segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ESCREVER É DOBRAR E DESDOBRAR PALAVRAS À PROCURA DE UM SENTIDO

22 AS MÁGOAS DE CECÍLIA

Cecília tinha mágoa de não saber nadar. Sempre tivera medo da água e nunca fora capaz de vencer esse medo, por mais que tentasse. Entrava na piscina a custo e ficava sempre perto da borda ou agarrada, apesar de nunca sair da parte baixa, onde tinha sempre pé.
Mas a maior parte do tempo, ficava apenas perto da piscina a olhar com inveja aqueles que a atravessavam de um lado ao outro, descontraídos e velozes, assim como os que mergulhavam na parte mais funda e em geral todos os outros que se divertiam sem terem de se preocupar se tinham pé ou não.
Cecília também tinha mágoa de não ter acabado o curso de Direito e de nunca ter tido filhos. Na verdade tinha muitas mágoas, tantas que lhe era cada vez mais dificil levar a sua vida a bom porto, mas a mágoa maior, sem dúvida a mais antiga e a mais pesada de todas era a de não saber nadar.
Um dia estava perto da prancha de saltos e ousou aproximar-se um pouco mais da borda da piscina, com tanto azar que escorregou e caiu direitinha na água, exactamente na parte mais funda da piscina, onde não tinha mesmo pé.
Foi ao fundo, veio ao de cima, gritou, esbracejou e foi de novo a fundo. Tiraram-na da piscina, completamente aflita, mas completamente sã e salva. As mágoas é que se tinham afogado todas, não se salvou nem uma.
Nunca aprendeu a nadar e toda a sua vida teve medo da água; mas desde o incidente na piscina sentiu-se muito melhor, como se lhe tivessem tirado um peso de cima e todos lhe diziam que parecia vinte ou trinta anos mais nova.

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