Nada é simples quando se trata de palavras.
Quando se trata de palavras até a palavra simples é complicada.
um blog de Luís Ene
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
gente comum - porque todos somos especiais
Repetidas vezes sonhou que acontecia, que acontecia mesmo, mas disse sempre a si próprio que nunca, mas nunca, ia acontecer, e a verdade é que não só nunca chegou a acontecer como deixou mesmo de acontecer de um todo. Pode parecer muito difícil de perceber, mas até é bastante fácil.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
A arte do romance
Não me perguntem porquê [16]
[…]
O advogado passou a mão forte pelo rosto, como que a sentir a barba impecavelmente escanhoada. Ângelo Durão aguardava uma resposta, mas já a adivinhara, e pela primeira vez foi ele a tomar a iniciativa.
“Não tenho qualquer hipótese, não é?”
O advogado, e também poeta, não respondeu. Era um bom advogado, cauteloso e consciencioso. Se bom ou mau poeta, avalie quem o ler, que o mesmo poeta é muitas vezes bom para uns e mau para outros, pois digam o que disserem tudo depende afinal do gosto (ou se gosta ou não se gosta) e a da autenticidade (ou se é ou não se é diferente).
Ângelo Durão levantou-se, e o outro levantou-se também, rodeou a secretária, e aproximou-se dele.
“Não tem qualquer hipótese de conseguir o que quer”, disse-lhe. “Qualquer hipótese legal, pelo menos, mas talvez pudesse encetar algumas negociações que poderiam dar os seus lucros.”
Ângelo Durão olhou-o com o seu rosto triste de náufrago e disse-lhe com determinação que não iria desistir.
“Não tem nenhuma hipótese em termos legais de ver o livro retirado de circulação. E não estou a ver porque o farão de livre vontade. É verdade que rumores de má conduta poderão pôr em causa as duas empresas que financiaram o prémio, mas desconfio que isso até aumentaria as vendas e, no final, acabariam sempre por ganhar.”
Ângelo Durão abrira desmesuradamente os olhos e parecia querer fulminar o advogado, que sorriu ao vê-lo tão magro e desengonçado à sua frente, como um D. Quixote que recordava de um livro de leitura da sua infância, à beira de uma apoplexia, mas determinado e aguerrido.
“No final, se fizer escândalo, eles até lhe agradecem”, continuou o advogado, discretamente aproximando-se do outro, pronto a imobilizá-lo, não fosse o diabo tecê-las, mas Ângelo Durão voltara a sentar-se e chorava em silêncio, as lágrimas descendo-lhe pelo rosto inexpressivo.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
O homem e o espelho (réplica no feminino]
O homem e o espelho (réplica numero 2)
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
O homem e o espelho (réplica)
[pequena história n.º 469]
A primeira vez que participou num concurso literário foi-lhe atribuído o primeiro prémio. Ficou entusiasmado. Da segunda ganhou o segundo prémio. Ficou intrigado. Da terceira, espanto dos espantos, coube-lhe o terceiro prémio. A partir daí concorreu mais de mil vezes, mas não voltou a ganhar, não obstante a sua escrita se ter aperfeiçoado cada vez mais com o correr dos anos e ter chegado mesmo a alcançar aqui e ali a perfeição. [A moral desta história vem mesmo a propósito, como aliás é esperado nestas ocasiões: Concentra-te no que fazes e não te preocupes com o resultado dos teus actos.]
Não me perguntem porquê [15]
[…]
As palavras não são poesia
Umas vezes despertam-na
Outras vezes matam-na
Mas nunca são poesia
Podem até ser poema
Mas nunca são poesia
domingo, 19 de dezembro de 2010
O homem e o espelho
sábado, 18 de dezembro de 2010

Aquilo que recordo não é o que aconteceu, mas aquilo que me aconteceu. Aquilo que recordo não é o que ontem foi, mas aquilo que ainda hoje é, em mim.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
[pequena história n.º 450]
A pedra no sapato
Era uma vez um homem que tinha uma pedra no sapato e, por mais vezes a deitasse fora, nunca dela se via livre, pois a pedra, a mesma ou outra, sabe-se lá, sempre voltava a aparecer como por artes mágicas. O homem desesperava e não encontrava solução, até que depois de muito matutar resolveu não mais se calçar. Muitos foram os que acharam que ele endoidecera, muitos os que riram dele, e muitos deixaram até de lhe falar. Mas o homem não se importou mesmo nada. A verdade é que se sentia muito melhor e só isso era realmente importante.
teatromosca



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Aguinaldo Linguado
O lânguido linguado, muito recordado e venerado, quer entalado quer adornado, ensopado ou salteado, ora irritado ora esgotado, nunca punha a língua de lado e por rimas era tarado. Também tinha um fraco por anagramas, como a sua prima Guindola que, tal como ele, não batia muito bem da bola.
humor negro
Na última terça-feira li dois textos de Marina Colasanti no Draculea e senti que mexeram bastante com os ouvintes. Deixo aqui mais um texto seu e dois de Ana Maria Shua, para ali ler numa próxima terça-feira.
*
301
Do poleiro ele não fugiria. Garantiam sua permanência a argola de ferro no pé e a ponta da asa cortada. Sem ele, que solidão insuportável seria sua vida. Sim, era outra mulher. Lavava, passava, cantava na cozinha e crescia plantas.Longe estavam os dias de choro e desespero. Distante aquela tarde em que, o formicida pronto na cozinha, a campainha tocara interrompendo o gesto.
E da porta, louro e alado, o adolescente lhe dissera:
- Não chora, vim lhe ajudar. Sou seu anjo da Guarda.
( Marina Colasanti, A morada do Ser)
*
Yo todo lo consulto com la almohada porque la sé de buen juicio. Ella me escucha en silencio y me responde con sensatez. En la conversación interviene la frazada. Al final, siempre le hago caso al colchón, que es un
irresponsable.
(Ana Maria Shua, La Sueñera)
Consulto sempre a almofada porque sei que ela é boa conselheira. Escuta-me em silêncio e responde-me com sensatez. O cobertor mete-se na conversa. No final, dou sempre razão ao colchão, que é um irresponsável.
(mudada por mim)
*
Un hombre sueña que ama a una mujer. La mujer huye. El hombre envía en su persecución los perros de su deseo. La mujer cruza un puente sobre un río, atraviesa un muro, se eleva sobre una montaña. Los perros atraviesan el río a nado, saltan el muro y al pie de la montaña se detienen jadeando. El hombre sabe, en su sueño, que jamás en su sueño podrá alcanzarla. Cuando despierta, la mujer está a su lado y el hombre descubre, decepcionado, que ya es suya. (Ana Maria Shua, La Sueñera)
Um homem sonha que ama uma mulher. A mulher foge. O homem envia em sua perseguição os cães do seu desejo. A mulher atravessa uma ponte sobre um rio, passa para lá de um muro, ergue-se ao cimo de uma montanha. Os cães atravessam o rio a nado, saltam o muro e no sopé da montanha detêm-se arfando. O homem sabe, no seu sonho, que nunca no seu sonho a conseguirá alcançar. Quando acorda, a mulher está a seu lado e o homem descobre, decepcionado, que ela já é sua.
(mudada por mim)
Não me perguntem porquê [14]
[…]
“O que achaste do Ângelo Durão?” perguntou Francisco Aresta a Celestino, enquanto olhava em volta, passeando o olhar pelas mulheres na sala.
“Acho que fiquei com vontade de ler o romance dele.”
“Gostas mesmo de perder tempo”, disse Francisco Aresta, as sobrancelhas negras e hirsutas a sublinhar o escárnio da afirmação. Bebeu mais um gole de cerveja pela garrafa e encostou-se ao balcão do bar, olhando para além dele, para o átrio.
“Tu também não gostas de nada nem de ninguém, a não ser de ti próprio e do que escreves”, afirmou Celestino.
“Não gosto é de fraudes. Tu não viste que aquilo não passa de uma forma de ele vender mais livros?”
Celestino olhou Francisco Aresta com surpresa. Mas como é que este gajo consegue estar sempre do contra?
“Tens de me explicar como é que ele vai vender mais livros se o que ele quer é retirar o romance do mercado.”
“Mas tu acreditaste? És mesmo anjinho.”
E Francisco Aresta lançou a sua gargalhada sardónica, que a todos irritava, e olhou Celestino com a única expressão que, segundo o próprio Celestino, o seu rosto conhecia.
“És mesmo anjinho!”, repetiu, e bebeu mais um gole de cerveja.
Já Celestino desistira de uma explicação e pensava voltar ao salão, onde ainda decorria a tertúlia, quando Francisco Aresta, agarrando-lhe no braço, apresentou a sua tese.
“Tu não disseste que ficaste com vontade de ler o romance do Ângelo Durão?”
“Sim”, disse Celestino, mas Francisco Aresta já continuara a falar.
“Pois bem, então vê lá se não tenho razão. O Ângelo Durão começa uma campanha contra a editora para retirar o livro do mercado e as pessoas interrogam-se porquê. O que terá o livro? Quem é que tem razão? E compram o livro, e lêem o livro. Não estás a ver? É um grande golpe! De mestre!”
Celestino não disse nada e dirigiu-se para o salão onde ainda decorria a tertúlia, com Francisco Aresta ainda agarrado ao seu braço. Saíram do bar, atravessaram o átrio na diagonal e só quando estavam já à porta do salão, é que Celestino picou Francisco Aresta, adivinhando-lhe a resposta.
“Vais comprar o livro do Ângelo Durão?”
“Antes beber um litro de azeite do que comprar essa merda. E muito menos lê-la!”
Entraram no salão e sentaram-se à frente, ao pé do palco estreito, onde alguém lia um poema. Nem um nem outro se interessaram pelo que se passava no palco. Francisco Aresta passeava o seu olhar miúdo pelas mesas, Celestino parecia pensativo. Será que o Francisco tem razão? Pode lá ser! O Ângelo Durão pareceu-me tão autêntico! Mas é preciso um oportunista para apanhar outro. Essa é que é essa! E olhou para o palco, onde um jovem se preparava para ler alto. E ficou a ouvir.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
gente comum
O incendiário
admirava-se sempre com a facilidade com que a gasolina entrava em COMBUSTÃO.
O oportunista
fugiu sempre ao confronto e à verdade. Chegou a ministro.
O homem vazio
falou durante horas. Quando se calou, percebeu finalmente que nada tinha para dizer.
O homem preocupado
andava sempre muito preocupado. Um dia deixou de se preocupar e ficou ainda mais preocupado.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Lídia Jorge
domingo, 12 de dezembro de 2010
Destaque
5 comentários:
- Carlos Tijolo disse...
Li este ensaio com interesse, mas pareceu-me que ele poderia beneficiar com uma justificação clara e um aprofundamento da perspectiva que é afinal o ponto de apoio do próprio texto, ou seja: a ideia de que uma aparente não-assunção selectiva da microficção como género em Portugal é má “para a microficção e para a literatura em geral”. Preto no branco, porquê? Ou amarelo no vermelho com bolinhas azuis, se for preciso... :)
- 12 de Dezembro de 2010 00:16

- luís ene disse...
Carlos, obrigado.
Acho que tal é mau para a microficção e para a literatura em geral. Talvez só não o tenho dito preto no branco porque gostaria de deixar a quem lê essa conclusão. Este ensaio foi uma aproximação, queria-se um ponto de partida mais do que um ponto de chegada.Estava a tentar ainda delimitar o problema, aprofundar poderia ser um segundo ponto. Mais uma vez obrigado.- 12 de Dezembro de 2010 06:10

- Carlos Tijolo disse...
Obrigado pela resposta. E, já que sugeri o tal aprofundamento, é justo que também explique o que penso. O teu ensaio testa a hipótese de que existe uma relutância selectiva em assumir a microficção como género, analisando o que alguns autores publicados dizem em entrevistas. Não prova a hipótese, mas mostra que faz sentido formulá-la e pensá-la. A existir essa tal relutância, parece-me natural admitir que ela, pelo menos, não ajuda a que a designação “microficção” se generalize e entre no ouvido das pessoas. Claro, de uma forma ou de outra, o género acabará sempre por se ir estabelecendo, pela acção de editoras pequenas que o assumem e promovem; mas talvez mais lentamente do que seria possível. Isto é mau? Não sei, por isso formulo outra pergunta: se a dada altura se começasse a falar imenso de microficção, se começassem a aparecer artigos nos suplementos de fim-de-semana sobre “o novo género emergente”, se grandes editoras começassem a dedicar-lhe colecções e a querer autores, a tal relutância persistiria? Quero dizer, não acho que a questão se centre tanto no perigo de tertúlias herméticas ou de autores com aspas (para isso, já existem muitos géneros à escolha). O que me parece importante considerar é que os géneros - as tais temíveis etiquetas ou prateleiras - são importantes para o trabalho das editoras e, por sua vez, as editoras são necessárias a quem queira publicar. Por isso, talvez o estabelecimento de géneros não seja assim tão inimigo da criação literária. Até ver, ambos têm coexistido de uma forma mais ou menos pacífica.
- 12 de Dezembro de 2010 07:44

- Carlos Tijolo disse...
Já agora, digo que o ensaio não prova a hipótese simplesmente porque acho que, para isso, seria necessário analisar a posição de mais autores publicados. Sobretudo para determinar se a tal relutância é mesmo selectiva, o que, para mim, não ficou inteiramente claro.
- 12 de Dezembro de 2010 07:58

- luís ene disse...
Carlos, tens razão no que dizes quanto a apenas ter focado autores e apenas alguns deles.
Mas eu quis apenas focar os autores, alguns autores, que eu conheço e aprecio e dos quais tinha material para analisar. Para abranger mais autores teria de entrevistá-los, o que cheguei a pensar fazer. E posso ainda fazê-lo.
Editores, críticos, leitores é importante analisá-los. O enfoque na existência de apenas uma antologia de microficção foi intencional e falava por si.
O ser "mau" passava pela ideia, se já é um "género" marginal, o que tem as suas consequências, como será se os próprios autores o negarem...
Mas era um ponto de partida que permitiu entre outras coisas esta troca de ideias.- 12 de Dezembro de 2010 11:16

- PS. José Mário Silva é, por exemplo, um dos autores que gostaria de ter acrescentado, entre outros, mas não tinha participado na antologia (esse foi tb um critério) e só tinha dele à mão esta afirmação: «A micro-narrativa é um género curto, que apresenta um desafio de escrita e criatividade, é também um género híbrido, que não é fácil de encaixar em nenhuma tradição literária», explicou José Mário Silva, autor de «Efeito Borboleta» e «Luz Indecisa».
Não me perguntem porquê [13]
[…]
“Queridos ouvintes, no programa de hoje da Rua do Imaginário temos connosco um escritor, um jovem escritor que ganhou um importante prémio literário com o seu primeiro romance, arrecadando desta forma uma boa maquia em dinheiro e a possibilidade de ver a sua obra publicada. No entanto, esta história, que se adivinhava feliz, teve um final inesperado. O escritor exige que o romance seja retirado do mercado por não corresponder à obra original.”
“É outro romance. Outro romance!”
“Iremos já falar sobre isso, saliento que neste programa não se fazem entrevistas, conversa-se, e é isso que vamos fazer hoje, conversar com o escritor Ângelo Durão. E para começar, Ângelo Durão, o seu auto-retrato.”
“O meu auto-retrato?”
“Sim, fale-nos de si, em poucas palavras. Quem é o Ângelo Durão?”
“Sou um homem!”
“Só?”
“Como os outros!”
“Um homem que escreve.”
“Um homem que escreveu um livro.”
“E agora se opõe à sua publicação.”
“Sim.”
O autor do programa olhou Ângelo Durão, como que a deitar contas à vida, consultou rapidamente algumas notas, e prosseguiu.
“Fiquem então com um primeiro auto-retrato do escritor Ângelo Durão, hoje convidado da Rua do Imaginário, um homem como os outros, um homem que escreveu um livro vencedor de um importante prémio e agora se opõe à sua publicação, exigindo que o romance seja imediatamente retirado do mercado. Voltamos já, depois de um pouco de música.”
“É Chet Baker, não é? Adoro Chet Baker”, disse Ângelo Durão.
“Ouve muita música quando escreve?”
“Ouço quase sempre a mesma música, tenho meia dúzia de discos, e leio quase sempre os mesmos livros, também meia dúzia, todos de autores mortos.”
“Interessante, posso perguntar-lhe isso quando estivermos no ar?”
“Sem dúvida.”
Ângelo Durão nunca tinha falado na rádio, nem tinha alguma vez estado numa, muito menos nos estúdios, e olhava à sua volta com atenção. À sua frente tinha uma janela que se abria para outro estúdio, vazio naquele momento, que lhe parecia idêntico àquele onde se encontrava e que nada tinha de especial. De onde se encontrava Ângelo Durão, sentado na perpendicular do autor do programa, do lado de trás da mesa que concentrava a necessária aparelhagem, pouco via para além do rosto do outro e mal lhe adivinhava os gestos. Percebia quando ele colocava música no leitor, à moda antiga, como lhe disse e repetiu, e de vez em quando mexia numas alavancas que subiam e desciam. Tinha-lhe perguntado se queria auscultadores, única forma de ouvir o programa tal como estava a ser emitido, e ele aceitara, pelo que estavam os dois de auscultadores, que só retiravam quando paravam de falar e o outro colocava música.
“Ouvimos de novo Chet Baker, desta vez a cantar, um dos autores preferidos do escritor Ângelo Durão, como me confidenciou há pouco. Não é verdade, Ângelo Durão?”
“Sim, adoro Chet Baker, devo ter ouvido esse disco milhares de vezes.”
“Ouviu Chet Baker enquanto escrevia o seu romance?”
“Quando escrevo só ouço a música do que escrevo”, respondeu Ângelo Durão rapidamente, e o outro riu-se.
“Mas voltemos à vaca fria, por assim dizer. O Ângelo Durão opõe-se à publicação do seu romance, ou melhor, exige que ele seja retirado do mercado tal com está e seja substituído pela verdadeira versão do romance. Confesso que sinto dificuldade em explicar a situação, tão insólita é a sua pretensão.”
“Não sei se a minha pretensão é insólita, o que sei é que o livro que foi publicado não é o livro que quero partilhar com os leitores, pois é, na verdade, outro livro.”
“Tanto quanto sei, e espero não estar enganado, o livro agora publicado tem mais um capítulo, o final, que o Ângelo Durão eliminou.”
“Eliminei o então último capítulo e dei conhecimento desse facto à editora, antes da publicação, pelo que podiam, e deviam, ter procedido à alteração que solicitei.”
“Muitos escritores procedem a diversas alterações, mais ou menos profundas, nas edições posteriores. Não acha que podia fazer isso?”
“Não sei nada sobre os outros escritores, nem sei se sou escritor, mas o livro que queria partilhar com os leitores não é este livro que está aí para ser lido, e por isso eu quero que ele seja retirado.”
“Muito bem, a sua pretensão é clara, o livro deve ser retirado do mercado. O livro não deve ser lido tal como está!”
Ângelo Durão assentiu com a cabeça.
“Vamos então para mais um pouco de música e voltamos já. Fiquem com Shostakovich e The Jazz Album, que irão sem dúvida ouvir ainda muitas vezes neste programa.”
“Gosta de Shostakovich?”
“Julgo estar a ouvir pela primeira vez.”
“Não viu o último filme do Kubrick? Uma valsa deste álbum ouve-se aí insistentemente. Eu já lhe coloco, penso que é a faixa 13, se é que não foi alterada, porque é um tema que se ouve várias vezes. Tenho de procurar se existe a banda sonora desse filme.#
Ângelo Durão colocara os auscultadores para ouvir melhor a música e o outro fez-lhe sinal para que os retirasse.
“Vamos voltar daqui a muito pouco, deixe-me que lhe faça ainda uma pergunta. Ainda não falei no título do seu romance, porque você se opõe à sua venda, mas acho que o melhor é dizê-lo ou não se saberá do que estamos a falar.”
Ângelo Durão acenou ligeiramente com a cabeça em sinal de concordância e voltou a colocar os auscultadores.
“Estamos então de regresso para continuar à conversa com Ângelo Durão, autor de um romance premiado e que agora exige que seja retirado do mercado. O romance, que se encontra à venda, chama-se Uma Pergunta Desnecessária. Ângelo Durão, já teve algumas reacções dos leitores.”
“Dos leitores?”
“Sim, dos leitores, já falou com alguém que tivesse lido o livro?”
“O livro que as pessoas leram não é o livro que eu escrevi para eles. Um livro, qualquer livro, é sempre um ponto de encontro, escrevi este romance para mim próprio mas escrevi-o também para que fosse lido, mas não tal como está. O livro que se encontra à venda não é o livro que quero partilhar, e isso é o mais importante para mim. Isso é o mais importante para mim.”
E calou-se, e recostou-se na cadeira, afastando-se do microfone, e o seu rosto fechou-se de tal maneira que o outro pensou que ele não diria mais nada.
“Uma posição invulgar mas apaixonada. Ângelo Durão exige que o seu romance Uma Pergunta Desnecessária seja retirado do mercado e, enquanto isso não acontecer, arriscaria dizer, pede mesmo a quem pensar em ler o livro para não o fazer. Ângelo Durão pede que o livro que se encontra à venda e que lhe é atribuído não seja comprado nem lido, pois não é o livro que ele quer partilhar com os leitores.”
E o autor do programa olhou para Ângelo Durão, a pedir-lhe concordância, quem cala consente, e prosseguiu, cada vez mais enfático, fazendo apelo á sua voz bem modulada.
“Fica aqui o apelo de Ângelo Durão, autor do romance premiado Uma Pergunta Desnecessária, apelo que continuaremos a repetir enquanto ele quiser. Não comprem nem leiam o romance que se encontra no mercado e lhe é atribuído: não é o romance que ele quer partilhar com os leitores. Não comprem nem leiam a versão do seu romance Uma Pergunta Desnecessária existente no mercado. O seu autor desaconselha veementemente.”
“Já não estamos no ar. Está a ouvir, reconhece agora a música?”
“Sim, reconheço.”
“Não sei se correu como esperava. Estava aqui a pensar se o tiro não lhe sairá pela culatra. Fiquei com vontade de ler o seu livro. E o mesmo poderá acontecer aos ouvintes.”
Ângelo Durão olhou-o em silêncio e voltou a colocar os auscultadores.
sábado, 11 de dezembro de 2010
carta aberta
Novo exercício inconsequente (actualização)
Asdrubal Pimenta
Encostou o carro ao gradeamento, puxou o travão de mão e desligou o motor numa rotina inconsciente enquanto o olhar percorria com atenção profissional a fachada algo decrépita, porra, se calhar também eu me amandava da janela fora, o prédio parece estar abandonado, tem um ar meio tétrico com aquele descascado em forma de cruz mesmo por baixo da janela e à noite faço ideia, com a merda de iluminação que há por aqui, isto deve parecer Elm street num dia de nevoeiro,vamos lá despachar isto, deve ser uma simples formalidade, pra mais com o emprego que o gajo tinha era depressão pela certa, despacho isto num instante, ainda tenho tempo de passar no shopping a ver se me arranjam a merda da bateria para o telemóvel senão tou lixado,não me calhava nada, será que ainda mora aqui alguém, empurrou a porta que rangeu renitente, empurrou com mais força abrindo apenas o suficiente para lhe permitir entrar, espreitando com dificuldade a penumbra do hall de entrada, foda-se que merda é esta, as paredes esburacadas pareciam gritar por socorro, o chão juncado de entulho, a escadaria ameaçando ruir, isto não está certo, no relatório não tinha nada que indicasse isto,aqui há marosca porra!, querem ver que o gajo não se suicidou...
Luis Nunes Alberto
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Não sou um escritor do Algarve
E muito menos sabia disto: "«Existe uma Escrita do Sul?» é o tema de um encontro com escritores do Algarve * agendado para 11 de Janeiro de 2011, pelas 18h00, no Convento de Santo António, em Loulé. Nesta iniciativa, para além de Lídia Jorge, participam Nuno Júdice, Gastão Cruz e Fernando Cabrita. A moderação está a cargo de Carina Infante do Carmo."
Convenceram-me, não sou um escritor do Algarve!
* presumo que quando se anuncia um encontro com escritores é porque estarão mais do que aqueles a que se dá destaque e que, também presumivelmente, se sentarão à mesa, mas estou de certeza a presumir mal. Seja como for, o que disse está escrito.





