sábado, 22 de agosto de 2009

3. Quarenta cêntimos



“Vizinho, arranja-me 40 cêntimos? É o que me falta para uma sandes!”
Procuro dinheiro no bolso e estendo-lhe uma nota de cinco euros. Olha-me surpreendido e pergunta-me: “Quer que eu vá trocar?”
Encolho os ombros e ele olha-me sem saber o que fazer, mas eu desvio o olhar e ignoro-o.
“Vizinho, vizinho… não preciso de tanto. Tome.”
E estende-me a mão onde repousam várias moedas. Aceito as moedas e guardo-as no bolso sem contar. Ele olha-me ainda, como se me quisesse dizer mais alguma coisa, mas acaba por se ir embora sem dizer nada, nem mesmo o seu habitual obrigado, “Obrigado, vizinho.”

Sigo-o com o olhar e vejo-o oferecer estacionamento a um carro que segue sem parar, despertando nele a sua habitual ladainha gritada, misto de protesto e de lamento.
“Um lugar tão bom, à sombra, como se pode não querer?”
“Um lugar tão bom, à sombra, como se pode não querer?”, repeti eu para mim mesmo, encontrando um estranho e profundo sentido àquela frase, e deixei-me ficar ainda por ali naquele lugar tão bom, à sombra... como podia não querer estar ali!

[continua...]

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