Não me perguntem porquê
Luís Ene
Não uses duas palavras se uma bastar.
Provérbio árabe
Oh! Oh! O que é isso? Este rapaz está descontrolado! Foi mordido pela tarântula!
Edgar Allan Poe, O escaravelho de Ouro
Perguntavas-me o que faz de alguém um escritor. Bastará ser publicado? É preciso ser reconhecido pela crítica? Vender muitos livros?
Eu dizia-te que não era nada disso, que era algo pessoal, íntimo, mas a verdade é que eu ainda não tinha respondido a essa pergunta.
[…]
[…]
Quando abria um romance pela primeira vez, lia-lhe sempre o princípio e o fim, era um hábito de longa data, e naquele dia o hábito prevaleceu, ainda que conhecesse muito bem o romance em questão, uma vez que fora ele que o escrevera.
Leu as primeiras duas ou três linhas e depois saltou para o fim que, para seu espanto, encontrou diferente. Olhou o fim, olhou a capa, depois olhou o princípio e de novo o fim.
Ficou um bocado sem dizer nada, repetindo os mesmos gestos. Depois levantou-se, declarou terminada a sessão de autógrafos e pareceu ter a intenção de se dirigir de imediato para o local onde o livro estava à venda, mesmo ali ao lado, no outro extremo do pequeno pavilhão, a poucos metros de distância, mas deu finalmente pela mulher à sua frente, a mão estendida na sua direcção para que lhe devolvesse o livro, e entregou-lho num gesto mecânico, ao mesmo tempo que lhe dizia com solenidade: “Há um erro neste exemplar que altera por completo o sentido do livro!”
“Falta-lhe alguma coisa?”, perguntou a mulher, ao que ele respondeu, quase gritando, que era exactamente o contrário, e parou por momentos de falar, como para ganhar fôlego para prosseguir, mas ao aperceber-se de que estava alguém a comprar mais um exemplar naquele exacto momento, quase correu os poucos metros que o separavam da banca, não sem antes pedir atabalhoadamente à mulher, que esperasse, se fizesse o favor, que voltava logo, logo.
Quando o escritor lhe ordenou, sem mais, que não vendesse nem mais um livro, o representante local da editora, pediu-lhe repetidamente que se acalmasse e explicasse o que se passava, mas a venda já tinha sido feita, o comprador afastara-se já, e o escritor começou a gritar ao representante local da editora que guardasse os livros, ou melhor, que lhe desse os livros, que era inaceitável, que iam ver com quem se tinham metido, e tudo isto sublinhado pela sua mirada fixa e insistente. O outro continuava a olhá-lo, mas desistira já de lhe pedir que se acalmasse, e esperava apenas que tal acontecesse naturalmente. No entanto, o escritor entrara num estado de total excitação e pegava agora em cada um dos livros expostos e a todos espreitava o final, e de cada vez que o fazia, soltava um sonoro e rotundo “Foda-se!”, sublinhado com uma gargalhada longa e áspera, até que o representante local da editora perdeu as estribeiras e lhe gritou:
“Mas que bicho lhe mordeu?”
“O final não é este!”, respondeu-lhe o escritor, soletrando cada uma das palavras como se as proferisse com dificuldade, e apontava para as últimas páginas de um exemplar que mantinha aberto à sua frente. “O final não é este!”, repetiu perante o silêncio do representante local da editora e, sem qualquer transição, atirou o livro à cabeça do outro, que se desviou por muito pouco. Ficaram a fitar-se em silêncio, como a medir-se um ao outro, imóveis, e o escritor repetiu ainda, “O final não é este!”, parecendo incapaz de dizer outra coisa, e o representante local da editora, a deitar contas à vida, repetiu também ele a frase, transformando-a numa interrogação, como que a tentar ganhar tempo, “O final não é este?”, mas não ficou à espera de uma resposta e abandonou o pavilhão pela direita, rapidamente, sem olhar para trás.
O escritor não o seguiu, nem com o olhar, que estava pousado nos livros em cima da mesa, e começou de imediato a guardá-los na caixa de cartão, que encontrou no chão, abandonando também o pavilhão pouco depois com a caixa ao ombro.
Quando o representante local da editora voltou, acompanhado de um amigo, não fosse o diabo tecê-las, não encontrou nem o escritor nem os seus livros. Demorou-se apenas o tempo necessário para recolher o casaco e a maleta que deixara abandonados numa cadeira. Nem uma hora decorrera desde que a sessão fora dada por iniciada.
[…]
Há muitos anos que deixei de escrever, há quase tantos anos quantos se passaram desde a última vez que publiquei, mas agora estou decidido e irei até ao fim. Talvez esta não tenha sido a melhor forma de começar, mas não pretendo perder tempo a reflectir, quero apenas escrever e ir por aí adiante.
Quero falar do meu amigo porque quero que ele viva nestas páginas, e digo isto porque é assim mesmo que o sinto e não porque procure qualquer razão para o fazer: escrevo por necessidade; escrevo porque não posso deixar de fazê-lo, e só isso me importa.
Contarei esta história como a sinto, e à medida que se me for revelando, sem hesitações, mas também sem certezas, a não ser a de que contarei esta história o melhor que me for possível e a de que a contarei com verdade, a verdade tal qual a concebo.
O que comecei a contar aconteceu há pouco mais de um ano e, ainda que eu já conhecesse o Ângelo Durão antes disso, penso que esta é sem dúvida uma boa forma, ainda que não a melhor, de começar a contar a história que tenho para contar, pois ainda que tudo tenha começado antes, foi também nesse momento que tudo começou verdadeiramente.
Vou continuar a contar esta história até ao fim, devo-o a ele e devo-o a mim, é tudo o que tenho de saber.
Só preciso continuar a escrever, só preciso continuar a contar, na esperança de que se alguém vier a ler esta história possa, afinal, sentir tudo o que só escrevendo esta história conseguirei transmitir.
Ainda que não consiga dizer o mais importante, sei que se o escrever como o sinto, outros o poderão sentir também, e encontrar a verdade das mentiras com que conto esta história.
Estarei sempre presente no que escrevo, mesmo quando pareça estar ausente, e direi sempre a verdade, mesmo quando tiver de a imaginar, o que acontecerá muitas vezes: sei que só assim conseguirei contar esta história.
[…]
O escritor olhou o negro da capa, atravessado pelo que parecia um ténue mas decidido raio de luz, pegou no livro, virou-o e revirou-o, folheou-o, abriu-o uma e outra vez, sopesou-o, sentiu-lhe a textura, a flexibilidade e depois atirou-o para cima da mesa e ficou a olhá-lo como se olha alguém que ainda queremos, mas já não desejamos.
Não tinha dúvidas sobre o que ia fazer: sabia o que tinha de fazer, ainda que tivesse preferido não ter de o fazer.
[…]
Para que ele viva nestas páginas, terei de insuflar-lhe vida, terei de fazer com que ele viva de novo através de mim. Esta história é a sua história, sem dúvida, mas é também a minha história, e nem de outra forma a conseguiria escrever.
É-me bastante fácil evocá-lo, conheci-o bem, mas confesso que me seria igualmente fácil ainda que só o tivesse visto uma vez, o que diz muito mais dele do que dos meus poderes de observação e de efabulação.
Alto, magro, calvície precoce mas avançada, olhar fixo e insistente, nunca sorria, mas soltava inesperadas gargalhadas, longas e ásperas. Sempre achei que daria uma personagem magnífica.
Poderia dizer, sem errar muito, que ele vivia encerrado num mundo pessoal, no qual a literatura ocupava a maior parte, mas isso seria, ao mesmo tempo, dizer de mais e de menos.
Ouvi-o muitas vezes confessar que mais importante que os escritores são os seus livros, e talvez isso explique a sua atitude e o modo como defendeu o seu livro. Dizia também que era melhor ler os escritores do que conhecê-los, mas isso não impediu que nos conhecêssemos numa tertúlia de escritores, ainda que só mais tarde me tivesse confidenciado que ali aparecera completamente por acaso, apesar de nessa altura já ter escrito o seu romance premiado, facto que não me referiu, nem mesmo quando lhe perguntei se escrevia, tendo-se limitado a olhar-me com a sua mirada fixa e insistente.
Só mais tarde, quando começou a sua “cruzada”, é que me procurou para pedir a minha opinião, não sobre o que devia fazer, mas sobre como o poderia fazer.
[…]
“Você deve estar doido”, disse o editor tentando conter o riso e quase se engasgando. “Ainda que fosse possível fazer o que propõe”, continuou, “seria sempre impossível ficar por aí.” E riu à gargalhada, escondendo a boca com a mão.
O escritor ficou a olhá-lo, os olhos muito abertos, e o editor ainda se riu mais, e quanto mais se ria, mais o escritor parecia ficar mais sério, e quanto mais sério parecia ficar o escritor, mais o editor se ria. Até que o escritor começou também a rir, e os dois riram em uníssono durante algum tempo.
“Será que viu a luz?”, interrogou-se o editor. “Ou será que enlouqueceu?”, questionou-se depois, lembrando-se que nunca tinha visto o escritor sorrir, e muito menos rir, ainda que poucas vezes se tivessem visto; e assim pensando deixou de rir, para constatar que o escritor continuava a rir à gargalhada, sozinho, e parecia, parecia cada vez mais zangado, agitando a mão direita num punho que ameaçava ir transformar-se em soco a qualquer momento.
E de repente também ele deixou de rir, olhou o editor ainda com mais intensidade e saiu batendo a porta com estrondo.
O editor ficou a olhar para a porta, com o rosto crispado, mas pouco depois sorria já e logo a seguir ria de novo, às gargalhadas. “Filho de uma grande puta!”, disse em volta alta para si mesmo. “É um chato do caralho mas faz-me rir, sobretudo quanto mais se zanga.”
[…]
Curiosamente, ou não, foi à tertúlia de escritores que Ângelo Durão recorreu. Tinha estado ali apenas uma vez, quase não tinha falado com ninguém, a não ser com um escritor de cabelo branco e pêra também branca, vinte anos mais velho, que lhe perguntara se ele também escrevia.
Ângelo Durão conhecia poucas pessoas e nenhuma delas era escritor. Ora o seu problema era sem dúvida um problema de escritor, e por isso pensou que o melhor que tinha a fazer era procurar a companhia de escritores.
Sabia que se reuniam regularmente numa associação cultural que explorava também um bar, onde tinha ido uma vez, beber um copo, a insistência da Ana, que dizia que ele nunca saía, nunca se divertia, só escrevia e, quando não escrevia, só pensava em escrever.
Por isso tinham saído naquela noite, por isso ele estava ali na mesma ocasião em que os escritores e candidatos a escritores também ali estavam. Ângelo Durão não conhecia nenhum escritor e nunca tivera vontade de conhecer, por nenhum motivo especial, a não ser que preferia os livros aos seus autores.
No que lhe dizia respeito, os livros podiam até não ter autores, como as árvores e as flores, disse, e nem por isso seriam menos importantes. Os escritores são pessoas como as outras, e por isso igualmente desagradáveis, dizia-lhe ele nessa noite, enquanto bebiam caneca atrás de caneca de cerveja, paixão partilhada pelos dois, mas Ana tinha algo para lhe dizer e ia dizê-lo, estava apenas a adiar.
“Enviei o teu romance.”
“O quê?”
“Enviei o teu romance!”
“Mas ainda não está terminado!”
“Não está terminado? O romance não está ainda terminado? Mas não me disseste.”
“Há muitas coisas que não te digo, há muitas coisas que não te posso dizer. Ainda hesito entre manter ou não o último capítulo.”
Estavam os dois ao balcão em forma de L, em pé, junto à porta que dava para a pequena sala de exposições, e foi para aí que se dirigiram à procura de alguma intimidade.
Nas paredes do pequeno compartimento espalhavam-se desenhos de diversos fellatios, em grandes planos que à primeira vista escondiam o óbvio, e isso pareceu diverti-los e distraí-los por instantes da conversa.
Ângelo Durão beijou-a nos lábios, delicadamente, e trincou-lhe ao de leve o lábio inferior, como se mais nada importasse.
“Olha, enviei-o, que se lixe!”
“Que se lixe!”
E pareciam de acordo, os corpos encostados, beijando-se sem pressas numa volúpia não inferior à que se soltava dos desenhos na parede.
“Enviaste para onde?”
“Para um concurso importante, com um óptimo prémio em dinheiro e com a possibilidade de o romance ser publicado.”
“Mas tu sabes que eu me estou nas tintas para isso!”
Os corpos continuavam colados, as bocas próximas, mas as palavras começavam, como sempre acontecia, a afastá-los.
“Eu sei que tu te estás nas tintas, mas eu não estou. Não podemos continuar a viver como vivemos. Tu não podes continuar a esconder-te do mundo. Já te disse que não quero viver assim. Tu sabes, Ângelo!
Ângelo olhou-a com o seu rosto severo, que o cabelo cortado muito curto, a acompanhar a calvície precoce e avançada, parecia acentuar. Era a mesma discussão de sempre e não lhe apetecia continuá-la, por isso voltou a beijá-la, mas desta vez foi ela que se afastou, dizendo que ia à casa de banho, e ele deixou-a ir, acompanhando-a até à até à porta.
“Vou ver se há alguma coisa ali”, disse ele antes se afastar em direcção ao salão onde se ouviam vozes animadas. Lia-se e discutia-se em voz alta, e ele sentou-se a uma mesa onde apenas estava um homem de cerca de cinquenta anos, de cabelo branco e pêra, também branca, que pouco depois se levantaria para ler um texto de sua autoria. Tinha entrado, sem saber, numa tertúlia de escritores.
Ficou por ali, esquecido de Ana, a ouvi-los ler e discutir com paixão sobre literatura, e foi neles que mais tarde pensou quando decidiu agir. Apesar de não gostar por aí além de escritores, aqueles tinham-no divertido.
[…]
Tinha escrito o romance uma primeira vez, em pouco mais de três meses; página após página, Ângelo Durão tinha escrito tudo o que lhe viera à cabeça.
Nunca escrevera nada antes, nem um conto, nem mesmo um poema, e muito menos um romance, mas escreveu de uma penada tudo o que lhe viera à cabeça. Escreveu e depois leu tudo, tal como escrevera, de fio a pavio.
Não era aquilo. Não era nada daquilo. Não tinha quaisquer dúvidas. Precisava fazer alguma coisa.
Tentou então que tudo batesse certo, reestruturar tudo o que escrevera, escrevendo e escrevendo de novo, usando o que escrevera agora como texto base; mas o romance desmoronava-se a cada alteração e parecia-lhe sempre um romance diferente, e nunca aquele que ele tinha de escrever. Até que desistiu e apagou tudo, definitivamente, sem apelo nem agravo.
Ana não chegou a ler essa primeiríssima versão.
Meses depois de ter abandonado tudo para apenas escrever, eis que lhe diz, sem mais nem menos, que vai começar tudo de novo.
Ana não compreende.
“Não podia ser alterado?” Ele responde que não. Tem de começar de novo. É o mesmo romance, só que tem de escrevê-lo outra vez.
Ana aceita, diz que está bem, mas não compreende.
“Mas não podias reescrever? Não é isso que os escritores fazem?” Mas Ângelo Durão diz que não sabe nada sobre escritores. O que ele sabe é que tem de escrever o romance outra vez. Tem um livro para escrever, mas não é aquele que escreveu. Por isso vai escrevê-lo outra vez.
Mas… começou ela, mas… desiste, e fica em silêncio, a olhá-lo.
“Confia em mim, tenho de escrever este livro”, diz ele. “Não sei porquê, mas sei que tenho de escrevê-lo”, e tenta sorrir, mas só os olhos desenham um ténue sorriso, quase ilegível.
“Tenho de escrevê-lo”, repete. “É uma questão de vida ou de morte.”
Então ela passa-lhe a mão pelo crânio nu, e diz-lhe mais uma vez que ele é louco, e que um dia terá de deixá-lo para que ele viva plenamente a sua loucura.
Ele encosta a cabeça no seu ombro e sente uma enorme vontade de chorar.
[…]
“Chamo-me Ângelo Durão e sou escritor”, disse ele, e ficou a olhar para o advogado como se isso fosse mais do que suficiente.
O advogado ficou também a olhá-lo, e o silêncio instalou-se como o pó que cobre os móveis sem quase se fazer notar. Pouco sabiam um do outro, mas sabiam o suficiente para poderem enumerar pouco a pouco o pouco que sabiam.
Além de advogado também é poeta, dizia para si mesmo Ângelo Durão, um mau poeta, facto que não o impede de publicar regularmente, tal como a noite se segue ao dia.
Ganhou um prémio importante com o seu primeiro romance, dizem que é muito bom, mas doido, conflituoso, uma espécie de enfant terrible.
Deve sem dúvida ter sensibilidade para estas questões, afinal de contas é poeta publicado, ainda que mau.
Sei mais ou menos o que me quer, não sei é se valerá a pena aceitar o caso, que com doidos nunca se sabe.
“Quer então explicar o que o traz aqui?”, disse finalmente o advogado, cruzando e descruzando as mãos sobre o colo.
“Tenho um problema”, disse Ângelo Durão, e calou-se de novo.
“Todos os que vêm ter comigo têm problemas que querem resolver. É para isso que aqui estou”, disse o advogado, encorajando-o a falar, sem deixar de cruzar e descruzar as mãos.
Ângelo Durão olhou as mãos fortes do advogado, o seu sorriso, e apeteceu-lhe ir embora. Não era assim que as coisas se iam resolver, disse para si mesmo, mas ficou.
[…]
Escreveu uma segunda vez o romance e, tal como da primeira vez, escreveu tudo o que lhe veio à cabeça, sem se interrogar sobre o que fazia, mas sentindo a verdade do que escrevia; e no final tinha escrito o mesmo romance outra vez, pelo menos foi o que sentiu quando acabou, mas desta vez não se apressou a lê-lo, e ficou apenas a revê-lo durante dias na sua cabeça, até que concluiu que era o mesmo romance e que, mais do que o romance que tinha de escrever, aquele era o romance que era capaz de escrever.
A partir daí começou a dispor os diversos capítulos de diferentes formas, sem nunca os alterar, ensaiando várias possibilidades de continuidade, retirando apenas aqui e ali alguns deles, como que purgando o texto, para que o romance que fora capaz de escrever se aproximasse, mais por defeito do que por excesso, do romance que tinha de escrever.
Pensou que tinha já terminado o romance quando o deu a ler a Ana, mas só mais tarde o deu afinal por terminado, retirando-lhe o último capítulo, quando Ana já tinha enviado o romance a concurso.
[…]
Mais tarde, quase todos os escritores da tertúlia apareceriam, uma vez por outra outra, a seu lado, em muitas ocasiões, falando por ele, dizendo-se seus seguidores, ou apenas afirmando concordar com ele; mas no início foi recebido com muita reserva, e ergueram-se até vozes discordantes.
Só o escritor mais velho se manteve sempre disponível, fazendo-lhe muitas perguntas, mas esse era apenas o seu temperamento, aberto e indagador, e também ele desconfiou daquele homem que escrevera um livro premiado e que queria agora retirá-lo do mercado, a todo o custo, mesmo que isso implicasse a completa destruição do seu romance.
No entanto ele era um escritor premiado e lutava contra o sistema, factores que, por si só e em conjunto, foram suficientes para convencer todos os membros da tertúlia presentes naquele dia em que Ângelo Durão se lhes dirigiu a pedir ajuda.
Foram eles que sugeriram a Ângelo Durão um advogado, e também poeta, que de vez em quando frequentava o círculo. Foram também eles que trataram da comparência de Ângelo Durão num programa de rádio numa estação local. E isto foi apenas o início.
[…]
O advogado era um homem entroncado, de ombros largos e tórax proeminente, que se movia devagar mas com leveza. Acreditava que uma mente sã deve habitar um corpo saudável, e por isso desenvolvera o corpo e a mente com afinco e determinação. Era um homem pesado mas ágil, e essas características pareciam ter-se espelhado na sua poesia, que bebia dos clássicos mas que se abria também a experiências novas. Falava pausadamente e os seus gestos lentos tinham qualquer coisa de feminino, apesar da força que se sentia nele.
“Também escreve poesia?”
“Nunca escrevi poesia.”
“Mas devia, os ficcionistas têm muito a aprender com os poetas. Hoje em dia muitos escritores são poetas e romancistas, ainda que alguns poetas que passaram a escrever ficção não tenham voltado a escrever, ou pelo menos a publicar, poesia. É o caso, penso eu, do Paul Auster.”
O advogado, e também poeta, que muitos diziam mau poeta, tinha escrito, para além de um sem número de livros de poesia, também alguns livros técnicos sobre artes marciais, bem como inúmeros artigos em revistas e jornais.
“ Sei muito pouco sobre escritores e quase não leio poesia.”
O advogado olhou-o e passou uma das suas mãos enormes pelo rosto.
“Sei muito pouco sobre literatura!”, insistiu Ângelo.
“E no entanto isso não o impediu de escrever um excelente romance, segundo me disseram.”
O advogado cruzava e descruzava lentamente as mãos, apertando-as uma contra a outra, como se as acariciasse.
“Ganhou um prémio importante, quer em termos económicos quer em termos de prestígio.”
“Não sei nada sobre prémios!”, disse Ângelo Durão, num obstinado laconismo.
O advogado levantou-se do sofá onde tinha estado sentado, em frente a Ângelo Durão, e dirigiu-se para a secretária, sentando-se na cadeira giratória, que fez mover lentamente da direita para a esquerda, repetidamente, como se estivesse a decidir o que iria dizer.
“Quer então explicar-me o que o traz aqui?”
Talvez ele fosse um mau poeta, mas o que os escritores mais gostam, e sobretudo os poetas, é falar mal uns dos outros, e Ângelo Durão aprendera isso no contacto com a tertúlia, onde lhe fora afirmado que o advogado era um mau poeta, mas também que o mau poeta era um bom advogado, e ele estava ali para consultar um bom advogado, ainda que duvidasse que fosse assim que as coisas se iriam resolver.
“Ganhei um prémio literário, mas isso já você sabe!”, e Ângelo Durão calou-se de imediato, o que levou o outro a pensar que devia ser daqueles escritores que escrevem maravilhosamente mas que não gostam de falar, mas Ângelo Durão ia continuar e o advogado concedeu-lhe toda a sua atenção.
“O prémio, para além da entrega de um valor pecuniário, implicava a edição do livro. Foi isso que aconteceu. Mas o livro que foi publicado não é o livro que combinámos. E agora eu quero que o livro seja retirado do mercado.”
“E substituído?”
“O quê?”
“Se quer apenas que o livro seja retirado, ou pretende que seja retirado e substituído.”
“Pensei apenas em que fosse retirado. Isso parece-me o mais urgente, não quero que esse livro continue por aí.”
“Mas depois quer que seja substituído pelo, digamos, verdadeiro livro?”
Ângelo Durão ficou em silêncio, a olhá-lo com a sua mirada fixa, a careca a reluzir, o rosto sério, e o advogado deixou que um sorriso se desenhasse nos seus lábios, parecendo por instantes um enorme Buda.
“Vamos então por partes”, disse finalmente, “só lhe poderei dar uma opinião sobre o que fazer se conhecer a situação a fundo. Como julgo saber já um pouco da história, deixe que eu lhe faça algumas perguntas directas, que pode apenas responder com sim ou não.”
Ângelo Durão assentiu com a cabeça e o advogado começou a colocar-lhe as perguntas, à maior parte das quais Ângelo Durão respondia com igual gesto afirmativo.
“O seu romance ganhou um prémio que consistia na entrega de uma quantia em dinheiro e na sua publicação?”
“A versão enviada a concurso é a mesma que agora foi publicada?”
“Recebeu já toda a quantia em dinheiro?”
“Quando ganhou o prémio tinha já alterado a primeira versão?”
“Deu conhecimento desse facto de imediato aos responsáveis?”
“Foi só quando me enviaram as provas do romance para que me pronunciasse sobre as correcções efectuadas que pedi que retirassem o último capítulo.”
“E como o fez?”
“Devolvi as provas riscando todo o último parágrafo, e escrevi ao lado o sinal de eliminado, segundo as instruções de revisão que me enviaram.”
“Não contactou mais o editor, nem de outra forma lhe fez saber que não queria que o último capítulo não fosse incluído?”
“Só mais tarde voltou a contactá-lo e explicou-lhe a situação?”
“Pediu-lhe que o livro fosse retirado do mercado e ele negou-se?”
“Não se mostrou interessado em alterar o romance numa próxima edição?”
“O cabrão riu-se na minha cara!”, disse Ângelo Durão, e o advogado procurou raiva ou contrariedade no rosto do escritor mas só lhe encontrou tristeza, uma tristeza profunda, que muito o impressionou.
[…]
“Então alteraram o livro contra a tua vontade?”
Olhou para Ângelo Durão, que lhe devolveu o olhar, e continuou quase de imediato, sem esperar qualquer resposta.
“Pois é, a mim também já me quiseram fazer o mesmo, mas eu mandei-os dar uma volta ao bilhar grande. No que eu escrevo ninguém mexe.”
Olhou à sua volta, fulminando todos com o olhar, as sobrancelhas carregadas, ao mesmo tempo que sorria, e repetiu a última frase antes de prosseguir.
“No que escrevo ninguém mexe! Vejam lá que um editor queria alterar o título de um romance meu, onde já se viu, os editores são todos a mesma merda, são como os críticos, escritores frustrados. Comigo é que não fazem farinha, ou publicam o que lhes envio tal qual está ou nada feito. Eu é que sou o escritor e é bom que não se esqueçam disso!”
Ângelo Durão continuava calado, o olhar passeando-se pelo salão, pelos grandes espelhos inclinados, pelas portas de madeira envidraçadas, pelo pequeno palco ao fundo. Tinha explicado à tertúlia ao que vinha, agora esperava.
O outro olhou Ângelo Durão, à espera de aprovação, mas ele nem lhe retribuiu o olhar, ocupado que estava a observar tudo à sua volta. E só quando o outro insistiu, repetindo a última frase, agora mais alto, é que Ângelo o olhou, mas nada disse, limitando-se a devolver-lhe o olhar.
“Eu é que sou o escritor e é bom que não se esqueçam disso!”
“Ó Francisco, tem dó, já conhecemos muito bem a tua opinião mas a verdade é que nem todos concordamos contigo. Eu até agradeço que me corrijam e me dêem sugestões, esse é afinal o trabalho do editor. Se aceitamos ou não as correcções e as sugestões, essa é outra questão, mas não me parece que devamos recusá-las liminarmente.”
Francisco Aresta carregou ainda mais as sobrancelhas e a boca pequena torceu-se num claro sorriso de escárnio, mas nada disse. Também ele conhecia muito bem a opinião do outro.
“Ainda há pouco li uma entrevista a um jovem escritor italiano, o escritor mais novo a receber o prémio Strega, e ele agradecia expressamente ao editor por lhe ter proposto um título diferente para o seu romance.”
Desta vez Francisco Aresta não se conteve e respondeu a Celestino, pontuando a frase com uma gargalhada: “No teu caso melhor seria que mudassem tudo!”
“Não sou um génio como tu!”, disse Celestino em voz pausada, mas Francisco Aresta nem lhe respondeu, ignorando-o por completo e voltando a concentrar-se em Ângelo Durão.
“Tens de consultar um advogado e fazer que ele consiga que as vendas sejam imediatamente suspensas. Já tive de fazer o mesmo uma vez, mas tratava-se de um caso de plágio, portanto uma situação diferente, mas vem a dar ao mesmo, o que é preciso é suspender as vendas e retirar o livro do mercado. Vê lá bem que uma gaja publicou um livro inteiro com poemas meus e ganhou um prémio importante com ele. Tudo de conluio com o cabrão de um editor a quem eu tinha enviado o livro.”
“Quem foi o advogado que consultaste?”
Francisco Aresta olhou o outro contrariado e replicou: “Porra, sabes muito bem quem foi que consultei! Porque raio é que me perguntas?”
“É capaz de ser uma boa escolha, sim senhor, é um bom advogado e também um poeta.”
“Um mau poeta!”, isso é que ele é, atalhou Francisco Aresta. “Antes beber um litro de azeite do que ler alguma coisa dele!”
Riram-se todos e Ângelo Durão olhou para o escritor de pêra e cabelo brancos, o mesmo que falara com ele da primeira vez, à espera que ele dissesse mais alguma coisa.
“É isso, é um bom princípio, já te dou o contacto dele. E até posso dar-lhe um toque, para ele estar preparado. Isto se quiseres, é claro”, disse para Ângelo Durão, e dirigindo-se sem transição aos outros: “Alguém tem mais ideias?”
“Que tal levá-lo à Rua do Imaginário?”
[…]
“Queridos ouvintes, no programa de hoje da Rua do Imaginário temos connosco um escritor, um jovem escritor que ganhou um importante prémio literário com o seu primeiro romance, arrecadando desta forma uma boa maquia em dinheiro e a possibilidade de ver a sua obra publicada. No entanto, esta história, que se adivinhava feliz, teve um final inesperado. O escritor exige que o romance seja retirado do mercado por não corresponder à obra original.”
“É outro romance. Outro romance!”
“Iremos já falar sobre isso, saliento que neste programa não se fazem entrevistas, conversa-se, e é isso que vamos fazer hoje, conversar com o escritor Ângelo Durão. E para começar, Ângelo Durão, o seu auto-retrato.”
“O meu auto-retrato?”
“Sim, fale-nos de si, em poucas palavras. Quem é o Ângelo Durão?”
“Sou um homem!”
“Só?”
“Como os outros!”
“Um homem que escreve.”
“Um homem que escreveu um livro.”
“E agora se opõe à sua publicação.”
“Sim.”
O autor do programa olhou Ângelo Durão, como que a deitar contas à vida, consultou rapidamente algumas notas, e prosseguiu.
“Fiquem então com um primeiro auto-retrato do escritor Ângelo Durão, hoje convidado da Rua do Imaginário, um homem como os outros, um homem que escreveu um livro vencedor de um importante prémio e agora se opõe à sua publicação, exigindo que o romance seja imediatamente retirado do mercado. Voltamos já, depois de um pouco de música.”
“É Chet Baker, não é? Adoro Chet Baker”, disse Ângelo Durão.
“Ouve muita música quando escreve?”
“Ouço quase sempre a mesma música, tenho meia dúzia de discos, e leio quase sempre os mesmos livros, também meia dúzia, todos de autores mortos.”
“Interessante, posso perguntar-lhe isso quando estivermos no ar?”
“Sem dúvida.”
Ângelo Durão nunca tinha falado na rádio, nem tinha alguma vez estado numa, muito menos nos estúdios, e olhava à sua volta com atenção. À sua frente tinha uma janela que se abria para outro estúdio, vazio naquele momento, que lhe parecia idêntico àquele onde se encontrava e que nada tinha de especial. De onde se encontrava Ângelo Durão, sentado na perpendicular do autor do programa, do lado de trás da mesa que concentrava a necessária aparelhagem, pouco via para além do rosto do outro e mal lhe adivinhava os gestos. Percebia quando ele colocava música no leitor, à moda antiga, como lhe disse e repetiu, e de vez em quando mexia numas alavancas que subiam e desciam. Tinha-lhe perguntado se queria auscultadores, única forma de ouvir o programa tal como estava a ser emitido, e ele aceitara, pelo que estavam os dois de auscultadores, que só retiravam quando paravam de falar e o outro colocava música.
“Ouvimos de novo Chet Baker, desta vez a cantar, um dos autores preferidos do escritor Ângelo Durão, como me confidenciou há pouco. Não é verdade, Ângelo Durão?”
“Sim, adoro Chet Baker, devo ter ouvido esse disco milhares de vezes.”
“Ouviu Chet Baker enquanto escrevia o seu romance?”
“Quando escrevo só ouço a música do que escrevo”, respondeu Ângelo Durão rapidamente, e o outro riu-se.
“Mas voltemos à vaca fria, por assim dizer. O Ângelo Durão opõe-se à publicação do seu romance, ou melhor, exige que ele seja retirado do mercado tal com está e seja substituído pela verdadeira versão do romance. Confesso que sinto dificuldade em explicar a situação, tão insólita é a sua pretensão.”
“Não sei se a minha pretensão é insólita, o que sei é que o livro que foi publicado não é o livro que quero partilhar com os leitores, pois é, na verdade, outro livro.”
“Tanto quanto sei, e espero não estar enganado, o livro agora publicado tem mais um capítulo, o final, que o Ângelo Durão eliminou.”
“Eliminei o então último capítulo e dei conhecimento desse facto à editora, antes da publicação, pelo que podiam, e deviam, ter procedido à alteração que solicitei.”
“Muitos escritores procedem a diversas alterações, mais ou menos profundas, nas edições posteriores. Não acha que podia fazer isso?”
“Não sei nada sobre os outros escritores, nem sei se sou escritor, mas o livro que queria partilhar com os leitores não é este livro que está aí para ser lido, e por isso eu quero que ele seja retirado.”
“Muito bem, a sua pretensão é clara, o livro deve ser retirado do mercado. O livro não deve ser lido tal como está!”
Ângelo Durão assentiu com a cabeça.
“Vamos então para mais um pouco de música e voltamos já. Fiquem com Shostakovich e The Jazz Album, que irão sem dúvida ouvir ainda muitas vezes neste programa.”
“Gosta de Shostakovich?”
“Julgo estar a ouvir pela primeira vez.”
“Não viu o último filme do Kubrick? Uma valsa deste álbum ouve-se aí insistentemente. Eu já lhe coloco, penso que é a faixa 13, se é que não foi alterada, porque é um tema que se ouve várias vezes. Tenho de procurar se existe a banda sonora desse filme.#
Ângelo Durão colocara os auscultadores para ouvir melhor a música e o outro fez-lhe sinal para que os retirasse.
“Vamos voltar daqui a muito pouco, deixe-me que lhe faça ainda uma pergunta. Ainda não falei no título do seu romance, porque você se opõe à sua venda, mas acho que o melhor é dizê-lo ou não se saberá do que estamos a falar.”
Ângelo Durão acenou ligeiramente com a cabeça em sinal de concordância e voltou a colocar os auscultadores.
“Estamos então de regresso para continuar à conversa com Ângelo Durão, autor de um romance premiado e que agora exige que seja retirado do mercado. O romance, que se encontra à venda, chama-se Uma Pergunta Desnecessária. Ângelo Durão, já teve algumas reacções dos leitores.”
“Dos leitores?”
“Sim, dos leitores, já falou com alguém que tivesse lido o livro?”
“O livro que as pessoas leram não é o livro que eu escrevi para eles. Um livro, qualquer livro, é sempre um ponto de encontro, escrevi este romance para mim próprio mas escrevi-o também para que fosse lido, mas não tal como está. O livro que se encontra à venda não é o livro que quero partilhar, e isso é o mais importante para mim. Isso é o mais importante para mim.”
E calou-se, e recostou-se na cadeira, afastando-se do microfone, e o seu rosto fechou-se de tal maneira que o outro pensou que ele não diria mais nada.
“Uma posição invulgar mas apaixonada. Ângelo Durão exige que o seu romance Uma Pergunta Desnecessária seja retirado do mercado e, enquanto isso não acontecer, arriscaria dizer, pede mesmo a quem pensar em ler o livro para não o fazer. Ângelo Durão pede que o livro que se encontra à venda e que lhe é atribuído não seja comprado nem lido, pois não é o livro que ele quer partilhar com os leitores.”
E o autor do programa olhou para Ângelo Durão, a pedir-lhe concordância, quem cala consente, e prosseguiu, cada vez mais enfático, fazendo apelo á sua voz bem modulada.
“Fica aqui o apelo de Ângelo Durão, autor do romance premiado Uma Pergunta Desnecessária, apelo que continuaremos a repetir enquanto ele quiser. Não comprem nem leiam o romance que se encontra no mercado e lhe é atribuído: não é o romance que ele quer partilhar com os leitores. Não comprem nem leiam a versão do seu romance Uma Pergunta Desnecessária existente no mercado. O seu autor desaconselha veementemente.”
“Já não estamos no ar. Está a ouvir, reconhece agora a música?”
“Sim, reconheço.”
“Não sei se correu como esperava. Estava aqui a pensar se o tiro não lhe sairá pela culatra. Fiquei com vontade de ler o seu livro. E o mesmo poderá acontecer aos ouvintes.”
Ângelo Durão olhou-o em silêncio e voltou a colocar os auscultadores.
[…]
“O que achaste do Ângelo Durão?” perguntou Francisco Aresta a Celestino, enquanto olhava em volta, passeando o olhar pelas mulheres na sala.
“Acho que fiquei com vontade de ler o romance dele.”
“Gostas mesmo de perder tempo”, disse Francisco Aresta, as sobrancelhas negras e hirsutas a sublinhar o escárnio da afirmação. Bebeu mais um gole de cerveja pela garrafa e encostou-se ao balcão do bar, olhando para além dele, para o átrio.
“Tu também não gostas de nada nem de ninguém, a não ser de ti próprio e do que escreves”, afirmou Celestino.
“Não gosto é de fraudes. Tu não viste que aquilo não passa de uma forma de ele vender mais livros?”
Celestino olhou Francisco Aresta com surpresa. Mas como é que este gajo consegue estar sempre do contra?
“Tens de me explicar como é que ele vai vender mais livros se o que ele quer é retirar o romance do mercado.”
“Mas tu acreditaste? És mesmo anjinho.”
E Francisco Aresta lançou a sua gargalhada sardónica, que a todos irritava, e olhou Celestino com a única expressão que, segundo o próprio Celestino, o seu rosto conhecia.
“És mesmo anjinho!”, repetiu, e bebeu mais um gole de cerveja.
Já Celestino desistira de uma explicação e pensava voltar ao salão, onde ainda decorria a tertúlia, quando Francisco Aresta, agarrando-lhe no braço, apresentou a sua tese.
“Tu não disseste que ficaste com vontade de ler o romance do Ângelo Durão?”
“Sim”, disse Celestino, mas Francisco Aresta já continuara a falar.
“Pois bem, então vê lá se não tenho razão. O Ângelo Durão começa uma campanha contra a editora para retirar o livro do mercado e as pessoas interrogam-se porquê. O que terá o livro? Quem é que tem razão? E compram o livro, e lêem o livro. Não estás a ver? É um grande golpe! De mestre!”
Celestino não disse nada e dirigiu-se para o salão onde ainda decorria a tertúlia, com Francisco Aresta ainda agarrado ao seu braço. Saíram do bar, atravessaram o átrio na diagonal e só quando estavam já à porta do salão, é que Celestino picou Francisco Aresta, adivinhando-lhe a resposta.
“Vais comprar o livro do Ângelo Durão?”
“Antes beber um litro de azeite do que comprar essa merda. E muito menos lê-la!”
Entraram no salão e sentaram-se à frente, ao pé do palco estreito, onde alguém lia um poema. Nem um nem outro se interessaram pelo que se passava no palco. Francisco Aresta passeava o seu olhar miúdo pelas mesas, Celestino parecia pensativo. Será que o Francisco tem razão? Pode lá ser! O Ângelo Durão pareceu-me tão autêntico! Mas é preciso um oportunista para apanhar outro. Essa é que é essa! E olhou para o palco, onde um jovem se preparava para ler alto. E ficou a ouvir.
[…]
As palavras não são poesia
Umas vezes despertam-na
Outras vezes matam-na
Mas nunca são poesia
Podem até ser poema
Mas nunca são poesia
[…]
O advogado passou a mão forte pelo rosto, como que a sentir a barba impecavelmente escanhoada. Ângelo Durão aguardava uma resposta, mas já a adivinhara, e pela primeira vez foi ele a tomar a iniciativa.
“Não tenho qualquer hipótese, não é?”
O advogado, e também poeta, não respondeu. Era um bom advogado, cauteloso e consciencioso. Se bom ou mau poeta, avalie quem o ler, que o mesmo poeta é muitas vezes bom para uns e mau para outros, pois digam o que disserem tudo depende afinal do gosto (ou se gosta ou não se gosta) e a da autenticidade (ou se é ou não se é diferente).
Ângelo Durão levantou-se, e o outro levantou-se também, rodeou a secretária, e aproximou-se dele.
“Não tem qualquer hipótese de conseguir o que quer”, disse-lhe. “Qualquer hipótese legal, pelo menos, mas talvez pudesse encetar algumas negociações que poderiam dar os seus lucros.”
Ângelo Durão olhou-o com o seu rosto triste de naufrago e disse-lhe com determinação que não iria desistir.
“Não tem nenhuma hipótese em termos legais de ver o livro retirado de circulação. E não estou a ver porque o farão de livre vontade. É verdade que rumores de má conduta poderão pôr em causa as duas empresas que financiaram o prémio, mas desconfio que isso até aumentaria as vendas e, no final, acabariam sempre por ganhar.”
Ângelo Durão abrira desmesuradamente os olhos e parecia querer fulminar o advogado, que sorriu ao vê-lo tão magro e desengonçado à sua frente, como um D. Quixote que recordava de um livro de leitura da sua infância, à beira de uma apoplexia, mas determinado e aguerrido.
“No final, se fizer escândalo, eles até lhe agradecem”, continuou o advogado, discretamente aproximando-se do outro, pronto a imobilizá-lo, não fosse o diabo tecê-las, mas Ângelo Durão voltara a sentar-se e chorava em silêncio, as lágrimas descendo-lhe pelo rosto inexpressivo.
[…]
No domingo seguinte, ao meio-dia, Ângelo Durão tentou ouvir-se no programa de rádio, mas o programa que foi para o ar não foi aquele em que estivera. Ficou a ouvir durante algum tempo, mas devia ter havido algum engano, e embora o programa fosse o mesmo em que estivera, a Rua do Imaginário, aquela não era a emissão em que estivera. O autor falava de um programa concebido como um todo e com uma intenção artística, dizia que o texto que servia de base era da sua autoria, e Ângelo Durão admirou-se pois ninguém lhe tinha dito que o outro também escrevia. Não o tinha visto na tertúlia mas se calhar também era um frequentador. Ouviu falar de realidade e de ficção, de como eram uma e a mesma coisa, escutou jazz, muito jazz, mas não se ouviu a si mesmo, o que aliás não o incomodou nem um pouco.
Já quase se tinha esquecido do programa quando o seu autor lhe telefonou pedindo-lhe desculpa - tinham colocado na repetição um programa anterior, infelizmente acontecia muitas vezes - e a dizer-lhe que tiver algumas reacções ao programa e se ele não queria ali voltar.
“Reacções?”, estranhou Ângelo Durão. “Que reacções?”
“Alguns leitores entraram em contacto comigo.”
“Leitores?”
“Leitores do livro”, disse o outro, lendo o espanto de Ângelo Durão e soltando uma gargalhada. “Não contava com os leitores?” “Olhe que os livros têm leitores”, e riu novamente.
“Não me interessam os leitores”, respondeu finalmente Ângelo Durão.
“Lançámos um desafio, seria agora interessante confrontar-nos com a opinião dos leitores”, disse o autor do programa. “Gostava de o ter aqui outra vez.”
“Mas terei de falar com essas pessoas?”
“Poderia ser feito”, disse o outro, a ver onde paravam as coisas.
“Não me interessam os leitores, interessa-me apenas o livro.”
“Isso quer dizer que posso contar consigo no próximo programa?”
[…]
Todos os (bons) livros são órfãos.
Todos os (bons) escritores são pais.
[…]
Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso que ele acreditava, mas sabia também que ainda controlamos menos a nossa imaginação do que a nossa vontade. Por isso se admirava muito pouco, embora sempre o surpreendesse, o rumo que aquilo que escrevia podia tomar.
De onde vinham as histórias que escrevia? Por que é que acontecia o que acontecia? E aqui já não pensava apenas na escrita mas também na vida, porque ele acreditava que os mecanismos da escrita e da vida, ainda que desconhecidos, eram, se não os mesmos, pelo menos idênticos, demasiado idênticos.
[…]
Seria fácil imaginar Ângelo Durão a viver na zona velha da cidade, talvez numa dessas casas pequenas e fundas de uma janela só, que se abrem num pequeno pátio elevado sobre a rua, mas ele vivia numa das saídas de Faro, numa rua temporariamente sem nome, num dos muitos blocos de apartamentos que ainda estavam a surgir.
Vivia num pequeno apartamento, duas divisões e uma cozinha à direita de um corredor, como ele dizia, com casa de banho ao fundo. Dali partia a pé para toda a cidade. Não tinha carro e talvez nem mesmo tivesse carta. Também não tinha mota ou bicicleta. Era em muitos aspectos uma pessoa desligada dos bens de consumo e das modas.
Mas isto não vem ao caso.
[…]
Vou? Não vou? Claro que ia, ainda que não soubesse bem porquê, mas também não ia perder tempo a procurar explicações. Se por um lado nada tinha a acrescentar e não tinha vontade nenhuma de falar com leitores, por outro lado tinha-o intrigado o autor do programa de rádio, que afinal também escrevia o texto dos seus programas e, mais do que fazer-lhe perguntas sobre isso, queria apenas olhá-lo e interrogar-se sobre quem era. A Ana estranhava às vezes ele fazer tão poucas perguntas e questionava-o sobre isso, ao que ele respondia que fazia muitas perguntas mas não às pessoas, não lhe interessava o que as pessoas diziam, porque as pessoas sabem muito pouco sobre si mesmas.
“Prefiro imaginar, é essa a minha forma de as interrogar”, dizia ele, e é isso que faria com o autor da Rua do Imaginário.
[…]
O próximo programa era já o quarto, e ele estava sentado a tentar escrever um primeiro esboço de um novo texto, um texto com cerca de quatro páginas, tal como os anteriores, em Time New Romans e a dois espaços, como sempre escrevia, desde que o fizesse ao computador, claro, porque muitas vezes escrevia num qualquer papel que encontrava à mão, dependendo de onde estivesse, fosse um guardanapo ou as costas de um folheto publicitário. Eram frases breves, que lia, escutava ou apenas lhe vinham à cabeça, e que poderia talvez aproveitar mais tarde. Muitas perdiam-se. Afixava algumas na porta do frigorífico, tal como estavam, ou depois de transcritas para pequenos papéis coloridos que costumava ter sempre em casa.
Gostava muito de repetir uma afirmação, que atribuía a Gabriel Garcia Marques, mas que podia ser de outro escritor qualquer, ou até sua, que proclamava que escrever um conto era mijar no chão, enquanto escrever um romance era colar mosaicos. E esta frase dizia muito da forma como ele entendia a escrita, dizia muito da forma como ele escrevia.
Mas estou a divagar, ou contar uma história será sempre divagar? Quando ele me contava alguma coisa, muitas vezes eu dizia-lhe, mais para o picar do que por um real motivo, que ele estava a divagar, e ele respondia-me sempre com a mesma pergunta. Mas contar uma história não é sempre divagar? E riamos os dois.
[…]
“Li o seu livro”, disse e ficou a olhar para Ângelo Durão, mas Ângelo Durão não respondeu e ele mudou de assunto:
“Pronto para trocar opiniões com os leitores?”
Ângelo Durão olhou-o com a sua mirada fixa, mais interessado nele do que no que ele tinha para dizer.
“Gostei muito de ouvir o seu programa. Fiquei surpreendido.”
“Qual programa?”
“Um em que lia um texto escrito por si.”
“Concebido como um todo e com uma intenção artística”, disse o outro modulando a voz e rindo-se. “É um conjunto de seis episódios, ouviu um deles.”
Ficaram a olhar um para o outro em silêncio e, quem os visse, parecer-lhe-ia que falavam, tão intensa era a forma como se interrogavam.
“Vamos começar?”
“Não sei se me apetece falar do livro. Acho que não devia falar mais dele, devia calar-me, no entanto…”
“Os leitores terão dificuldade em entender que queira destruir o livro.”
“Eu não quero destruir o livro que escrevi; quero destruir o livro que se faz passar por ele. O livro que está aí não é o que eu queria que estivesse, e não está aí por minha vontade, está aí contra a minha vontade.”
Ângelo Durão falava lentamente, como se pesasse cada palavra, e embora parecesse calmo, a sua paixão assomava a cada palavra que proferia.
“Talvez esse livro seja um filho indesejado, mas talvez os filhos indesejados também mereçam viver.”
Ângelo Durão passou a mão direita pela cabeça, os dedos bem abertos, olhou em volta e de novo para o outro e disse:
“Vamos começar?”
[…]
E depois foi por adiante, disse-me ele, depois do Varese nada do que eu planeara e coloquei se fez ouvir. De cada vez era sempre algo diferente. Sempre algo diferente. Na maior parte era música que eu tenho, mas que não tinha levado, e nalguns casos até música que eu não conhecia.
É verdade, disse-me ele, foi estranho, muito estranho, mas a partir de certa altura até me diverti. E não parecia incomodado nem preocupado com aquele acontecimento no mínimo estranho. É verdade que ele nunca procurava explicações, mas confesso que duvidei da sua sanidade mental.
Claro que me estragou tudo o que tinha programado, disse-me ainda, e decidi ler o texto apenas no intervalo das músicas, que nunca sabia quais eram. Até tinha medo de ouvir o que vinha seguir. Fosse como fosse continuei a colocar a música que programara mas nem uma vez acertei e, ainda mais curioso, nem uma vez a seguir aos dois primeiros temas se voltou a ouvir jazz. A certa altura até tinha medo de falar, não se começasse a ouvir outra coisa. Outras palavras. Outra pessoa.
Foi isto que ele contou que acontecera no quarto programa. Na altura apenas pensei, ainda que por um momento, se ele não estaria doido, mas agora percebo que foi o princípio do que viria a acontecer-lhe, ainda que mesmo hoje não tenha qualquer explicação para o sucedido.
[…]
Na tertúlia sentiu diferentes os olhares dos outros sobre si. Teriam lido o romance? Seriam agora seus leitores?
Relanceou o olhar pelas mesas de ferro – antigas mesas de esplanada de café – mas não adivinhou em nenhuma o seu livro. Estavam livros pelas mesas, estavam sempre, mas nenhum era o seu. E quando pensou isto, pensou que aquele que estava por aí não era o seu livro, porra, era outro livro. Não podia começar agora a pensar que aquele era o seu livro ou o melhor seria desistir.
Concentrou a sua atenção na leitura de um poema, coisa de rabetas, disse para si mesmo, e na mulher loura, alta e magra, saindo mais ao pai do que à mãe, que lia de olhos derramados nas folhas que segurava.
Francisco Aresta atirou de longe, ao mesmo tempo que o poema era lido, um breve “Como vai a campanha?”, sublinhado com uma inevitável gargalhada curta e sardónica.
“Como vai a campanha?”, repetiu Ângelo Durão para si mesmo, mas continuou a olhar a mulher loura e jovem, saindo mais ao pai do que à mãe, que continuava a ler, os olhos presos nas folhas que segurava junto à boca, como se delas bebesse, e a filha, devia ser filha, também loura, encostada às sua pernas, imitando-lhe os jeitos e os trejeitos.
“Poetas”, disse Ângelo Durão olhando em redor, o salão meio cheio, meia dúzia de mesas, uma dúzia de pessoas, se tanto. “Poetas”, repetiu. “Leitores!”, exclamou para si mesmo sem transição. “Todos uns rabetas”, disse em voz alta, sem mesmo se aperceber do que dizia. Dava-lhe para dizer coisas à toa quando se zangava, repetir expressões que ouvira, como aquela que agora repetia, ouvida ao balcão de um café de esquina, dirigida aos políticos em geral e ao primeiro-ministro em particular. “Todos uns rabetas!” “Todos uns rabetas!” “E o pior é o “Só cá atrás”, que é o maior deles todos.”
E Ângelo Durão olhou em redor, como que a confirmar.
“Todos uns rabetas! Poetas e leitores.”
[…]
Subo as escadas íngremes que me levam aos Artistas e dou por mim a pensar na magia do local. Atravesso a sala de entrada em direcção ao bar, peço uma imperial ao balcão e sento-me numa mesa pequena e desconchavada, junto a uma das janelas que dão para o pátio que funciona em noites de Verão.
Olho o bar e a sala de entrada, encontro-lhes um ar de casa velha, mesmo abandonada, mas não me parece ser essa a chave para o mistério que me desperta aquele local, e no entanto sei que tem a ver com o próprio local, mais do que com o que ali acontece.
Vou até ao salão, onde nenhum espectáculo ou actividade decorre agora, e olho o salão que é o coração dos “Artistas”. E é então, que me apercebo do tecto abaulado de madeira que me evoca de imediato o casco de um barco e me surge a poderosa imagem de um barco. Estranho!
Regresso ao bar e é também para o tecto que olho, mas o que vejo é o pano que o oculta, também ele abaulado, como que inflado de vento, e acentua-se essa estranha sensação de barco.
Casco, vela, deriva, que fazer com esta imagem?
Encosto-me ao balcão e quase ia jurar que o chão se movia num lento oscilar.
[…]
“Antes de publicado e comercializado um livro é apenas um projecto, um projecto que pode sofrer alterações, um projecto que pode até ficar sem efeito. Só quando está nas mãos do leitor é que o livro existe.”
[…]
“Ouvi-te na rádio.”
“Sim.”
“Pois.”
Francisco Aresta e Ângelo Durão olhavam-se mas não se viam. Curiosamente, apesar de bastante diferentes, assemelhavam-se muito, ambos calvos, ambos sérios, ambos senhores de olhares fixos e incómodos. Mas não se estranhe que se assemelhem, são muitas vezes mais as semelhanças do que as diferenças entre as pessoas, só que estamos determinados a procurar estas e não aquelas.
“Vais desistir?”
“O quê?”
“Ainda continuas a querer retirar o teu livro do mercado?”
“Não é o meu livro! É outro livro!”
São ambos determinados, mas de forma muito diversa. Francisco Aresta quer ser escritor, na verdade já o é, um bom escritor, mas quer ser reconhecido como tal, quer ser adorado, quer deixar obra. Ângelo Durão está-se nas tintas para essas coisas… Francisco Aresta escreve zangado. Ângelo Durão escreve, apenas, por necessidade.
“Mas vais continuar ou não? Cá para mim vais capitular.”
“Capitular?”
“Vais render-te, sei como é. O livro está aí, o teu romance, e está a vender… Começas a ser conhecido… Agora já podes desistir, não é? Já estás lançado.”
E Francisco Aresta riu as suas gargalhadas ásperas e dissonantes.
[…]
Saio de casa, numa manhã de Domingo, e percorro ruas vazias de carros até ao mercado. Aqui e ali as poucas pessoas que encontro aparecem-me mais nítidas, recortadas no silêncio e no torpor da cidade transfigurada.
[…]
“Não sei o que fazer.”
“Por que não deixas as coisas como estão?”
“Sabes que não posso fazê-lo.”
“Não podes? Claro que podes. É até o melhor que tens a fazer.”
“Nem pensar. Não posso. É impossível. Não vês que é assim?”
“Talvez se me explicasses…”
Olhou-o com insistência mas calou-se. Explicar o quê? Explicar-lhe que não podia deixar o livro por aí tal como estava? Explicar que isso o atormentava? Por que será que as coisas parecem mais reais quando lhes encontramos razões, por mais falsas que sejam?
[…]
Passeio o Egas, que me segue, contrariado. Teimoso, és mesmo teimoso, interpelo-o, e ele olha-me fixamente, sentado, imóvel. As pessoas que passam, falam-lhe, e a mim também. São na maior parte velhos e bêbados que nos falam como se falassem sozinhos. Um velho fala-nos do seu cão, que morreu há pouco tempo, com quinze anos. Diz que foram os dois deitar o lixo fora e, quando voltavam, naquele mesmo lugar, o cão parou e ficou a olhar o céu, como se rezasse, e ele percebeu que o cão ia morrer, e assim foi, morreu pouco depois. O velho olha-nos por momentos e continua … a falar. O Egas não parece impressionado.
[…]
“O romance que escrevi foi baseado na minha experiência, mas não posso dizê-lo autobiográfico.
Escrevi-o como senti necessidade de escrevê-lo, e é tudo.
Nunca pensei dedicar-me por inteiro à literatura, vivo no momento, quis apenas escrever um romance, e escrevi-o. Nem sequer pensei em publicá-lo, nem sei porquê, talvez não tivesse chegado ainda o momento.
Passou muito pouco tempo desde que eu dera por terminado o romance e, de repente o livro está publicado e à venda, mas não é o livro que eu escrevi, e sinto como se afinal nunca o tivesse terminado.
Não sei se voltarei a escrever. Acho que se escreve e depois tem de se voltar a viver. Escreve-se o que se vive. Pelo menos é assim que eu sinto.
Escrever é também viver, mas de uma forma diferente, e um dia é preciso voltar a viver, para que um dia possa talvez voltar a sentir necessidade de escrever.
No entanto, eu ainda me sinto como se não tivesse acabado de escrever o livro. Quero voltar a viver e não consigo.”
[…]
Desces a Rua Filipe Alistão, ao fundo viras à direita, em direcção à doca, ao jardim Manuel Bívar, e segues paralelo à linha do comboio, a pé.
Caminhas depressa e pensas que pensar claro é sobretudo não pensar, e continuas a caminhar depressa, na tentativa de cansar o corpo. É o corpo que pensa, tu sabes, e quando o cansas, pensa menos, logo pensará mais claro.
Continuas a seguir, ou melhor, continuas a acompanhar a linha do comboio. Ainda caminhas depressa e é então que pensas que ser livre, para ti, é agir de acordo com a tua consciência.
Há dias tinham-te perguntado, sem mais nem menos, o que era para ti ser livre e tu não foste capaz de responder. Estiveste quase a dizer que esperavas que as tuas acções, mais do que as tuas palavras, respondessem a essa pergunta, mas calaste-te.
Não te lembraste então, mas lembraste agora, daquela frase que diz (será de Sartre?) estarmos condenados à liberdade. A liberdade não é uma dádiva. Por isso, cansado como estás, a ideia de que ser livre é agir de acordo com a tua consciência, parece-te o melhor que podes dizer com palavras.
[…]
Recapitulando:
- No final do mês de Dezembro de 2006, Rosa envia o romance de Ângelo Durão a concurso.
- Em Março de 2007 é anunciado publicamente que o romance ganhara o prémio.
- No mês de Julho seguinte, Ângelo Durão comparece numa sessão de autógrafos e descobre afinal que a versão publicada não é a sua versão final do romance.
[…]
“Escrevo com os recursos de que disponho. Não são muitos mas terão de ser suficientes para escrever o que tenho de escrever. Muitos escritores escrevem cada vez melhor – sei que o poderia fazer – mas têm cada vez menos para dizer. Escrever bem não é suficiente, o importante é escrever o que se tem para dizer.”
[…]
[…]
Mais tarde apareceria com frequência na televisão e nos jornais, mas nem por isso se saberia muito sobre ele, a não ser que tinha escrito um romance e que se opunha à sua venda.
O escritor pouco ou nada dizia sobre si e sobre o seu romance, e proferia quase sempre as mesmas afirmações, sempre secas e muitas vezes ambíguas. Não fosse a sua exuberância e o invulgar das suas pretensões e nunca teria atingido a notoriedade que veio a alcançar. No entanto, como em muitas situações idênticas nos dias de hoje, a sua notoriedade não seguiu a par do reconhecimento das suas pretensões. Na maior parte das vezes, só se interessavam pelo que ele fazia e dizia porque era espectáculo, assustava e divertia ao mesmo tempo os espectadores; e os diversos canais de televisão foram os principais responsáveis pela divulgação da sua mensagem, produzindo imensos equívocos e nenhuns esclarecimentos, e muito do que aconteceu é sem dúvida da sua responsabilidade. Sem eles o escritor teria sem dúvida passado despercebido.
A primeira acção do escritor que chamou a atenção dos meios de comunicação foi quando permaneceu vários dias à porta da sede da sua editora, ostentando um cartaz que dizia, com um laconismo que passou a ser seu apanágio: Destruam os livros. Uma fotografia publicada então, e que voltou a surgir de vez em quando em vários jornais, mostrava o escritor sentado nos degraus da entrada de um prédio velho onde ficava a sede da editora, um cartaz pousado sobre o colo, a frase curta e ambígua oferecendo-se à fotografia, num eco do seu rosto triste e da sua mirada fixa, que parecia apontar directamente para a câmara quando na verdade não olhava coisa alguma.
O escritor era um homem determinado, mas as suas determinações, embora claras, expressavam-se muitas vezes de forma confusa, o que poderá explicar porque foi sempre tão mal compreendido, sobretudo por quem queria compreendê-lo, por quem queria segui-lo.
Esteve mais de um dia sentado à porta da editora, até que um jornalista deu por ele e o fez chegar pela primeira vez às páginas dos jornais. Esse jornalista, que continuou a segui-lo a partir daí, foi talvez o grande responsável pela notoriedade que o escritor veio a atingir, mas naquele dia apenas o divertiu a visão daquele homem sentado como um pedinte, ostentando aquela estranha e apocalíptica mensagem. Tinha estado a almoçar com uma amiga, publicitária e fotógrafa nas horas livres, e dirigiam-se para o carro quando se depararam com o escritor.
“Não queres tirar-lhe uma fotografia?”, disse-lhe ele sorrindo, ao mesmo tempo que se aproximava do homem e lhe perguntava:
“O que faz aqui? O que é que pretende?”
O jornalista falou como se fala aos loucos e às crianças, pausadamente, e também em voz alta, como se o outro tivesse dificuldade em ouvi-lo. O escritor olhou-o, com os olhos muito abertos e o rosto inexpressivo onde apenas um pequeno brilho no olhar poderia indicar um sorriso, e limitou-se a apontar para a placa pequena e encardida que anunciava a editora, ali mesmo ao lado.
“Está a protestar contra a editora?”, perguntou, e o escritor respondeu que sim, que estava a protestar contra a editora, usando a pergunta do outro na resposta, como fazem as crianças em idade escolar quando respondem por escrito a uma pergunta.
“E o que pretende?”, perguntou ainda o jornalista, e o escritor apontou agora para o cartaz: Destruam os livros.
O jornalista olhou ainda para o escritor, de cima para baixo, olhou para a amiga, também de cima para baixo, afastou-se um pouco quando viu que ela estava a tirar fotografias, e ficou a olhá-la, a pensar como a desejava e que o melhor era levá-la para a cama antes que ela mudasse de opinião, como já acontecera noutras vezes, e nesse momento perdeu o interesse pelo escritor e só se lembrou dele quando viu a fotografia que ela lhe mandou, dias depois, já o escritor abandonara a porta da editora, o que o jornalista confirmou quando ali se deslocou.
Mas o que poderia ter sido o fim, foi afinal o princípio, pois o jornalista escreveu um pequeno texto que foi publicado juntamente com a fotografia, e que pela primeira vez chamou a atenção para o escritor e para a sua causa. Não menos importante, o jornalista falou com editor e interessou-se pela história do escritor.
Inicialmente soube pouco, muito pouco, soube o que apenas o que ainda hoje muitos apenas sabem, soube o seu nome, soube que tinha escrito um romance e que se opunha à sua venda, mas foi o suficiente para querer saber mais.
[…]
Ângelo Durão explicava-se muito pouco, e essa atitude contribuiu para aumentar o mistério à sua volta, ao mesmo tempo que impediu que se compreendesse o que queria e o que defendia.
Nas muitas entrevistas que deu, quase nada disse sobre si mesmo e sobre o seu romance, e apesar de muitas vezes quem o entrevistou não ter estado minimamente interessado em saber o que quer que fosse, outras vezes não aconteceu dessa forma, mas o resultado foi o mesmo. O Ângelo Durão calava-se, a maior parte das vezes, ou então respondia ao lado. E então passaram a falar por ele. Toda a gente falava por ele, tinha toda uma corte que passou de certa forma a viver à conta da sua notoriedade e que, no seu silêncio, falavam por ele.
Não quero também eu falar por ele, por isso deixarei que ele fale nestas páginas, sempre que quiser, e se muitas vezes só posso imaginar o que ele diria, tenho a certeza que o farei com verdade.
Conheço-o melhor do que todos aqueles que se habituaram a falar por ele, e ainda que muito pouco ele tenha falado comigo sobre si mesmo e sobre o seu romance, isso não impediu que nos entendêssemos. Conheço-o, se assim o posso dizer, para além das palavras.
[…]
“Porquê? Porquê? Porquê?
Mas por que será que procuramos sempre uma razão para tudo o que fazemos? É verdade que muitas vezes existem razões óbvias para o que fazemos. E também é verdade que se procurarmos razões para o que fazemos, acabaremos sempre por encontrá-las. Mas serão, a maior parte das vezes, falsas razões, porque para muito do que fazemos simplesmente não existem razões. Porque amamos? Porque amamos esta e não aquela pessoa? Porque deixamos de amar? Porque escrevemos? Porque continuamos a amar? Porque são umas coisas tão importantes e outras nem por isso?
Raramente procuro razões e, sobretudo, não deixo que elas me confundam ou me envergonhem. Esforço-me apenas por fazer o que tem de ser feito. O que é importante para mim. E para que o seja, para que eu saiba que assim é, não preciso de encontrar uma razão para que assim seja. Aliás, não acho que existam verdadeiras razões para fazermos o que fazemos.
Muitas vezes existem mas é razões para não fazermos o que temos de fazer, razões que inventamos a todo o momento para não sermos afinal quem somos.”
[…]
“Gostaste da fotografia?”
“Gostei bastante. Vou usá-la. O artigo deve ser publicado amanhã. Depois envio-te. Sabes que ele é escritor?”
“Sabia que era um artista.”
“Um artista como tu?”
Nunca era ela que lhe telefonava, era sempre Henrique, no entanto ele achava que ela gostava dele, e continuava a insistir sem saber bem porquê, nem o que sentia por ela. Era uma mulher estranha, pensava Henrique, mas Henrique achava todas as mulheres estranhas, assim como todos os homens. E as piores são aquelas com nome de flor, costumava-lhe dizer, e Rosa sorria e chamava-lhe tolo. Já não eram crianças, na verdade tinham já ultrapassado os quarenta anos, tinham filhos e mantinham casamentos e empregos de que não gostavam por aí além, mas que estavam longe de detestar. Rosa fotografava, para si, como dizia, e era o modelo da maior parte das suas fotografias, acusavam-na de ser narcisista, de produzir fotografias ingénuas e sensaboronas.
“O que queres dizer com um artista como eu?”
“Sabes que se diz que só um maluco conhece outro maluco!”
Rosa sorriu. Já estavam a olhar para ela. Não podia atender o telefone na sala de trabalho que ficavam logo a olhar para ela.
“Ele é escritor, chama-se Ângelo Durão, ganhou um prémio importante com o seu primeiro romance e, agora que o romance foi publicado, exige que todos os exemplares sejam retirados do mercado.”
“Interessante. E em que é que o achas parecido comigo?”
Henrique riu. Ia a subir a Avenida onde ficava a sede do jornal onde trabalhava há vários anos. Gostava de telefonar-lhe quando ia a andar na rua, talvez porque ninguém o interrompesse nessa situação, talvez porque gostasse de andar e falar: às vezes até o fazia sozinho.
“Parece ser um homem determinado, este Ângelo Durão, mais preocupado em fazer a sua arte do que em divulgá-la. Disseram-me que não foi ele a enviar o romance a concurso, mas uma amiga, ou uma namorada; se assim não fosse nunca teria concorrido.”
“Começo a gostar dele, mas senti isso tudo quando tirei a fotografia, foi como fotografar-me a mim mesma.”
Rosa dizia sempre que se fotografava a si mesma porque era o único modelo que tinha à sua disposição. Era tímida, nunca quereria incomodar outra pessoa pedindo-lhe que posasse, e as suas fotografias exigiam uma certa imobilidade.
Henrique discordava, dizia que o motivo devia ser outro, ainda que não perdesse tempo a procurá-lo, parecia-lhe inútil. A força das fotografias de Rosa estava nessa exposição de si própria e numa intensa e ambígua intimidade que assim conseguia. Ela estava inteira nas suas fotografias, ou pelo menos parecia estar. O que Henrique não concordava é que ela se preocupasse tão pouco com mostrar o seu trabalho, que fotografasse praticamente só para si. Mas tinha já desistido.
“É maluco como tu.”
Ela riu e ele repetiu a frase.
“É maluco como tu!”
Havia tanto nela que não compreendia, pensou Henrique, e talvez por isso ela lhe interessasse tanto, tal como este Ângelo Durão.
“E como se chama o livro?”
“O livro? Qual o livro? Ah, o livro do Ângelo Durão. Uma pergunta desnecessária.”
“O quê?”
“Uma pergunta desnecessária, o livro chama-se Uma pergunta desnecessária.”
“Ah! Um óptimo título. Já leste?”
“Não, ainda não li, nem sei se vou ler, interessa-me mais o escritor do que o seu livro.”
“Não sabes que a obra é sempre mais importante que o seu autor?”
“Estás a ver, isso era o tipo de coisa que eu acho que o Ângelo Durão diria.”
Rosa riu-se de novo. Henrique fazia-a rir, fazia-a sempre rir. Às vezes interrogava-se se não seria por isso que gostava tanto dele. E no entanto.
“Tens o livro?”
“Sim, tenho… Sabes o que podias fazer? Lias o livro e depois dizias-me alguma coisa. Olha, estou a chegar, depois falamos. Vou fazer chegar-te o livro o mais rápido possível. Adorei a fotografia.”
Desligou o telefone e só depois murmurou: “Adoro-te.”
Rosa sorria ainda, como se o ouvisse.
[…]
“O livro tinha cerca de 60 capítulos numerados, mas apenas um, o penúltimo na versão publicada, tinha um título, o mesmo do romance. Tal como nunca lhe fiz outras perguntas sobre o livro e sobre a sua vida de escritor, também nunca lhe perguntei a razão porque só um capítulo tinha título e esse título era precisamente o mesmo do romance.
Sei que são coisas que acontecem porque têm de acontecer, são coisas do ofício que qualquer escritor sabe que são mesmo assim, e nunca lhe perguntaria tal coisa, mas esta era uma pergunta que lhe faziam muitas vezes, para além, é claro, da pergunta mais frequente sobre que diferença fazia afinal mais uma ou duas páginas no romance, ainda por cima quando era para diminuir e não para aumentar. Ele olhava o interlocutor em silêncio por muito tempo, tanto tempo que normalmente lhe repetiam a pergunta, e ele respondia como sempre respondia, falando do que queria falar.”
[…]
“Gostaste do livro?”, perguntou Henrique quando se encontraram de novo, ainda antes de se beijarem.
“Não me perguntas antes se o li?”, respondeu ela sorrindo, e beijou-o na boca, com um daqueles beijos agrestes que ele descrevia como bicadas de ave.
“Sei que o leste!”, disse Henrique.
“Li o livro numa noite. Só consegui parar quando cheguei ao fim”.
Ele olhou-a nos olhos, à espera de uma resposta, as suas mãos ainda nos seus ombros, o seu rosto perto do dela, a cabeça ligeiramente erguida, como se lhe aspirasse o cheiro.
“Acho que deviam retirar o livro do mercado.”
Henrique sorriu, mas não comentou. “Vamos jantar ou queres ir já para o hotel?”.
Rosa sorriu também e despenteou-lhe os cabelos com as mãos. “Gosto quando te fazes caro”.
[…]
“Antes de começar a escrever o seu primeiro e último romance, não saberia dizer se estava meio morto ou meio vivo, e essa sensação não desapareceu depois, mas umas vezes sentia-se quase vivo e outras quase morto, até que chegou ao fim e, tal como a personagem principal, decidiu-se primeiro pela morte e só depois, várias semanas depois, se decidiu pela vida. A versão enviada a concurso foi a primeira, e foi esta que veio afinal a ser publicada contra a vontade expressa do seu autor.”
[…]
“Fui contactado por um jornalista, um tal Henrique Catarino, diz que quer falar comigo, que me pode ajudar. O que achas?”
O escritor olhou-o mas não esperava uma resposta. Já se tinha decidido e sabia que o amigo não se ia recusar.
“Disse que podia falar contigo. Sabes que detesto falar de mim, sabes mais de mim do que eu próprio e, o que não souberes, podes sempre inventar.”
O escritor estava vestido de preto, como sempre, e o branco da sua pele contrastando com o negro da roupa, bem como o seu semblante triste, dava-lhe um ar de personagem de filme mudo, cómica e trágica ao mesmo tempo, o mesmo ar que a fotografia publicada há dias respirava.
“Mas não vais falar com ele?”
“Fala tu, faz-me esse favor. Podes dizer o que quiseres. Vê lá que o tipo me disse que estava mais interessado na minha pessoa do que no meu livro. E eu a perguntar-lhe se lera o meu livro. E ele a responder-me isso. Se lesse o meu livro não precisaria de me fazer perguntas. O meu livro sou eu.”
Levantara-se e falava em voz bastante alta, todo o discurso sublinhado por gestos exuberantes. De nada serviria o amigo pedir-lhe que se sentasse, pois sempre que se entusiasmava, levantava-se, ao ponto de o amigo lhe ter perguntado uma vez se também escrevia de pé. O escritor abrira muito os olhos, o rosto sério, numa expressão que o amigo sabia ser o mais próximo de um sorriso, e respondeu que infelizmente só escrevia sentado, o que era muito aborrecido e desinteressante.
“O meu livro sou eu. Porque não o lê?”
Mais tarde juntar-se-ia gente à volta dele, a ouvi-lo, reconheciam-no com facilidade, mas as poucas pessoas que então estavam na esplanada do café atrás da Sé olharam-no com desconforto e censura.
“Está bem, eu falo com ele, não há problema. Posso dizer o que quiser?”
“De preferência. Diz tudo o que quiseres, estou-me nas tintas, até podes dizer a verdade.”
A verdade, a verdade é que ele se estava nas tintas, estava-se nas tintas ao mesmo que dava uma enorme importância às coisas, a algumas coisas, as mesmas coisas para que, doutro ponto de vista, se estava nas tintas.
[…]
“Então concordas com o Ângelo Durão?”
“Não sei se concordo com ele ou não, nem me interessa, o que sei é que se ele quer que seja assim, e a sua vontade deve ser respeitada.”
“Dizes isso como artista ou como leitora?”
Rosa riu-se.
“É o que penso. Se ele diz que quer que o livro seja retirado é isso que deve ser feito. É preciso não esquecer que ele foi publicado, na sua actual forma, contra a sua vontade. Há coisas que fazemos porque temos de fazer, e ele não quer que o livro exista como está.”
“E no entanto ele existe!”, disse Henrique, ao mesmo tempo que acendia um cigarro.
“Não tinhas deixado de fumar?”
“Há coisas que fazemos porque temos de as fazer”, respondeu Henrique, expelindo uma longa nuvem de fumo na sua direcção.
Ela estava a acabar de se vestir e ele continuava na cama, em cuecas, como se estivesse em casa, e não num quarto de hotel. Rosa acabou de calçar os sapatos, agarrou a mala de mão, olhou-se ainda mais uma vez no espelho, acenou-lhe e saiu do quarto. Eram horas de ir para casa.
[…]
“Ele escreveu o romance, o seu primeiro romance, e escreveu-o por necessidade, a simples necessidade de escrevê-lo, e ainda que o tenha escrito para ser lido, como afinal todos os escritores fazem, escreveu-o sobretudo para si mesmo, e aqui é que tudo se começa a complicar, porque ele nunca pensou publicar o romance, ainda que também nunca se tenha realmente oposto a que tal acontecesse. Foi a Ana, a sua companheira, que enviou o romance a concurso, enviou-o praticamente no último dia do prazo, sem que ele soubesse, sem lhe pedir autorização, mas a verdade é que se lhe tivesse pedido ele não se teria oposto, tal como não se opôs quando soube que recebera o prémio. O dinheiro fazia-lhe falta, e sentiu-se feliz pela felicidade do livro pois, como ele dizia, um livro que não é lido é um livro infeliz. Mas estou a complicar o que é simples, como diria o Ângelo Durão, as coisas são como são, e mais depressa Lisboa será a capital de Espanha do que eu conseguirei desta forma explicar o que quer que seja sobre ele.”
[…]
“Não consigo perceber porque te interessaste tanto pelo Ângelo Durão.”
“Estás com ciúmes?”
“Talvez”, disse ela, e repetiu ainda: “Talvez.”
Henrique beijou-a de leve nos lábios, como gostava de fazer, e encostou o seu corpo ao dela, sentindo-a colar-se ao seu.
“Nunca me interessei tanto por alguém como por ti”, disse-lhe ao ouvido, e ela respondeu da mesma forma, a sua boca encostada ao ouvido dele, num sussurro: “Tens um fraco por casos perdidos.”
E empurrou-o para longe de si, às gargalhadas. Henrique riu também.
“É verdade, mas…” E ia dizer, mas é a ti que eu amo, mas calou-se. Talvez ela tivesse razão, talvez ela fosse um caso perdido. Como o Ângelo Durão…
[…]
E um dia ela telefonou-lhe…
“Olá.”
“Olá.”
“Li os teus artigos sobre o Ângelo Durão.”
“E…”
“Pareceu-me que falavas de mim, e não dele.”
“É porque vocês dois são muito parecidos, em alguns aspectos.”
“Talvez, mas isso não impede que estivesses a falar de mim, ainda que a falar dele. Senti que era assim. Aliás, sei que é assim.”
“Não estou a perceber!”
“O que dizes do Ângelo Durão é o que poderias dizer de mim, se ousasses. O que te atrai no Ângelo Durão, assim como o que te afasta dele, é também, percebi agora, o que em mim te atrai e o que de mim te afasta.”
“Não digas disparates, florzinha.”
“Sei que é assim. É escusado argumentares. Percebi finalmente. Estou zangada.”
“Porquê?”
“Porquê?”
“Sim, porquê?”
“Não me perguntes porquê. Nunca me perguntes porquê!”
E, antes que ele tivesse tempo de responder, ela desligou.
[…]
penso-sinto-pressinto que
o que de ti me aproxima
é o mesmo que
de mim te afasta
mas não será esta afinal
a natureza própria
do amor?
o que de ti me aproxima
é o mesmo que
de mim te afasta
mas não será esta afinal
a natureza própria
do amor?
[…]
Rosa e Ângelo Durão eram parecidos em muitos aspectos, disse Henrique, mas bem poderia ter dito o mesmo dele e de Ana e, de uma ou de outra forma não teria andado longe da verdade, uma vez que ainda que as pessoas sejam diferentes, os seus sentimentos e as suas acções são muitas vezes os mesmos, logo semelhantes. Assim era com Rosa e Ângelo Durão, assim era com Henrique e Ana, pois se as pessoas se assemelham, ainda mais se assemelham as relações que se estabelecem entre elas; Rosa e Ângelo Durão, Henrique e Ana, ou melhor, Rosa e Henrique, Ana e Ângelo Durão.
Henrique queria saber porquê. Queria saber por que cargas de água Rosa não participava em exposições, por que não dava a conhecer as suas fotografias. Rosa respondia-lhe que não precisava, não sentia essa necessidade, que o importante era tão só fazer as fotografias.
Ana queria saber porquê. Queria saber por que motivo Ângelo Durão não parecia interessado em publicar o livro, por que razão nada fazia para o dar a conhecer. Ângelo Durão respondia-lhe que não sentia essa necessidade, que o importante tinha sido escrever o livro.
Henrique queria saber porquê. Ana queria saber porquê. E como nem Rosa nem Ângelo Durão se explicavam, um e outro decidiram fazer o que eles não faziam.
Henrique falou com amigos e conhecidos e conseguiu-lhe duas exposições, uma em Lisboa e outra no Porto, em galerias pequenas mas com bastantes relacionamentos. Rosa preparou tudo, deu o seu melhor, venceu a sua timidez estrutural, como dizia Henrique, mas no final ainda mais se convenceu da inutilidade de tudo aquilo, e a partir daí recusou todas as propostas que lhe fizeram, afirmando de forma categórica que não queria voltar ouvir a falar sobre isso.
Ana tirou cópias do romance e enviou-as para um dos concursos literários mais importantes, com um prémio chorudo em dinheiro e garantia de publicação. Quando o romance ganhou o prémio, Ana pensou que Ângelo Durão ficaria feliz, que Ângelo Durão mudaria, mas ele nem compareceu na cerimónia e até se zangou com ela por o ter tentado convencer a ir.
- Mas porquê? – disse Henrique, e ela respondeu-lhe com firmeza, das mesma forma que sempre respondia a essa pergunta:
- Não me perguntes porquê. Não interessa porquê. Não existe porquê.
- Mas porquê? – disse Ana, e ele respondeu-lhe com firmeza, da mesma forma que sempre respondia a essa pergunta:
- Não me perguntes porquê. Não me interessam os porquês. Estou-me a cagar para os porquês.
Mais tarde, estavam já separados, quando Ângelo Durão, que nem tinha aberto a encomenda que a editora lhe enviara, aceitou estar presente no lançamento do livro na feira da cidade onde residia.
[…]
Ele falava pouco, muito pouco, e não gostava que lhe fizessem perguntas, sobretudo sobre o romance e as circunstâncias em que o escrevera; por isso calava-se, a maior parte das vezes, ou então respondia a primeira coisa que lhe vinha à cabeça, e era o conjunto dessas duas possibilidades que fazia que todas as conversas com ele fossem sempre acontecimentos memoráveis e inesperados.
Todos mentimos, de forma deliberada, uma ou outra vez, quando nos dá jeito, mas essa não era a razão porque ele não dizia a verdade, mas apenas porque a verdade exigia muito dele, muito mais do que dizer a primeira coisa que lhe viesse à cabeça.
Essa fora aliás a forma como escrevera o romance, escrevendo tudo o que lhe viera à cabeça, como ele me confidenciou uma vez, quando não resisti e lhe perguntei como o escrevera.
“Escrevi a primeira coisa que me veio à cabeça, página após página, e foi assim que cheguei ao fim do romance”, disse-me ele após um longo silêncio que se seguiu à minha pergunta.
E depois calou-se, e eu não insisti, mas alguns minutos depois acrescentou:
- O pior foi depois.
Fiquei à espera que continuasse, mas não disse mais nada, nem mesmo quando eu repeti a sua afirmação em jeito de incentivo:
- O pior foi depois?
Não quer dizer que às vezes não respondesse com verdade, mas, a mesma pergunta, como pude comprovar várias vezes, colocada em ocasiões diversas, nunca recebia a mesma resposta, o que tornava quase impossível chegar a uma qualquer conclusão sobre a sua vida e a sua obra com base apenas nas suas declarações.
Não dizia a primeira coisa que lhe vinha á cabeça para enganar quem quer que fosse, nem para ocultar o que quer que fosse, apenas não gostava de falar de si aos outros e ainda menos gostava de ser objectivo, de se esforçar por ser objectivo, para ele uma forma como qualquer outra de não dizer a verdade; mas como os outros esperavam dele uma resposta, esperavam-na cada vez mais, então ele dizia a primeira coisa que lhe vinha à cabeça e, verdade seja dita, embora detestasse mentir, ele bom a inventar e adorava fazê-lo.
Assim, se não dizia a verdade, também não mentia, pelo menos de forma deliberada e constante, de acordo com um padrão, pelo que também não é possível chegar à verdade da sua vida e da sua obra através da análise das suas mentiras, como se pode fazer com a maior parte das pessoas que têm algo a esconder e, por isso, mentem deliberadamente e adulteram a verdade de acordo com um plano determinado.
Ele nada tinha a esconder e nem mesmo pretendia dar uma certa imagem de si próprio, tudo nele era verdade, mesmo quando não o era. Talvez por isso tenha despertado a atenção de tanta gente: era um mistério que resistia a qualquer explicação, mas que, talvez por isso mesmo, se oferecia ao mesmo tempo a todas as interpretações.
Por isso uns achavam-no autêntico, genuíno, pelos mesmos motivos que outros o consideravam uma fraude, uma invenção publicitária. Por isso uns achavam-no um completo génio, pelos mesmos motivos que outros o consideravam um perfeito idiota. Por isso uns diziam-no apenas mestre e outros julgavam-no um mero oportunista.
Perante tudo isto só posso fazer como ele, escrever o que me vier á cabeça, na esperança, como ele me disse um dia, de assim dizer a verdade, porque é da nossa natureza dizer a verdade, sobretudo quando mentimos.
[…]
Se a fotografia tirada por Rosa, que o mostrava sentado nos degraus de um prédio velho, como um pedinte, ostentando um pequeno cartaz escrito à mão em letras de imprensa, com uma ambígua e misteriosa mensagem, se tornou famosa e foi diversas vezes utilizada, o mesmo aconteceu com outra fotografia, tirada uns meses mais tarde, já não de forma ocasional, mas de acordo com marcação prévia e já não com um fotógrafo amador, mas com um profissional. Curiosamente, o fotógrafo tinha sido amante de Rosa, mas ela não teve nada a ver com a sua escolha, pois se ela poderia tê-lo sugerido a Henrique, não foi no entanto este que combinou a sessão, mas um seu concorrente, que resolveu quebrar a inicial exclusividade de Henrique e explorar o filão. Ângelo Durão começava a aparecer cada vez mais nos jornais e já fizera uma tímida aparição na televisão, num programa sobre livros visto por meia dúzia, onde exigira que a editora retirasse imediatamente o seu livro do mercado.
O director do programa, também ele escritor, afirmara-se a favor das pretensões de Ângelo Durão, mas confrontara-o com a direito dos leitores a ler aquele magnífico livro, ao que Ângelo Durão lhe respondera, após um breve silêncio inicial, que escrevera o seu romance para os outros ainda que o tivesse escrito para si mesmo, todos os livros são pontos de encontro, mas a questão primeira era outra, escrever o romance tinha sido para ele uma autêntica cena de porrada, em que ele tivera de fazer sair de si algo que se opunha a sair, que resistia a ser escrito, obrigando a um enorme esforço da sua parte, até chegar ao livro tal como ele o queria, ao livro tal como ele era, e não era esse livro que aí estava, o livro que lhe tinha dado tanto trabalho a encontrar.
E acrescentou, a terminar, antes de se remeter de novo ao silêncio, que não era daqueles gajos que se sentam e escrevem à primeira, ele não era desses gajos. E quando o director do programa, ainda procurando o confronto, lhe perguntou se afinal fazia tanta diferença duas ou três páginas, Ângelo Durão olhou-o entre a credulidade e a raiva e não lhe respondeu. Curiosamente, nesse momento a câmara sublinhou o seu silêncio com um grande plano dramático, grande plano que pareceu antecipar a fotografia que veio a ser escolhida na sessão de fotografia realizada num café da baixa lisboeta onde o poeta Fernando Pessoa costumava beber um copo.
A fotografia escolhida, uma das muitas que o fotógrafo tirou sem parar nos vinte minutos que durou a sessão, mostrava o seu rosto imenso, como uma enorme lua, revelando o seu rosto ao mesmo tempo que o escondia, tal era a nitidez com que surgia, dando importância a cada poro, a cada sinal, a cada pequena imperfeição, ao mesmo tempo que o rosto surgia enorme, incapaz de ser contido no rectângulo erecto que se esforçava por o subjugar. Era uma fotografia poderosa e que revelava muita da força e da fraqueza do escritor. O fotógrafo fora se aproximando do escritor, pouco a pouco, fotografando sempre, suando cada vez mais, como se o acossasse, e no final estava praticamente em cima dele, enorme, subindo e descendo a uma cadeira que colocara ao seu lado. Ângelo Durão olhava em frente, tentando ignorar o fotógrafo, mas pressentia a sua perturbação, o seu cheiro, e sentia-se cada vez mais nauseado. A certa altura olhou directamente a câmara, o seu rosto numa expressão mista de raiva e de desespero, e foi essa fotografia que veio a ser escolhida e apareceu a preto e branco, completada por uma afirmação idêntica à que proferira no programa de televisão e repetira na entrevista:
“Não sou daqueles gajos que se sentam e escrevem à primeira; para mim, escrever é uma verdadeira cena de porrada. A maior parte das vezes levo na tromba.”
A fotografia e a frase formavam um conjunto magnífico e criaram-lhe uma imagem toda-poderosa, que ele não procurou, é certo, mas a que não conseguiu fugir a partir daí, a de um escritor amargurado mas determinado que olhava o acto de escrever como uma profissão de fé.
[…]
Entrou na livraria da Rua de Santo António sem qualquer propósito, apenas para espreitar os livros, como era seu hábito, mas lembrou-se do seu romance e procurou-o na estante dos autores portugueses. Não o encontrou, e poderia ter ficado por ali, mas acabou por perguntar por ele ao jovem atrás do pequeno balcão a um canto da livraria.
“Está esgotado”, disse o rapaz de cabelo espetado e um sem fim de pequenas argolas que lhe seguiam o contorno da orelha direita.
“Esgotado?”
“Sim, completamente, depois que rebentou a polémica venderam-se todos, não temos nem um em qualquer das nossas livrarias. Mas fala-se numa segunda edição para breve.”
“O quê, uma segunda edição? Nem pensar. Qual segunda edição nem segunda edição. Uma segunda edição, o caralho!”
O outro olhou-o com atenção, num clarão súbito de reconhecimento: “Você é o autor, não é?”
O escritor olhou o jovem, em sinal de desafio, mas já o outro lhe estendia a mão: “Não li o seu romance, mas simpatizo com as suas razões. Está de parabéns. O que vai fazer a seguir?”
O escritor apertou-lhe a mão, lançou-lhe a sua mirada fixa, mas continuou a não lhe responder.
“É preciso que de vez em quando alguém conteste a ordem estabelecida no mercado dos livros em Portugal. Está tudo errado, não é?”
“Faz muito bem em se insurgir. Estou do seu lado!”, continuou perante o silêncio do escritor.
“Uma segunda edição! Igual à primeira, claro está, pois… Só por cima do meu cadáver!”
E dito isto, aos gritos, o escritor saiu da livraria sem ter chegado a responder ao seu interlocutor.
[…]
Nunca vos aconteceu verem de repente algo que esteve sempre à vista, mas que antes, por qualquer estranho motivo, nunca tinham conseguido ver?
Estou certo que sim. Acontece a todos.
[…]
[…]
Estava em casa, com um exemplar do seu livro na mão direita e olhava-o, sem o abrir, ora a capa ora a contracapa, como se faz diante de um problema a que não se encontra a solução, por mais que se tente. E pousava-o em cima da mesa, e ia até à janela, e voltava atrás e olhava-o de novo, sempre sem o abrir, e pousava-o de novo e de novo saía da sala, e voltava, repetindo tudo, como se o livro ele mesmo lhe colocasse a pergunta a que ele não conseguia responder.
Mas a certa altura abriu o livro, as duas folhas que formavam o último capítulo seguras entre o indicador e o polegar da mão direita, procurou o ponto mais próximo da lombada e, de cima para baixo, sem pensar o que fazia, arrancou-as de uma só vez com um sorriso aberto de epifania.
Tinha encontrado a solução perfeita para restituir ao seu romance toda a verdade que lhe estava a ser negada.
[…]
Atravessou a cidade a pé, de uma saída a outra, até ao centro comercial à estrada principal da cidade, o que fez em cerca de vinte minutos, tempo que era suficiente para chegar, segundo ele afirmava, ao ponto mais distante da cidade, de onde quer que se encontrasse.
Andava sempre a pé e andava muito, pelo que muitos o conheciam só de o ver passar no seu passo sacudido e hirto. Andava sempre muito direito, parecia que tinha engolido um garfo, diziam alguns, e deslocava-se como se não tivesse articulações nas pernas, pelo que parecia um robot, diziam outros.
Subiu a avenida, desceu a avenida, tomou um atalho, atravessou um terreno baldio, saltou um muro e chegou ao parque de estacionamento ao ar livre do centro comercial; atravessou o parque de estacionamento e entrou na zona comercial, à sua direita, a livraria. Entrou e subiu ao primeiro andar, onde estavam os livros de autores de língua portuguesa. Da estante tirou os dois exemplares do seu livro que ali se encontravam e ficou a olhá-los por momentos; depois passeou o olhar em redor, distraidamente, e foi sentar-se num dos dois sofás vermelhos de linhas direitas que se encontravam à entrada, de costas um para o outro.
Abriu um dos livros nas últimas páginas, procurou o ponto mais próximo da lombada, segurou-as entre o indicador e o polegar da mão direita e arrancou-as lentamente, com esforço. As folhas pareciam resistir, o rasgão avançava de forma irregular, precisou parar e recomeçar várias vezes.
Pousou o livro no colo, amassou as folhas rapidamente e escondeu-as entre a sua perna e o braço do sofá. Olhou em redor, ficou à escuta. Só lá em baixo se ouviam vozes. Agarrou no segundo exemplar, segurou entre o indicador e o polegar da mão direita as últimas folhas do livro, procurou o ponto mais próximo da lombada e, de cima para baixo, num gesto decidido, arrancou-as de uma só vez.
Levantou-se, colocou os livros de novo na estante e saiu da livraria no seu passo sacudido e hirto.
[…]
“Mas o que pensas fazer? Ir a todas as livrarias e rasgar as últimas páginas de todos os exemplares do teu livro?”
Olhou-o incrédulo, mas Ângelo Durão estava feliz e determinado, o que se adivinhava pelo quase sorriso que lhe tomava conta do rosto.
“Nada disso, só rasguei os livros para ver se era fácil fazê-lo.”
E olhou intensamente o outro, em silêncio, como se não fosse necessário explicar.
“É fácil, qualquer um pode fazê-lo”, disse finalmente.
O outro olhava-o mas não via. Do que é que ele estará a falar?
“Vou pedir que rasguem as últimas folhas do livro.”
“Pedir a quem?”
“Aos meus leitores, a todos os que estão do meu lado.”
“Pedir como?”
“Vou à televisão, aos jornais, vou entrar em campanha.”
E Ângelo Durão sorria, e Ângelo Durão ria, mas eram as mesmas gargalhadas longas e ásperas de sempre.
[…]
Ângelo Durão foi à televisão, a um daqueles programas que enchem as manhãs de segunda a sexta, e ficou sentado entre uma mulher maltratada e um operário despedido, numa lógica que lhe escapou, mas a que não deu qualquer importância.
Como disse pouco depois Francisco Aresta, aquilo não fazia sentido, mas também não era de esperar que aqueles programas fizessem sentido. Um chorrilho de disparates, ou até de coisas sérias, mas tratadas como se fossem disparates, continuou Francisco Aresta, mas Ângelo Durão estava ainda no programa ou, pelo menos, passava mais uma vez na sua cabeça o filme da sua participação.
O apresentador era um homem que Ângelo Durão via na televisão há anos, e que parecia tanto mais novo quanto mais anos passavam, cada vez mais exuberante e sorridente. Havia risos, havia palmas, havia música, e Ângelo Durão por ali ficou, sentado entre a mulher de meia-idade e o operário barbado, olhando tudo com a sua mirada fixa e melancólica.
Não sabia por que raio o tinham convidado, mas também não perdeu tempo a interrogar-se porquê, aceitou de imediato, vinha mesmo a calhar, o programa era mais visto que qualquer telejornal e pareceu-lhe perfeito para o que tinha de fazer. Não hesitou nem por um momento, nem mesmo quando Francisco Aresta, apesar se dizer do seu lado, o tentou convencer a desistir.
“Pensa bem nisso, talvez estejas a ir demasiado longe”, disse Francisco Aresta, mas Ângelo Durão já estava a pensar como iria fazer o que sabia que ia fazer, e apenas lhe disse, mais para o calar do que porque se importasse com isso: “Queres ir comigo?”
“Sim, claro que vou. Estou contigo. Que se fodam os editores!”
E naquele dia, Francisco Aresta estava lá, nos bastidores e viu tudo em primeira-mão, como os milhares de pessoas que estavam a assistir ao programa.
“Ângelo Durão, você é escritor”, disse o apresentador com um sorriso aberto, “e ganhou um importante prémio com o seu último romance, mas”, e aqui o apresentador riu, e olhou em volta, e riu de novo antes de continuar… “mas”, repetiu, “agora que o livro está publicado, opõe-se a que ele continue no mercado e exige da editora que o retire imediatamente das livrarias e destrua todos os exemplares.”
O apresentador parou de falar, riu novamente, olhou Ângelo Durão e, como este continuasse calado, riu novamente antes de continuar.
“Quer explicar-nos porquê?”
Ângelo Durão olhou para o apresentador mas não disse nada, limitando-se a erguer à sua frente o exemplar do romance que tinha levado consigo, e logo uma câmara seguiu o seu gesto e fez um zoom sobre o livro.
O apresentador não perdeu a oportunidade. “Aí está o livro”, disse, “faça favor de mostrá-lo.”
E foi então, quando o livro aparecia em grande plano, que Ângelo Durão disse: “Este livro, tal como está, não é o livro que escrevi, mas a solução é fácil.”
E enquanto falava Ângelo Durão abriu o livro nas últimas páginas e, sem mais, rasgou-as, em grande plano, perante milhares de portugueses.
O apresentador soltou um grito fino, efeminado, um palavrão abafado pelo oh colectivo dos presentes, até mesmo de Francisco Aresta que, além de Ângelo Durão, era o único que sabia o que se ia passar.
Oh. Oh. Oh. Oh. Um oh multiplicado atravessou o país.
“Mas que é que ele fez?”
“Rasgou um livro?”
“Mas que porra foi aquela?”
“Cortem! Cortem!”
“Porra!” “Foda-se!” “Mas que caralho?”
[…]
Todos os jornais se referiram ao facto e as imagens passaram repetidamente nas televisões. Ângelo Durão estava no centro das atenções. Todos falavam dele, de uma maneira ou de outra. E era apenas o princípio pois, tal como quando se atira uma pedra na noite, nunca se sabe quais serão os estragos.
Falava-se de Ângelo Durão e do que tinha feito, mas as opiniões dividiam-se, e mesmo aqueles que tinham visto as imagens, repetidas á exaustão, tinham visto coisas diferentes. Uns tinha visto apenas um homem rasgar um livro, outros tinham visto um protesto e outros ainda tinham visto um mero acto de vandalismo. E não ficou por aqui. E se uns e outros tinham visto de forma diferente, ainda de forma diferente tinham reagido. Uns indignaram-se, outros apoiaram, alguns riram. E não ficou por aqui.
Ângelo Durão pensava apenas no que ia fazer a seguir. Não pensava no que iria fazer, pensava apenas na forma como ia fazer o que ia fazer. Tinha convites para estar em todo o lado, o mais depressa possível, todos o queriam, tinha de aproveitar.
[…]
O acontecimento contou com grande parte dos membros da tertúlia, os mesmos que a partir daí apareceriam nos jornais e nas televisões, projectados a figuras principais pelo mediatismo do evento, primeiro como seguidores de Ângelo Durão e mais tarde, alguns, como seus detractores, isto porque se no início a comunicação social procurava quem quer que tivesse estado envolvido no evento ou sobre ele quisesse falar, mais tarde procuraria apenas os que estavam contra o evento e, sobretudo, aqueles que agora eram contra, tendo nele participado.
A verdade é que desde o início, quando Ângelo Durão se dirigiu aos membros da tertúlia a pedir a sua ajuda para a acção, ideia de Francisco Aresta, a resposta não foi unânime, a começar pelo escritor de pêra e cabelos brancos que disse peremptoriamente que não contassem com ele para rasgar livros em público e, depois de uma discussão acesa, ficaram apenas seis, de confiança, como garantiu o próprio Francisco Aresta, que no processo eliminara alguns voluntários.
“Sete é um bom número, nem de mais nem de menos”, disse Francisco Aresta, e Ângelo Durão olhou-o em silêncio, sem concordar nem discordar.
Não era nada de complicado, sete pessoas, sete livros, um local, a comunicação social avisada e a postos. Mesmo assim houve discussão acesa sobre muitos aspectos, desde logo o local, claro, mas também como iriam vestidos, que gestos fariam, se deveriam treinar primeiro e por adiante.
De acordo com sugestão de Francisco Aresta, após longa discussão, pontuada por gritos e por risos, decidiram que se vestiriam todos de preto, o que para alguns deles até não era novidade. Quanto à coreografia, como lhe chamou Celestino, concluiu-se que o melhor seria Ângelo Durão ser o primeiro a rasgar as folhas do livro, logo seguido dos outros seis, com ligeiros intervalos, para aumentar o impacto e o dramatismo do evento. Já o local, demorou mais tempo, porque cada um tinha a sua opinião, mas acabaram por decidir-se pelo jardim Manuel Bívar, junto do coreto, entre o Café Aliança e a doca.
[…]
O escritor de pêra e cabelos brancos ficou em casa, e só viu as imagens num dos jornais da noite. Viu-os todos vestidos de negro, os livros erguidos contra o peito, confundindo-se com o negro das vestes, não fosse o estranho raio de luz que parecia atravessá-los. Viu ainda Ângelo Durão erguer o livro, rasgá-lo… e desligou a televisão.
Ergueu a taça de vinho, espreitou-lhe a cor, levou-a aos lábios e bebeu um longo golo de olhos fechados.
— Mas já não escreves? Não escreves de um todo?
— Primeiro deixei apenas de ter vontade de escrever, só depois deixei de escrever, de todo.
— E ainda te vês como um escritor?
— Sou um escritor não praticante — respondeu, e riu.
Depois levou uma colher de caldo à boca e sorveu com delícia a água quente impregnada do odor do alho, do azeite, dos coentros e dos poejos.
— Mas já não sentes vontade de escrever?
— Quando sentir vontade de escrever, só poderei escrever de novo. A escrita, quando corresponde a uma necessidade, é sempre compulsiva. Entretanto, vivo, saboreio a vida, umas vezes doce, outras amarga e quase sempre agridoce.
Levou outra colher à boca e riu a sua gargalhada áspera e forte, quase que se engasgando.
[…]
À hora combinada os jornalistas compareceram no local. Estava um dia quente e limpo de Primavera antecipada, tal como os que o haviam precedido. Ângelo Durão e os seus ajudantes aguardavam na proximidade e só apareceram na altura. Deslocaram-se em fila, como tinham combinado, e os ajudantes colocaram-se em U, em frente ao coreto, do lado do hotel Eva, e de frente para o café Aliança, com Ângelo Durão ligeiramente avançado na boca do U. Aconteceu tudo muito rapidamente, como tinham planeado, e assim como chegaram, desapareceram, sem quaisquer explicações. Os nossos actos que falem por nós, tinha dito Ângelo Durão, e assim foi, embora todos eles, à excepção de Ângelo Durão tenham ainda nesse dia prestado, de uma forma ou de outra, declarações aos meios de comunicação social.
Tudo correu como combinado, ou quase tudo, porque se tudo que foi feito tinha sido combinado, algumas das coisas que foram feitas não tinham sido combinadas e resultaram da inspiração do momento e da personalidade de cada um. Todos os exemplares foram rasgados, primeiro por Ângelo Durão, e depois pelos restantes, com pequenos intervalos, da esquerda para a direita, mas Francisco Aresta, depois de rasgar o seu exemplar, atirou-o para o ar, bem alto, como se libertasse uma ave, escreveu um jornalista, e um dos ajudantes, com o mesmo nome de um futebolista famoso, conhecido por estar sempre à mama, depois de rasgar a primeira vez o livro, voltou a rasgá-lo outra vez. Mais tarde diria que se enervou, mas curiosamente foi o primeiro a falar contra Ângelo Durão, a dizer em voz alta que ele era apenas um oportunista.
Mas naquele dia tudo tinha corrido na perfeição, pelo menos foi o que disseram uns aos outros, entre risos e goles de cerveja, quando se encontraram pouco depois no local combinado.
[…]
Curiosamente, depois da segunda vez que rasgou em público as últimas folhas do romance, Ângelo Durão não deixou de ser convidado para dar entrevistas a jornais e em revistas e aparecer na televisão mas, cada vez mais, não lhe perguntavam o que queria, ou de que se queixava, e confrontavam-no, quase exclusivamente, não só com aqueles que não concordavam com a sua campanha, mas também com todos os que o responsabilizavam, e era um número crescente, pelo que afirmavam ser as consequências das suas acções.
Pouco a pouco, Ângelo Durão passou a declinar os convites, deixou de prestar declarações, de aparecer, mas nem por isso deixou de estar no centro das atenções.
As histórias multiplicavam-se sem cessar.
Muitas pessoas, cada vez mais, começaram a rasgar as últimas páginas do romance de Ângelo Durão, respondendo ao seu apelo.
Foi criado um blog, em que qualquer um podia contar como o fizera e o que sentira. Poucos dias depois de aberto já tinha cerca de uma centena de entradas, entre relatos escritos, fotográficos e em vídeo.
Por outro lado, o numero crescente de leitores que defendiam o livro tal qual ele estava à venda, abriram também um blog onde contavam as suas experiências de leitura do romance e disponibilizavam em destaque o último capítulo.
Nos programas sensacionalistas e cor-de-rosa da televisão via-se de tudo. Um casal falava de como se tinha separado por causa do romance de Ângelo Durão (ele era a favor e ela contra), enquanto outro casal, felizes, contava que tinham em casa dois exemplares do romance, um tal como fora publicado e outro como o Ângelo Durão queria. E as variações eram intermináveis. Tudo com muitos sorrisos, muitos gritos, muitos risos e alguns choros.
Nas livrarias e nas bibliotecas por todo o país, começaram a aparecer vários livros rasgados, primeiro apenas o romance do Ângelo Durão (nem sempre como ele pedira), e depois outros livros, muitos outros livros.
Um grupo anónimo que se intitulava “Jesus Cristo Não Lia” reivindicou as acções afirmando que assim se limparia toda a porcaria dos livros.
Outro grupo anónimo de pessoas que se chamavam a si mesmos “Os Leitores” declararam que dos livros retiravam as melhores páginas, para seu uso pessoal e para chamar a atenção para elas.
E todos os dias apareciam mais grupos e novas acções.
A directora de uma biblioteca de província rasgou o exemplar existente na sua biblioteca, em cerimónia pública, afirmando-se ao lado do autor.
Outra directora declarou à comunicação social que tinha as duas versões na sua biblioteca, cada uma delas devidamente identificada, e que tudo faria para que assim continuasse a ser.
Um livreiro passou a vender o livro apenas depois de perguntar qual era a versão que o comprador queria; e se este optasse pela versão do autor, o livreiro disponibilizava uma tesoura ao comprador, para que cortasse as páginas em excesso, ou ele próprio o fazia, se o comprador assim quisesse. As páginas cortadas eram entregues ao comprador ou destruídas à sua frente, consoante o seu desejo.
Ângelo Durão passou a ter o telefone sempre desligado, não abria a porta a ninguém, deixou de aparecer. Ninguém sabia dele, nem mesmo o escritor de pêra e cabelos brancos.
[…]
[…]
“Leste o romance do Ângelo Durão?”
“É um excelente romance, daqueles em que o autor se põe em causa na sua feitura. Um livro escrito por necessidade, em que os elementos biográficos servem de motor à ficção.”
“Leste a versão completa ou a versão corrigida?”
“Li a completa”, respondeu com um sorriso, “mas se me perguntas se acho que faz alguma diferença, acho que te respondo com um rotundo não. Poderia talvez dizer-te que enlouqueceu, mas a verdade é que ele já antes era louco. Com ou sem último capítulo é sem sombra de dúvida um óptimo primeiro romance, ou simplesmente um óptimo romance. Não sei é se conseguirá escrever outro assim.”
“Achas que é um escritor de um livro só?”
“Muitos grandes escritores são escritores de um livro só, mas poucos o escrevem à primeira, o que pode ser o caso, tão intenso é o romance do Ângelo Durão.”
“Adivinho alguma inveja nas tuas palavras?”
“Sim, acho que sim”, disse ele, e riu. “Gostava de escrever um livro assim, mas não se fosse o último. Gosto demasiado de escrever, e depois de um livro assim deve ser muito difícil voltar a escrever.”
“Li uma entrevista em que ele dizia que ninguém escrevia como ele, pareceu-me bastante arrogante.”
“Ele é bastante arrogante, mas não se esforça para o ser, e há muitos escritores que dizem que ninguém escreve como eles, e ainda mais os que o pensam. Escrever de forma única é o que querem todos os escritores, e muitos sacrificam mesmo a sua escrita a essa exigência. No entanto, escrever de forma única não é tudo o que é preciso para se ser um grande escritor.”
“Na tua opinião o Ângelo Durão é um grande escritor?”
“Escreveu um grande livro, sem dúvida, mas não sei se isso é o suficiente para fazer dele um grande escritor. Tu sabes que eu dou mais valor aos livros do que aos autores. Um livro vale sempre mais do que o seu autor, mesmo um mau livro, mesmo quando o seu autor é um excelente escritor.”
“Concordas com ele quando quer alterar o livro?”
“Não é uma pergunta que possa responder com um simples sim ou não, mas se tivesse que escolher entre sim e não, podes estar certo que responderia que não. O livro está aí, tentar alterá-lo a todo o custo parece-me contra natura, no entanto, percebo que ele sinta a necessidade de o alterar.”
[…]
“O romance do Ângelo Durão vende-se cada vez mais. Vou ter de fazer uma nova tiragem ainda com um maior número de exemplares, e é aí que você entra.”
“E vai finalmente publicar o romance como ele quer que seja publicado?”
O editor olhou-a com um sorriso aberto.
“E por que razão o faria?”
E continuou:
“O que faz vender o romance do Ângelo Durão é a polémica que está por detrás do livro.”
E riu. E voltou a falar:
“E se eu não incluísse as folhas malditas como poderiam elas ser arrancadas?”
“Talvez devessem estar a picotado para melhor serem arrancadas”, disse Rosa com nítido sarcasmo, mas o editor olhou-a divertido.
“Não é má ideia. Mas seria demasiado fácil. Diminuiria a intensidade do gesto. Tornaria quase ridículo o acto de justiça que é rasgar aquelas páginas e repor dessa forma a verdade do livro.”
“A verdade do livro”, repetiu Rosa. “Isso não lhe interessa nada, pois não?”
“Podia-lhe dizer que sim, que me interessa a verdade do livro, e acrescentar que a verdade do romance do Ângelo Durão está em manter-se tal qual está; mas será que me acreditaria? Ou será que pelo menos acreditaria que falo verdade? Não fui que comecei esta cruzada, mas fui apanhado nela e agora não posso voltar atrás.”
“E o livro vende-se…”
“Sim, o livro vende-se cada vez mais. O Ângelo Durão fez uma campanha perfeita.”
“E você ajuda”, disse Rosa sorrindo também.
“Deixe-me que lhe conte uma história que aconteceu com um amigo meu e que muito o impressionou. É verdade que o meu amigo é uma pessoa muito impressionável, mas isso não vem ao caso.”
O editor e Rosa estavam sentados no pequeno átrio da editora, cada um no seu canto do sofá que, a par de uma pequena mesa, era o único mobiliário. Ele tinha-se desculpado com a desarrumação do escritório e a inexistência de sala de reuniões, e ela sentara-se o mais perto da porta, como se assim lhe fosse mais fácil estar ali.
“A história conta-se em meia dúzia de palavras. O meu amigo escrevera um livro e apresentara-o a um editor, amigo de um amigo seu, que passado um tempo o convidou a aparecer por lá pela editora para conversarem. E agora é que vem a parte interessante, quando ele apareceu para conversarem, o editor perguntou-lhe de chofre o que estava ele pronto a fazer pelo livro. O meu amigo ficou calado, a ver se percebia, a ver se o outro explicava melhor, e a conclusão não tardou em forma de pergunta:
— Estaria disposto a barricar-se pelo livro?
A barricar-se, era isso que ele queria que o meu amigo fizesse para publicitar o livro. Na altura estava na moda, tinha havido vários casos, e o editor achava que se ele o fizesse lhe traria imensa publicidade.”
Rosa passeava o olhar entre o editor e a porta de saída, o editor ria à gargalhada e tinha parado de contar a sua história.
“Mas o livro era bom?”
O editor parou de rir e olhou-a com o que parecia ser verdadeiro espanto.
“Mas não percebe? Com uma publicidade assim não interessa se o livro é bom ou mau. O romance do Ângelo Durão é excelente, mas nunca teria vendido como se vende se as coisas não se têm passado como se passaram. E assim as pessoas lêem-no, ou pelo menos compram-no, e de outra forma nunca o fariam. E até o podem ler como ele quer que o livro seja lido. Na verdade é até poético, está nas mãos do leitor”, e aqui riu de novo, interrompendo-se mas logo retomou o seu discurso, “a escolha está nas mãos do leitor, é ele que decide”, e riu ainda mais, o corpo franzino agitado num enérgico ataque de riso.
Rosa levantou-se e saiu sem dizer nada, o editor ria ainda e continuou a rir; só alguns minutos depois falou para a porta fechada por onde Rosa saíra:
“Isso quer dizer que não podemos usar a sua fotografia do Ângelo Durão?”
E riu novamente, quase se engasgando.
[…]
“A crítica elogiava-o, tinha leitores que o liam e apreciavam, era convidado para todos os grandes eventos e vendia cada mais; mas ele nunca quisera nada disso. A verdade é que ele nunca quisera ser escritor, a verdade é que ele se estava nas tintas para tudo isso, pelo menos se isso fosse conseguido à custa da mutilação do seu livro, da mutilação do seu ser.”
[…]
À beira do precipício não há que temer, seja como for vais ter de aprender. À beira do precipício não há que enganar, mais tarde ou mais cedo vais ter de saltar. À beira do precipício não há que saber, só acontecerá o que tiver de acontecer.
UMA PERGUNTA DESNECESSÁRIA
E pensar que tudo começou como se fosse uma brincadeira. Uma discussão sobre se a vida teria ou não um sentido. Eu a afirmar que sim e tu a dizeres que não, que não tinha qualquer sentido. E a verdade é que até aquele momento eu nunca tinha pensado sobre se a vida teria ou não um sentido. Talvez por isso tenha defendido que tinha, pois embora soubesse que não era assim, a verdade é que não sabia que o sabia. Limitara-me a viver e, mesmo quando a vida me correra mal, nunca me interrogara sobre o sentido da vida.
Agora sei que a vida não tem sentido e, embora pouca importância tenha, porque é uma resposta verdadeira a uma pergunta falsa, não o consigo esquecer. Perdi para sempre a inocência que me fazia viver a vida como uma dádiva.
Eu sei que então terminei a nossa discussão afirmando que, se concluísse que a vida não tinha um sentido, me mataria, mas ainda há uma pergunta a que tenho de responder antes de me decidir.
A pergunta a que devo responder já não é se a vida tem um sentido, mas se me é possível viver uma vida sem sentido e, façam-me um favor, não me perguntem porquê.
[…]
A CAIXA NEGRA
I
Na manhã do dia um de Abril de 2006, Francisco Aresta soube que o seu livro de poemas, A Caixa Negra, ganhara um dos mais importantes prémios literários de língua portuguesa. Sentiu-se arrasado. O nome do autor premiado não era o seu.
Maria Teresa escreve mais uma vez o poema. Sabe-o de cor, como de cor sabe todos os seus poemas. É assim que escreve, de cor, reconstituindo vezes sem conta o poema, escrevendo-o uma e outra vez, de cor, lembrando-o e esquecendo-o, esquecendo-o e lembrando-o, um poema sempre diferente e sempre o mesmo poema. Escreve e escreve e a sua vida parece ter um sentido.
Francisco Aresta está de pé, na livraria, o pequeno livro bem aberto à frente dos seus olhos. São os seus poemas. Não tem a menor dúvida. São os seus poemas. Segura o livro com tanta energia crispada que não seria de admirar que ele se rasgasse. São os seus poemas, porra, são os seus poemas. Baixa o livro, fecha-o, mete-o no bolso do casaco e sai sem pagar. Porra! São os seus poemas.
O homem gordo fala e fala; da excelência do seu percurso poético; da sua admirável capacidade de renovação, livro após livro; da luminosidade sombria da obra premiada. E fala e fala. Ela não o ouve. Parece ausente. E quando a ovação estala e se prolonga ela parece não ouvir. Está ausente, o olhar perdido no verde do jardim.
Foda-se! São os meus poemas, um por um, sem tirar nem pôr. Foda-se! Está em pé, encostado à mesa onde habitualmente escreve, e compara um a um os poemas que escreveu com os poemas do livro. Foda-se! São os meus poemas, um por um, sem tirar nem pôr. Não lhes mudou nada, absolutamente nada, nem uma vírgula, nem uma puta de uma vírgula. Foda-se! Até a ordem é a mesma. Foda-se!
Olha o livro fechado, o seu livro, e pensa como é possível que as palavras no papel consigam concentrar tanta poesia, como se apenas aí ela existisse verdadeiramente. Toca com a mão direita o livro. Não o agarra. Não o abre. Acaricia-lhe a capa. Lentamente. Pensa como é curioso que ame mais as palavras do que as coisas. E de repente, sem perceber logo a relação, lembra-se que o seu editor lhe dizia que ele nunca o olhava nos olhos, mas na boca, como faz com toda a gente, como se quisesse ver as palavras que dizem.
Agarrou o pequeno livro com a mão esquerda, o polegar a prendê-lo, como uma mola, e folheou-o com a mão direita. Foda-se! Foda-se. Foda-se! E rasgou uma página, e outra e outra. E rasgou e voltou a rasgar. E gritou. E grita. Foda-se! Foda-se! Foda-se! E atira o livro à parede. E sai de casa.
II
Então é poeta?
Sim, claro.
Com obra publicada?
Sim, claro, tenho vários livros de poesia publicados, recebi alguns prémios…
E publica regularmente?
Sim, claro, mas nos últimos anos mais em revistas… e tenho sido incluído em diversas antologias.
Quer dizer que já há alguns anos que não publica um livro?
Bem, sim, o meu último livro foi publicado há três anos, mas tenho sido publicado regularmente em revistas e incluído em diversas antologias, algumas fora do país. Tenho uma carreira literária, uma obra reconhecida… Não sou um novato. Não sou um desconhecido.
Sim, claro!
Fora um colega, advogado e também poeta que o encaminhara para si. Tu é que és a especialista nesta área, e depois eu conheço-o bem demais, sou quase seu amigo, ia ser muito difícil para mim. Ele é um excelente poeta, um magnífico poeta que não tem o reconhecimento e a projecção que merecia. Vais achá-lo um pouco estranho, mas não duvides da sua qualidade como poeta. É dado a depressões e todo ele é ressentimento, é verdade, mas é um excelente poeta, um magnífico poeta. Fico-te a dever uma, qualquer coisa que precisares, diz-me.
Afirma então que é você o autor do livro de poemas A Caixa Negra?
Sim, claro, o livro foi escrito por mim, é meu.
E quando é que percebeu que…
Li num jornal que lhe sido atribuído um prémio, um dos mais importantes prémios literários de língua portuguesa. Quer dizer, o título era o mesmo, e o que diziam dele era a cara chapada do meu livro. Corri à livraria mais próxima e confirmei. Era o meu livro. Aquela puta roubou-me o livro. E o prémio. Aquela puta!
Então já está publicado?
Sim, claro, o prémio é atribuído a obras publicadas no ano anterior.
Não tinha ouvido antes falar do livro?
Não, claro que não. Não ouviu o que eu disse? Só soube agora. Leio muito pouco, e só autores que valem a pena. Já tinha ouvido falar dela, só isso, nunca li nada dela. O que ela escreve não presta, não vale nada.
Mas se nunca leu como sabe?
Não preciso de ler para saber que não presta. Se o que ela escreve fosse bom de certeza que não precisaria de roubar o que eu escrevi. Aquela puta! O mais certo é que toda a sua obra tenha sido construída assim. Grande puta! Puta de merda!
Mas não se poderá tratar de uma coincidência?
Uma coincidência? Que coincidência? Aquela puta de merda publicou o meu livro poema a poema, palavra a palavra, sem lhe alterar coisa alguma.
Pesquisou no Google pelo nome dela e o número elevados de resultados surpreendeu-o. Percorreu vários, com os olhos postos numa única coisa, o endereço electrónico dela, e finalmente encontrou-o. Escreveu-lhe então um e-mail, curto e expressivo, que lhe enviou com um sorriso mordaz no rosto: Sua puta de merda, vou arrastar-te pela lama, não perdes pela demora.
E como é que o seu livro chegou às mãos dela?
Foi o editor. Os editores são todos uns filhos da puta.
Pelo que percebi o seu livro está inédito, não é?
Sim, claro, enviei-o a vários editores mas nenhum se mostrou interessado em publicar. Um deles é o editor dela, o mesmo que editou o livro. Esse grande filho da puta.
E quando é que lhe enviou o livro?
O ano passado, mais ou menos a meio do ano, na mesma altura em que enviei a outros editores, mas na verdade já tinha o livro completamente escrito no final do ano passado. Deixo sempre os meus livros descansarem um pouco.
E tem algum comprovativo do envio?
Não, enviei-o por correio simples, e o grande filho da puta nem sequer me respondeu.
Sei que tem um blog, nunca lá colocou algum desses poemas?
Nunca, tenho imenso cuidado com o que lá coloco. Sabe-se lá quem pode copiar o que escrevemos e usar com se fosse seu!
E mostrou a alguém?
Para me plagiarem? É claro que não. E mesmo assim veja o que aconteceu!
Um dia Francisco Aresta descobriu que alguém publicara num blog um poema seu sem indicar a autoria e ficou desvairado. Escreveu à autora, insultando-a de tudo, e ameaçando-a não só com um processo judicial mas com uma carga de porrada. E quando ela lhe respondeu explicando que tinha sido um lapso, um simples esquecimento, ele respondeu com mais insultos e ameaças. A mulher, que adorava a poesia dele, retirou o poema do blog, depois de lhe ter já acrescentado o nome do autor, e deitou fora os dois livros dele que há muito guardava na mesa-de-cabeceira.
Porque escolheu A Caixa Negra para título do livro?
A caixa negra é um sistema existente nos aviões que regista tudo o que se passa durante uma viagem. O livro que escrevi é também o registo de uma viagem, uma viagem espiritual, tudo o que senti e ouvi num dos períodos mais negros da minha vida, por isso o título me pareceu adequado. Na realidade, e isso é que é engraçado, são duas caixas, e nunca foram negras. Até dividi o livro em duas partes distintas por esse motivo.
A sua vida fechara-se sobre si mesma. Desabara. Ele fechara-se sobre si mesmo. Despenhara-se. Era isto que ele sentia. E pensava muitas vezes que a sua vida era tal e qual uma caixa negra, um sistema fechado em que apenas se vêem as entradas no sistema e consequentes saídas. E pensava muitas vezes que a sua arte poética era também uma caixa negra. Era nisto que ele pensava naqueles dias, e a poesia era um registo interior e secreto de tudo o que sentia e ouvia.
III
Maria Teresa é uma das suas escritoras preferidas; leu todos os seus livros e a eles regressa com frequência. Entrevistou-a pela primeira vez no início da sua carreira de jornalista, mas já a lia há muito mais tempo. O seu último livro, então, é excepcional, e o prémio mais que merecido. Independentemente de ser dela ou não.
Ricardo Branco ama acima de tudo a investigação. Se não fosse jornalista seria inspector da Polícia Judiciária, que é o que diz muitas vezes, e apesar de muitos pensarem que é apenas uma piada, tal afirmação corresponde à verdade, porque Ricardo Branco ama acima de tudo o mistério e as situações em que a vida e a morte estão em jogo. Para ele, escrever é também uma dessas situações. E escrever é também para ele investigar. Há muito que escreve contos e romances que destrói ou deixa esquecidos em qualquer lado.
Lê pela primeira vez Francisco Aresta e admira-se com a qualidade do que lê. Francisco Aresta não é um escritor de topo, mas também não é um escritor marginal, é sobretudo um escritor esquecido, como tantos outros de que Portugal é pródigo. Terá ele escrito o livro com que Maria Teresa ganhou o prémio? Ricardo Branco sopesa o mistério. Será um verdadeiro mistério? É que se o for talvez não tenha solução.
Já se disse que Ricardo Branco gosta de mistérios, já se disse que Ricardo Branco podia ser inspector da Polícia Judiciária, já se disse que Ricardo Branco escreve; será necessário dizer que Ricardo Branco é um apaixonado pela literatura policial? Pois bem, está dito, Ricardo Branco é um apaixonado pela literatura policial. Gosta de toda a literatura policial e já leu de tudo. Defendeu já em inúmeras discussões, muitas vezes de forma exaltada, que a literatura policial recuperou e renovou a matriz das mais antigas e grandiosas propostas literárias. Agora reserva-se mais, faz apenas pequenos comentários, leva-se muito menos a sério e às suas opiniões. E escreve, escreve sempre. Um dia publicará. A sua paixão é a ficção, o romance, mas também o conto. Para ele, escrever é investigar, há sempre um mistério, alguma coisa para descobrir, e é sempre uma questão de vida ou de morte.
Quem escreveu A Caixa Negra? Esta é a verdadeira questão, mas não o seu trabalho. O que lhe pedem é que entreviste Maria Teresa sobre isso e faça um pequeno enquadramento. O que lhe pedem é que reforce a autoria de Maria Teresa. Na verdade, já decidiram: Maria Teresa é a autora do livro, um livro tão bom que um escritor com obra publicada, ainda que um autor quase desconhecido, decide afirmar que é seu.
Ricardo Branco pensa no que lhe pediu o editor, mas pensa também se aquilo fará sentido. Por que motivo um escritor óptimo, como é sem dúvida Francisco Aresta, se arriscaria a cair no ridículo, afirmando-se autor de uma obra que não é sua? Por outro lado, que motivos levariam uma escritora consagrada, e excelente, a arriscar a sua carreira publicando um livro que não é seu? E aqui Ricardo Branco inclina-se a concordar com o editor, Francisco Aresta está apenas a chamar a atenção sobre si próprio. É o que tem mais a ganhar e menos a perder. Já se fala que vai ser editado um novo livro seu que promete ser um sucesso de vendas. Ricardo Branco sorri, a história daria um excelente conto, e fica a imaginá-lo.
Qualquer manual de escrita refere sempre a importância de um bom começo, um começo que desperte a curiosidade do leitor ao mesmo tempo que faça um brevíssimo resumo do que está em causa. Começar neste caso por referir o prémio e as dúvidas sobre a autoria, parecia a Ricardo Branco uma boa opção. Escrever é investigar, diz ele, e escrever é também escolher, aceitar e recusar. Quantos poemas, quantos contos ficam por escrever para que um só poema, um só conto se escreva?
Maria Teresa recebeu Ricardo Branco com um carinho reservado, uma festa furtiva no cabelo revolto, e pediu-lhe que não a maçasse com questões que só põem em causa a Poesia. Disse-lhe ainda como estava farta de ouvir falar disso, e que só o recebia por ser quem era. E mandou-o sentar, e sentou-se a seu lado. E ficaram calados, a sorrir um para o outro.
Já à porta, já de saída, Ricardo perguntou-lhe por que dera aquele título ao seu último livro, e ela pareceu hesitar, mas logo respondeu com um ar sério, que os títulos eram muito importantes para ela, e fez uma pequena pausa antes de continuar a dizer, ainda com um ar sério, que arte poética era para ela uma caixa negra, um sistema fechado, e que o próprio poeta o era também. Tinha descoberto tal facto, disse ainda, com aquele livro, ou pelo menos tinha-o confirmado, e daí o título. E depois sorriu, não sem coqueteria, e perguntou-lhe se sabia que a caixa negra dos aviões afinal não era negra e nem mesmo era uma.
EPÍLOGOS
Francisco Aresta abre a carta da comissão organizadora do concurso. Já sabe o que diz, mas lê-a assim mesmo, com um leve sorriso sarcástico. A advogada já lhe tinha dito. Não havia hipóteses. Não existiam provas suficientes. Ninguém lhe daria razão.
Maria Teresa lê. Está sentada no sofá que designa carinhosamente como o seu sofá de leitura. Lê um livro de Francisco Aresta, um dos primeiros. É um livro magnífico, diz a si mesma suspendendo por momentos a leitura. Que importa quem o escreveu? Que importância tem quem escreve os livros? E continua a ler.