domingo, 16 de janeiro de 2011

O spam é meu amigo

[Se o spam não continuasse a comentar não voltaria a ler alguns dos meus textos...]

notas de rodapé sobre o como e por que sou escritor
29 08 2006


Derramo palavras na folha branca,
manchas de tinta que falam de mim.

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Escrevo, escrevo, sempre e muito. Só depois é que dou atenção às palavras.

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Crio as personagens e dou-lhes um olhar. Depois deixo que elas falem por si mesmas, e assim se escrevam.




Se quiseres ser escritor, disse-lhe eu, escreve, escreve, escreve; e já ele me ia perguntar pela vida, quando eu concluí, e vive, vive, vive.

->

E quando a morte chegar, possa eu afinal dizer, com orgulho, O que eu não vivi, senhora minha, eu li.

—>

Lê como quem escreve e escreve como quem lê, disse-me ele em mais um conselho de mestre para aprendiz, mas eu respondi-lhe de pronto, Mas isso não estraga a leitura e a escrita? Então ele riu à gargalhada e acho que foi esse o último conselho que me deu.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

COMER ANIMAIS

Meia de língua

Tudo se está a preparar para que muito em breve a Rádio Rua apresente uma rubrica diária em que lerei histórias da minha autoria (uma por dia, de uma linha ou duas). Por agora procedi a uma rigorosa selecção, escolhendo entre as mais pequenas as de maior qualidade e representatividade de processos. Ficam aqui cinco, que foi em grupos de cinco que as escolhi (de segunda a sexta).

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A verdade da mentira

Olha-me nos olhos e diz-me a verdade, disse ele, e ela olhou-o nos olhos, bem no fundo dos olhos e mentiu-lhe. No fundo, no fundo, era isso que ele queria, e ela bem o sabia.


O perfeccionista

Matou-se lentamente, muito lentamente, por isso, quando estava quase a chegar ao fim, teve que voltar ao início e matar-se de novo. Era um perfeccionista.


É o fim

É o fim, disse ele, e tudo voltou ao princípio. Mas era apenas o princípio do fim.


Compreender

Era um artista enorme, extraordinário, mas era um homem pequeno, mesquinho, execrável. As pessoas admiravam-se. As pessoas não compreendiam. As pessoas têm esta incompreensível crença que lhes diz que é preciso compreender.

Esquecer

Um homem esforçou-se muito por esquecer a mulher que o abandonara e foi bem conseguido. Quando ela voltou não a reconheceu e apaixonou-se outra vez.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

As virtudes do spam

[Não fosse o aviso de um novo comentário e esquecer-me-ia deste texto em tempos publicado.]


diálogos esquecidos
29 08 2006



Esqueci-me, disseste, e eu perguntei, O quê? Mas tu repetiste, Esqueci-me, e eu não insisti. Há coisas que é melhor esquecer.

->
Esqueci-me de quem sou, disseste-me com surpresa, e eu respondi, Queres que eu te diga quem és? E fiquei à espera que dissesses alguma coisa, mas logo percebi que já tinhas esquecido a minha pergunta.



Esqueci-me das chaves do carro, disseste, sou mesmo esquecida, e eu lembrei-te que não tinhas carro. Sou mesmo esquecida, insististe, entre o surpreso e o convicto, esqueci-me de comprar carro.

->

Tinha uma coisa para te dizer mas não me consigo lembrar o que é, afirmaste com ênfase, e eu respondi-te com displicência, Esquece, mas tu ficaste ainda mais séria e garantiste-me que te custava muito esquecer.

—>

[Esqueci-me de algo que não escrevi e, ao tentar recordá-lo, escrevi estes textos que de outra forma não me lembraria.]

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Leila Guerriero

Para ler

Tenho estado em silêncio mas há coisas novas para ler neste blog.

Inclui páginas autónomas com algum material que no todo ou em parte aqui tinha publicado ao longo do ano e que dá conta do meu labor literário recente. Material nalguns casos ainda a precisar de alguma edição, mas que quis deixar aqui, em jeito de balanço.

Assim, na barra da esquerda, em cima, onde diz "mapa do blog", podem encontrar um ensaio, um romance em fragmentos, contos, poemas e outros textos breves.

Um bom ano de 2011.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os suicidas do fim do mundo (actualizada)

Encontrei este livro (numa livraria local) arrumado na ficção portuguesa! Tinha ficado com vontade de o ler depois de ter lido uma pequena nota no Público...



Se alguém quiser ler que diga. Se alguém tiver algo parecido que diga.

páginas

Inclui duas novas páginas neste blog. Pode acedê-las no início da barra da direita. O quase ensaio sobre microficção em Portugal, aqui publicado em 2010, e o romance Não me perguntem porquê, aqui antes parcialmente publicado também em 2010, e agora em versão integral.
Um bom 2011.

sábado, 1 de janeiro de 2011

narrar: a busca de um sentido

"Diariamente, somos postos diante da sensação de que nada faz sentido. Aí entra o narrar. Narrar é isto: a busca de um sentido."

Sergio Vilas Boas

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

cores




CORES


Um sorriso amarelo encontrou um dia um sorriso azul e os dois sorriram um lindo sorriso verde.



Misturou sumo de tomate com sumo de limão e estranhamente obteve o que parecia ser sumo de laranja.



Estava debruçada a pintar um céu azul, quando começou a deitar sangue do nariz, e as gotas que caíram transformaram-se em violetas.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Exercício Inconsequente



Foi a última coisa que disse, mas ninguém o ouviu.
Ninguém o ouviu, e ele sabia que nenhum era surdo.
Nenhum era surdo, mas todos ouviam apenas o que queriam.
Ouviam apenas o que queriam mas viam ainda menos.
Viam ainda menos, mas estavam muito mais atentos.
Estavam muito mais atentos, mas não percebiam patavina.
Não percebiam patavina, mas também ninguém estava à esperava que percebessem
coisa alguma.
Ninguém estava à espera que percebessem coisa alguma, bastava que concordassem.
Bastava que concordassem, e foi isso que fizeram.
Foi isso que fizeram, e também isto e aquilo.

Isto e aquilo são a mesma coisa, afirmou, mas bem sabia que assim não era.
Assim não era possível, disseram-lhe, e era verdade, pois por mais que tentasse foi
sempre impossível.
Foi sempre impossível, ainda que às vezes quase parecesse possível.
Ainda que às vezes quase parecesse possível, ele gostava sempre de dizer que era
impossível.
Ele gostava sempre de dizer que era impossível, e às vezes até ele acreditava.
Às vezes até ele acreditava nas suas mentiras.

Nas suas mentiras encerravam-se muitas verdades.
Muitas verdades são esquecidas, outras apenas ignoradas.
Apenas ignoradas e nunca esquecidas estão muitas coisas que em nós fazem toda a
diferença.
Fazem toda a diferença, disse ele, sobretudo as pequenas coisas a que não damos
qualquer importância.
Não damos qualquer importância a quase tudo que é realmente importante.

Realmente importante é o amor, ele devia ser a nossa religião e a nossa fé.
A nossa fé, disse ele, consiste em não acreditar em nada.
Não acreditar em nada é ser capaz de acreditar em tudo.
Ser capaz de acreditar em tudo é estar aberto a tudo.
Estar aberto a tudo é estar completamente vivo.
Completamente vivo, disse ele, estou completamente vivo.
Estou completamente vivo, disse ele, mas estava quase morto.

Estava quase morto e ainda não o sabia.
Ainda não o sabia, mas ia sabê-lo não tardaria nada.
Não tardaria nada, já estava acontecer.
Já estava a acontecer, ainda que não o soubessem.
Ainda que não o soubessem, já pouco podiam fazer.
Já pouco podiam fazer, a não ser esperar.
A não ser esperar só lhes restava desesperar.
Só lhes restava desesperar: desesperaram.
Desesperaram e continuaram a desesperar.
Continuaram a desesperar porque nada mais lhes restava.
Porque nada mais lhes restava, começaram tudo de novo.
Começaram tudo de novo, uma e outra vez.

Uma e outra vez tentou ouvir, mas não conseguia.
Tentou ouvir, mas não conseguia, e quase desistia.
Quase desistia, não fosse ser teimoso.
Não fosse ser teimoso há muito que estaria vencido.
Há muito estaria vencido se não acreditasse na vitória.
Se não acreditasse na vitória só lhe restaria a derrota.
Só lhe restaria a derrota, se renunciasse ao sonho.
Se renunciasse ao sonho, teria de viver na realidade.
Teria de viver na realidade, estava a imaginar coisas.

Estava a imaginar coisas e não era a primeira vez.
Não era a primeira vez, nem seria a última.
Nem seria a última, rematou.
Rematou, falhou.
Falhou, voltou a tentar.
Voltou a tentar, voltou a falhar.
Voltou a falhar, pensou em desistir.
Pensou em desistir, seguiu em frente.
Seguiu em frente, seguiu o caminho.
Seguiu o caminho, passo após passo.
Passo após passo avançou.
Avançou e estava cada mais próximo.
Estava cada vez mais próximo, próximo de desistir.
Próximo de desistir, mas ainda longe.
Mas ainda longe já via a meta.

Já via a meta, dentro da sua cabeça.
Dentro da sua cabeça, era o vazio.
Era o vazio, um vazio construído.
Um vazio construído, feito de nadas.
Feito de nadas, assim sou eu.
Assim sou eu, disse ele, e calou-se.
Calou-se, mas não era o fim.
Não era o fim, mas já tinha acabado.
Tinha acabado, mas ninguém sabia.
Ninguém sabia até que ele disse: é o fim.
É o fim, disse ele, e foi a última coisa que disse.

[Escrever é continuamente dobrar e desdobrar palavras à procura de um sentido.]

Antologia Pessoal

O ESSENCIAL


1 - QUEM SOMOS? (sobre o eu e a sua relação com o mundo)


Não é verdade nem mentira que o dia esteja cinzento mas eu sei que está, ou talvez eu esteja. Sempre tive dificuldades em distinguir o interior do exterior, o côncavo do convexo, o dentro do fora, o eu dos outros. Este facto trouxe-me bastantes problemas ao longo da vida e vi-me forçado, inúmeras vezes, a explicar aos outros o que, no geral, chamavam as minhas distracções e, nalguns casos, as minhas bizarrias. As coisas são o que são e disso nunca tive dúvidas, embora saiba perfeitamente que não é verdade nem mentira que o sejam. A realidade e a ficção são duas faces da mesma moeda, por assim dizer. Foi nisto que sempre acreditei e toda a gente que me conhece sabe que é assim. Quando anunciei que me apaixonara por uma personagem de ficção e íamos casar, todos foram unânimes em dizer que o casamento não fazia sentido: eu vivia no mundo da lua, nunca iria resultar.


Ela tocou-lhe a mão sobre a mesa com as pontas dos dedos. Ele estremeceu interiormente. Não tinha sentido a suavidade de uma carícia ou a displicência de um choque ocasional; fora um toque intenso, profundo, interrogativo, a pôr em causa a sua própria existência — a mais extraordinária experiência metafísica que alguma vez tivera.


2 – COMO CHEGAMOS A SER QUEM SOMOS? (sobre o tempo e as metamorfoses)


Passeava pelo jardim municipal quando se sentiu diferente. Um quase nada. Uma fugidia sensação de mudança. Tentou desesperadamente capturá-la, mas em vão. Sentou-se num banco, desanimado, e ficou à espera.


Uma a uma, inexoravelmente, as suas possibilidades começaram a diminuir. O homem apercebeu-se disso mas, apesar de todos os seus esforços, não conseguia inverter a tendência. Não era muito esperto nem dispunha de qualquer talento, era um homem sem qualidades, como podia ele escapar da armadilha que é o mundo? Certo dia, tirou um romance da estante e começou a lê-lo. A páginas tantas, suspendeu a leitura, por coincidência, no exacto momento em que mais nenhuma hipótese do que ser quem era lhe restava. Não teve consciência desse facto, e durante anos ainda acreditou que a sua vida podia mudar.


3 – O QUE É O AMOR? (sobre as várias formas do amor)


Adormeceu a pensar nela e acordou a pensar nela. Vários dias depois continuava a pensar nela. Este sentimento era-lhe tão agradável que decidiu preservá-lo. Desapareceu sem deixar rasto e nunca mais a procurou. Foi bem sucedido. Ainda hoje, decorridos mais de vinte anos, continua loucamente apaixonado por ela.


No exacto dia em que fez dezoito anos, mais precisamente no final do almoço de aniversário, o pai desejou-lhe muitas felicidades e convidou-o a sair de casa, imediatamente, era tempo de viver a sua vida, já era um homem feito, com tudo o que isso implicava de direitos e deveres. Agradeceu ao pai, tudo o que tinha feito por ele, e saiu sem mais demoras nem bagagem. Não lhe guardou ódio ou rancor; vinte anos depois, quando o pai morreu, depois de lhe ter sido diagnosticada uma doença terminal, foi ele o único que esteve ao seu lado, mesmo até ao fim, ajustando-lhe a almofada, contra o rosto. Todos os anos, por altura do aniversário da sua morte, leva-lhe flores à campa rasa e sorri, mansamente.


4 – PORQUÊ LER E ESCREVER? (sobre os livros, a escrita e a leitura)


Sentiu, pela primeira vez, uma imensa vontade de escrever, mas não tinha a mínima ideia de como lhe podia dar forma. Talvez uma carta para um amigo, mas não os tinha, talvez uma poesia de amor, mas não estava apaixonado, talvez um pequeno conto, mas ninguém o leria, talvez o seu testamento, mas não tinha quaisquer bens. Acabou por nada escrever quando podia ter escrito alguma coisa de extraordinário e perene. Mais tarde, ultrapassado aquele momento, acabou por produzir uma obra extensa e bem recebida pela crítica, mas nunca mais sentiu aquela vontade imensa de escrever. São coisas que acontecem.


Abriu o livro ao acaso e leu uma linha, mais precisamente a quinta linha da página 145. Ficou muito perturbado, o rosto lívido e a voz embargada, parecia que ia começar a chorar mas conteve-se com esforço. Leu mais uma linha, desta vez a décima da página 31, e riu com gosto durante muito tempo. Depois foi a vez da linha trigésima da página 222: um autêntico convite à reflexão que lhe foi impossível declinar. Devolveu o livro ao seu lugar na estante e pensou emocionado, entre o choro e o riso, que só a literatura dá sentido à vida.


5 – PORQUÊ CONTAR HISTÓRIAS? (sobre a arte e a necessidade de contar histórias)


Todas as histórias têm de ter um fim, nem que seja, ou sobretudo por isso, para que outras comecem. Quantas histórias deixamos por acabar, histórias que precisavam de terminar para que outras pudessem começar. E só nós, cada um de nós, pode terminar essas histórias. Ele sentiu-se atraído por ela. Sentiu vontade de a conhecer e de se dar a conhecer. Tentou aproximar-se, estabelecer uma relação; mas, a partir de certo momento, o que deveria ser uma aproximação transformou-se numa despedida. Podíamos... — disse ele para si mesmo, e não era o início de uma frase, mas sim um ponto final numa história que, como todas as histórias, precisava de um fim.


Um homem que passeava o seu cão no jardim público desapareceu misteriosamente. Desapareceu de repente, à frente de várias testemunhas. Todas as pessoas interrogadas foram unânimes em afirmá-lo, não houve forma de demovê-los, o homem desaparecera no ar. Os jornais falaram em alucinação colectiva, chegando mesmo alguma imprensa a afirmar que o homem fora raptado por alienígenas. Nunca se soube quem era e, apesar das investigações realizadas, parecia nunca ter existido. Muitas pessoas foram ouvidas, muitas opiniões foram avançadas, mas ninguém deu atenção ao escritor que, em poucas palavras, explicou o sucedido: o homem caíra fora da sua história.


6 – O QUE SE PODE DIZER COM MEIA DÚZIA DE PALAVRAS? (sobre a brevidade)


Depois de muito tentar conseguiu. Conseguiu sabe-se lá o quê.


Mudou de carro. Mudou de nome. Mudou de aspecto. Mudou de profissão. Mudou de residência. Nunca ninguém conseguiu perceber porquê. Nem ele.


7 – A VIDA TEM UM SENTIDO? (sobre o que parece não ter explicação)


Levantou-se e permaneceu sentado, fechou o livro e continuou a leitura. Desde que se levantara da cama, manhã cedo, tudo lhe saíra ao contrário, sem que conseguisse, no final do dia, encontrar uma única explicação para tudo o que acontecera. Levantou-se e de novo permaneceu sentado, voltou a fechar o livro e leu-o até ao fim. Durante algum tempo pensou em tudo o que fizera nos últimos anos, a vida tinha-lhe corrido bem, a sorte nunca lhe tinha faltado, a sublinhar, é certo, opções correctas. Levantou-se e mais uma vez permaneceu sentado, fechou o livro e foi deitar-se, convencido de que amanhã seria outro dia e talvez tudo voltasse ao normal, afinal só a morte não tinha remédio. Nada disso, nada mas mesmo nada disso, adormeceu e nunca mais acordou, saiu-lhe tudo ao contrário, menos a morte, que é astuta e maliciosa e não gosta de contradições.


Ontem, cerca das 21 horas, um homem matou a mulher por causa de um iogurte. Ele queria comer iogurte mas a mulher queria que ele comesse sopa. Eram horas de jantar, disse-lhe ela, comer iogurte estava fora de questão. Discutiram durante muito tempo, em voz alta, quebrando copos e pratos. A dada altura o homem agarrou um garfo, avançou lentamente em direcção da mulher, e espetou-lho com força na jugular. Depois foi para a varanda comer o iogurte. Era um iogurte cremoso e com pedaços de pêssego amarelo. O homem adorava aqueles iogurtes e comeu-o com prazer. Interrogados os vizinhos, aqueles foram unânimes, todas as horas são boas para se comer iogurtes.


8 – A MORTE É UMA OPÇÃO? (sobre o suicídio e outras atitudes perante a morte)


Não queria morrer sem deixar rasto, ignorado, incompreendido, apenas mais uma breve notícia numa página interior de um jornal local. Não só o seu suicídio deveria estar carregado de um claro e grandioso simbolismo trágico, mas também o bilhete de despedida, inevitável, teria de ser brilhante, conciso e comovente. Começou pela tarefa que lhe pareceu mais fácil; terminou duzentos e cinquenta e sete bilhetes de despedida, que lhe consumiram seis meses de intensa actividade, mas, apesar da elevada qualidade de todos, nenhum lhe pareceu verdadeiramente ajustado ao seu sentir. Uma grande editora interessou-se pelo seu trabalho e publicou-o sem demoras, tendo atingido, em seis meses, seis edições e cem mil exemplares. Aceitou o sucesso com indiferença, um ano depois morreu, famoso, sem deixar qualquer bilhete de despedida; o seu suicídio continua por explicar.


Foi o último a saber que tinha morrido. Durante muitos dias frequentou os locais habituais sem se aperceber que estava morto. Claro que todos sabiam mas ninguém lhe disse nada. Não é uma coisa muito agradável para se dizer a quem quer que seja e ninguém o queria entristecer. Ele sentia-se bem, muito bem, e só quando se apercebeu que essa sensação não desaparecia é que soube que estava morto.


9 - O QUE PODEMOS SABER? (sobre lições de vida e sabedoria)


Era uma vez um homem a quem nada corria bem. Como era dado à reflexão, passava muito tempo a pensar na sua vida. Disciplina e persistência é tudo o que é preciso para obter o que desejamos: foi a esta conclusão que ele chegou finalmente. E se assim o pensou mais depressa o fez. Mas não havia nada a fazer. A disciplina e a persistência foram inúteis no seu caso. Escreveu um livro sobre o assunto, que se tornou um campeão de vendas, e foi feliz para sempre. Morreu, sem que se saiba porquê, num sete de Outubro.


O mestre zen tinha dois alunos que estavam sempre em desacordo. Se um afirmava alguma coisa logo o outro a negava e as discussões nunca tinham fim. Numa discussão mais acesa, um deles empurrou vigorosamente o outro, que caiu no chão desamparado. O mestre ia a passar e assistiu a tudo. Aproximou-se do aluno caído e ajudou-o a levantar-se. Depois, dirigindo-se aos dois, censurou-os com rudeza: quem não sabe dominar o seu discurso não sabe dominar as suas consequências. Os alunos olharam um para o outro, e depois para o mestre, e deram-lhe uma tremenda sova que o deixou prostrado.


10 – O QUE PODEMOS FAZER? (sobre as diversas atitudes perante a vida)


Esperou por ela uma hora. Já tinha bebido dois gins tónicos e comido quase uma cesta de pão variado com um queijo seco de cabra. Telefonara-lhe duas vezes, e das duas deixara mensagem. Pediu a ementa e a lista dos vinhos e, depois de uma leitura atenta e minuciosa, encomendou o jantar: rosbife, com puré de maça e batatinhas coradas, e uma garrafa de vinho tinto, reserva, do Douro. Comeu e bebeu com um prazer intenso, tonto de sabores e aromas. Não quis sobremesa, terminou com um café forte, da Etiópia. Quando ela chegou queixando-se do trânsito e da vida, ele sorriu-lhe, levantou-se e saiu, deixando-lhe a conta para pagar. Caminhou durante meia hora, aspirando voluptuosamente o ar frio da noite lunar; sentia-se feliz. Decidiu jantar mais vezes sozinho.


Subitamente, sentiu-se triste, mais do que isso, sentiu que nada mais era do que tristeza, como se todos os outros sentimentos o tivessem abandonado, deixando atrás de si apenas a tristeza, esmagadora e cruel. Olhou a chávena fumegante de café com leite, suspensa da imobilidade da sua mão direita, e riu. Riu sonoras gargalhadas que abriram espaços vazios na densa tristeza que ainda sentia e, pouco a pouco, se foram enchendo de memórias, ternas e doces, alegres e cómicas, até que a tristeza se dobrou sobre si mesma, voltando à sua condição de nó cego à espera de um desenlace.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Causa e efeito ou de como escrever uma história muito pequena



Começar com uma frase, como por exemplo, e porque não, "um homem ganhou o maior prémio de sempre no Euro Milhões", que é afinal o que todos gostaríamos. E a história poderia ser a que sonhamos.

Era uma vez um homem que ganhou o maior prémio de sempre do Euro Milhões e viveu feliz para sempre.

No entanto é uma história bastante comum e aborrecida: sem mistério e sem surpresa.

Um homem ganhou o maior prémio de sempre do Euro Milhões. Depois acordou, e foi a correr entregar o seu boletim.

É ainda uma solução fácil mas já diz muito mais que a primeira. E por que não quebrar a relação causa e efeito que se estabelece normalmente entre o dinheiro e a felicidade?

Um homem ganhou o maior prémio de sempre do Euro Milhões. Durante algum tempo foi feliz. Depois, nem por isso. Mas ainda hoje é rico.

Está um pouco melhor. Também não é completamente invulgar que alguém morra ao saber que ganhou bastante dinheiro. Experimentemos-lhe uma variação.

Um homem ganhou o maior prémio de sempre do Euro Milhões. A mulher deu-lhe a notícia momentos antes de o matar.

E para terminar pensemos no que seria menos provável que acontecesse a alguém que ganhasse uma grande soma de dinheiro. De certeza que dará uma boa história.

Um homem ganhou o maior prémio de sempre do Euro Milhões. No dia seguinte suicidou-se. A decisão estava tomada há muito.

E assim se escreveram histórias muito pequenas.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Apetecia-me dizer qualquer coisa. Não era bem isto, mas tanto faz.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010


Tiburcio 439


Nunca me engano e raramente tenho dúvidas, dizia quando questionavam a sua eficiência. Para serem mais honestos do que eu teriam de nascer duas vezes, dizia quando questionavam a sua credibilidade. Era sério, muito sério, mas a verdade é que lhe faltava quase tudo para ser um homem a sério.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Não me perguntem porquê [17]



[…]



No domingo seguinte, ao meio-dia, Ângelo Durão tentou ouvir-se no programa de rádio, mas o programa que foi para o ar não foi aquele em que estivera. Ficou a ouvir durante algum tempo, mas devia ter havido algum engano, e embora o programa fosse o mesmo em que estivera, a Rua do Imaginário, aquela não era a emissão em que estivera. O autor falava de um programa concebido como um todo e com uma intenção artística, dizia que o texto que servia de base era da sua autoria, e Ângelo Durão admirou-se pois ninguém lhe tinha dito que o outro também escrevia. Não o tinha visto na tertúlia mas se calhar também era um frequentador. Ouviu falar de realidade e de ficção, de como eram uma e a mesma coisa, escutou jazz, muito jazz, mas não se ouviu a si mesmo, o que aliás não o incomodou nem um pouco.

Já quase se tinha esquecido do programa quando o seu autor lhe telefonou pedindo-lhe desculpa - tinham colocado na repetição um programa anterior, infelizmente acontecia muitas vezes - e a dizer-lhe que tiver algumas reacções ao programa e se ele não queria ali voltar.

“Reacções?”, estranhou Ângelo Durão. “Que reacções?”

“Alguns leitores entraram em contacto comigo.”

“Leitores?”

“Leitores do livro”, disse o outro, lendo o espanto de Ângelo Durão e soltando uma gargalhada. “Não contava com os leitores?” “Olhe que os livros têm leitores”, e riu novamente.

“Não me interessam os leitores”, respondeu finalmente Ângelo Durão.

“Lançámos um desafio, seria agora interessante confrontar-nos com a opinião dos leitores”, disse o autor do programa. “Gostava de o ter aqui outra vez.”

“Mas terei de falar com essas pessoas?”

“Poderia ser feito”, disse o outro, a ver onde paravam as coisas.

“Não me interessam os leitores, interessa-me apenas o livro.”

“Isso quer dizer que posso contar consigo no próximo programa?”

sábado, 25 de dezembro de 2010

gente comum - porque todos somos especiais


Serafim de Jesus


Acreditava que tudo na sua vida se deveria limitar a acontecer. Ainda muito novo deixou o cabelo crescer e muitos anos passaram, tantos que lhes perdeu a conta, já o cabelo quase tocava o chão. Foi então que se decidiu. Cortou o cabelo à careca e deixou-o, de novo, crescer.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Carta de alforria

Quando lhe foi concedida a liberdade tomou de imediato uma decisão: ia continuar a trabalhar para o patrão. Anos mais tarde, quando o patrão morreu, decidiu-se: ia continuar a trabalhar para o filho do patrão.

gente comum - porque todos somos especiais

Segismundo Savedra

Repetidas vezes sonhou que acontecia, que acontecia mesmo, mas disse sempre a si próprio que nunca, mas nunca, ia acontecer, e a verdade é que não só nunca chegou a acontecer como deixou mesmo de acontecer de um todo. Pode parecer muito difícil de perceber, mas até é bastante fácil.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A arte do romance

René Magritte, O assassino ameaçado

*

Amava as mulheres

como amava as flores.

Contemplava-as distante,

aproximava-se lentamente,

aspirava-lhes todo o ser

e depois colhia-as

de morte.

Nunca digas não facerei

Não me perguntem porquê [16]

[…]



O advogado passou a mão forte pelo rosto, como que a sentir a barba impecavelmente escanhoada. Ângelo Durão aguardava uma resposta, mas já a adivinhara, e pela primeira vez foi ele a tomar a iniciativa.

“Não tenho qualquer hipótese, não é?”

O advogado, e também poeta, não respondeu. Era um bom advogado, cauteloso e consciencioso. Se bom ou mau poeta, avalie quem o ler, que o mesmo poeta é muitas vezes bom para uns e mau para outros, pois digam o que disserem tudo depende afinal do gosto (ou se gosta ou não se gosta) e a da autenticidade (ou se é ou não se é diferente).

Ângelo Durão levantou-se, e o outro levantou-se também, rodeou a secretária, e aproximou-se dele.

“Não tem qualquer hipótese de conseguir o que quer”, disse-lhe. “Qualquer hipótese legal, pelo menos, mas talvez pudesse encetar algumas negociações que poderiam dar os seus lucros.”

Ângelo Durão olhou-o com o seu rosto triste de náufrago e disse-lhe com determinação que não iria desistir.

“Não tem nenhuma hipótese em termos legais de ver o livro retirado de circulação. E não estou a ver porque o farão de livre vontade. É verdade que rumores de má conduta poderão pôr em causa as duas empresas que financiaram o prémio, mas desconfio que isso até aumentaria as vendas e, no final, acabariam sempre por ganhar.”

Ângelo Durão abrira desmesuradamente os olhos e parecia querer fulminar o advogado, que sorriu ao vê-lo tão magro e desengonçado à sua frente, como um D. Quixote que recordava de um livro de leitura da sua infância, à beira de uma apoplexia, mas determinado e aguerrido.

“No final, se fizer escândalo, eles até lhe agradecem”, continuou o advogado, discretamente aproximando-se do outro, pronto a imobilizá-lo, não fosse o diabo tecê-las, mas Ângelo Durão voltara a sentar-se e chorava em silêncio, as lágrimas descendo-lhe pelo rosto inexpressivo.


todos os nomes

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O homem e o espelho (réplica no feminino]



René Magritte, La condition humaine

*

O amor


Uma mulher olhou-se ao espelho
e viu-se
apaixonada.
Ficou surpreendida,
mas nada,
mesmo nada
admirada.
Olhara-se ao espelho,
apenas para confirmar
aquilo de que nunca
duvidara.
Que de novo se iludira.

O homem e o espelho (réplica numero 2)

René Magritte, O espelho mágico

*

Um homem olhou-se ao espelho

e viu-se velho,

os cabelos brancos,

o rosto enrugado.

Ficou muito surpreendido.

Um dia antes ainda era novo.

Olhou-se de novo ao espelho,

desconfiado,

abriu muito os olhos

e suspirou:

Como o tempo passa

depressa.


não se fala com a boca cheia