domingo, 7 de agosto de 2011

DUAS HISTÓRIAS DE FANTASMAS E UMA MORAL


Uma história


Quando ela morreu, ele não chorou. Sentou-se e ficou à espera, completamente imóvel, com um ténue esboço de sorriso no rosto. Dois dias depois, quando ela voltou, ele ainda estava ali, e ela ficou assombrada com o sorriso que finalmente se inscreveu no seu rosto.


Outra história


Quando ela morreu, ele vestiu-se de negro dos pés à cabeça e chorou compulsivamente. Quando ela voltou, encontrou-o assim, a imagem própria do desespero. Ficou tão assombrada que se foi embora de vez. Foi então que um esboço de sorriso se desenhou hesitante no rosto dele.


Uma moral


A morte é um pouco como o ponto que usamos de diversas formas quando escrevemos: interroga, exclama, prolonga e termina.

sábado, 6 de agosto de 2011

DUAS HISTÓRIAS DE AMOR E UMA MORAL

Uma história de amor


Amavam-se e esse amor era inteiro, até que ela deixou de amá-lo e o amor se fechou todo nele, enlouquecido de vez.

Foi esse amor que afinal a apunhalou vezes sem conta, retalhando-lhe o peito sem esforço.

Pelo menos foi o que ele confessou, chorando sem parar, mas o policía olhou-o com firmeza e disse-lhe com um enorme sorriso triste a dançar-lhe no rosto:

Se querias conhecer a alegria do amor tinhas de estar preparado também para a sua dor.

E saiu sem mais da sala de interrogatórios para ir comprar flores para uma mulher

que há anos amava à distância.



Outra história de amor


Amava-a há anos, sempre à distância, e esse amor era o céu onde descansava todo o seu ser.

Um dia, nunca percebeu porquê, raptou-a e fechou-a na cave da sua casa.

A partir daí continuou a amá-la como até então, mas a tristeza dela, todos os dias maior, apodreceu pouco a pouco o seu amor, até que ele não aguentou mais e a matou, tentando que o amor sobrevivesse.

Verdade seja dita, o seu amor não sobreviveu.

Nem ele, que se matou poucos dias depois.

No dia do enterro um casal de apaixonados entrou no cemitério para se amarem sem serem observados.



Uma moral


O amor, como uma história, nunca deve verdadeiramente acabar ou, quando afinal termina, acaba quase sempre mal.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Baú





Gosto desta fotografia do baú de Fernando Pessoa e só por isso a uso, não porque queira insinuar algumas semelhanças.


Vinha a ideia de baú a propósito das obras que este blog, inactivo (ou inativo), abriga nas suas páginas e que pode ler através da barra à direita, umas mais acabadas e conseguidas do que outras, mas todas elas marcos de um percurso (de experimentação) que tenho vindo a levar a cabo.


Não está tudo aí, mas julgo que está o suficiente para ficarem com uma ideia. Como juntei uma nova obra, deixo aqui notícia do conjunto.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

[faltava uma moral]

Era uma vez um tolo que queria ser escritor. Nove anos depois era escritor e um tolo ainda maior.

poema a um louco amor




queimámos o amor
uma e outra vez
até só restar
cinza

agora nunca mais
poderá ser
folha em
branco

todo o verso tem
em si o seu
reverso

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O ADEUS

Um dos meus objectivos ao criar/manter blogs - aquele que identifico como principal - sempre foi partilhar o que escrevo. O que sentia - e aindo sinto - é que desta forma aquilo que assim publico sempre pode - potencialmente - chegar a alguém. Neste aspecto o blogue parece-me um livro aberto, ainda mais aberto que qualquer livro, pois sempre aberto ao leitor e à leitura. O número de leitores regulares deste blog - poucos ou muito poucos - parece-me nesta medida irrelevante. Mas continuar a publicar neste blog também me parece fora de questão. Quem quiser ler-me tem aqui muito para ler, desde logo as páginas [livros mais ou menos completos] a que é possível aceder no início da coluna da direita. Dito isto, adeus.

sábado, 16 de abril de 2011

Eram três homens muito exagerados. O primeiro era tão pobre que nem dívidas tinha. O segundo era tão avarento que nem erros dava. O terceiro era normal, completamente normal.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

terça-feira, 12 de abril de 2011

domingo, 10 de abril de 2011

Gosto de Oscar Wilde

Adoro falar sobre nada. É a única coisa de que percebo alguma coisa!


Oscar Wilde

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Snake Bag (2008)


[por Ai Weiwei]


Pedem-te desculpa

enquanto te apertam

firmemente

o pescoço.


E tu sorris

lentamente

enquanto questionas

a opressão.


Sempre te riste

da hipocrisia e

a tua arte nunca

temeu a morte



domingo, 27 de março de 2011

Regra da proporcionalidade

Dou o meu passeio diário
fechado em mim mesmo
desatento

esmago
sem quase dar por isso
um pacato formigueiro

é então que penso que
fechado em si mesmo
desatento

Deus não é
muito diferente de mim
apenas bastante maior

Nada

Eu no meu corpo como o tigre no seu bafo.
O mundo leva iguais a jaula e a casa.
Somos a vida que não é,
Fora não ser a morte.
Nem mesmo nada somos:
Estamos no que fomos
À espera do que importe.

Não se pode sair, e entrar já não:
Nada já deu entrada ao só nascido
Que é esse mesmo Nada:
Pelo que Nada não é nada,
Mas é nada Em Deus que tudo gera.
Eu na minha alma como o bafo no seu tigre.

Vitorino Nemésio

quinta-feira, 24 de março de 2011

À esquerda do poema

Há muitas coisas que
quase mal imaginamos,
e no entanto,
nem por um momento
duvidamos
que são.
Nisso estamos de acordo,
tu e eu.
Mas enquanto tu
lhe chamas fé,
eu chamo-lhe
falta de visão.

quarta-feira, 23 de março de 2011

sábado, 19 de março de 2011

‎[para ser lido em voz alta, pausada e intensamente]

se eu quisesse
eu podia,
separar o corpo
da mente.
assim,
de um momento para o outro,
de repente.
se eu quisesse
eu podia,
mas pergunto-me
onde é que eu
afinal ficaria.
separado o corpo
da mente,
o que de mim
restaria?

quarta-feira, 16 de março de 2011

Nove anos depois...

N


Divorciaram-se e mudaram ambos de sexo. Nove anos depois encontraram-se e voltaram a casar. Há coisas que nunca mudam.


N


Nove anos depois de se ter apaixonado, continuava apaixonado. Manteve esse segredo até à morte.


N


Regressou nove anos depois. Estava tudo na mesma. Até ele era o mesmo.


N


A guerra terminou nove anos depois. Já ninguém se lembrava por que tinha começado.



N


Um dia resolveu colocar-se numa das entradas da cidade com um cartaz que dizia estar farto de tudo. Nove anos depois ainda ali estava. Só se foi embora quando lhe ergueram no local uma estátua em tamanho natural.

terça-feira, 15 de março de 2011

Amor mais que perfeito


Permaneceram fiéis,

um ao outro e a si mesmos,

amando-se à distância,


num absoluto respeito

pelas juras que então tinham proferido.

Apenas sabiam do amor


que continuava vivo neles,

desconhecendo por completo

o que acontecera ao outro.


A verdade é que não só não sabiam

um do outro como tudo fizeram

para nunca mais se encontrarem.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

releituras (ou reescritas)

A ler o excelente Histórias de Amor Rasgadas, de Marina Colasanti, deparo com duas releituras (ou reescritas), que me recordam a afirmação que a microficção pode distinguir-se em histórias originais e em releituras (ou reescritas) de histórias originais. Também já o tenho feito, e apeteceu-me também reescrever essas duas histórias.



A mulher dele


Quando ele ameaçava bater-lhe, ela ameaçava sair de casa, sem olhar para trás, e durante vários anos estas ameaças mútuas mantiveram-nos juntos, mas um dia ele deu-lhe sem mais uma estalada com as costas da mão direita, atingindo-a de surpresa na face esquerda.

Ela não gritou, nem mesmo de surpresa, nem mesmo de dor. Virou-lhe apenas as costas e saiu de casa, como tantas vezes ameaçara fazer se ele alguma vez lhe batesse.

Ele seguiu-a até à porta, parou à entrada e ficou por um instante em silêncio a vê-la ir embora, os olhos muito abertos. Depois começou a insultá-la.

“Grande vaca, ainda bem que te vais embora ou eu moía-te de pancada”, gritou.

Ela parou e lentamente voltou a cabeça para trás.

Nem por um momento pensou em voltar para trás, nem por um momento pensou em olhar para ele uma última vez, limitou-se a voltar a cabeça para trás e a fitá-lo, os olhos semicerrados.

Foi então que começou a empalidecer e ficou imóvel, a respiração suspensa.

À sua frente, de um momento para o outro, ele transformara-se numa estátua de sal.



A arte de beijar


A sua aparência geral era grosseira.

O rosto rugoso, com dois sinais enormes em destaque, ostentava um duvidoso tom esverdeado. As pernas eram muito curtas, e ao andar parecia dar saltos pequenos e desajeitados.

Era uma fraca figura, sobre isso ela não tinha dúvidas. Mas quando a tomava delicadamente nos braços e a beijava com paixão, ela fechava os olhos e quase acreditava beijar um príncipe.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

PESSOA(S)

MULTIPESSOA e ARQUIVO PESSOA

Nove anos depois...


N


Nove anos depois, ainda se lembrava dela como se tivesse sido ontem a última vez que a vira. Fazia nove anos que a matara.


N


Um dia decidiu-se finalmente. Nove anos depois executou a sua decisão. Era um homem ponderado. Foi a primeira e a última vez que matou.


N


Nove anos depois foi-lhe dada a possibilidade de voltar a viver. Explicaram-lhe que era o procedimento normal. Disseram-lhe que merecera nova oportunidade. Afirmaram que tinha mesmo de ir. Nada o convenceu.


N


Nove anos depois tinham-no esquecido por completo. Foi então que voltou. Já ninguém se lembrava dele com vida.


domingo, 20 de fevereiro de 2011

nove anos depois

N

Nove anos depois de ter desaparecido, encontraram-no em sua casa, sentado no sofá. Estava morto e bem morto. Ficaram todos muito surpreendidos, menos ele, que ficou muito aliviado. Há nove anos que esperava que atestassem a sua morte.

N

Só soube que ele estava morto nove anos depois de ter casado com ele. Depois disso ainda viveram mais dois anos juntos.

N

Nove anos depois de ter morrido escreveu o seu primeiro romance. A partir daí nunca mais escreveu.

N

Nove anos antes pensou que ia morrer, nove anos depois morreu. Não estranhem que assim tenha acontecido, pois se muitas vezes pensamos morrer, em regra só se morre uma vez.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Literatura abrupta

Mini, micro, nano... ficção, narrativa, conto...

Porque a brevidade nem me parece a característica mais importante, lembrei-me de literatura súbita ou (porque não?) abrupta.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Nove anos depois

Nove anos depois de ter desaparecido, encontraram-no em sua casa, sentado no sofá. Estava morto e bem morto. Ficaram todos muito surpreendidos, menos ele, que ficou muito aliviado. Há nove anos que esperava que atestassem a sua morte.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011