sexta-feira, 2 de setembro de 2016

MARIM REVISITADO


Vem daí, vem comigo

escreverei com todos os sentidos

de fora para dentro, de dentro para fora

para que me possas seguir com facilidade

 

Na linha do horizonte à minha frente

mar e céu fundem-se e confundem-se em azul

 

Abro muito os olhos e vejo aves que nadam no mar

e peixes que voam pelos céus
 

Atravesso a linha do comboio

como quem atravessa uma fronteira

é final de Agosto, está calor

mas sopra uma brisa refrescante

o azul chama-me, insistente
 

Caminho para ele estrada abaixo

atraído, consumido por ele

Um barco em terra

Um pomar de sequeiro

A estrada ladeada de jovens árvores vindas de longe

Avanço a custo

muros vedações edifícios

levantam-se em puro caos

e o único caminho

que me poderia levar mais perto

do azul intenso em que me quero

perder dissolver desaparecer

está guardado por um cão feroz

que me ladra ameaçador

 

Aceito a realidade

volto para trás

sobre os meus passos

atravesso de novo a linha do comboio

e sigo agora entre vedações

por um caminho de terra à sombra

de pinheiros mansos mas altivos

até à casa poema sonhada e realizada

por um fantasma


Estou só mas não sozinho

ouço o zumbir das cigarras

o ruído surdo de um carro

que avança sobre cascalho

sinto cheiros antigos

 
Encho-me de memórias

o vento acaricia-me a pele

despenteia-me o cabelo

subo de novo à varanda da casa poema

sentado à sua frente

de costas para ela

os olhos abertos no caderno em que escrevo

e encho-me finalmente de azul

o azul do céu o azul do mar

o azul da tinta com que escrevo este poema

 

Adeus!

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