma relação quando finalmente a descobriu. Inicialmente esforçara-se por perceber se algumas das palavras que escrevia permaneciam no texto, ou se de alguma forma o que escrevia influenciava o que aparecia escrito, mas não encontrara qualquer relação e concluiu pela sua não existência. E um dia contou as palavras do que escrevera e do que apareceu posteriormente e verificou que o número era idêntico. Aliás, não só número de palavras era o mesmo, como o mesmo era o número de caracteres, de parágrafos e até de linhas. Repetiu a experiência várias vezes, sempre com o mesmo resultado. Esta descoberta reforçou a sua decisão de continuar a escrever e despertou-lhe, talvez pela primeira vez, o desejo de levar aquele texto até ao fim.

Sempre fora metódico no que se referia à escrita ou, pelo menos, disciplinado, e não lhe fora difícil sentar-se para escrever todos os dias, sempre à mesma hora. O que sempre fazia quando estava a escrever, como ele dizia, pois os períodos em que não estava a escrever sucediam-se cada vez mais, e chegou uma altura em que tinha tanto medo de escrever como de não escrever. E depois deixou mesmo de escrever. Já não escrevia quando aquilo lhe começou a acontecer, ainda que não tivesse uma real consciência disso. Acreditava que tinha voltado a escrever e que aquilo lhe acontecera, mas foi exactamente ao contrário, aquilo aconteceu-lhe e ele voltou a escrever, voltou a sentar-se para escrever, todos os dias, à mesma hora, como há muito não lhe acontecia, apesar de tempos a tempos fingir que tentava a sério voltar a escrever.

A partir da centena de páginas deixou de tentar perceber o que estava a acontecer e limitava-se a escrever, fazendo assim avançar o texto, sua única preocupação durante aqueles dias que o aproximavam do fim. Quando não estava a escrever, dava longos passeios pela cidade e demorava-se nas praças e nos cafés. Lia sempre o que escrevera, antes de retomar a escrita, mas não tentava exercer qualquer influência sobre o que leria mais tarde, limitando-se a cumprir esse ritual, em tudo semelhante ao seu próprio ritual de escritor: parava de escrever e, quando a retomava, normalmente no dia seguinte, lia primeiro o que escrevera da vez anterior.

Um dia sentiu que estava a chegar ao fim, e combateu a vontade de continuar a escrever, lendo e relendo as páginas que durante meses ajudara a escrever. Sentiu pela primeira vez o texto como seu, ainda que continuasse convencido que muito pouco dele, quase nada, dependia de si, quer no seu desenvolvimento quer no seu desenlace.

Talvez não se estivesse a sentir escritor, mas apenas leitor, disse a si mesmo, e o leitor escreve o texto ainda que não o escreva, acrescentou.

Sentou-se e escreveu uma pequena frase.

(...)

Essa pequena frase não sofreu qualquer transformação.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

19 palavras

Só vivo porque posso morrer quando quiser: sem a ideia do suicídio já me teria matado há muito tempo.

Emile Cioran - Silogismos da Amargura


[A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade.]