
Pensamentos
Os seus últimos pensamentos foram para a mulher e para os filhos. Depois disso nunca mais voltou a pensar. Desde então a vida tem-lhe corrido muito melhor.
Nada é simples quando se trata de palavras.
Quando se trata de palavras até a palavra simples é complicada.
um blog de Luís Ene

Pensamentos
Os seus últimos pensamentos foram para a mulher e para os filhos. Depois disso nunca mais voltou a pensar. Desde então a vida tem-lhe corrido muito melhor.

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A estação dos caminhos-de-ferro
A estação dos caminhos-de-ferro, assim como as saídas de Faro, eram pontos de fuga no desenho emocional da cidade. As saídas de Faro, sobretudo a saída para Lisboa, nunca eram para nós as entradas de Faro. Também à estação se ia para sair de Faro, para fugir de Faro e não mais voltar. A hora marcada no sólido relógio verde da gare era sempre a hora da partida anunciada.
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Para aqueles que não estejam em Faro e queiram ler o livro, basta pedirem-me por e-mail.
O ponto preciso
Entre a tasca dos viveiristas e mariscadores e o quartel dos Bombeiros Voluntários, entre a vergonha e a alegria do encontro e da separação, é nesse ponto preciso que estamos e sempre estaremos. Entre o que foi e o que podia ter sido.
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Apareçam no dia 1 no Draculea. [ver duas entradas abaixo]
Salvação
Sentado na esplanada, no fim de uma tarde de Verão, aborrecia-me de verde quando avistei, do outro lado da rua, uma pequena árvore. Parecia uma noiva ruborizada, inocente e maliciosa, incapaz de esconder a sua alegria. Quis escrever sobre ela (ou sobre o que senti ao vê-la), mas desisti depois de várias tentativas. Hoje lembrei-me dela, mas logo percebi que continuo a não ser capaz de revelar o seu (meu) mistério. Só não destrui este texto porque me ocorreu, enquanto o escrevia que, na sua impossibilidade, ele diz afinal a razão porque escrevo.
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Apareçam dia 1 de Fevereiro no Draculea [ver entrada anterior].



CORES
Um sorriso amarelo encontrou um dia um sorriso azul e os dois sorriram um lindo sorriso verde.
Misturou sumo de tomate com sumo de limão e estranhamente obteve o que parecia ser sumo de laranja.
Estava debruçada a pintar um céu azul, quando começou a deitar sangue do nariz, e as gotas que caíram transformaram-se em violetas.
Tiburcio 439
Nunca me engano e raramente tenho dúvidas, dizia quando questionavam a sua eficiência. Para serem mais honestos do que eu teriam de nascer duas vezes, dizia quando questionavam a sua credibilidade. Era sério, muito sério, mas a verdade é que lhe faltava quase tudo para ser um homem a sério.
[…]
No domingo seguinte, ao meio-dia, Ângelo Durão tentou ouvir-se no programa de rádio, mas o programa que foi para o ar não foi aquele em que estivera. Ficou a ouvir durante algum tempo, mas devia ter havido algum engano, e embora o programa fosse o mesmo em que estivera, a Rua do Imaginário, aquela não era a emissão em que estivera. O autor falava de um programa concebido como um todo e com uma intenção artística, dizia que o texto que servia de base era da sua autoria, e Ângelo Durão admirou-se pois ninguém lhe tinha dito que o outro também escrevia. Não o tinha visto na tertúlia mas se calhar também era um frequentador. Ouviu falar de realidade e de ficção, de como eram uma e a mesma coisa, escutou jazz, muito jazz, mas não se ouviu a si mesmo, o que aliás não o incomodou nem um pouco.
Já quase se tinha esquecido do programa quando o seu autor lhe telefonou pedindo-lhe desculpa - tinham colocado na repetição um programa anterior, infelizmente acontecia muitas vezes - e a dizer-lhe que tiver algumas reacções ao programa e se ele não queria ali voltar.
“Reacções?”, estranhou Ângelo Durão. “Que reacções?”
“Alguns leitores entraram em contacto comigo.”
“Leitores?”
“Leitores do livro”, disse o outro, lendo o espanto de Ângelo Durão e soltando uma gargalhada. “Não contava com os leitores?” “Olhe que os livros têm leitores”, e riu novamente.
“Não me interessam os leitores”, respondeu finalmente Ângelo Durão.
“Lançámos um desafio, seria agora interessante confrontar-nos com a opinião dos leitores”, disse o autor do programa. “Gostava de o ter aqui outra vez.”
“Mas terei de falar com essas pessoas?”
“Poderia ser feito”, disse o outro, a ver onde paravam as coisas.
“Não me interessam os leitores, interessa-me apenas o livro.”
“Isso quer dizer que posso contar consigo no próximo programa?”
Serafim de Jesus
Acreditava que tudo na sua vida se deveria limitar a acontecer. Ainda muito novo deixou o cabelo crescer e muitos anos passaram, tantos que lhes perdeu a conta, já o cabelo quase tocava o chão. Foi então que se decidiu. Cortou o cabelo à careca e deixou-o, de novo, crescer.