segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A PERDA DO DEDO MÍNIMO DA MÃO DIREITA





[A MÃO DIREITA]

Numa manhã de primavera, Rui Medonho acordou de um sono tranquilo, passou as mãos pela cara, e viu que lhe faltava o dedo mínimo da mão direita. Quando passou as mãos pela cara e esfregou os olhos, operação em que usava sempre apenas dois dedos, não sentiu de imediato a falta do dedo mínimo, mas teve um vago pressentimento de que alguma coisa não estava bem.
Olhou as mãos, erguidas à altura do peito, as palmas para cima, o olhar viajando de uma para a outra e, pensou mais tarde, só pelo confronto se apercebeu da perda.
“Mas que porra me aconteceu?”
Olhou a mão direita com atenção renovada, virando uma e outra vez, ora a palma ora as costas e depois confrontou-a finalmente com a mão esquerda.
Não havia dúvida, a mão direita só tinha quatro dedos.
“Falta-me o dedo mínimo! Falta-me o dedo mínimo da mão direita!”
Mas, verdade seja dita, era como se nunca tivesse tido um dedo mínimo na mão direita. Não conseguia ver qualquer sinal de perda do dedo, nem sentia qualquer dor e, no entanto, estava certo que no dia anterior, quando adormecera, tinha cinco dedos na mão direita, tal como ainda tinha cinco dedos na mão esquerda.
Voltou a olhar para as mãos, primeiro para a esquerda e depois para a direita, e ambas pareciam ser exactamente como sempre tinham sido. Só ao confrontar uma mão com a outra é que ele percebia que algo não estava bem. Se olhasse só para a mão direita quase acreditaria que não havia nada de errado. E não se cansava de olhar para a mão direita.
“Quatro dedos. Apenas quatro dedos.”
Não se interrogou então – nem depois – porque perdera o dedo, nem mesmo como o perdera, mas não conseguia sair do torpor que aquela perda lhe provocara.
Não tinha dedo mínimo!
Será que lhe faria falta? Seria apenas o princípio de outras perdas ou a perda do dedo mínimo seria o máximo que lhe aconteceria?
Continuou a olhar a mão direita e depois voltou a confrontá-la com a esquerda e durante muito tempo se perdeu nessa contemplação, porém quando se dirigiu à casa de banho e lavou a cara com as duas mãos, esqueceu-se por momentos que perdera o dedo mínimo da mão direita e o torpor que experimentara perante essa perda começou lentamente a desaparecer.


[A FALTA]

Ao longo desse dia, a estranheza que sentiu perante a perda do dedo mínimo da mão direita foi substituída pela estranheza perante a pouca falta que o mesmo lhe fazia, sentimento que foi crescendo à medida que ia desenvolvendo a sua rotina diária.
“Afinal o dedo não me faz falta nenhuma, é que como se sempre tivesse tido apenas quatro dedos na mão direita.”
Cortou uma fatia de pão, tirou o pacote de leite do frigorífico, pôs o pão a torrar, encheu um copo de leite, barrou o pão com manteiga e não sentia a falta do dedo, sensação que se prolongou durante a manhã. Porém, quando olhava a mão, via com clareza o lugar onde o dedo tinha estado.
Não conseguia explicar o que sentia quando olhava para o dedo em falta, mas quando olhava para a mão direita era sempre para o dedo em falta que olhava, como se apenas pensando no dedo que uma vez tivera conseguisse afinal ver a sua ausência. Quanto mais tentava lançar luz sobre o que sentia perante a falta do seu dedo mínimo, mais as sombras aumentavam, impedindo-o de ver com clareza, uma sensação que na verdade lhe era bastante familiar.
Não conseguia perceber que, não sentindo a falta do dedo, não conseguisse no entanto olhar para a mão sem ver o dedo em falta.
“Mas por que raio me incomoda tanto a perda de um dedo mínimo? Ainda se me fizesse alguma falta!”
Tamborilou, com a mão direita, como era seu hábito, sobre o tampo da mesa, e nem nessa altura sentiu falta do dedo mínimo mas, no entanto, não conseguia deixar de pensar nele, mesmo que fosse apenas sobre a pouca falta que lhe fazia o dito cujo.
Continuava a não se interrogar nem porque perdera o dedo nem como tal acontecera, e isso dizia muito dele, porque a verdade é que não era pessoa que gastasse muito tempo a perguntar a si mesmo porque é que a sua vida era como era, ou se esforçasse por perceber como as coisas tinham acontecido na sua vida.
Há pessoas que se limitam a ser, sem nunca ou quase nunca se interrogarem, e há pessoas que se interrogam tanto que se esquecem quase sempre de ser. É fácil de ver que ele não pertencia a nenhuma dessas categorias; talvez fosse apenas preguiçoso, demasiado preguiçoso para se interrogar, ou não estivesse para se aborrecer e lhe fosse muito mais fácil aceitar.
“Afinal o que me importa a perda de um dedo! E ainda por cima a perda de um dedo mínimo!”
Ensaiou vários gestos e concluiu com facilidade que o dedo mínimo da mão direita era o que menos falta lhe fazia, ainda que fosse destro. O polegar ou o indicador da mão direita, esses sim, que lhe fariam falta, mas mesmo assim ainda lhe restaria a mão esquerda.
Olhou as mãos ainda durante algum tempo, ora uma ora outra, e decidiu não dar mais importância à perda do dedo mínimo, que afinal não lhe servia para nada. Foi nesse momento que sentiu com mais intensidade a sua falta, não porque precisasse realmente dele, mas porque se sentiu incompleto sem ele.
“Um dedo mínimo, que se foda o dedo mínimo!”
Fechou as mãos em punhos e mais uma vez confirmou que o dedo mínimo não lhe fazia falta nenhuma.


[O QUE LHE ACONTECERA]

No dia seguinte, a primeira coisa que fez quando acordou foi olhar pela janela para ver como estava o dia. Só depois olhou para a mão direita. Olhou-a ao pormenor, girando-a para a poder observar de vários ângulos, mas a conclusão era sempre a mesma: parecia que nunca tivera um dedo mínimo na mão direita.
Depois fechou a mão direita num punho, as unhas enterradas na carne, uma dor ténue na palma da mão, e esqueceu-se por completo que lhe faltava o dedo mínimo.
Na semana que se seguiu, não fossem os outros e Rui Medonho nunca se teria lembrado que alguma vez tivera cinco dedos na mão direita, mas os olhares mal disfarçados e alguns comentários que lhe lançaram, impediram-no de se desligar, de uma vez por todas, do seu dedo mínimo da mão direita, dedo que lhe faltava, é verdade, mas de que, e também não era menos verdade, ele não sentia falta alguma.
No café, na mercearia, sentiu que olhavam para a sua mão direita e tomou consciência, novamente, que não só lhe faltava o dedo mínimo nessa mão, como não tinha qualquer explicação para esse facto. O primeiro comentário que lhe fizeram tomou uma forma ambígua – “Nunca me tinha apercebido que só tinha quatro dedos na mão direita!” - e ele respondeu com um sorriso igualmente ambíguo, mas da segunda vez perguntaram-lhe directamente o que lhe tinha acontecido ao dedo, e ele olhou também para a mão direita, para o lugar onde devia estar o dedo mínimo, tentando ganhar tempo, mas achou melhor dizer a verdade.
“Acordei um dia destes e dei por mim sem o dedo mínimo da mão direita.”
O seu interlocutor sorriu, fez um ar surpreendido, e mudou de assunto, o que voltou a acontecer quando respondeu da mesma forma a outras pessoas que também lhe perguntaram o que lhe acontecera ao dedo.
Mas estes acontecimentos levaram-no a pensar não só na perda do seu dedo mínimo, mas também para além dessa perda.
Pensou que aquele acontecimento não era diferente de outros que lhe tinham acontecido antes e que também nunca tinha realmente conseguido compreender, ainda que muitas vezes os tivesse explicado aos outros; mas isso não era muito diferente do que tinha feito agora dizendo a verdade, ou seja, fugir afinal a qualquer explicação. Dizer a verdade sobre o que aconteceu é muito diferente de explicar o que aconteceu, e por isso ele continuou a dizer a verdade a quem lhe perguntava o que acontecera ao seu dedo mínimo. Mas começou a pensar na perda do seu dedo mínimo, em como isso o poderia ter alterado.
“Quem sou eu afinal? O que posso ainda perder sem deixar de ser quem sou?”
Disse isto e ficou a interrogar-se quem era, o que lhe acontecia muitas vezes, tantas que nunca sabia afinal quem era, tornando essa pergunta, já de si inútil, completamente inútil. E durante muito tempo pensou no que poderia ainda perder e de que forma alteraria quem afinal era.
Algum tempo depois, olhou a mão direita e começou a rir.


[UM HOMEM SEM]

Poucos dias antes de perder o dedo mínimo da mão direita, só depois se lembrou, falara com um indivíduo sem um braço, ou parte dele, porque a manga dobrada do blusão de ganga não permitia avaliar com exactidão a extensão da perda, que se sentara no café numa mesa ao lado da sua e lhe pedira um cigarro. Não lhe despertara especial interesse, mas o facto de não ter um braço, o direito, não lhe passara despercebido, ainda que não se tivesse interrogado na altura como acontecera e que diferenças lhe trouxera à sua vida de todos os dias.
Um braço, ou parte dele, não é o mesmo que um simples dedo, ainda por cima se for o menor deles, mas naquele momento, ao pensar na perda do braço direito do homem a quem dera um cigarro, não conseguiu deixar de pensar que também ele, ainda que só tivesse perdido um dedo mínimo, tinha-se tornado outro, tal como o homem que perdera o braço, porque ninguém que perde um braço ou um dedo pode continuar o mesmo depois disso.
Pensou em como seria agora fácil ser descrito de forma sumário como o homem a que faltava o dedo mínimo da mão direita, pois mesmo aqueles que nada soubessem dele poderiam facilmente descrevê-lo dessa forma, o homem sem o dedo mínimo da mão direita, e essa simples menção seria mais do que suficiente para o identificar, assim como ele se referia ao homem que lhe pedira um cigarro como o homem que não tinha um braço. Mas que significado teria o facto de agora a sua mão direita não ostentar um dedo mínimo?
As pessoas são muitas vezes o que parecem e outras até parecem o que são, o que embora parecendo o mesmo, nem sempre é o que parece. E no entanto, mudando de aspecto, talvez as pessoas mudem sempre quem são, porque os outros e eles mesmos se vêem como parecem e assim se vendo o mais certo é que sejam mais quem parecem do que quem na realidade são.
“Será que a perda do dedo mínimo da mão direita me modificou mais do que sou capaz de perceber?”
Há pessoas que se conhecem bastante bem e outras que se desconhecem de um todo. É fácil perceber que Rui Medonho não pertencia a nenhuma dessas categorias, ainda que não lhe faltasse vontade de se conhecer e tivesse uma consciência de si que poderia sem dúvida servir esse fim mas, acima de tudo, gostava de divagar, e esse gosto afastava-o quase sempre de si.


[QUEM SABE SE UM DIA]

Ainda não tinham passado duas semanas desde que perdera o dedo mínimo da mão direita quando, ao olhar a mão, sentiu vontade de voltar a ter esse dedo e, no entanto, nunca nem por um momento deixara, durante esse período, de pensar que esse dedo não lhe fazia qualquer falta e de sentir exactamente a mesma coisa, ao ponto de quase se esquecer que alguma vez tivera esse dedo.
“Mas que porra é esta, não dei qualquer importância à perda do dedo e só não me esqueci por completo dele porque me lembraram a sua falta, e agora dou por mim a querê-lo de volta?”
Há pessoas que se queixam constantemente da vida e recusam sempre o que lhes acontece e outras que aceitam sem reservas o que vida lhes traz e tentam tirar disso o melhor partido. Ele era diferente, como já devem ter percebido, pois embora não aceitasse sem reservas as coisas como elas eram, também não as negava pura e simplesmente. Ele já não tinha o dedo mínimo da mão direita e o mais provável é que nunca o voltasse a ter, mas era igualmente improvável que o tivesse perdido como o perdera.
“Quem sabe se um dia não acordo com cinco dedos na mão direita?”


[RIR DE SI PRÓPRIO]

Por esses dias, a primeira coisa que fazia quando acordava, era olhar a mão direita, para ver se tinha ou não o dedo mínimo, e só então esfregava os olhos com dois dedos de cada mão, os respectivos dedos indicadores e os anelares, como era seu hábito logo que acordava; e quando esfregava os olhos nenhuma diferença sentia afinal, mas o dedo mínimo continuava a faltar-lhe e não havia maneira de ele se esquecer dele de uma vez por todas.
“Nunca dei muita atenção ao dedo mínimo, porque há se ser diferente agora?”
Às vezes quase lhe apetecia que lhe desaparecesse a mão toda, para deixar de se preocupar com o dedo, mas depois ria-se e dizia a si mesmo que mais valia ir o braço todo, e ria-se ainda mais.
Há pessoas que se riem de si próprias e outras que nunca se riem de si próprias. Ele ria-se de si próprio, mas esse riso aproximava-se normalmente demasiado de um estado de tristeza para que ele pudesse ser incluído sem mais no primeiro grupo. No entanto, seja como for, ele ria-se de si próprio. E ria-se também dos outros, sobretudo quando se descobria neles. A perda do dedo mínimo não modificara de forma significativa o seu carácter, da mesma forma que não parecia ter trazido alterações de relevo no seu comportamento.


[ACIDENTE DE TRABALHO]

Um mês depois, estava Rui Medonho sentado numa esplanada, esquecido do seu dedo mínimo, quando reparou num homem sentado numa mesa perto de si e que, tal como ele, não tinha o dedo mínimo da mão direita. A sua primeira reacção foi esconder a sua mão direita, como se quisesse cortar qualquer contacto com aquele homem, mas fez exactamente o contrário, pois levantou-se e dirigiu-se ao outro, a mão direita estendida à sua frente, ostentando o dedo em falta, e perguntou-lhe o que lhe tinha acontecido ao dedo. Ainda esperou que o outro lhe respondesse que um dia acordara assim, mas a resposta, ainda que igualmente lacónica, foi outra. “Acidente de trabalho”, disse o outro, não acrescentando mais nada e desinteressando-se por completo de Rui Medonho, que regressou à sua mesa. Não voltou a olhar para o homem sem o dedo mínimo e aquele acabou mesmo por se ir embora sem que ele desse por isso.
“Acidente de trabalho. Soa bem… e talvez seja melhor do que dizer a verdade.”
Nessa altura lembrou-se de uma história que o fazia sempre sorrir, nem sabia bem porquê, talvez pelo inesperado, e que lhe contara um conhecido seu, sobre um homem a quem um cão arrancara um dedo.
Supostamente tratava-se de um amigo do seu conhecido, que fora convidado para jantar em casa também de um amigo e que, ao entrar no pátio dessa casa, se tinha sentido intimidado por um enorme cão que o olhara em silêncio. Estava parado, a olhar para o cão que o olhava também, quando o amigo apareceu e o sossegou dizendo que o cão, apesar do mau aspecto, era dócil e que até lhe podia fazer uma festa, se quisesse. Sossegado pelo amigo e porque não queria dar parte de fraco, o homem avançou a mão na direcção da cabeça do cão, para lhe fazer uma festa, e o cão, num movimento rápido e inesperado, arrancou-lhe um dedo com uma só dentada.
Rui Medonho não sabia se tinha sido o dedo mínimo, mas estava convencido que tinha sido um dedo da mão direita.
“Talvez possa dizer que um cão me arrancou um dedo.”
“Talvez possa dizer que sofri um acidente de trabalho.”
Mas as pessoas deixaram de lhe perguntar o que lhe acontecera ao dedo, o que fez que ele não tivesse que voltar a decidir o que responder, ainda que o mais certo fosse ele dizer a verdade, porque assim era a sua natureza e por nenhuma outra razão a não ser essa.


[APONTAR]

Perdera o dedo mínimo da mão direita mas, por estranho que parecesse, não conseguia ver-se livre dele de uma vez por todas porque a verdade é que nunca o seu dedo mínimo recebera tanta atenção quanto a que passou a receber depois que desapareceu sem qualquer explicação.
Às vezes fechava os olhos, concentrava-se, e tentava sentir todos os dedos das mãos e quase ia jurar que sentia o dedo mínimo da mão direita no exacto lugar onde agora não estava.
Tinha ouvido falar em pessoas que haviam perdido braços e pernas, ou apenas parte deles, e continuavam a senti-los e até a experimentar dor nesse braços e pernas perdidos - chamavam-lhe membros fantasmas - e com certeza que isso se aplicava a um dedo, ainda que fosse o menor de todos, mas a verdade é que só sentia o dedo, ou julgava senti-lo, quando se esforçava por senti-lo, e dificilmente poderia dizer que o dedo, ainda que ele não o conseguisse esquecer, de alguma forma o assombrava.
Não dera inicialmente qualquer importância à perda do dedo, mas esse mesmo dedo que já não existia ganhara cada vez maior importância e agora, por mais que quisesse, não conseguia esquecê-lo.
Ignorou o exterior, onde tinha a certeza não encontraria respostas e voltou-se para dentro de si, onde sabia que encontraria a pergunta certa.
“Que importância tem a perda de um dedo mínimo? Será que tem mais ou menos importância do que outra perda qualquer? O que é importante e o que não é importante?”
Continuou a fazer perguntas mas não encontrava respostas ou, quando as encontrava, elas não o satisfaziam, como aliás lhe acontecia muitas vezes que procurava responder com palavras a perguntas que estavam para além delas.
Há pessoas que acreditam que as palavras podem dizer o mundo e há outras que acreditam que o mais simples dos eventos é completamente indizível. Como é fácil de perceber, ele acreditava nas palavras mas apenas como meio de apontar para o que estava para além delas.
“É preferível ter uma luz fraca a não ter luz nenhuma, sobretudo se não conseguimos ver no escuro.”
            As perguntas que fazia agora a si mesmo eram as mesmas que sempre fizera e a perda do dedo mínimo não tinha nada a ver com isso, porque se não tivesse acontecido, ele estaria agora a fazê-las na mesma, pois sempre se questionara sobre o que era verdadeiramente importante e sobre quem ele verdadeiramente era e, quando percebeu isto, foi como se tivesse perdido de novo o dedo, pois voltou a não lhe conceder qualquer importância e quase se esqueceu que alguma vez o perdera.
“Mas afinal que falta me faz o dedo mínimo da mão direita?”
Olhou a mão direita e sentiu-a incompleta, e era afinal dessa sensação que ele não se conseguia libertar, da sensação de incompletude. Riu-se quando essa ideia lhe surgiu e afastou-a de imediato porque, ainda que se tivesse rido, a verdade é que essa ideia não tinha graça nenhuma, era pelo contrário a ideia mais sem graça que alguma vez tivera. No entanto, depois de pensar um pouco mais, voltou a rir-se, e agora com muito mais vontade.
“Já percebi, é o dedo que agora me falta que aponta para a minha incompletude e é isso afinal que me incomoda e não a perda do dedo em si.”
E riu ainda mais, soltou gritos de alegria e bateu palmas, tendo verificado, não sem espanto, que as palmas soavam da mesma maneira do que antes de perder o dedo, ou pelo menos assim lhe parecia.
A partir desse momento deixou de olhar para a mão direita e passou a metê-la no bolso das calças ou do casaco, sempre que não estava a usá-la, prática que só abandonou por achar que lhe conferia um certo ar napoleónico, personagem por quem ele tinha tanto de embirração cega quanto tinha de admiração esclarecida por Dom Quixote. Mas esconder a mão direita era afinal chamá-la para o centro da sua atenção e mais valia que estivesse à mostra, para que ele mais facilmente a pudesse ignorar, e foi o que ele fez a partir de então.


[PONTO FINAL]

Um dia, uma mulher num bar agarrou-lhe a mão direita e acariciou-a exactamente no local onde lhe faltava o dedo mínimo e ele sentiu que, se fosse preciso alguma razão para justificar aquela perda, essa carícia seria sem dúvida razão mais do que suficiente para justificar a perda do dedo mínimo. Sorriu e disse adeus ao dedo mínimo da mão direita de uma vez por todas.



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