terça-feira, 11 de junho de 2013

POEMAS AVULSOS

umas vezes
as palavras levam-me
pela mão
outras vezes
as palavras arrastam-me
pelos cabelos
raras são as vezes
que as palavras
deixam que as conduza

...

Saída de emergência

não somos máquinas
mas funcionamos
com maiores ou menores
estragos
folhas rasgadas de um
livro
que nunca lemos
até que a morte
nos reconduza
ao todo
primordial

...

quando escrevo
tento sempre usar
poucas palavras
as palavras certas
as palavras necessárias
para que o silêncio
se faça ouvir

...

se o mundo
começasse agora
não existiram palavras
para dizê-lo e a
verdade é que
o mundo recomeça
todos os dias

...

só tenho medo
de ter medo
só tenho vergonha
de ter vergonha
ficar parado não me ajuda
a seguir em frente
se o caminho existe
eu o caminharei.

...

perdido
num estranho país
espreito as palavras
escuto-as
permito-lhes
que se escrevam
sombras esguias
na luz esquiva
da página
em branco

...

onde está
um homem
ou uma mulher
(disse-me o pintor)
está sempre a morte
a olhá-los
nos olhos
para se ver
reflectida

...

as palavras não vêm
até nós
somos sempre nós
que vamos
até às palavras
todos os poemas são ruas
de um só sentido
que nos levam
aos muitos lugares
onde sonhamos ir

...

O princípio do mundo

assim recordas tu
meu querido amigo
aqueles breves dias
quando todo o impossível
era possível
dias que nunca esqueceste
dias que ainda hoje
guardas em ti
como um tesouro
sangue que te anima o corpo
água pura em que mergulhas
quando te sentes exaurido
quando o possível te parece
cada vez mais
impossível
quando o cinzento dos dias
esmaga as cores vivas
das utopias
possíveis.

...

Canção

I

Dizem-me que me encontraram sem sentidos
Dizem-me que parece estar tudo bem comigo
Dizem-me que não existem quaisquer sinais de
agressão ou de causas prováveis
Dizem-me que não tinha comigo quaisquer
cartões de identificação ou objectos pessoais
Dizem-me que não me preocupe e que muito
em breve poderei voltar para casa
Dizem-me que basta preencher alguns papéis e
estabelecer contacto com familiares ou amigos
Respondo-lhes que me sinto bem e que agradeço
do fundo do coração toda a atenção dispensada
Gostaria de lhes dar o meu nome e a minha morada
mas a verdade é que não faço a mais pequena ideia
Sei quem sou mas não sei quem fui

II

Pergunto-me se para ser quem
sou
preciso de saber
quem fui
Pergunto-me se essa distinção
fará alguma diferença
para mim
O meu nome continua por descobrir
ninguém parece sentir a minha falta

III

Dizem-me que me irrito com facilidade
e que tenho tendência para me isolar
Aconselham-me a descontrair e
a procurar a companhia de outros
Acreditam que me faria bem
Fico em silêncio e aceno
afirmativamente
parece-me que esses são os traços
essenciais
da minha personalidade

IV

Passo horas no jardim a contemplar as flores
não sei os seus nomes mas conheço de cor
todos os seus humores e peculiaridades
Da mesma forma continuo sem saber
qual o nome que me deram os meus pais
mas conheço-me cada vez melhor
mesmo que às vezes
me tenha de inventar

V

Aconselham-me a escrever mais
dizem-me que parece uma actividade
importante para mim e que talvez me
possa ajudar a descobrir quem sou
Respondo que não é verdade que eu
não saiba quem sou
Podemos viajar sem bagagem nem
documentos e mesmo assim
não nos perdemos de nós próprios
A verdade é que eu apenas quero ser

VI

Talvez não saiba quem sou
talvez nunca o venha a saber
mas a cada momento
tenho a certeza
de ser
e isso é mais
do que suficiente
para mim
Contei
a minha história
várias vezes
tantas que lhes
perdi a conta
tantas que já
não me importa
contá-la.
Olho a folha em branco
com profunda
admiração
na sua nudez
ela contém
todos os poemas

VII

Dizem-me que já sabem quem sou
Levanto-me e saio a correr da sala
Não quero deixar de ser quem sou