segunda-feira, 24 de agosto de 2009

4. Em voz alta




Ao lado do contentor do lixo, no chão, um saco de plástico deixava transparecer o seu conteúdo: uma pilha de livros. Aproximei-me e retirei o livro que estava no topo: um livro de poemas. Folhei-o e li com agrado dois ou três poemas. Depois afastei-me, com o livro ainda aberto à minha frente e fui-me sentar num dos bancos do jardim defronte.

Li em silêncio, durante muito tempo, mas os poemas pareciam pedir-me para serem ditos em voz alta e, sem me aperceber, comecei a dizê-los, primeiro quase num sussurro e depois já em vozalta, tão alta quanto os poemas me exigiam. Olhava o poema, fechava os olhos, e ia dizendo-o pouco a pouco, lendo-o, ouvindo-o, até quase o saber de cor.

Quando me apercebi, havia pessoas que tinham parado para me escutar, e continuei a ler ainda com mais entusiasmo. Quanto terminava a leitura de um poema, fazia uma pequena vénia. As pessoas pareciam gostar e batiam-me palmas. Algumas deram-me dinheiro. Quando me cansei de ler, agradeci ainda mais uma vez e fui-me embora.
Contei o dinheiro, tinha quatro euros e cinquenta e cinco cêntimos. Sorri e guardei o dinheiro no bolso direito das calças.

[continua...]

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