sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO I


[Nos próximos dias colocarei aqui este conto, capítulo a capítulo. Li parte dele na última terça-feira de poesia, no Draculea. Aqui fica, em jeito de folhetim.]



[A MÃO DIREITA]


Numa manhã de primavera, Rui Medonho acordou de um sono tranquilo, passou as mãos pela cara, e viu que lhe faltava o dedo mínimo da mão direita. Quando passou as mãos pela cara e esfregou os olhos, operação em que usava sempre apenas dois dedos, não sentiu de imediato a falta do dedo mínimo, mas teve um vago pressentimento de que alguma coisa não estava bem.

Olhou as mãos, estendidas à altura do peito, as palmas para cima, o olhar errando de uma para a outra e, pensou mais tarde, só pelo confronto se apercebeu da perda.

“Mas que porra aconteceu?”

Olhou com mais atenção a mão direita, virando uma e outra vez, ora a palma ora as costas e depois confrontou-a com a mão esquerda.

A mão direita só tinha quatro dedos.

“Falta-me o dedo mínimo! Falta-me o dedo mínimo da mão direita!”

Mas era como se nunca tivesse tido um dedo mínimo na mão direita. Não conseguia ver qualquer sinal de perda do dedo nem sentia qualquer dor e estava certo que no dia anterior, quando adormecera, tinha cinco dedos na mão direita, tal como ainda tinha cinco dedos na mão esquerda. E voltou a olhar a mão esquerda e a mão direita e ambas pareciam ser exactamente como eram. Só na diferença entre as mãos é que ele percebia que algo não estava bem. Se olhasse só para a mão direita quase acreditaria que não havia nada de errado.

E não se cansava de olhar para a mão direita.

“Quatro dedos. Apenas quatro dedos.”

Não se interrogou então – nem depois – porque perdera o dedo, nem mesmo como o perdera, mas não conseguia sair do torpor que aquela perda lhe provocara.

Não tinha dedo mínimo!

Será que lhe faria falta? Seria apenas o princípio de outras perdas ou a perda do dedo mínimo seria o máximo que lhe aconteceria?

Continuou a olhar a mão direita e depois voltou a confrontá-la com a esquerda e durante muito tempo se perdeu nessa contemplação, mas quando se dirigiu à casa de banho e lavou a cara com as duas mãos, esqueceu-se por momentos que perdera o dedo mínimo da mão direita e o torpor que experimentara perante essa perda começou lentamente a desaparecer.


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