quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

humor negro

Na última terça-feira li dois textos de Marina Colasanti no Draculea e senti que mexeram bastante com os ouvintes. Deixo aqui mais um texto seu e dois de Ana Maria Shua, para ali ler numa próxima terça-feira.


*

301

Do poleiro ele não fugiria. Garantiam sua permanência a argola de ferro no pé e a ponta da asa cortada. Sem ele, que solidão insuportável seria sua vida. Sim, era outra mulher. Lavava, passava, cantava na cozinha e crescia plantas.Longe estavam os dias de choro e desespero. Distante aquela tarde em que, o formicida pronto na cozinha, a campainha tocara interrompendo o gesto.

E da porta, louro e alado, o adolescente lhe dissera:

- Não chora, vim lhe ajudar. Sou seu anjo da Guarda.


( Marina Colasanti, A morada do Ser)

*

Yo todo lo consulto com la almohada porque la sé de buen juicio. Ella me escucha en silencio y me responde con sensatez. En la conversación interviene la frazada. Al final, siempre le hago caso al colchón, que es un

irresponsable.

(Ana Maria Shua, La Sueñera)


Consulto sempre a almofada porque sei que ela é boa conselheira. Escuta-me em silêncio e responde-me com sensatez. O cobertor mete-se na conversa. No final, dou sempre razão ao colchão, que é um irresponsável.

(mudada por mim)


*


Un hombre sueña que ama a una mujer. La mujer huye. El hombre envía en su persecución los perros de su deseo. La mujer cruza un puente sobre un río, atraviesa un muro, se eleva sobre una montaña. Los perros atraviesan el río a nado, saltan el muro y al pie de la montaña se detienen jadeando. El hombre sabe, en su sueño, que jamás en su sueño podrá alcanzarla. Cuando despierta, la mujer está a su lado y el hombre descubre, decepcionado, que ya es suya. (Ana Maria Shua, La Sueñera)


Um homem sonha que ama uma mulher. A mulher foge. O homem envia em sua perseguição os cães do seu desejo. A mulher atravessa uma ponte sobre um rio, passa para lá de um muro, ergue-se ao cimo de uma montanha. Os cães atravessam o rio a nado, saltam o muro e no sopé da montanha detêm-se arfando. O homem sabe, no seu sonho, que nunca no seu sonho a conseguirá alcançar. Quando acorda, a mulher está a seu lado e o homem descobre, decepcionado, que ela já é sua.

(mudada por mim)

Não me perguntem porquê [14]

[…]



“O que achaste do Ângelo Durão?” perguntou Francisco Aresta a Celestino, enquanto olhava em volta, passeando o olhar pelas mulheres na sala.

“Acho que fiquei com vontade de ler o romance dele.”

“Gostas mesmo de perder tempo”, disse Francisco Aresta, as sobrancelhas negras e hirsutas a sublinhar o escárnio da afirmação. Bebeu mais um gole de cerveja pela garrafa e encostou-se ao balcão do bar, olhando para além dele, para o átrio.

“Tu também não gostas de nada nem de ninguém, a não ser de ti próprio e do que escreves”, afirmou Celestino.

“Não gosto é de fraudes. Tu não viste que aquilo não passa de uma forma de ele vender mais livros?”

Celestino olhou Francisco Aresta com surpresa. Mas como é que este gajo consegue estar sempre do contra?

“Tens de me explicar como é que ele vai vender mais livros se o que ele quer é retirar o romance do mercado.”

“Mas tu acreditaste? És mesmo anjinho.”

E Francisco Aresta lançou a sua gargalhada sardónica, que a todos irritava, e olhou Celestino com a única expressão que, segundo o próprio Celestino, o seu rosto conhecia.

“És mesmo anjinho!”, repetiu, e bebeu mais um gole de cerveja.

Já Celestino desistira de uma explicação e pensava voltar ao salão, onde ainda decorria a tertúlia, quando Francisco Aresta, agarrando-lhe no braço, apresentou a sua tese.

“Tu não disseste que ficaste com vontade de ler o romance do Ângelo Durão?”

“Sim”, disse Celestino, mas Francisco Aresta já continuara a falar.

“Pois bem, então vê lá se não tenho razão. O Ângelo Durão começa uma campanha contra a editora para retirar o livro do mercado e as pessoas interrogam-se porquê. O que terá o livro? Quem é que tem razão? E compram o livro, e lêem o livro. Não estás a ver? É um grande golpe! De mestre!”

Celestino não disse nada e dirigiu-se para o salão onde ainda decorria a tertúlia, com Francisco Aresta ainda agarrado ao seu braço. Saíram do bar, atravessaram o átrio na diagonal e só quando estavam já à porta do salão, é que Celestino picou Francisco Aresta, adivinhando-lhe a resposta.

“Vais comprar o livro do Ângelo Durão?”

“Antes beber um litro de azeite do que comprar essa merda. E muito menos lê-la!”

Entraram no salão e sentaram-se à frente, ao pé do palco estreito, onde alguém lia um poema. Nem um nem outro se interessaram pelo que se passava no palco. Francisco Aresta passeava o seu olhar miúdo pelas mesas, Celestino parecia pensativo. Será que o Francisco tem razão? Pode lá ser! O Ângelo Durão pareceu-me tão autêntico! Mas é preciso um oportunista para apanhar outro. Essa é que é essa! E olhou para o palco, onde um jovem se preparava para ler alto. E ficou a ouvir.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

gente comum


O incendiário

admirava-se sempre com a facilidade com que a gasolina entrava em COMBUSTÃO.


O oportunista

fugiu sempre ao confronto e à verdade. Chegou a ministro.


O homem vazio

falou durante horas. Quando se calou, percebeu finalmente que nada tinha para dizer.


O homem preocupado

andava sempre muito preocupado. Um dia deixou de se preocupar e ficou ainda mais preocupado.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Lídia Jorge

Esta semana na Rua FM, no Impressões (quarta-feira, 19h00/20h00), fala-se com Lidia Jorge. A escritora é homenageada com o DoutoramentoHonoris Causa, no dia em que se comemora mais um aniversário da Universidade de Algarve. (com repetição ao Sábado às 12h)

Eu vou estar presente e aceito perguntas para a Lídia Jorge, até amanhã às 10 horas.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Destaque

5 comentários:

Carlos Tijolo disse...

Li este ensaio com interesse, mas pareceu-me que ele poderia beneficiar com uma justificação clara e um aprofundamento da perspectiva que é afinal o ponto de apoio do próprio texto, ou seja: a ideia de que uma aparente não-assunção selectiva da microficção como género em Portugal é má “para a microficção e para a literatura em geral”. Preto no branco, porquê? Ou amarelo no vermelho com bolinhas azuis, se for preciso... :)

luís ene disse...

Carlos, obrigado.
Acho que tal é mau para a microficção e para a literatura em geral. Talvez só não o tenho dito preto no branco porque gostaria de deixar a quem lê essa conclusão. Este ensaio foi uma aproximação, queria-se um ponto de partida mais do que um ponto de chegada.Estava a tentar ainda delimitar o problema, aprofundar poderia ser um segundo ponto. Mais uma vez obrigado.

Carlos Tijolo disse...

Obrigado pela resposta. E, já que sugeri o tal aprofundamento, é justo que também explique o que penso. O teu ensaio testa a hipótese de que existe uma relutância selectiva em assumir a microficção como género, analisando o que alguns autores publicados dizem em entrevistas. Não prova a hipótese, mas mostra que faz sentido formulá-la e pensá-la. A existir essa tal relutância, parece-me natural admitir que ela, pelo menos, não ajuda a que a designação “microficção” se generalize e entre no ouvido das pessoas. Claro, de uma forma ou de outra, o género acabará sempre por se ir estabelecendo, pela acção de editoras pequenas que o assumem e promovem; mas talvez mais lentamente do que seria possível. Isto é mau? Não sei, por isso formulo outra pergunta: se a dada altura se começasse a falar imenso de microficção, se começassem a aparecer artigos nos suplementos de fim-de-semana sobre “o novo género emergente”, se grandes editoras começassem a dedicar-lhe colecções e a querer autores, a tal relutância persistiria? Quero dizer, não acho que a questão se centre tanto no perigo de tertúlias herméticas ou de autores com aspas (para isso, já existem muitos géneros à escolha). O que me parece importante considerar é que os géneros - as tais temíveis etiquetas ou prateleiras - são importantes para o trabalho das editoras e, por sua vez, as editoras são necessárias a quem queira publicar. Por isso, talvez o estabelecimento de géneros não seja assim tão inimigo da criação literária. Até ver, ambos têm coexistido de uma forma mais ou menos pacífica.

Carlos Tijolo disse...

Já agora, digo que o ensaio não prova a hipótese simplesmente porque acho que, para isso, seria necessário analisar a posição de mais autores publicados. Sobretudo para determinar se a tal relutância é mesmo selectiva, o que, para mim, não ficou inteiramente claro.

luís ene disse...

Carlos, tens razão no que dizes quanto a apenas ter focado autores e apenas alguns deles.
Mas eu quis apenas focar os autores, alguns autores, que eu conheço e aprecio e dos quais tinha material para analisar. Para abranger mais autores teria de entrevistá-los, o que cheguei a pensar fazer. E posso ainda fazê-lo.
Editores, críticos, leitores é importante analisá-los. O enfoque na existência de apenas uma antologia de microficção foi intencional e falava por si.
O ser "mau" passava pela ideia, se já é um "género" marginal, o que tem as suas consequências, como será se os próprios autores o negarem...
Mas era um ponto de partida que permitiu entre outras coisas esta troca de ideias.

«A micro-narrativa é um género curto, que apresenta um desafio de escrita e criatividade, é também um género híbrido, que não é fácil de encaixar em nenhuma tradição literária», explicou José Mário Silva, autor de «Efeito Borboleta» e «Luz Indecisa».

Não me perguntem porquê [13]


[…]



“Queridos ouvintes, no programa de hoje da Rua do Imaginário temos connosco um escritor, um jovem escritor que ganhou um importante prémio literário com o seu primeiro romance, arrecadando desta forma uma boa maquia em dinheiro e a possibilidade de ver a sua obra publicada. No entanto, esta história, que se adivinhava feliz, teve um final inesperado. O escritor exige que o romance seja retirado do mercado por não corresponder à obra original.”

“É outro romance. Outro romance!”

“Iremos já falar sobre isso, saliento que neste programa não se fazem entrevistas, conversa-se, e é isso que vamos fazer hoje, conversar com o escritor Ângelo Durão. E para começar, Ângelo Durão, o seu auto-retrato.”

“O meu auto-retrato?”

“Sim, fale-nos de si, em poucas palavras. Quem é o Ângelo Durão?”

“Sou um homem!”

“Só?”

“Como os outros!”

“Um homem que escreve.”

“Um homem que escreveu um livro.”

“E agora se opõe à sua publicação.”

“Sim.”

O autor do programa olhou Ângelo Durão, como que a deitar contas à vida, consultou rapidamente algumas notas, e prosseguiu.

“Fiquem então com um primeiro auto-retrato do escritor Ângelo Durão, hoje convidado da Rua do Imaginário, um homem como os outros, um homem que escreveu um livro vencedor de um importante prémio e agora se opõe à sua publicação, exigindo que o romance seja imediatamente retirado do mercado. Voltamos já, depois de um pouco de música.”

“É Chet Baker, não é? Adoro Chet Baker”, disse Ângelo Durão.

“Ouve muita música quando escreve?”

“Ouço quase sempre a mesma música, tenho meia dúzia de discos, e leio quase sempre os mesmos livros, também meia dúzia, todos de autores mortos.”

“Interessante, posso perguntar-lhe isso quando estivermos no ar?”

“Sem dúvida.”

Ângelo Durão nunca tinha falado na rádio, nem tinha alguma vez estado numa, muito menos nos estúdios, e olhava à sua volta com atenção. À sua frente tinha uma janela que se abria para outro estúdio, vazio naquele momento, que lhe parecia idêntico àquele onde se encontrava e que nada tinha de especial. De onde se encontrava Ângelo Durão, sentado na perpendicular do autor do programa, do lado de trás da mesa que concentrava a necessária aparelhagem, pouco via para além do rosto do outro e mal lhe adivinhava os gestos. Percebia quando ele colocava música no leitor, à moda antiga, como lhe disse e repetiu, e de vez em quando mexia numas alavancas que subiam e desciam. Tinha-lhe perguntado se queria auscultadores, única forma de ouvir o programa tal como estava a ser emitido, e ele aceitara, pelo que estavam os dois de auscultadores, que só retiravam quando paravam de falar e o outro colocava música.

“Ouvimos de novo Chet Baker, desta vez a cantar, um dos autores preferidos do escritor Ângelo Durão, como me confidenciou há pouco. Não é verdade, Ângelo Durão?”

“Sim, adoro Chet Baker, devo ter ouvido esse disco milhares de vezes.”

“Ouviu Chet Baker enquanto escrevia o seu romance?”

“Quando escrevo só ouço a música do que escrevo”, respondeu Ângelo Durão rapidamente, e o outro riu-se.

“Mas voltemos à vaca fria, por assim dizer. O Ângelo Durão opõe-se à publicação do seu romance, ou melhor, exige que ele seja retirado do mercado tal com está e seja substituído pela verdadeira versão do romance. Confesso que sinto dificuldade em explicar a situação, tão insólita é a sua pretensão.”

“Não sei se a minha pretensão é insólita, o que sei é que o livro que foi publicado não é o livro que quero partilhar com os leitores, pois é, na verdade, outro livro.”

“Tanto quanto sei, e espero não estar enganado, o livro agora publicado tem mais um capítulo, o final, que o Ângelo Durão eliminou.”

“Eliminei o então último capítulo e dei conhecimento desse facto à editora, antes da publicação, pelo que podiam, e deviam, ter procedido à alteração que solicitei.”

“Muitos escritores procedem a diversas alterações, mais ou menos profundas, nas edições posteriores. Não acha que podia fazer isso?”

“Não sei nada sobre os outros escritores, nem sei se sou escritor, mas o livro que queria partilhar com os leitores não é este livro que está aí para ser lido, e por isso eu quero que ele seja retirado.”

“Muito bem, a sua pretensão é clara, o livro deve ser retirado do mercado. O livro não deve ser lido tal como está!”

Ângelo Durão assentiu com a cabeça.

“Vamos então para mais um pouco de música e voltamos já. Fiquem com Shostakovich e The Jazz Album, que irão sem dúvida ouvir ainda muitas vezes neste programa.”

“Gosta de Shostakovich?”

“Julgo estar a ouvir pela primeira vez.”

“Não viu o último filme do Kubrick? Uma valsa deste álbum ouve-se aí insistentemente. Eu já lhe coloco, penso que é a faixa 13, se é que não foi alterada, porque é um tema que se ouve várias vezes. Tenho de procurar se existe a banda sonora desse filme.#

Ângelo Durão colocara os auscultadores para ouvir melhor a música e o outro fez-lhe sinal para que os retirasse.

“Vamos voltar daqui a muito pouco, deixe-me que lhe faça ainda uma pergunta. Ainda não falei no título do seu romance, porque você se opõe à sua venda, mas acho que o melhor é dizê-lo ou não se saberá do que estamos a falar.”

Ângelo Durão acenou ligeiramente com a cabeça em sinal de concordância e voltou a colocar os auscultadores.

“Estamos então de regresso para continuar à conversa com Ângelo Durão, autor de um romance premiado e que agora exige que seja retirado do mercado. O romance, que se encontra à venda, chama-se Uma Pergunta Desnecessária. Ângelo Durão, já teve algumas reacções dos leitores.”

“Dos leitores?”

“Sim, dos leitores, já falou com alguém que tivesse lido o livro?”

“O livro que as pessoas leram não é o livro que eu escrevi para eles. Um livro, qualquer livro, é sempre um ponto de encontro, escrevi este romance para mim próprio mas escrevi-o também para que fosse lido, mas não tal como está. O livro que se encontra à venda não é o livro que quero partilhar, e isso é o mais importante para mim. Isso é o mais importante para mim.”

E calou-se, e recostou-se na cadeira, afastando-se do microfone, e o seu rosto fechou-se de tal maneira que o outro pensou que ele não diria mais nada.

“Uma posição invulgar mas apaixonada. Ângelo Durão exige que o seu romance Uma Pergunta Desnecessária seja retirado do mercado e, enquanto isso não acontecer, arriscaria dizer, pede mesmo a quem pensar em ler o livro para não o fazer. Ângelo Durão pede que o livro que se encontra à venda e que lhe é atribuído não seja comprado nem lido, pois não é o livro que ele quer partilhar com os leitores.”

E o autor do programa olhou para Ângelo Durão, a pedir-lhe concordância, quem cala consente, e prosseguiu, cada vez mais enfático, fazendo apelo á sua voz bem modulada.

“Fica aqui o apelo de Ângelo Durão, autor do romance premiado Uma Pergunta Desnecessária, apelo que continuaremos a repetir enquanto ele quiser. Não comprem nem leiam o romance que se encontra no mercado e lhe é atribuído: não é o romance que ele quer partilhar com os leitores. Não comprem nem leiam a versão do seu romance Uma Pergunta Desnecessária existente no mercado. O seu autor desaconselha veementemente.”

“Já não estamos no ar. Está a ouvir, reconhece agora a música?”

“Sim, reconheço.”

“Não sei se correu como esperava. Estava aqui a pensar se o tiro não lhe sairá pela culatra. Fiquei com vontade de ler o seu livro. E o mesmo poderá acontecer aos ouvintes.”

Ângelo Durão olhou-o em silêncio e voltou a colocar os auscultadores.

o que é a "microficção"

A "microficção" é "desafio ao mesmo tempo que brincadeira e experimentação".

Dari

sábado, 11 de dezembro de 2010

carta aberta

Só tem convicções aquele que não aprofundou nada.
Emile Cioran

*

O Paulo Ferreira respondeu-me e eu também lhe respondo.


*

Antes de mais, obrigado pela resposta. Em segundo lugar, do meu ponto de vista, confirmas o meu espanto, ao confirmares a necessidade que sentes, não de desprezar classificações (rótulos) para os teus textos, mas apenas o rótulo (classificação) de microficção. Até parece que o único "rótulo" limitativo em literatura é o de microficção.
Que fique claro que não tenho qualquer interesse em classificar o que quer que seja, apenas estranhei que entre todas as classificações, os autores (alguns) que escrevem textos breves logo se esforcem tanto por negar essa (e apenas essa).
Afirmas que uma das coisas que te faz recusar a catalogação do que escreves na microficção é a existência de vários “escritores” que se intitulam microficcionistas.
As aspas em escritores são tuas, o que parece indicar que esses que se intitulam microficcionistas não são, para ti, escritores.
Devo confessar que não sei quem são esses que se intitulam microficcionistas, só sei, porque tu o dizes, que não são escritores.
Tu, se bem percebi, escreves afinal microficção, mas não és microficcionista.
Tudo bem. Que uma coisa fique bem clara, eu não quero rotular o que quer que seja, nem frascos nem pessoas nem textos.
Talvez eu me tenha explicado mal, mas tentei escrever o mais claro possível, e o que escrevi está escrito.
Mais uma vez obrigado e tudo de bom para ti.


Novo exercício inconsequente (actualização)

Escrever a partir de uma fotografia. A própria fotografia como narrativa breve. O Homem do Fraque, de quem é esta fotografia, tem vindo a mostrar alguns desses exemplos. Utilizando a sua fotografia, convido/desafio à escrita de um texto breve que parta dessa fotografia. Como é costume, serei o primeiro a responder. Para dar o exemplo.
Deixem-me os textos na caixa de comentário ou enviem por correio electrónico.





Florival Diógenes


A janela do seu quarto estava sempre aberta, a qualquer hora do dia, de Verão ou de Inverno, vivesse ele onde vivesse. A mãe nunca percebeu porquê, a sua mulher também não, e o mesmo se pode dizer dos seus amigos e de todas as pessoas que alguma vez se aperceberam desse facto insólito. Um dia, atirou-se da janela do seu quarto e estatelou-se desamparado no chão. Ninguém percebeu porquê.

*

Asdrubal Pimenta


Encostou o carro ao gradeamento, puxou o travão de mão e desligou o motor numa rotina inconsciente enquanto o olhar percorria com atenção profissional a fachada algo decrépita, porra, se calhar também eu me amandava da janela fora, o prédio parece estar abandonado, tem um ar meio tétrico com aquele descascado em forma de cruz mesmo por baixo da janela e à noite faço ideia, com a merda de iluminação que há por aqui, isto deve parecer Elm street num dia de nevoeiro,vamos lá despachar isto, deve ser uma simples formalidade, pra mais com o emprego que o gajo tinha era depressão pela certa, despacho isto num instante, ainda tenho tempo de passar no shopping a ver se me arranjam a merda da bateria para o telemóvel senão tou lixado,não me calhava nada, será que ainda mora aqui alguém, empurrou a porta que rangeu renitente, empurrou com mais força abrindo apenas o suficiente para lhe permitir entrar, espreitando com dificuldade a penumbra do hall de entrada, foda-se que merda é esta, as paredes esburacadas pareciam gritar por socorro, o chão juncado de entulho, a escadaria ameaçando ruir, isto não está certo, no relatório não tinha nada que indicasse isto,aqui há marosca porra!, querem ver que o gajo não se suicidou...


Luis Nunes Alberto

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Não sou um escritor do Algarve

Confesso que não sabia que a Câmara de Loulé está a homenagear a escritora Lídia Jorge.

E muito menos sabia disto: "«Existe uma Escrita do Sul?» é o tema de um encontro com escritores do Algarve * agendado para 11 de Janeiro de 2011, pelas 18h00, no Convento de Santo António, em Loulé. Nesta iniciativa, para além de Lídia Jorge, participam Nuno Júdice, Gastão Cruz e Fernando Cabrita. A moderação está a cargo de Carina Infante do Carmo."

Convenceram-me, não sou um escritor do Algarve!

* presumo que quando se anuncia um encontro com escritores é porque estarão mais do que aqueles a que se dá destaque e que, também presumivelmente, se sentarão à mesa, mas estou de certeza a presumir mal. Seja como for, o que disse está escrito.

O fácil e o difícil, a boa e a má literatura e o que mais se verá

[puxei da caixa de comentários uma troca de ideias com a Sara Monteiro que me parece vir a propósito]


Eu tenho uma opinião diferente, por acaso. Toda a gente parece achar o miniconto difícil, mas eu não acho. Não escrevi muitos, gosto bastante de alguns, em relação aos quais diria que me saí mais do que apenas bem.:)
Não é nada o meu género o miniconto, naturalmente não o escreveria, escrevi os primeiros como brincadeira e depois para a Minguante, porque me serviam como exercício lúdico. O miniconto que me sai bem é como um flash, um acontecimento condensado em breves imagens, um minifilme que vejo passar na parede. Ele "mexe". Os minicontos que mais gostei de escrever são de um género que "mexe". Quanto aos outros são apenas razoáveis. Vê-se muito bem a diferença entre, por exemplo, um miniconto como "O Paninho Bordado" ou "O Lenço Preto", para citar apenas dois, e os outros. E esses foram ainda mais fáceis de escrever que os outros. Nunca mais escrevi minicontos desde que a Minguante acabou. Porquê? Acho que é porque não é o meu género, mas não sei porquê, se é assim tão fácil.Deve ser apenas porque o que eu quero dizer não cabe nesse formato.
Sara

luís ene disse...

Sara,
eu penso que é mais fácil escrever uma microficção e também acho que é mais difícil.
O Rui Zink diz isto bem quando afirma que "Fazer um texto muito bom em forma breve é mais difícil do que um romance. Mas fazer um micro “apenas bom” é mais fácil."
Quanto a esse mexer, concordo em absoluto.
Tenho também uma teoria algo estranha que é que em bons ROMANCES encontram-se verdadeiras microficções que poderiam ser retiradas e que são com ogãos vitais do romance.
:)

Anónimo disse...

Os microcontos são como a poesia. Tudo o que é depurado tem de ser mais pensado. Ou "acontece" e aí é uma revelação.
Eu li o que o Rui Zink escreveu. Mas o que ele diz sobre o microconto pode ser aplicado a todos os géneros, não é exclusivo da micronarrativa.
Quanto a microcontos que podem ser retirados de um romance: talvez. Mas um microconto vale por si.
Sara

Anónimo disse...

Imagina que eu escrevia: "Fazer um texto muito muito bom em forma longa é mais difícil do que escrever uma micronarrativa." Não é verdade?
Sara

Anónimo disse...

Tudo o que é muito bom é logo mais raro. E é mais comum fazer coisas medianas em todos os géneros e me todas as artes e não extarordinárias. Não é uma questão de facilidade ou dificuldade.E não é uma questão de género.Nem por um momento acredito nisso.
Sara

luís ene disse...

Sara, sim dúvida, as microficções são literatura e aplicam-se as regras gerais :)

Anónimo disse...

Pois, penso que o debate não passa por géneros (irrelevante!) mas pela discussão entre boa e má literatura. Porque para debater géneros bastardos e subvalorizados, podemos falar com muito mais propriedade sobre literatura infantil. Para dar um exemplo que conheço bem.
Sara


[Sara, discuta-se então a literatura, de vários pontos de vista, como temos vindo a fazer. :)]

A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO? [FIM]

[Acelerando, um processo tão literário como o seu oposto, termino hoje a publicação do quase ensaio que tenho trazido aqui nos últimos dias.]

V


“Quanto à micronarrativa” – afirma Paulo Kellerman - “interessa-me, enquanto escritor, quando vista como uma forma de estória condensada, em que se procura restringir um texto ao essencial e, desse modo, torná-lo mais pujante e eficaz; parece-me um exercício muito aliciante e recompensador, mas também tremendamente exigente. Mas quando micronarrativa significa uma espécie de jogo de palavras ou mesmo uma forma pobre e inábil de aforismo, já me interessa menos.“


Paulo Kellerman aceita a microficção mas também parece desconfiar dela, ainda que essa atitude surja apenas em termos de interesse pessoal, o que me parece perfeitamente legítimo. Esta posição surge com bastante clareza quando ele fala de “Miniaturas”, o seu livro de microficções, vencedor de um prémio literário: “de um lado tinha os meus contos longos, de temática existencialista, pesados e tensos, deprimidos e deprimentes, sobre morte e sexo e solidão; por outro lado, por vezes entretinha-me a escrever uns mini-contos meio palermas, muito breves e secos, uns irónicos e outros com pretensões humorísticas, sobre coisas absurdas e inesperadas como torneiras que se apaixonam e árvores que querem viajar. Os primeiros eram os que me interessam verdadeiramente enquanto “projecto literário”, os segundos não passavam de um entretenimento inconsequente. Acontece que fiz uma compilação de uns e outra compilação dos outros e enviei tudo para um concurso literário; ganhou o entretenimento inconsequente e o resultado foi a publicação do «Miniaturas».”


Chamar a microficção de entretenimento inconsequente, o que Paulo Kellerman não faz, talvez não desagradasse a Rui Costa, tal como muitos poetas gostam de dizer que a poesia é inútil. Já o referi antes, a microficção é provocadora, mas isso não a faz menos literária, antes pelo contrário. No entanto, parece-me que muitos autores pensam que a microficção é algo menor, até menor do que um entretenimento inconsequente. Preconceito ou medo, esta é uma atitude que – a par de algum desconhecimento do género – tenho muitas vezes sentido, mesmo da parte de quem escreve microficção, como já aqui referi e agora reafirmo. E isso preocupa-me.



VI


Rui Zink, a propósito da brevidade na escrita e do seu valor referiu que “o tamanho conta, sim. Mas o que se faz com o que se tem também conta. Fazer um texto muito bom em forma breve é mais difícil do que um romance. Mas fazer um micro “apenas bom” é mais fácil.”

É facil concordar com Rui Zink, e eu poderia concordar, mas já não concordo com aqueles que desvalorizam a microficção afirmando que a maior parte das microficções não tem qualidade, como já ouvi muitas vezes dizer e já vi escrito, até, desculpem-se se sou repetivo mas é propositado, por aqueles que a escrevem.

Desde quando é que a qualidade é parte integrante de um género? Os poemas maus não são poemas? Porque há romances maus nega-se a existência do romance enquanto género?

Mas então porquê essa desconfiança face à microficção, até por parte dos seus próprios autores?

Henrique Manuel Bento Fialho, no prefácio à Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, sinaliza a não assunção em Portugal da micronarrativa enquanto tal, como já referi, afirmando no entanto que não caberia averiguar ali os factores que a determinam. Não me cabe também aqui, nem me parece que o conseguisse fazer, confesso, averiguar os factores que conduzem em Portugal à desconfiança existente face à microficção. Quero tão só chamar a atenção para esse facto, e talvez sensibilizar os autores para lançarem um olhar renovado e sem preconceitos à microficção, sobretudo à microficção que se vem fazendo em Portugal.


VII



As microficções vêm marcando presença na literatura portuguesa, como bem refere Henrique Manuel Bento Fialho, “sob a capa de poema, poema em prosa, aforismo, ou o quer que seja”, não se assumindo como microficções. O próprio Henrique Manuel Bento Fialho, um dos primeiros entre nós a praticar e a reflectir sobre a micro-ficção, parece não ter escapado a essa prática de ocultamento de microficções.


Estórias Domésticas, publicada em 2006, contém uma série de microficções que dão título ao livro que, no seu conjunto, se parece apresentar como um livro de poemas, ainda que o seu autor sugira, a quem o quiser arrumar numa estante, um lugar entre as prosas e os poemas.


Não acredito que o autor negue àqueles textos, verdadeiras microficções, a sua qualidade de microficções, apenas não o assumiu explicitamente, nem tem de o fazer. Não será alheio a esse facto a sua opinião expressa no prefácio da Primeira Antologia que “é no poema em prosa que a micronarrativa melhor se consubstancia”, bem como o referido imbróglio que a mesma suscita, ou seja, no dizer do mesmo autor, “a confusão que instala entre poesia e prosa. Esta ambiguidade da microficção é sem duvida a mesma que o autor atribui ao seu livro, sugerindo um lugar entre as prosas e os poemas, um lugar de problemas.


O lugar da microficção, ou das microficções, é sem duvida um lugar de problemas, um lugar de ambiguidades, um lugar de provocações. Antes de se afirmar pelo que é, a microficção afirma-se pelo que não é, ou pelo que não é ao mesmo tempo que parece ser várias coisas. É assim que se pode falar da sua diferença, bem como da sua semelhança, relativamente ao poema em prosa ou ao poema beve em geral, à anedota, ao aforismo, ao fragmento, ao apontamento e por aí adiante. Mas, não sendo igual a mais nada e parecida a muita coisa, o que é afinal a microficção?


VIII


Curiosamente, é um autor que não parece escrever com regularidade microficções, que assume a posição mais favorável e mais abertamente de agrado pela microficção, sendo também o co-responsável pela primeira e única antologia de microficção portuguesa.


O interesse de Rui Costa pela microficção tem a ver, como ele próprio refere, com a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A “forma leve da micro-ficção permite-lhe circular melhor: como se fosse possível estar em vários sítios ao mesmo tempo. A sua plasticidade nómada fá-la experimentar a banda desenhada ou a eficácia do spot publicitário; a poesia, se o ritmo deixar; o aforismo, havendo universo que se deixe comprimir. A micro-ficção é um mutante que vai acumulando formas, interacções, desequilíbrios.”


Sem se comprometer com a questão da microficção ser ou não um género literário, afirmando que“a micro-ficção é mais do que um género, é um peixinho amarelo de barbatanas peitorais”, Rui Costa não só aceita a sua existência como reconhece a sua importância. E é isso afinal que me parece importante e tarda a acontecer em Portugal, que se reconheça a microficção, a sua importância e a sua actualidade. É claro que ao autor se reconhece sempre o direito de não classificar a sua obra, de se mover entre géneros, de preferir a hibridez, características que a microficção bem partilha.


Atente-se na resposta de Gonçalo M. Tavares, que há muito vem escrevendo microficções, a uma pergunta sobre a sua última obra:

- É difícil falar de “Uma Viagem à Índia”: não é um romance, não é um poema épico. Como é que o descreve?
- Tenho o mesmo problema. No prefácio fala-se em “anti-epopeia” e há ainda outras definições. Eu não sei e não consigo dizer exactamente o que é este livro. E isso agrada-me. Quando sei classificar um livro acho-o muito desinteressante.


A terminar, talvez possa dizer, parafraseando Gonçalo M. Tavares, que não consigo dizer o que é a microficção. E isso agrada-me. Mas que existe, existe. E recomenda-se

A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO?

IV


A assunção da microficcção como género em Portugal parece, desta forma, ser desde logo dificultada pelos próprios autores que a escrevem, partilhando sem dúvida algum preconceito comum a outros escritores, um pouco como se quem a escreve se sinta, apesar de o fazer, incomodado com o facto. Não quero aqui ponderar as causas de tal atitude mas apenas trazê-la à luz para que seja, espero eu, seja pensada e progresivamente se dissipe.


Recordo que não defendo aqui a microficção como género, mais próximo que estou, como seu praticante e não seu estudioso, de considerar, como Rui Costa, que ela “não é um género literário, é a riqueza da impossibilidade de o ser.” Mas por outro lado acredito que, mesmo que a microficção não seja um novo género literário, existem sem dúvida microficções, orfãs de género literário, mutantes – como diz ainda Rui Costa - que vão acumulando formas, interacções, desequilíbrios.


Esses textos literários breves que confundem os géneros existem, e são provocadores e vanguardistas, pelo que negar a existência da microficção é de certa forma negá-los e renegá-los, o que me parece mau para a microficção e para a literatura em geral. Pelo menos esse é o meu medo.

Mas continuemos.


[CONTINUA...]

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Marina Colasanti


A microficção tem sido muito utilizada nos cursos de criação literária partindo do princípio equivocado de que elas sejam mais fáceis, de que elas sejam um bom caminho para começar. Eu acho que elas são mais um ponto de chegada porque é muito mais difícil que fazer um conto comprido.


Marina Colasanti


*


Semelhança


I

Vivia dizendo que eu parecia uma pantera.

Que o andar, que os olhos. Eu

Deitava a cabeça no seu ombro e miava baixinho


II

Vivia dizendo que eu parecia uma pantera.

Que o andar, que os olhos. E

eu me apanterava toda para agradá-lo


III

Vivia dizendo. Mas só acreditei no dia

em que, saltando do armário,

cravei-lhe os dentes na carne e o devorei


(Marina Colasanti, Zooilógico: 58)


*


Rêmulo e Ramo


Dei de mamar aos lobinhos porque tinham ficado sem mãe. Os dentes feriam os seios, as unhas lanhavam, mas a língua lambia o leite que escorria, e o pelo era suave.

Criei os dois. Com a idade ganharam carne crua. E um ar esquivo. Rosnavam entre si disputando meu afeto.

Quando cheguei em casa e encontrei um deles estirado, soube quem o tinha morto.

Então despi o casaco e ofereci o seio ao vencedor.

(Marina Colasanti, Zooilógico:137)


*


Sexta-feira


Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clítoris das esposas

Com dedos molhado de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Marina Colasanti


A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO?

III


A Prisão do Ético, livro de estreia de Paulo Rodrigues Ferreira contém um conjunto de textos breves que podem ser facilmente classificados como microficções e o mesmo autor tem uma pratica digital já longa de produção de outros tantos textos que dificilmente receberiam outra classificação. No entanto, é o próprio autor que se esquiva a essa classificação, afirmando que “Acho que não me encaixo na micronarrativa. Sou demasiado eclético para ser apenas cento e quarenta caracteres de texto, uma página ou o que quer que seja. Muitas vezes, digo micronarrativa para usar um código que seja facilmente entendido por quem me ouve ou lê. A Prisão do Ético, por exemplo, se tem uma segunda parte mais directa, com textos mais curtos, mais facilmente identificáveis com a «micronarrativa», a primeira não tem nada de micronarrativa.”

Mais uma vez deparo com um autor de microficções que se esforça por negá-lo, como se escrever microficções fosse um estigma, e mais uma vez me surpreendo.

Paulo Rodrigues Ferreira e Rui Amaral, ainda que com nuances, recusam-se assim não só a ser classificados como microficcionistas, mas também a admitir que as escrevem. Não pretendendo fazer qualquer juízo de valor sobre essa atitude comum e sendo que ambos escrevem com regularidade textos de ficção breves que podem muito bem ser classificados como microficções, não posso deixar de interrogar porquê esta sua atitude de negação da microficção.

Quererão afinal negá-la apenas como género, mas aceitando a existência isolada de textos breves de ficção que não se incluem nos géneros tradicionais?

Eles não negam a literariedade dos seus próprios textos, apenas parecem recear que eles sejam classificados como microficções. O que quererá isso dizer?


[CONTINUA AINDA]

Exercícios inconsequentes! (actualizado)

“O dinossauro” de Augusto Monterroso é um dos textos mais estudados, citados, resenhados e parodiados na história da palavra escrita, apesar de ter uma extensão de exatamente sete palavras. (*)
A proposta/desafio é que o alterem, mantendo ou não o número de palavras original (7), da forma que quiserem e lhes for possível.
A proposta é que se divirtam, que sejam ousados, provocadores, que experimentem, sim que experimentem a microficção e que assim fazendo a pensem. Não tenham medo, ousem, divirtam-se, que a literatura também é alegria.

Aqui deixo "O dinossauro" na versão original, uma tradução e a minha modificação.

“Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.”


Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá.


*


Quando despertou, o morto ainda estava lá.

Quando adormeceu de novo, o morto saiu.

Quando despertou, não deu conta de nada.

Quando adormeceu, ainda outra vez, nada aconteceu.

Quando despertou, estava no lugar do morto.

Quando tentou dormir, percebeu que não conseguia.

Quando o morto voltou, adormeceu de vez.


*


Quando despertou, o dinossauro ainda estava ali.

E não ia embora. Fitava-o com curiosidade.

Adormeceu. Acordou. Adormeceu. Sempre a mesma coisa.

Acordou, viu o bicho. Obviamente que sonhava.


Sara Monteiro


*


Quando decidiu fugir, o dinossauro foi atrás.


Margarida Brito


*

Quando acordou, faltava ainda uma palavra.

*

Deus acordou. O caos ainda estava lá.

*

Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá.
Presente dos pais. Atirou-o longe. Ainda queria um cachorro.

*

Quando sonhou, a solidão ainda estava lá.

*
Quando despertou, a escuridão ainda estava lá... a sete palmos debaixo da terra.


Wilson Gorj


*

quando despertou, o corpo ainda vivia lá.

quando saiu, deixou a sombra ficar lá.

quando voltou, o dinossauro ainda jazia lá.


Van


*

Adormeceu. Quando acordou o mundo tinha acabado.

Sara Monteiro


*

O sonho de Deus

Adormeceu. Quando acordou tinha acabado o mundo.

Luís Ene


*

– Quando acordou, o dinossauro ainda estava ali.
– Um homem acordou junto de um dinossauro?!
– Não, nesta história há só o dinossauro.
– Não entendo: afinal quem é que acordou?
– O próprio dinossauro, quem havia de ser...
– Acordou e estava no mesmo sítio. Surpreendente...
– Um pouco: o pesado quadrúpede sonhara-se alado*.

* ou "Para ele sim: sonhou que tinha asas."

Carlos Tijolo

*

(Quando despertou, o outro ser ainda dormitava.)

Dari


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

private joke

[dedicado ao Rogério e ao Valter]


O Cão e o Urso


Certo dia

um cão encontrou

um urso


e tão perturbado ficou

que lhe chamou

ursinho.


O urso sorriu,

olhou-o com atenção

e depois comeu-o,


não sem antes

lhe ter chamado

almocinho.


Wilson Gorj

NM – A prática do miniconto pode levar o escritor a se repetir ou a se tornar chato? Muitos "minicontistas" (este vocábulo já foi cunhado?) se tornam meros piadistas. Você não teme se tornar um escritor de piadas?

WG – Tornar-se chato e repetitivo é um risco ao qual estão sujeitos escritores de todos os gêneros. Chatice e repetição não decorrem necessariamente de formatos e tamanhos, mas principalmente da falta de motivação e criatividade. Muitos autores se forçam a escrever sobre qualquer coisa que lhes ocorra durante a escrita; não partem de uma idéia para escrever seus textos; em vez disso, vão encadeando palavras e palavras na expectativa de que a ideia surja em meio ao emaranhado de frases gratuitas; certamente reside aí o perigo da repetição, da chatice. De uns tempos para cá, tenho recorrido à escrita apenas quando me ocorre uma ideia que valha a pena, ou melhor, a tinta, pois meus textos são paridos à caneta (o computador é onde se desenvolvem). Às vezes passo dias sem escrever uma única linha; a mente seca, estéril. E mesmo quando ela entra no cio, depois de fertilizada por algum pensamento, evito precipitar no caderno a ideia concebida. Deixo-a em processo de gestação. Se for fraca, o aborto será espontâneo; se não, a caneta fará sua parte. A maioria das minhas ideias nascem travessas, brincalhonas. De onde concluo que o humor seja meu gene predominante. Daí muitos dos meus minicontos soarem como piada. Alguns, suponho eu, conseguem transcender este caráter meramente anedótico. Nestes casos, o humor é apenas um meio, não o fim. A piada, então, torna-se uma máscara a encobrir algo mais profundo.

Leia toda a entrevista aqui. Vale a pena.


Ana Maria Shua

Da minha perspectiva de escritora, não me interesso muito pelas classificações.

De todas as maneiras, adoro a definição de Violeta Rojo que chama o mini-conto

de “gênero des-generado”. Mas tenho que admitir que não é o mesmo que um conto,

quando ele nasce posso dar-me conta de que ele brota de uma outra parte de meu

cérebro.


(…)


Num livro de microficções, assim como num livro de contos, cada pequeno texto exige-

lhe mais uma vez o esforço de concentração num pequeno mundo por descobrir. Ler

microficções é muito mais trabalhoso que ler romances.


Ana Maria Shua