Chego/regresso a Leonard Bernstein vindo de Tár.
Nada é simples quando se trata de palavras.
Quando se trata de palavras até a palavra simples é complicada.
um blog de Luís Ene
domingo, 5 de fevereiro de 2023
terça-feira, 31 de janeiro de 2023
Palavras
Terminados dois projetos literários comecei este ano a escrita de um diário, onde aqui e ali entram textos de outra natureza, sem lugar próprio, que normalmente acabariam despejados na Internet. O texto que se segue é um deles, a que resolvi dar existência digital.
AS PALAVRAS
As palavras podem ser ditas, podem ser escritas, podem ser silenciadas, mas fogem sempre umas atrás das outras em loucas correrias. Podes segui-las, podes correr com elas, mas não podes, na verdade, controlá-las.
As palavras podem aprender truques, podem fazê-los para ti, mas serão sempre selvagens, livres, e nunca se sujeitarão verdadeiramente à tua vontade. Rir-se-ão sempre de ti, trocarão cúmplices piscares de olhos e brincarão umas com as outras, ignorando-te como deuses que na verdade são.
As palavras são espúrias, estranhos e singulares recipientes cheios de tudo e de nada. Podes dizer as palavras, podes escrever as palavras, podes até silenciá-las, mas elas sempre se dirão a si mesmas, sempre se escreverão a si mesmas, ao mesmo tempo que te dizem e te escrevem.
sábado, 14 de janeiro de 2023
sexta-feira, 13 de janeiro de 2023
poemas mecânicos
36.
Escrevo este poema
para dizer como é importante
estar em silêncio.
Mais valia estar calado, eu sei,
mas não consigo.
Escrever é a minha forma de
estar em silêncio,
a minha forma de me
escutar e de escutar o
chamado da beleza.
Por isso é que escrevo,
Escrevo sem parar,
quase
em
silêncio.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2023
O ser e o dever ser
Certo dia, o ser e o dever ser encontraram-se e mais uma vez se desentenderam. Eu sou como sou, dizia um; mas devias ser como devias ser, dizia o outro. E não devia ser assim, mas era assim que era, nunca se entendiam. Decidiram então nunca mais se encontrar e ir cada um para seu lado. Por isso é que o ser e o dever ser estão sempre tão distantes um do outro.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2023
Ponto de partida
No ano que passou escrevi um romance, no puro ímpeto de escrever um romance, o que não me acontecia há bastantes anos, tantos que pensava já não ser capaz de o fazer. Foi um processo intenso que senti como de profundo conhecimento e de crescimento pessoal.
Ao partilhar o que estava a fazer, pois apetecia-me partilhar a minha aventura, alguém disse que queria ser o primeiro a ler o romance, motivo que me levou a enviar-lhe uma primeira versão. Depois, por motivos diferentes, enviei a mais duas pessoas. Dessas três pessoas, a quem enviei o romance, sem qualquer obrigação, nem a de o ler, como lhes disse, todas leram o romance e me deram a sua opinião.
Talvez possa dizer que uma gostou muito, outra detestou e a última gostou, mas com algumas reservas. Do que disseram, recebi as sugestões que me deram, quando as deram, e ouvi o que disseram, não propriamente com indiferença, mas talvez com alguma displicência, convencido de que escrevi o melhor que me foi capaz e com verdade.
Não sinto o resultado muito longe do que pretendi, com as suas falhas e as suas virtudes. O romance está escrito. Como próximo exercício, exercício que antecipo final, vou incorporar todas as críticas e limpar o romance de todas as falhas e ambiguidades que me apontaram, cortar, cortar e cortar até o deixar no osso, por assim dizer, e ver o que é que sobra, ver o que é que resiste.
Depois seguirei em frente, com a certeza de que continuarei a escrever, com a certeza de que continuarei a escrever-me.
terça-feira, 10 de janeiro de 2023
sábado, 7 de janeiro de 2023
escrita mecânica
Os poemas mecânicos que aqui tenho colocado começaram com um poema (vamos chamar-lhe assim) que escrevi no comboio para Lisboa. A ideia de mecânico era a de alguma espontaneidade e de alguma rigidez no processo e no ritmo. Continuo a escrevê-los, mas o que me salta mais à vista e ao ouvido, é a rigidez que me lembra uma antiga máquina de lavar com que em tempos convivi.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2023
Do que falamos quando falamos de amor
Tenho escrito todos o dias e é assim que deveria ser. Inicio com facilidade e termino sempre com dificuldade e com a sensação que o texto nunca está concluído, sensação que nada tem a ver com o facto de se tratar de pequenos textos. Escrever é sempre tentar acertar no alvo e falhar, mesmo quando se acerta. Escrevo uns textos a que chamei poemas mecânicos e a sensação descrita é constante. O tema dos últimos que escrevi tem sido sobretudo o amor.
12
O amor tem as costas largas e quando não lhe falta a faca, falta-lhe o queijo, por isso, ouve-me bem, não invoques o nome do amor em vão, nunca te esqueças que todos os crimes cometidos em nome do amor são sempre crimes contra o amor.
18
O meu amor por ti existe em mim.
Se fosse capaz de amar, amar-te-ia.
Amar-te-ia mesmo sem te conhecer.
19
O amor não é uma droga,
mas pode deixar-nos altos.
O amor não é salvação,
mas pode elevar-nos.
O amor não é quando
nunca chegou a sê-lo.
O amor é uma montanha
que subimos com esforço.
domingo, 1 de janeiro de 2023
Ano novo, a mesma vida
O poema foi-se escrevendo de um ano para o outro, pelo que é ao mesmo tempo o último e o primeiro do ano.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2022
domingo, 25 de dezembro de 2022
quinta-feira, 22 de dezembro de 2022
Noam Chomsky
segunda-feira, 19 de dezembro de 2022
O QUE SEMPRE FICA POR DIZER
Não aguento
mais. Vão-se todos foder.
***
Uma linha, duas frases, seis palavras, é tudo o que está escrito nas
costas de um envelope fechado, contendo publicidade.
O envelope, com a mensagem visível, está em cima de uma pequena mesa
vazia, encostada a uma das paredes, perto da janela, com apenas uma cadeira.
O quarto é pequeno, mas a cama é confortável e veem-se quadros e
fotografias nas paredes, de indiscutível qualidade.
Quem ali vive?
Será um bilhete de suicídio?
***
Conhecem-se há muitos anos,
desde a infância, e durante muito tempo a vida de ambos seguiu o mesmo caminho,
depois menos, cada vez menos, até que um subiu cada vez mais alto e o outro
desceu cada vez mais baixo. Encontram-se raramente e sempre por iniciativa do
primeiro, o rico, o famoso, o mais determinado dos dois.
***
Pensei que não vinhas, estava
quase a ir-me embora, diz Evaristo, num tom neutro, que contrasta com o seu
habitual tom agressivo.
O outro senta-se, com gestos
lentos, olha em volta, olha para o amigo, e diz-lhe que detesta estes locais
elegantes. Evaristo responde que nestes locais eles são invisíveis, ninguém os
incomodará, ninguém ousará importuná-los.
Esse não é um problema meu, eu
sou sempre invisível, diz Paulo, num tom neutro, com um sorriso triste a sublinhar a
frase.
***
Ambos sonharam ser ricos e
famosos, estar entre os melhores, e foi isso que aconteceu, mas apenas a um
deles. O que fez a diferença?
Não tenho sorte nenhuma, diz
Paulo.
Quis sempre ser o melhor, e fiz
tudo para o ser, a sorte não vem ao caso, diz Evaristo.
A sorte é sempre importante, o
azar existe, diz Paulo.
Fizemos escolhas, o que nos
aconteceu não tem nada a ver com sorte e azar. Não que a sorte e a má sorte não
existam, mas as nossas escolhas prevalecem muitas vezes, as boas e as más.
Tu sempre foste o melhor.
Eu sempre quis ser o melhor, e
fiz tudo por isso, fiz sempre tudo por isso. Tu sabes que foi isso que fiz,
apenas isso.
***
E agora estamos aqui, tu rico e
famoso, tu rico, riquíssimo, o melhor do mundo, e eu pobre, quase sem abrigo,
desconhecido, esquecido de todos.
Deixa-te de lamentações. Queres
ser rico? Dou-te metade de tudo o que tenho, a minha metade, que a outra é da
minha família.
Paulo olha Evaristo e é difícil
perceber o que sente, mas no seu rosto não se espelha certamente ternura ou
admiração. Ama Evaristo, não será exagero dizê-lo, mas é tão teimoso e
obstinado quanto ele, essa é que a verdade, por isso é que lhe responde com
rudeza, por isso é que lhe diz que não precisa de caridade, por isso é que lhe
diz que não acredita nele, que é um mentiroso, por isso é que abandona o
restaurante a chorar compulsivamente.
***
Pensa na morte, considera-a a
única solução. Não é uma fuga, é antes um passo em frente, um passo necessário.
É o que diz a si mesmo, e não é uma lamentação, é um grito, um grito de
afirmação, um grito de liberdade.
***
Julgo que foi Tchekhov que disse
que um homem ganhar a lotaria (acredito que ele falava em ganhar na mesa de
jogo) e matar-se é que seria um tema literário, e acho que quem lê já adivinhou
para onde me dirijo, para onde encaminho este conto. Talvez pudesse até
terminar assim, na dúvida, na ambiguidade, mas vou continuar ainda mais um
pouco.
***
Evaristo foi ainda mais uma vez
capa de todos os jornais e abriu todos os noticiários do mundo. Caiu de uma
ponte, disseram, era tudo o que se sabia, ninguém conseguia concluir fosse o
que fosse. Dizia-se nas redes sociais que tinha sido assassinado, dizia-se até
que se tinha suicidado, mas todos o choravam, o mundo estava de luto.
***
Paulo deixou de beber e não
consome heroína há dois anos. Continua desconhecido e quer continuar assim.
Está rico, bastante rico, mas leva uma vida austera, monástica. O seu dinheiro
foi quase todo aplicado numa fundação que gere anonimamente, a Fundação
Evaristo Macedo, vocacionada para ajudar quem precisa, sobretudo artistas.
FIM
sábado, 17 de dezembro de 2022
Agradado
Acedo à versão digital da Rota Literária do Algarve, baixo a brochura relativa a Faro e descubro nela um texto meu. Fico agradado, confesso, nem me lembrava disso. Momentos antes, o segundo dos leitores a quem tinha enviado o meu novo romance, manifesta-me o seu agrado, tal como tinha feito o primeiro. Fiquei agradado, confesso, duplamente agradado.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2022
Mais um blogue
Mais um blogue a entrar na lista, um blogue de Dário Agostinho, a merecer toda a atenção: foto | grafias.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2022
Cruzeiro Seixas
Ouvir.














