Hélio Leites from Cesar Nery on Vimeo.
Nada é simples quando se trata de palavras.
Quando se trata de palavras até a palavra simples é complicada.
um blog de Luís Ene
quarta-feira, 13 de abril de 2011
terça-feira, 12 de abril de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
Gosto de Oscar Wilde
Adoro falar sobre nada. É a única coisa de que percebo alguma coisa!
Oscar Wilde
sexta-feira, 8 de abril de 2011
domingo, 27 de março de 2011
Regra da proporcionalidade
Nada
Eu no meu corpo como o tigre no seu bafo.O mundo leva iguais a jaula e a casa.
Somos a vida que não é,
Fora não ser a morte.
Nem mesmo nada somos:
Estamos no que fomos
À espera do que importe.
Não se pode sair, e entrar já não:
Nada já deu entrada ao só nascido
Que é esse mesmo Nada:
Pelo que Nada não é nada,
Mas é nada Em Deus que tudo gera.
Eu na minha alma como o bafo no seu tigre.
Vitorino Nemésio
quinta-feira, 24 de março de 2011
À esquerda do poema
quarta-feira, 23 de março de 2011
sábado, 19 de março de 2011
quarta-feira, 16 de março de 2011
Nove anos depois...
N
Divorciaram-se e mudaram ambos de sexo. Nove anos depois encontraram-se e voltaram a casar. Há coisas que nunca mudam.
N
Nove anos depois de se ter apaixonado, continuava apaixonado. Manteve esse segredo até à morte.
N
Regressou nove anos depois. Estava tudo na mesma. Até ele era o mesmo.
N
A guerra terminou nove anos depois. Já ninguém se lembrava por que tinha começado.
N
Um dia resolveu colocar-se numa das entradas da cidade com um cartaz que dizia estar farto de tudo. Nove anos depois ainda ali estava. Só se foi embora quando lhe ergueram no local uma estátua em tamanho natural.
terça-feira, 15 de março de 2011
Amor mais que perfeito
Permaneceram fiéis,
um ao outro e a si mesmos,
amando-se à distância,
num absoluto respeito
pelas juras que então tinham proferido.
Apenas sabiam do amor
que continuava vivo neles,
desconhecendo por completo
o que acontecera ao outro.
A verdade é que não só não sabiam
um do outro como tudo fizeram
para nunca mais se encontrarem.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
releituras (ou reescritas)
A ler o excelente Histórias de Amor Rasgadas, de Marina Colasanti, deparo com duas releituras (ou reescritas), que me recordam a afirmação que a microficção pode distinguir-se em histórias originais e em releituras (ou reescritas) de histórias originais. Também já o tenho feito, e apeteceu-me também reescrever essas duas histórias.
A mulher dele
Quando ele ameaçava bater-lhe, ela ameaçava sair de casa, sem olhar para trás, e durante vários anos estas ameaças mútuas mantiveram-nos juntos, mas um dia ele deu-lhe sem mais uma estalada com as costas da mão direita, atingindo-a de surpresa na face esquerda.
Ela não gritou, nem mesmo de surpresa, nem mesmo de dor. Virou-lhe apenas as costas e saiu de casa, como tantas vezes ameaçara fazer se ele alguma vez lhe batesse.
Ele seguiu-a até à porta, parou à entrada e ficou por um instante em silêncio a vê-la ir embora, os olhos muito abertos. Depois começou a insultá-la.
“Grande vaca, ainda bem que te vais embora ou eu moía-te de pancada”, gritou.
Ela parou e lentamente voltou a cabeça para trás.
Nem por um momento pensou em voltar para trás, nem por um momento pensou em olhar para ele uma última vez, limitou-se a voltar a cabeça para trás e a fitá-lo, os olhos semicerrados.
Foi então que começou a empalidecer e ficou imóvel, a respiração suspensa.
À sua frente, de um momento para o outro, ele transformara-se numa estátua de sal.
A arte de beijar
A sua aparência geral era grosseira.
O rosto rugoso, com dois sinais enormes em destaque, ostentava um duvidoso tom esverdeado. As pernas eram muito curtas, e ao andar parecia dar saltos pequenos e desajeitados.
Era uma fraca figura, sobre isso ela não tinha dúvidas. Mas quando a tomava delicadamente nos braços e a beijava com paixão, ela fechava os olhos e quase acreditava beijar um príncipe.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Nove anos depois...
N
Nove anos depois, ainda se lembrava dela como se tivesse sido ontem a última vez que a vira. Fazia nove anos que a matara.
N
Um dia decidiu-se finalmente. Nove anos depois executou a sua decisão. Era um homem ponderado. Foi a primeira e a última vez que matou.
N
Nove anos depois foi-lhe dada a possibilidade de voltar a viver. Explicaram-lhe que era o procedimento normal. Disseram-lhe que merecera nova oportunidade. Afirmaram que tinha mesmo de ir. Nada o convenceu.
N
Nove anos depois tinham-no esquecido por completo. Foi então que voltou. Já ninguém se lembrava dele com vida.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
nove anos depois
N
Nove anos depois de ter desaparecido, encontraram-no em sua casa, sentado no sofá. Estava morto e bem morto. Ficaram todos muito surpreendidos, menos ele, que ficou muito aliviado. Há nove anos que esperava que atestassem a sua morte.
N
Só soube que ele estava morto nove anos depois de ter casado com ele. Depois disso ainda viveram mais dois anos juntos.
N
Nove anos depois de ter morrido escreveu o seu primeiro romance. A partir daí nunca mais escreveu.
N
Nove anos antes pensou que ia morrer, nove anos depois morreu. Não estranhem que assim tenha acontecido, pois se muitas vezes pensamos morrer, em regra só se morre uma vez.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Literatura abrupta
domingo, 13 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Nove anos depois
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
as palavras
63 Um dia, todas as palavras que dissera e escrevera ao longo da vida voltaram para si numa azáfama, envolvendo-o numa gigantesca nuvem ruidosa, e nesse exacto momento percebeu que o seu fim estava próximo. A sua sorte foi que a morte, ali chegada, não o distinguiu no meio da confusão, e retirou-se, muito apressada, resmungando sem parar. Assim, durante mais algum tempo, ele pôde ainda continuar a falar e a escrever, o que fez, até que acabou por sucumbir a tamanha verborreia. Este é afinal o perigo que correm todos aqueles que não usam a palavra com rigor e moderação.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
49 Notícia devida
Um homem de trinta e cinco anos apareceu morto em sua casa ao fim da tarde. Felizmente, a sua mulher já aí estava, e tiveram assim a oportunidade de se despedirem antes de ele morrer de vez uma hora depois. Ao que se apurou, o homem estava morto há algumas horas, mas não tinha ainda dado por isso. Os exames realizados parecem confirmar esta hipótese, apontando para um situação rara de amnésia que impede o morto de tomar consciência da sua morte, estado que, segundo foi também referido, pode durar de uns escassos minutos a vários meses e até anos.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
um poema / uma ficção

Federico Fellini a Giulietta Masina
Entrei numa loja para te comprar
um ramo de poemas.
Disseram-me que só tinham flores,
mas eu não entendi a resposta.
Repeti que queria um ramo de poemas.
Voltaram a explicar-me que ali só vendiam flores.
Sugeriram-me vários tipos,
disseram-me os nomes.
Como sabes, sou péssimo
com o nome das flores.
Apenas tenho memória para poemas.
Esforcei-me para fazer compreender
esta minha particularidade,
mas ninguém me entendeu.
À força de não me quererem
vender poemas,
impingiam-me flores.
Que cheiravam melhor
que eram mais vivas,
que as mulheres preferem
flores a poemas.
Flores que eu não quero,
que eu definitivamente não quero,
pois tenho-te a ti.
Ninguém dá flores às flores.
O que eu quero é um ramo de poemas
para oferecer à minha flor.
siga a seta ------------------->
8 e 80
8
Era uma vez um rapaz que se sentava todos os dias à beira da estrada principal a ver passar os carros. Um pequeno muro era o seu observatório. Olhava a estrada com atenção durante longos períodos. Todos os dias. Sempre no mesmo local. O rapaz tornou-se homem, viveu a sua vida, envelheceu, mas continuou a sentar-se todos os dias à beira da estrada a ver passar os carros. Algumas vezes fazia-o noutros locais, mas apenas quando estava em viagem. Morreu vai agora fazer dez anos. O pequeno muro ainda lá está mas ninguém mais se sentou nele. Ainda ali passam carros, mas muito poucos.
80 Na estrada de Damasco
Você vai ter tudo o que precisa, diz-me uma mulher que não conheço, na fila do autocarro. Você é um homem bom, a vida vai correr-lhe bem, afirma-me um mendigo a quem dou algumas moedas. Acredite que é possível e mude a sua vida, anuncia-me o horóscopo numa das últimas páginas do jornal diário. E eu, que gosto de seguir as minhas próprias opiniões, fico a pensar que têm razão, que pouco a pouco, com muita paciência e persistência, tenho seguido o meu caminho, este mesmo que construo enquanto avanço, e que só me pode levar onde tenho de ir.
O spleen de Paris
O Cão e o Frasco
«Meu belo cão, meu bom cão, meu querido tutu, aproxima-te e vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade»
E o cão, abanando o rabo, que é, julgo eu, nestes pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e pousa curioso seu húmido nariz no frasco desarrolhado; depois, recuando subitamente apavorado, ladra contra mim, reprovador.
«Ah, cão miserável, se eu te tivesse oferecido um monte de esterco, tê-lo-ias farejado com delícia e quiçá devorado! Assim, também tu, indigno companheiro da minha triste vida, te pareces com o público, ao qual não se devem nunca apresentar perfumes delicados que o exasperem, e sim porcarias cuidadosamente escolhidas»
- Charles Baudelaire, em O Spleen de Paris (Pequenos Poemas em Prosa), edição Relógio D’Água (2007)
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Eugénio de Andrade
Sobre o verde do trevo
De alguns corpos se diz que são transbordantes, quando se deitam é raro não deixarem sinais: pequenas manchas de sol recente ou delicadas sementes de alegria. Da substância vertida sobre o verde do trevo se diz também que é eloquente (eu diria irradiante), não sei se pelo cheiro ao oiro da palha humedecida, se pelo brilho da seda acariciada. O que sei é que fascina as formigas e põe em cólera as éguas que nenhum vento emprenhou.
in Memória de outro rio
Vastos campos
Vou fazer-te uma confidência, talvez já tenha começado a envelhecer e o desejo, esse cão, ladra-me cada vez menos à porta. Nunca precisei de frequentar curandeiros da alma para saber como são vastos os campos do delírio. Agora vou sentar-me no jardim, estou cansado, Setembro foi mês de venenosas claridades, mas esta noite, para minha alegria, a terra vai arder comigo. Até ao fim.



