
Nada é simples quando se trata de palavras.
Quando se trata de palavras até a palavra simples é complicada.
um blog de Luís Ene
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Tiburcio 439
Nunca me engano e raramente tenho dúvidas, dizia quando questionavam a sua eficiência. Para serem mais honestos do que eu teriam de nascer duas vezes, dizia quando questionavam a sua credibilidade. Era sério, muito sério, mas a verdade é que lhe faltava quase tudo para ser um homem a sério.
domingo, 26 de dezembro de 2010
Não me perguntem porquê [17]
[…]
No domingo seguinte, ao meio-dia, Ângelo Durão tentou ouvir-se no programa de rádio, mas o programa que foi para o ar não foi aquele em que estivera. Ficou a ouvir durante algum tempo, mas devia ter havido algum engano, e embora o programa fosse o mesmo em que estivera, a Rua do Imaginário, aquela não era a emissão em que estivera. O autor falava de um programa concebido como um todo e com uma intenção artística, dizia que o texto que servia de base era da sua autoria, e Ângelo Durão admirou-se pois ninguém lhe tinha dito que o outro também escrevia. Não o tinha visto na tertúlia mas se calhar também era um frequentador. Ouviu falar de realidade e de ficção, de como eram uma e a mesma coisa, escutou jazz, muito jazz, mas não se ouviu a si mesmo, o que aliás não o incomodou nem um pouco.
Já quase se tinha esquecido do programa quando o seu autor lhe telefonou pedindo-lhe desculpa - tinham colocado na repetição um programa anterior, infelizmente acontecia muitas vezes - e a dizer-lhe que tiver algumas reacções ao programa e se ele não queria ali voltar.
“Reacções?”, estranhou Ângelo Durão. “Que reacções?”
“Alguns leitores entraram em contacto comigo.”
“Leitores?”
“Leitores do livro”, disse o outro, lendo o espanto de Ângelo Durão e soltando uma gargalhada. “Não contava com os leitores?” “Olhe que os livros têm leitores”, e riu novamente.
“Não me interessam os leitores”, respondeu finalmente Ângelo Durão.
“Lançámos um desafio, seria agora interessante confrontar-nos com a opinião dos leitores”, disse o autor do programa. “Gostava de o ter aqui outra vez.”
“Mas terei de falar com essas pessoas?”
“Poderia ser feito”, disse o outro, a ver onde paravam as coisas.
“Não me interessam os leitores, interessa-me apenas o livro.”
“Isso quer dizer que posso contar consigo no próximo programa?”
sábado, 25 de dezembro de 2010
gente comum - porque todos somos especiais
Serafim de Jesus
Acreditava que tudo na sua vida se deveria limitar a acontecer. Ainda muito novo deixou o cabelo crescer e muitos anos passaram, tantos que lhes perdeu a conta, já o cabelo quase tocava o chão. Foi então que se decidiu. Cortou o cabelo à careca e deixou-o, de novo, crescer.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Carta de alforria
gente comum - porque todos somos especiais
Repetidas vezes sonhou que acontecia, que acontecia mesmo, mas disse sempre a si próprio que nunca, mas nunca, ia acontecer, e a verdade é que não só nunca chegou a acontecer como deixou mesmo de acontecer de um todo. Pode parecer muito difícil de perceber, mas até é bastante fácil.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
A arte do romance
Não me perguntem porquê [16]
[…]
O advogado passou a mão forte pelo rosto, como que a sentir a barba impecavelmente escanhoada. Ângelo Durão aguardava uma resposta, mas já a adivinhara, e pela primeira vez foi ele a tomar a iniciativa.
“Não tenho qualquer hipótese, não é?”
O advogado, e também poeta, não respondeu. Era um bom advogado, cauteloso e consciencioso. Se bom ou mau poeta, avalie quem o ler, que o mesmo poeta é muitas vezes bom para uns e mau para outros, pois digam o que disserem tudo depende afinal do gosto (ou se gosta ou não se gosta) e a da autenticidade (ou se é ou não se é diferente).
Ângelo Durão levantou-se, e o outro levantou-se também, rodeou a secretária, e aproximou-se dele.
“Não tem qualquer hipótese de conseguir o que quer”, disse-lhe. “Qualquer hipótese legal, pelo menos, mas talvez pudesse encetar algumas negociações que poderiam dar os seus lucros.”
Ângelo Durão olhou-o com o seu rosto triste de náufrago e disse-lhe com determinação que não iria desistir.
“Não tem nenhuma hipótese em termos legais de ver o livro retirado de circulação. E não estou a ver porque o farão de livre vontade. É verdade que rumores de má conduta poderão pôr em causa as duas empresas que financiaram o prémio, mas desconfio que isso até aumentaria as vendas e, no final, acabariam sempre por ganhar.”
Ângelo Durão abrira desmesuradamente os olhos e parecia querer fulminar o advogado, que sorriu ao vê-lo tão magro e desengonçado à sua frente, como um D. Quixote que recordava de um livro de leitura da sua infância, à beira de uma apoplexia, mas determinado e aguerrido.
“No final, se fizer escândalo, eles até lhe agradecem”, continuou o advogado, discretamente aproximando-se do outro, pronto a imobilizá-lo, não fosse o diabo tecê-las, mas Ângelo Durão voltara a sentar-se e chorava em silêncio, as lágrimas descendo-lhe pelo rosto inexpressivo.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
O homem e o espelho (réplica no feminino]
O homem e o espelho (réplica numero 2)
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
O homem e o espelho (réplica)
[pequena história n.º 469]
A primeira vez que participou num concurso literário foi-lhe atribuído o primeiro prémio. Ficou entusiasmado. Da segunda ganhou o segundo prémio. Ficou intrigado. Da terceira, espanto dos espantos, coube-lhe o terceiro prémio. A partir daí concorreu mais de mil vezes, mas não voltou a ganhar, não obstante a sua escrita se ter aperfeiçoado cada vez mais com o correr dos anos e ter chegado mesmo a alcançar aqui e ali a perfeição. [A moral desta história vem mesmo a propósito, como aliás é esperado nestas ocasiões: Concentra-te no que fazes e não te preocupes com o resultado dos teus actos.]
Não me perguntem porquê [15]
[…]
As palavras não são poesia
Umas vezes despertam-na
Outras vezes matam-na
Mas nunca são poesia
Podem até ser poema
Mas nunca são poesia
domingo, 19 de dezembro de 2010
O homem e o espelho
sábado, 18 de dezembro de 2010

Aquilo que recordo não é o que aconteceu, mas aquilo que me aconteceu. Aquilo que recordo não é o que ontem foi, mas aquilo que ainda hoje é, em mim.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
[pequena história n.º 450]
A pedra no sapato
Era uma vez um homem que tinha uma pedra no sapato e, por mais vezes a deitasse fora, nunca dela se via livre, pois a pedra, a mesma ou outra, sabe-se lá, sempre voltava a aparecer como por artes mágicas. O homem desesperava e não encontrava solução, até que depois de muito matutar resolveu não mais se calçar. Muitos foram os que acharam que ele endoidecera, muitos os que riram dele, e muitos deixaram até de lhe falar. Mas o homem não se importou mesmo nada. A verdade é que se sentia muito melhor e só isso era realmente importante.
teatromosca



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Aguinaldo Linguado
O lânguido linguado, muito recordado e venerado, quer entalado quer adornado, ensopado ou salteado, ora irritado ora esgotado, nunca punha a língua de lado e por rimas era tarado. Também tinha um fraco por anagramas, como a sua prima Guindola que, tal como ele, não batia muito bem da bola.
humor negro
Na última terça-feira li dois textos de Marina Colasanti no Draculea e senti que mexeram bastante com os ouvintes. Deixo aqui mais um texto seu e dois de Ana Maria Shua, para ali ler numa próxima terça-feira.
*
301
Do poleiro ele não fugiria. Garantiam sua permanência a argola de ferro no pé e a ponta da asa cortada. Sem ele, que solidão insuportável seria sua vida. Sim, era outra mulher. Lavava, passava, cantava na cozinha e crescia plantas.Longe estavam os dias de choro e desespero. Distante aquela tarde em que, o formicida pronto na cozinha, a campainha tocara interrompendo o gesto.
E da porta, louro e alado, o adolescente lhe dissera:
- Não chora, vim lhe ajudar. Sou seu anjo da Guarda.
( Marina Colasanti, A morada do Ser)
*
Yo todo lo consulto com la almohada porque la sé de buen juicio. Ella me escucha en silencio y me responde con sensatez. En la conversación interviene la frazada. Al final, siempre le hago caso al colchón, que es un
irresponsable.
(Ana Maria Shua, La Sueñera)
Consulto sempre a almofada porque sei que ela é boa conselheira. Escuta-me em silêncio e responde-me com sensatez. O cobertor mete-se na conversa. No final, dou sempre razão ao colchão, que é um irresponsável.
(mudada por mim)
*
Un hombre sueña que ama a una mujer. La mujer huye. El hombre envía en su persecución los perros de su deseo. La mujer cruza un puente sobre un río, atraviesa un muro, se eleva sobre una montaña. Los perros atraviesan el río a nado, saltan el muro y al pie de la montaña se detienen jadeando. El hombre sabe, en su sueño, que jamás en su sueño podrá alcanzarla. Cuando despierta, la mujer está a su lado y el hombre descubre, decepcionado, que ya es suya. (Ana Maria Shua, La Sueñera)
Um homem sonha que ama uma mulher. A mulher foge. O homem envia em sua perseguição os cães do seu desejo. A mulher atravessa uma ponte sobre um rio, passa para lá de um muro, ergue-se ao cimo de uma montanha. Os cães atravessam o rio a nado, saltam o muro e no sopé da montanha detêm-se arfando. O homem sabe, no seu sonho, que nunca no seu sonho a conseguirá alcançar. Quando acorda, a mulher está a seu lado e o homem descobre, decepcionado, que ela já é sua.
(mudada por mim)
Não me perguntem porquê [14]
[…]
“O que achaste do Ângelo Durão?” perguntou Francisco Aresta a Celestino, enquanto olhava em volta, passeando o olhar pelas mulheres na sala.
“Acho que fiquei com vontade de ler o romance dele.”
“Gostas mesmo de perder tempo”, disse Francisco Aresta, as sobrancelhas negras e hirsutas a sublinhar o escárnio da afirmação. Bebeu mais um gole de cerveja pela garrafa e encostou-se ao balcão do bar, olhando para além dele, para o átrio.
“Tu também não gostas de nada nem de ninguém, a não ser de ti próprio e do que escreves”, afirmou Celestino.
“Não gosto é de fraudes. Tu não viste que aquilo não passa de uma forma de ele vender mais livros?”
Celestino olhou Francisco Aresta com surpresa. Mas como é que este gajo consegue estar sempre do contra?
“Tens de me explicar como é que ele vai vender mais livros se o que ele quer é retirar o romance do mercado.”
“Mas tu acreditaste? És mesmo anjinho.”
E Francisco Aresta lançou a sua gargalhada sardónica, que a todos irritava, e olhou Celestino com a única expressão que, segundo o próprio Celestino, o seu rosto conhecia.
“És mesmo anjinho!”, repetiu, e bebeu mais um gole de cerveja.
Já Celestino desistira de uma explicação e pensava voltar ao salão, onde ainda decorria a tertúlia, quando Francisco Aresta, agarrando-lhe no braço, apresentou a sua tese.
“Tu não disseste que ficaste com vontade de ler o romance do Ângelo Durão?”
“Sim”, disse Celestino, mas Francisco Aresta já continuara a falar.
“Pois bem, então vê lá se não tenho razão. O Ângelo Durão começa uma campanha contra a editora para retirar o livro do mercado e as pessoas interrogam-se porquê. O que terá o livro? Quem é que tem razão? E compram o livro, e lêem o livro. Não estás a ver? É um grande golpe! De mestre!”
Celestino não disse nada e dirigiu-se para o salão onde ainda decorria a tertúlia, com Francisco Aresta ainda agarrado ao seu braço. Saíram do bar, atravessaram o átrio na diagonal e só quando estavam já à porta do salão, é que Celestino picou Francisco Aresta, adivinhando-lhe a resposta.
“Vais comprar o livro do Ângelo Durão?”
“Antes beber um litro de azeite do que comprar essa merda. E muito menos lê-la!”
Entraram no salão e sentaram-se à frente, ao pé do palco estreito, onde alguém lia um poema. Nem um nem outro se interessaram pelo que se passava no palco. Francisco Aresta passeava o seu olhar miúdo pelas mesas, Celestino parecia pensativo. Será que o Francisco tem razão? Pode lá ser! O Ângelo Durão pareceu-me tão autêntico! Mas é preciso um oportunista para apanhar outro. Essa é que é essa! E olhou para o palco, onde um jovem se preparava para ler alto. E ficou a ouvir.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
gente comum
O incendiário
admirava-se sempre com a facilidade com que a gasolina entrava em COMBUSTÃO.
O oportunista
fugiu sempre ao confronto e à verdade. Chegou a ministro.
O homem vazio
falou durante horas. Quando se calou, percebeu finalmente que nada tinha para dizer.
O homem preocupado
andava sempre muito preocupado. Um dia deixou de se preocupar e ficou ainda mais preocupado.




