Nada é simples quando se trata de palavras.
Quando se trata de palavras até a palavra simples é complicada.
um blog de Luís Ene
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
a construção do poema
deve atravessar a folha como
um golpe de vento
um voo de ave
um feliz passo de dança
não tentes escrever
o poema
deixa que ele se escreva
e reescreva
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
ARRITMIA
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
WORK IN PROGRESS
terça-feira, 27 de setembro de 2011
intrigante
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QUERER
sábado, 24 de setembro de 2011
PRONTA A SERVIR
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
MANIFEITO
não digam que arte não não abriga
não digam que a arte é inútil
nem para a enaltecer
nem para a desprezar
alimentem-se de arte,
da vossa e a da dos outros
façam da arte a vossa casa
e o vosso porto de abrigo
de onde partem e chegam
a verdade é que inútil é
a própria ideia
de utilidade
a arte é tão inútil
como o ser
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
O PRIMEIRO POEMA
Curiosamente, num poema tão curto como este, ainda hoje tenho dúvidas se não deveria excluir a palavra "sempre" da segunda linha e a palavra eu da frase "acredito ser eu". Às vezes penso que sim e outras que penso que não, mas o poema é esse e não lhe vou mexer.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
O ÚLTIMO POEMA
e ódio
mas não sou amor
nem ódio
Em mim reconheço alegria
e tristeza
mas não sou alegria
nem tristeza
Em mim reconheço inquietação
e serenidade
mas não sou inquietação
nem serenidade
Não sou tudo
o que em mim
reconheço
mas também
não deixo de
o ser
é tudo o que sei
é tudo o que sou
terça-feira, 20 de setembro de 2011
CIRCULO QUASE PERFEITO
domingo, 18 de setembro de 2011
EXPLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
ARTE POÉTICA
terça-feira, 13 de setembro de 2011
APONTAMENTO
a mulher
que avança
à minha frente num
perfeito balancear
de ancas e de
nádegas
e digo
a mim mesmo
que não é por acaso
que a ideia de equilíbrio
me é tão querida e tão
próxima da ideia
de beleza
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
DIZER O AZUL
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
A QUEM INTERESSAR!
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
DUAS MORAIS E UMA HISTÓRIA RELIGIOSA
[para o amigo Luís Alberto, que me atribuiu a medalha da moralidade]
Uma moral
A moral e a religião só são necessárias a quem nelas acredita.
Outra moral
Aquele que não tem religião nem moral tem muito mais tempo livre.
Uma história
Primeiro colocaram-no vivo sobre uma grelha em brasa e assaram-no lentamente até à morte. E não foi por teimosia culinária ou porque ele não tivesse moral e religião, que tinha, só que não eram as deles.
Depois lançaram o corpo aos cães, que meteram o rabo entre as pernas e uivaram sem parar até que o corpo foi finalmente retirado. Os cães, diz-se, não têm moral nem religião, mas nem por isso deixam de ser o melhor amigo do homem.
domingo, 7 de agosto de 2011
DUAS HISTÓRIAS POLICIAIS E UMA MORAL
Uma história
Era um detective com uma perícia proverbial.
Quando chegou ao local do crime sentou-se, imóvel e silencioso, com o revólver a repousar na mão direita.
Ficou ali, dia e noite, sem arredar pé, até que assassino não aguentou mais e voltou. Então matou-o, com um só tiro.
Outra história
Era um detective extraordinário.
Olhou a cena do crime com displicência e não teve a menor dúvida sobre a identidade do assassino, assim como soube com toda a certeza que o assassino não ia escapar.
Sentou-se, sacou do revólver e matou-se de uma só vez.
Uma moral
Matar é como rir, mata melhor quem mata por último.
DUAS HISTÓRIAS DE FANTASMAS E UMA MORAL
Uma história
Quando ela morreu, ele não chorou. Sentou-se e ficou à espera, completamente imóvel, com um ténue esboço de sorriso no rosto. Dois dias depois, quando ela voltou, ele ainda estava ali, e ela ficou assombrada com o sorriso que finalmente se inscreveu no seu rosto.
Outra história
Quando ela morreu, ele vestiu-se de negro dos pés à cabeça e chorou compulsivamente. Quando ela voltou, encontrou-o assim, a imagem própria do desespero. Ficou tão assombrada que se foi embora de vez. Foi então que um esboço de sorriso se desenhou hesitante no rosto dele.
Uma moral
A morte é um pouco como o ponto que usamos de diversas formas quando escrevemos: interroga, exclama, prolonga e termina.
sábado, 6 de agosto de 2011
DUAS HISTÓRIAS DE AMOR E UMA MORAL
Uma história de amor
Amavam-se e esse amor era inteiro, até que ela deixou de amá-lo e o amor se fechou todo nele, enlouquecido de vez.
Foi esse amor que afinal a apunhalou vezes sem conta, retalhando-lhe o peito sem esforço.
Pelo menos foi o que ele confessou, chorando sem parar, mas o policía olhou-o com firmeza e disse-lhe com um enorme sorriso triste a dançar-lhe no rosto:
Se querias conhecer a alegria do amor tinhas de estar preparado também para a sua dor.
E saiu sem mais da sala de interrogatórios para ir comprar flores para uma mulher
que há anos amava à distância.
Outra história de amor
Amava-a há anos, sempre à distância, e esse amor era o céu onde descansava todo o seu ser.
Um dia, nunca percebeu porquê, raptou-a e fechou-a na cave da sua casa.
A partir daí continuou a amá-la como até então, mas a tristeza dela, todos os dias maior, apodreceu pouco a pouco o seu amor, até que ele não aguentou mais e a matou, tentando que o amor sobrevivesse.
Verdade seja dita, o seu amor não sobreviveu.
Nem ele, que se matou poucos dias depois.
No dia do enterro um casal de apaixonados entrou no cemitério para se amarem sem serem observados.
Uma moral
O amor, como uma história, nunca deve verdadeiramente acabar ou, quando afinal termina, acaba quase sempre mal.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Baú
