terça-feira, 28 de setembro de 2010

UM HOMEM ESCREVE



Um homem escreve.
Está fechado no seu gabinete. Na verdade está encerrado na sua sala, porque as palavras quase nunca nos dizem o que dizem. A sala é pequena, pouco mais de quatro por três metros, com uma porta e uma janela, em cada um dos dois lados mais pequenos do rectângulo. Está ali das nove às dezoito horas, todos os dias, com excepção dos fins-de-semana e dos feriados, com uma hora para o almoço. Cumpre sempre o horário com uma rigidez cadavérica, tão cadavérica quanto o seu rosto cansado.
Um homem escreve.
Está em frente a um mar de Inverno e ri. Não está ninguém na praia a não ser ele. Senta-se na areia e perde-se na contemplação do mar. Umas vezes tão revolto e outras tão calmo e no entanto sempre o mesmo mar. Da mochila tira uma garrafa de vinho tinto meio cheia, bebe um gole longo e deita a rolha fora. O seu cabelo está revolto como o mar, mas os seus olhos estão cheios de luz. Hoje está ali, amanhã estará onde lhe apetecer ou onde tiver que estar, o que para ele é afinal a mesma coisa.
Um homem escreve.
Escreve e escreve e é sempre o mesmo homem que escreve, é sempre o mesmo homem que se escreve.

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