domingo, 29 de março de 2009

ene coisas

Este blog foi criado para apoiar/completar o programa de rádio Rua do Imaginário, no entanto, desde o início, ao chamar-lhe Ene Coisas, pensei na possibilidade de aqui incluir o que me desse na cabeça. Pela primeira vez desde que edito em blogs, apenas aqui tenho editado irregularmente, quando a minha anterior prática era diária...

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1

Um dia alcançou um claro estado de lucidez: todos acharam que enlouquecera.

2

Teve muitos amantes mas nunca abandonou o marido: era-lhe fiel.

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A verdade do poema
não é diferente
da verdade do mundo

existe além
do sentido
que lhe encontramos

existe além
do sentido
que lhe damos

existe em si e por si
pois só em si existe
a sua razão de existir

por isso o poeta
escreve o poema

e o poema
escreve-se a si mesmo

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O MEU ALGARVE

Perguntam-me pela minha visão do Algarve, expressão que me parece apontar para o futuro, mas a verdade é que o meu Algarve é um Algarve que já não existe e talvez até nunca tenha existido, a não ser para mim.
Não estou a tentar ser original, antes pelo contrário, acredito apenas que as coisas, sejam elas quais forem, existem só para nós, quer sejam paisagens ou amores, e assim continuam a existir, quer sejam paisagens há muito vistas ou amores há muito vividos.
Aqui chegado, deixem-me esclarecer que tenho cinquenta e um anos e não nasci no Algarve, apesar de me considerar algarvio, terra para onde vim com seis anos de idade, acompanhando os meus pais, e de onde saí quinze anos depois, para não mais aqui viver até há poucos anos, devido a circunstâncias excepcionais que se conjugaram para que eu afinal regressasse. Mas os meus avós maternos eram algarvios, a minha mãe também, apesar de ter nascido no Alentejo, e o meu pai tinha do Algarve as suas melhores recordações.
O Algarve que entrevi pela primeira vez nos quinze anos que aqui vivi era sem dúvida ainda um Algarve passado, de praias de aceso difícil e de gente simples e misteriosa, mas também um Algarve que sonhava já com um Algarve futuro, de turismo opulento e imobiliário faustoso. Lembro-me da estranha sensação que me assaltou quando fui viver para fora do Algarve, de nunca mais querer voltar, porque nunca mais encontraria aquele Algarve que mal conhecera e que nunca mais existiria. Ainda hoje encontro em mim essa sensação, e sei que não é da minha infância e da minha adolescência que sinto saudades, erro de muitos quando recordam o passado. A sensação que então tive e que ainda hoje conservo, é a de que falhei o Algarve, que cheguei demasiado tarde para conhecer esse Algarve que se adivinha inteiro na escrita de M. Teixeira Gomes ou nos poemas de João Lúcio.
Felizmente, hoje como então, quando olho a Ria Formosa, ao fim de um dia luminoso, encontro em mim o meu Algarve.

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"Ao dizer algo de condensado sobre a realidade, aproximamo-nos já do sonho, ou antes, da poesia."

(Hugo von Hofmannsthal)

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