sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Não sou um escritor do Algarve

Confesso que não sabia que a Câmara de Loulé está a homenagear a escritora Lídia Jorge.

E muito menos sabia disto: "«Existe uma Escrita do Sul?» é o tema de um encontro com escritores do Algarve * agendado para 11 de Janeiro de 2011, pelas 18h00, no Convento de Santo António, em Loulé. Nesta iniciativa, para além de Lídia Jorge, participam Nuno Júdice, Gastão Cruz e Fernando Cabrita. A moderação está a cargo de Carina Infante do Carmo."

Convenceram-me, não sou um escritor do Algarve!

* presumo que quando se anuncia um encontro com escritores é porque estarão mais do que aqueles a que se dá destaque e que, também presumivelmente, se sentarão à mesa, mas estou de certeza a presumir mal. Seja como for, o que disse está escrito.

O fácil e o difícil, a boa e a má literatura e o que mais se verá

[puxei da caixa de comentários uma troca de ideias com a Sara Monteiro que me parece vir a propósito]


Eu tenho uma opinião diferente, por acaso. Toda a gente parece achar o miniconto difícil, mas eu não acho. Não escrevi muitos, gosto bastante de alguns, em relação aos quais diria que me saí mais do que apenas bem.:)
Não é nada o meu género o miniconto, naturalmente não o escreveria, escrevi os primeiros como brincadeira e depois para a Minguante, porque me serviam como exercício lúdico. O miniconto que me sai bem é como um flash, um acontecimento condensado em breves imagens, um minifilme que vejo passar na parede. Ele "mexe". Os minicontos que mais gostei de escrever são de um género que "mexe". Quanto aos outros são apenas razoáveis. Vê-se muito bem a diferença entre, por exemplo, um miniconto como "O Paninho Bordado" ou "O Lenço Preto", para citar apenas dois, e os outros. E esses foram ainda mais fáceis de escrever que os outros. Nunca mais escrevi minicontos desde que a Minguante acabou. Porquê? Acho que é porque não é o meu género, mas não sei porquê, se é assim tão fácil.Deve ser apenas porque o que eu quero dizer não cabe nesse formato.
Sara

luís ene disse...

Sara,
eu penso que é mais fácil escrever uma microficção e também acho que é mais difícil.
O Rui Zink diz isto bem quando afirma que "Fazer um texto muito bom em forma breve é mais difícil do que um romance. Mas fazer um micro “apenas bom” é mais fácil."
Quanto a esse mexer, concordo em absoluto.
Tenho também uma teoria algo estranha que é que em bons ROMANCES encontram-se verdadeiras microficções que poderiam ser retiradas e que são com ogãos vitais do romance.
:)

Anónimo disse...

Os microcontos são como a poesia. Tudo o que é depurado tem de ser mais pensado. Ou "acontece" e aí é uma revelação.
Eu li o que o Rui Zink escreveu. Mas o que ele diz sobre o microconto pode ser aplicado a todos os géneros, não é exclusivo da micronarrativa.
Quanto a microcontos que podem ser retirados de um romance: talvez. Mas um microconto vale por si.
Sara

Anónimo disse...

Imagina que eu escrevia: "Fazer um texto muito muito bom em forma longa é mais difícil do que escrever uma micronarrativa." Não é verdade?
Sara

Anónimo disse...

Tudo o que é muito bom é logo mais raro. E é mais comum fazer coisas medianas em todos os géneros e me todas as artes e não extarordinárias. Não é uma questão de facilidade ou dificuldade.E não é uma questão de género.Nem por um momento acredito nisso.
Sara

luís ene disse...

Sara, sim dúvida, as microficções são literatura e aplicam-se as regras gerais :)

Anónimo disse...

Pois, penso que o debate não passa por géneros (irrelevante!) mas pela discussão entre boa e má literatura. Porque para debater géneros bastardos e subvalorizados, podemos falar com muito mais propriedade sobre literatura infantil. Para dar um exemplo que conheço bem.
Sara


[Sara, discuta-se então a literatura, de vários pontos de vista, como temos vindo a fazer. :)]

A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO? [FIM]

[Acelerando, um processo tão literário como o seu oposto, termino hoje a publicação do quase ensaio que tenho trazido aqui nos últimos dias.]

V


“Quanto à micronarrativa” – afirma Paulo Kellerman - “interessa-me, enquanto escritor, quando vista como uma forma de estória condensada, em que se procura restringir um texto ao essencial e, desse modo, torná-lo mais pujante e eficaz; parece-me um exercício muito aliciante e recompensador, mas também tremendamente exigente. Mas quando micronarrativa significa uma espécie de jogo de palavras ou mesmo uma forma pobre e inábil de aforismo, já me interessa menos.“


Paulo Kellerman aceita a microficção mas também parece desconfiar dela, ainda que essa atitude surja apenas em termos de interesse pessoal, o que me parece perfeitamente legítimo. Esta posição surge com bastante clareza quando ele fala de “Miniaturas”, o seu livro de microficções, vencedor de um prémio literário: “de um lado tinha os meus contos longos, de temática existencialista, pesados e tensos, deprimidos e deprimentes, sobre morte e sexo e solidão; por outro lado, por vezes entretinha-me a escrever uns mini-contos meio palermas, muito breves e secos, uns irónicos e outros com pretensões humorísticas, sobre coisas absurdas e inesperadas como torneiras que se apaixonam e árvores que querem viajar. Os primeiros eram os que me interessam verdadeiramente enquanto “projecto literário”, os segundos não passavam de um entretenimento inconsequente. Acontece que fiz uma compilação de uns e outra compilação dos outros e enviei tudo para um concurso literário; ganhou o entretenimento inconsequente e o resultado foi a publicação do «Miniaturas».”


Chamar a microficção de entretenimento inconsequente, o que Paulo Kellerman não faz, talvez não desagradasse a Rui Costa, tal como muitos poetas gostam de dizer que a poesia é inútil. Já o referi antes, a microficção é provocadora, mas isso não a faz menos literária, antes pelo contrário. No entanto, parece-me que muitos autores pensam que a microficção é algo menor, até menor do que um entretenimento inconsequente. Preconceito ou medo, esta é uma atitude que – a par de algum desconhecimento do género – tenho muitas vezes sentido, mesmo da parte de quem escreve microficção, como já aqui referi e agora reafirmo. E isso preocupa-me.



VI


Rui Zink, a propósito da brevidade na escrita e do seu valor referiu que “o tamanho conta, sim. Mas o que se faz com o que se tem também conta. Fazer um texto muito bom em forma breve é mais difícil do que um romance. Mas fazer um micro “apenas bom” é mais fácil.”

É facil concordar com Rui Zink, e eu poderia concordar, mas já não concordo com aqueles que desvalorizam a microficção afirmando que a maior parte das microficções não tem qualidade, como já ouvi muitas vezes dizer e já vi escrito, até, desculpem-se se sou repetivo mas é propositado, por aqueles que a escrevem.

Desde quando é que a qualidade é parte integrante de um género? Os poemas maus não são poemas? Porque há romances maus nega-se a existência do romance enquanto género?

Mas então porquê essa desconfiança face à microficção, até por parte dos seus próprios autores?

Henrique Manuel Bento Fialho, no prefácio à Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, sinaliza a não assunção em Portugal da micronarrativa enquanto tal, como já referi, afirmando no entanto que não caberia averiguar ali os factores que a determinam. Não me cabe também aqui, nem me parece que o conseguisse fazer, confesso, averiguar os factores que conduzem em Portugal à desconfiança existente face à microficção. Quero tão só chamar a atenção para esse facto, e talvez sensibilizar os autores para lançarem um olhar renovado e sem preconceitos à microficção, sobretudo à microficção que se vem fazendo em Portugal.


VII



As microficções vêm marcando presença na literatura portuguesa, como bem refere Henrique Manuel Bento Fialho, “sob a capa de poema, poema em prosa, aforismo, ou o quer que seja”, não se assumindo como microficções. O próprio Henrique Manuel Bento Fialho, um dos primeiros entre nós a praticar e a reflectir sobre a micro-ficção, parece não ter escapado a essa prática de ocultamento de microficções.


Estórias Domésticas, publicada em 2006, contém uma série de microficções que dão título ao livro que, no seu conjunto, se parece apresentar como um livro de poemas, ainda que o seu autor sugira, a quem o quiser arrumar numa estante, um lugar entre as prosas e os poemas.


Não acredito que o autor negue àqueles textos, verdadeiras microficções, a sua qualidade de microficções, apenas não o assumiu explicitamente, nem tem de o fazer. Não será alheio a esse facto a sua opinião expressa no prefácio da Primeira Antologia que “é no poema em prosa que a micronarrativa melhor se consubstancia”, bem como o referido imbróglio que a mesma suscita, ou seja, no dizer do mesmo autor, “a confusão que instala entre poesia e prosa. Esta ambiguidade da microficção é sem duvida a mesma que o autor atribui ao seu livro, sugerindo um lugar entre as prosas e os poemas, um lugar de problemas.


O lugar da microficção, ou das microficções, é sem duvida um lugar de problemas, um lugar de ambiguidades, um lugar de provocações. Antes de se afirmar pelo que é, a microficção afirma-se pelo que não é, ou pelo que não é ao mesmo tempo que parece ser várias coisas. É assim que se pode falar da sua diferença, bem como da sua semelhança, relativamente ao poema em prosa ou ao poema beve em geral, à anedota, ao aforismo, ao fragmento, ao apontamento e por aí adiante. Mas, não sendo igual a mais nada e parecida a muita coisa, o que é afinal a microficção?


VIII


Curiosamente, é um autor que não parece escrever com regularidade microficções, que assume a posição mais favorável e mais abertamente de agrado pela microficção, sendo também o co-responsável pela primeira e única antologia de microficção portuguesa.


O interesse de Rui Costa pela microficção tem a ver, como ele próprio refere, com a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A “forma leve da micro-ficção permite-lhe circular melhor: como se fosse possível estar em vários sítios ao mesmo tempo. A sua plasticidade nómada fá-la experimentar a banda desenhada ou a eficácia do spot publicitário; a poesia, se o ritmo deixar; o aforismo, havendo universo que se deixe comprimir. A micro-ficção é um mutante que vai acumulando formas, interacções, desequilíbrios.”


Sem se comprometer com a questão da microficção ser ou não um género literário, afirmando que“a micro-ficção é mais do que um género, é um peixinho amarelo de barbatanas peitorais”, Rui Costa não só aceita a sua existência como reconhece a sua importância. E é isso afinal que me parece importante e tarda a acontecer em Portugal, que se reconheça a microficção, a sua importância e a sua actualidade. É claro que ao autor se reconhece sempre o direito de não classificar a sua obra, de se mover entre géneros, de preferir a hibridez, características que a microficção bem partilha.


Atente-se na resposta de Gonçalo M. Tavares, que há muito vem escrevendo microficções, a uma pergunta sobre a sua última obra:

- É difícil falar de “Uma Viagem à Índia”: não é um romance, não é um poema épico. Como é que o descreve?
- Tenho o mesmo problema. No prefácio fala-se em “anti-epopeia” e há ainda outras definições. Eu não sei e não consigo dizer exactamente o que é este livro. E isso agrada-me. Quando sei classificar um livro acho-o muito desinteressante.


A terminar, talvez possa dizer, parafraseando Gonçalo M. Tavares, que não consigo dizer o que é a microficção. E isso agrada-me. Mas que existe, existe. E recomenda-se

A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO?

IV


A assunção da microficcção como género em Portugal parece, desta forma, ser desde logo dificultada pelos próprios autores que a escrevem, partilhando sem dúvida algum preconceito comum a outros escritores, um pouco como se quem a escreve se sinta, apesar de o fazer, incomodado com o facto. Não quero aqui ponderar as causas de tal atitude mas apenas trazê-la à luz para que seja, espero eu, seja pensada e progresivamente se dissipe.


Recordo que não defendo aqui a microficção como género, mais próximo que estou, como seu praticante e não seu estudioso, de considerar, como Rui Costa, que ela “não é um género literário, é a riqueza da impossibilidade de o ser.” Mas por outro lado acredito que, mesmo que a microficção não seja um novo género literário, existem sem dúvida microficções, orfãs de género literário, mutantes – como diz ainda Rui Costa - que vão acumulando formas, interacções, desequilíbrios.


Esses textos literários breves que confundem os géneros existem, e são provocadores e vanguardistas, pelo que negar a existência da microficção é de certa forma negá-los e renegá-los, o que me parece mau para a microficção e para a literatura em geral. Pelo menos esse é o meu medo.

Mas continuemos.


[CONTINUA...]

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Marina Colasanti


A microficção tem sido muito utilizada nos cursos de criação literária partindo do princípio equivocado de que elas sejam mais fáceis, de que elas sejam um bom caminho para começar. Eu acho que elas são mais um ponto de chegada porque é muito mais difícil que fazer um conto comprido.


Marina Colasanti


*


Semelhança


I

Vivia dizendo que eu parecia uma pantera.

Que o andar, que os olhos. Eu

Deitava a cabeça no seu ombro e miava baixinho


II

Vivia dizendo que eu parecia uma pantera.

Que o andar, que os olhos. E

eu me apanterava toda para agradá-lo


III

Vivia dizendo. Mas só acreditei no dia

em que, saltando do armário,

cravei-lhe os dentes na carne e o devorei


(Marina Colasanti, Zooilógico: 58)


*


Rêmulo e Ramo


Dei de mamar aos lobinhos porque tinham ficado sem mãe. Os dentes feriam os seios, as unhas lanhavam, mas a língua lambia o leite que escorria, e o pelo era suave.

Criei os dois. Com a idade ganharam carne crua. E um ar esquivo. Rosnavam entre si disputando meu afeto.

Quando cheguei em casa e encontrei um deles estirado, soube quem o tinha morto.

Então despi o casaco e ofereci o seio ao vencedor.

(Marina Colasanti, Zooilógico:137)


*


Sexta-feira


Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clítoris das esposas

Com dedos molhado de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Marina Colasanti


A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO?

III


A Prisão do Ético, livro de estreia de Paulo Rodrigues Ferreira contém um conjunto de textos breves que podem ser facilmente classificados como microficções e o mesmo autor tem uma pratica digital já longa de produção de outros tantos textos que dificilmente receberiam outra classificação. No entanto, é o próprio autor que se esquiva a essa classificação, afirmando que “Acho que não me encaixo na micronarrativa. Sou demasiado eclético para ser apenas cento e quarenta caracteres de texto, uma página ou o que quer que seja. Muitas vezes, digo micronarrativa para usar um código que seja facilmente entendido por quem me ouve ou lê. A Prisão do Ético, por exemplo, se tem uma segunda parte mais directa, com textos mais curtos, mais facilmente identificáveis com a «micronarrativa», a primeira não tem nada de micronarrativa.”

Mais uma vez deparo com um autor de microficções que se esforça por negá-lo, como se escrever microficções fosse um estigma, e mais uma vez me surpreendo.

Paulo Rodrigues Ferreira e Rui Amaral, ainda que com nuances, recusam-se assim não só a ser classificados como microficcionistas, mas também a admitir que as escrevem. Não pretendendo fazer qualquer juízo de valor sobre essa atitude comum e sendo que ambos escrevem com regularidade textos de ficção breves que podem muito bem ser classificados como microficções, não posso deixar de interrogar porquê esta sua atitude de negação da microficção.

Quererão afinal negá-la apenas como género, mas aceitando a existência isolada de textos breves de ficção que não se incluem nos géneros tradicionais?

Eles não negam a literariedade dos seus próprios textos, apenas parecem recear que eles sejam classificados como microficções. O que quererá isso dizer?


[CONTINUA AINDA]

Exercícios inconsequentes! (actualizado)

“O dinossauro” de Augusto Monterroso é um dos textos mais estudados, citados, resenhados e parodiados na história da palavra escrita, apesar de ter uma extensão de exatamente sete palavras. (*)
A proposta/desafio é que o alterem, mantendo ou não o número de palavras original (7), da forma que quiserem e lhes for possível.
A proposta é que se divirtam, que sejam ousados, provocadores, que experimentem, sim que experimentem a microficção e que assim fazendo a pensem. Não tenham medo, ousem, divirtam-se, que a literatura também é alegria.

Aqui deixo "O dinossauro" na versão original, uma tradução e a minha modificação.

“Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.”


Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá.


*


Quando despertou, o morto ainda estava lá.

Quando adormeceu de novo, o morto saiu.

Quando despertou, não deu conta de nada.

Quando adormeceu, ainda outra vez, nada aconteceu.

Quando despertou, estava no lugar do morto.

Quando tentou dormir, percebeu que não conseguia.

Quando o morto voltou, adormeceu de vez.


*


Quando despertou, o dinossauro ainda estava ali.

E não ia embora. Fitava-o com curiosidade.

Adormeceu. Acordou. Adormeceu. Sempre a mesma coisa.

Acordou, viu o bicho. Obviamente que sonhava.


Sara Monteiro


*


Quando decidiu fugir, o dinossauro foi atrás.


Margarida Brito


*

Quando acordou, faltava ainda uma palavra.

*

Deus acordou. O caos ainda estava lá.

*

Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá.
Presente dos pais. Atirou-o longe. Ainda queria um cachorro.

*

Quando sonhou, a solidão ainda estava lá.

*
Quando despertou, a escuridão ainda estava lá... a sete palmos debaixo da terra.


Wilson Gorj


*

quando despertou, o corpo ainda vivia lá.

quando saiu, deixou a sombra ficar lá.

quando voltou, o dinossauro ainda jazia lá.


Van


*

Adormeceu. Quando acordou o mundo tinha acabado.

Sara Monteiro


*

O sonho de Deus

Adormeceu. Quando acordou tinha acabado o mundo.

Luís Ene


*

– Quando acordou, o dinossauro ainda estava ali.
– Um homem acordou junto de um dinossauro?!
– Não, nesta história há só o dinossauro.
– Não entendo: afinal quem é que acordou?
– O próprio dinossauro, quem havia de ser...
– Acordou e estava no mesmo sítio. Surpreendente...
– Um pouco: o pesado quadrúpede sonhara-se alado*.

* ou "Para ele sim: sonhou que tinha asas."

Carlos Tijolo

*

(Quando despertou, o outro ser ainda dormitava.)

Dari


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

private joke

[dedicado ao Rogério e ao Valter]


O Cão e o Urso


Certo dia

um cão encontrou

um urso


e tão perturbado ficou

que lhe chamou

ursinho.


O urso sorriu,

olhou-o com atenção

e depois comeu-o,


não sem antes

lhe ter chamado

almocinho.


Wilson Gorj

NM – A prática do miniconto pode levar o escritor a se repetir ou a se tornar chato? Muitos "minicontistas" (este vocábulo já foi cunhado?) se tornam meros piadistas. Você não teme se tornar um escritor de piadas?

WG – Tornar-se chato e repetitivo é um risco ao qual estão sujeitos escritores de todos os gêneros. Chatice e repetição não decorrem necessariamente de formatos e tamanhos, mas principalmente da falta de motivação e criatividade. Muitos autores se forçam a escrever sobre qualquer coisa que lhes ocorra durante a escrita; não partem de uma idéia para escrever seus textos; em vez disso, vão encadeando palavras e palavras na expectativa de que a ideia surja em meio ao emaranhado de frases gratuitas; certamente reside aí o perigo da repetição, da chatice. De uns tempos para cá, tenho recorrido à escrita apenas quando me ocorre uma ideia que valha a pena, ou melhor, a tinta, pois meus textos são paridos à caneta (o computador é onde se desenvolvem). Às vezes passo dias sem escrever uma única linha; a mente seca, estéril. E mesmo quando ela entra no cio, depois de fertilizada por algum pensamento, evito precipitar no caderno a ideia concebida. Deixo-a em processo de gestação. Se for fraca, o aborto será espontâneo; se não, a caneta fará sua parte. A maioria das minhas ideias nascem travessas, brincalhonas. De onde concluo que o humor seja meu gene predominante. Daí muitos dos meus minicontos soarem como piada. Alguns, suponho eu, conseguem transcender este caráter meramente anedótico. Nestes casos, o humor é apenas um meio, não o fim. A piada, então, torna-se uma máscara a encobrir algo mais profundo.

Leia toda a entrevista aqui. Vale a pena.


Ana Maria Shua

Da minha perspectiva de escritora, não me interesso muito pelas classificações.

De todas as maneiras, adoro a definição de Violeta Rojo que chama o mini-conto

de “gênero des-generado”. Mas tenho que admitir que não é o mesmo que um conto,

quando ele nasce posso dar-me conta de que ele brota de uma outra parte de meu

cérebro.


(…)


Num livro de microficções, assim como num livro de contos, cada pequeno texto exige-

lhe mais uma vez o esforço de concentração num pequeno mundo por descobrir. Ler

microficções é muito mais trabalhoso que ler romances.


Ana Maria Shua

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Os escritores e os seus fantasmas

[dedicado ao Rui Costa e ao Rui Manuel Amaral]


Tenho vontade de contar uma história, disse um. E eu também, disse outro, e ambos puseram mãos à obra. Um escreveu com facilidade um extenso romance com mais de oitocentas páginas, outro escreveu-se penosamente em meia dúzia de linhas.


P.S.

Acho que ficaria melhor se tivesse acrescentado umas das seguintes moralidades:

Cada um escreve segundo as suas capacidades, cada um escreve segundo as suas necessidades.

Para escrever um texto longo basta começar e ir por aí adiante, já um texto breve exige uma enorme disciplina e um extremo controlo.


P.P.S.

Talvez devesse ter mencionado que o título - ao mesmo tempo uma epígrafe - é o mesmo de um livro de Ernesto Sabato, um dos maiores romancistas da América latina, e a sua escolha foi intencional.

A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO?

II


Rui Manuel Amaral, por exemplo, quando lhe é pedido que classifique os seus textos, responde habitualmente que não gosta das expressões "microconto" ou "micronarrativa" porque estão demasiado conotadas com um conjunto de regras que não segue, e o mesmo quanto à expressão microficção, aplicada cada vez mais aos seus textos, inclusive na publicidade dos seus livros, sendo mesmo designado pela sua editora como “o nosso grande microficcionista”.


Não gostando assim dos termos micro-narrativa, micro-conto ou micro-ficção Rui Manuel Amaral afirma que os seus contos são geralmente breves, de facto, mas porque essa é a forma que mais lhe convém para contar uma história. Prefere, refere ainda, dizer que escreve histórias ou ficções.

Rui Manuel Amaral escreve pois ficção, mas não microficção.


Confesso que não vejo a razão para Rui Manuel Amaral negar que escreve microficção, pelo menos se pensarmos a microficção como o conjunto dos textos breves de ficção que escapam actualmente a qualquer classificação. Até porque o Rui Manuel Amaral não se importa de dizer que escreve contos, ou histórias ou ficções.


A verdade é que os textos de Rui Manuel Amaral escapam na minha opinião à designação de contos, não porque sejam menos, mas porque são algo mais. E não é só, nem de longe, a brevidade que lhes confere essa diferença. Curioso é que o seu editor e muitos dos que comentam os seus textos os considerem microficções, enquanto o seu autor se tem afadigado a negá-lo.


Se há um preconceito em relação à microficção, nomeadamente por parte da crítica e dos editores, não posso deixar de estranhar que seja um autor de microficção ele próprio a alimentá-lo. O Rui Manuel Amaral ou qualquer outro autor que escreva microficção não precisa assumi-lo, mas também não me parece que precise negá-lo, o que de certa forma já não o faz quando diz, numa entrevista recente, lembrando que tem sido sistematicamente associado à microficção, que é uma espécie de rótulo com o qual não se identifica, mas que também não o incomoda.

Seja como for, Rui Manuel Amaral parece revelar, face à microficção uma desconfiança que não se percebe, ainda que se aceite como opção do autor.

Mas passemos à frente.

[CONTINUA]

domingo, 5 de dezembro de 2010

A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO?


Um quase ensaio em formato de folhetim e "work in progress"


I


Rui Costa, co-organizador da Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, afirmava-se “surpreso com o facto de esta ter sido a primeira antologia de micro–ficção portuguesa, sabendo nós como ela vem sendo praticada há alguns anos em Portugal e noutros países”. Editada em 2008, ela foi na verdade a primeira e mantém-se ainda a única antologia de microficção portuguesa.


Por outro lado, no “Esboço para um ensaio sobre micronarrativa”, prefácio da Primeira Antologia, Henrique Manuel Bento Fialho afirma que “ninguém pode negar que, sob a capa de poema, poema em prosa, aforismo, ou o que quer que seja, a micronarrativa vai marcando presença na literatura portuguesa.”


Apesar do termo utilizado por Rui Costa e Henrique Manuel Bento Fialho ser diferente, quer um quer outro afirmam o mesmo, reconhecendo a presença crescente na literatura portuguesa de um conjunto de textos literários breves que parecem não caber exlusivamente em qualquer dos géneros consagrados.


Rui Costa afirma que aquilo que mais o “atrai na micro-ficção é a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A micro-ficção não é um género literário, é a riqueza da impossibilidade de o ser. Confunde os géneros e deixa-nos (bem) perdidos no caminho para qualquer definição.”


A expressão “micronarrativa” foi usada pela Minguante, publicação digital dedicada exclusivamente ao que definia como narrativas breves que não deveriam exceder duzentas palavras e poderiam apresentar-se em prosa ou em verso. A Minguante, com uma participação de centenas de autores, confirmou, se necessário fosse, a presença forte da microficção em Portugal.


Qualquer que seja o termo utilizado, pode assim concluir-se com facilidade que existe a realidade que qualquer um desses termos pretende abarcar: textos literários breves (ficções ou narrativas) que parecem fintar todos os géneros. Pode também concluir-se sem grandes considerandos que a prática desses textos breves vem marcando presença na literatura portuguesa já há alguns anos.


No entanto, Henrique Manuel Bento Fialho, no prefácio à Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, sinaliza a não assunção em Portugal da micronarrativa enquanto tal, afirmando no entanto que não caberia averiguar ali os factores que a determinam.


A brevidade e a seu carácter ficcional (ou narrativo) não serão as únicas características destes textos literários, que designarei a partir de agora por microficção, expressão que parece ganhar alguma projecção internacional, e que uso não para afirmar a existência de um novo género ou a escolha definitiva desta nomenclatura, mas apenas de forma prática para abranger todos esses textos breves que parecem escapar a todos os géneros, participando muitas vezes em vários deles, e que vêm a ser cada vez mais praticados na literatura portuguesa.


Tal como o Rui Costa, também eu fico surpreendido, não só pelo aparecimento tardio e isolado de uma antologia de microficcção portuguesa, mas também pela desconfiança com que a microficção vem sendo recebida em Portugal, como se de um filho bastardo se tratasse, por parte da crítica, das editoras, e até por parte de alguns daqueles que as escrevem.


Existirão sem dúvida factores que condicionam e determinam que assim seja, e gostaria de os tentar perceber, mas de momento apenas quero dar conta de alguma desconfiança e receio relativamente à microficção que tenho sentido por parte dos próprios autores, mesmo dos que a escrevem hoje em dia em Portugal.


Para tanto, não como ponto de chegada mas como ponto de partida, pretendendo ser provocador mas não ofensivo, passarei em revista de forma sumária algumas posições e declaraçãos de autores que em Portugal têm escrito microficção e participaram na primeira (e única) antologia de microficção bem como na Minguante, publicação exclusivamente dirigida à microficção. São eles, para além do Rui Costa e do Henrique Manuel Bento Fialho já referidos, o Rui Manuel Amaral, o Paulo Rodrigues Ferreira e o Paulo Kellerman. Poderiam ser outros, muitos ficam sem dúvida de fora, mas eram os que estavam mais à mão, por assim dizer. Foram utilizadas sobretudo as suas declarações em entrevistas à Minguante.


Vejamos então algumas das posições destes autores que escrevem microficções relativamente à própria microficção. Mas antes, que fique claro que escrevo não como um estudioso da microficção, que não sou, mas apenas como um praticante que sou, já de longa data.


[CONTINUA UM DIA DESTES]

As árvores (actualização)

*

Pois nós somos como troncos de árvore na neve. Temos a impressão de que assentam sobre ela, e que com um pequeno empurrão seríamos capazes de os deslocar. Não, não somos capazes, porque eles estão firmemente presos à terra. Mas - quem diria? - até isso é ilusório.

Parábolas e fragmentos, Franz Kafka, I Meditação, Assírio & Alvim
tradução João Barrento

*

Porque somos como troncos de árvore na neve. Aparentemente estão apenas pousados na neve e com um simples empurrão conseguir-se-ia afastá-los. Não, não é possível porque estão firmemente ligados ao solo. Mas reparem que até isto é apenas aparente.

Franz Kaka, Os contos, Assírio & Alvim
Observação, tradução de José Maria Vieira Mendes

*

Porque somos como árvores. Aparentemente poderiam deslocar-se quase sem esforço, tal como nós. Não, não conseguem, porque têm raízes profundas que as prendem firmemente à terra. Mas, olhando bem, até isso é apenas aparente.

Completamente mudado por Luís Ene

*

Somos árvores. Poderíamos nos deslocar quase sem esforço, mas não conseguimos. Temos raízes profundas que nos prendem firmemente. Mas até isso, se olharmos bem, é ilusão.

A versão de Wilson Gorj

Somos como árvores na neve. Olhando, temos a impressão de que, como elas, poderíamos deslizar sem esforço. Mas temos raízes profundas. Ou pensamos que temos.

Livremente mudado por Sara Monteiro

poemas zen

No fundo das montanhas está guardado um tesouro
para aquele que nunca o procurar.

O bebedor nocturno, Herberto Helder, poemas mudados para português, Assírio & Alvim

sábado, 4 de dezembro de 2010

A Música é outra: participa (actualização)




ler aqui


O vento pára, as flores caem, um pássaro canta
- a montanha conserva o seu mistério.

poemas zen, O bebedor Nocturno, Herberto Helder, poemas mudados para português, Assírio & Alvim

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

preto & branco

A Próxima Aldeia



O meu avô costumava dizer: " A vida é espantosamente curta. Neste momento, comprime-se tanto na minha lembrança que, por exemplo, mal consigo perceber como pode um jovem decidir dirigir-se para a próxima aldeia sem temer que - abstraindo já dos acidentes infelizes - o tempo duma vida normal e sem azares não baste nem de longe para tal viagem."


Um médico rural (contos curtos)
Franz Kafka
tradução de Manuel Resende

Franz Kafka, Os contos, 1.º Volume, textos publicados em vida do autor (conforme Edição Crítica da Obra), Assírio & Alvim

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Brincar com a língua


(texto originalmente publicado no Jornal A Voz de Loulé)


Contar uma história é como jogar um jogo, um qualquer jogo, quer se pense no jogo do berlinde (às três covas, por exemplo) ou no jogo do xadrez. Existem regras, existem dificuldades e até existem adversários. Mas o essencial num jogo é que nos possamos divertir.

Este é o terceiro de três artigos (é portanto o último) em que vos falo aqui de contar histórias, e vou tentar mostrar-vos como tal actividade pode ser divertida, realçando um aspecto que nada mais é que a superação de várias dificuldades. Quando se conta uma história, quando se a escreve, temos de ter em conta todas as histórias que já foram contadas e, no entanto, contar a nossa história, contar uma nova história. E contamos e escrevemos contra a língua, a sua ambiguidade, a sua sonoridade, a sua gramática. A superação dessas dificuldades traz sem dúvida prazer a quem escreve e a quem lê. Do que vos quero falar é de como podemos brincar com a língua.

Tomemos por exemplos os lugares comuns, ou as frases feitas. Se por um lado é bom ter essas expressões sempre à mão, por outro lado é ainda melhor parodiá-las, subvertê-las, brincar com elas, como se de um jogo se tratasse. Conhecem a expressão “ir desta para melhor”? É curioso como diz tanto da nossa mentalidade e será sem dúvida divertido usá-la. Vejamos então uma pequena história, que é afinal delas que aqui temos tratado.

1. Quando a morte veio para o levar, ele recebeu-a com um sorriso aberto: finalmente ia desta para melhor.

Será que a morte nos leva desta para melhor? Tenho dúvidas, e mesmo que assim seja, não me parece que recebesse a morte com agrado. Mas isso é outra história.

E quanto a dizeres populares, sempre tão expressivos e vivos? É claro que também se pode brincar com eles. Vejam lá se conhecem os que empurrei para a seguinte história, todos eles com um denominador comum.

2. Par de botas

Era um borra-botas sem emenda e um incorrigível lambe botas. E, como se isso não bastasse, tinha uma mulher feia como uma bota da tropa. Mas não se preocupem com ele pois cedo bateu a bota.

Estão a ver como consegui em muito pouco texto meter quase tudo e ainda um par de botas! Foi divertido para mim escrevê-lo e espero que o tenha sido para vocês lê-lo.

Mas se a ideia principal é brincar com a língua, cedo percebi que era fácil brincar mesmo com ela, a palavra língua e os seus diversos significados, usando sobretudo essa ambiguidade para criar efeitos divertidos. Pois bem, língua tem basicamente três significados: órgão principal da articulação da palavra, da deglutição e da gustação; linguagem e idioma. É com estes três significados que podemos jogar, bem como com as expressões populares que a eles se referem, como por exemplo “soltar a língua” ou “tropeçar na língua”.

3. Era um homem muito calado mas adorava trava-línguas. Este era na verdade o único tema que lhe soltava a língua e o fazia falar durante horas.

4. Tropeçava muitas vezes na língua, razão que o levou a deixar de falar enquanto andava.

Brincar com a língua, espero estar a convencê-los disso, é não só divertido mas também importante, porque nos dá a conhecer a língua que usamos e a tirar dela mais prazer e utilidade.

5. Lengalenga

O que é importante é distinguir o que é importante do que não é importante.

Perceberam alguma coisa? Perceberam pelo menos que me diverti a usar numa frase tão curta a palavra importante três vezes!

Para terminar, uma brincadeira com a língua que usa não só a nossa língua mas também a dos nossos vizinhos espanhóis, aqui tão perto. Sem dúvida que conhecem a palavra embaraçar, e já uma vez ou outra o ficaram. Agora se pensarmos em “embarazar”, que se pronuncia da mesma forma (pelo menos foi o que me garantiram) aí as probabilidades serão menores, pois embaraçar significa engravidar. E olhem que acontece aos melhores. Quando a Parker Pen começou a vender uma caneta esferográfica no México, os anúncios deveriam dizer "it won't leak in your pocket and embarrass you", ou seja, “não vazará no seu bolso e não o embaraçará”. No entanto, a empresa pensou que a palavra "embarazar" tivesse o mesmo significado que embaraçar, de modo que o anúncio acabou por dizer, depois de traduzido, qualquer coisa como: "Não vaza no bolso e você não engravida".

Então até qualquer dia. Deixo-vos com um abraço e a última brincadeira com a língua.

6. Conselho aos homens

Em Espanha, tenta nunca embaraçar uma mulher, a não ser que o desejes mesmo, e ela também.


*

microficções aqui

*

[...]



No princípio já era mau, mas não era má pessoa; depois tornou-se pior, muito pior, cada vez pior, até que deixou de ser pessoa.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

( Micro) ensaio


O que é a microficção?

I


Existem diferenças entre o texto sempre citado do escritor guatemalteco Augusto Monterroso (Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.) e um conto qualquer, por mais breve que seja?

É claro que é breve, muito breve, são apenas sete palavras. Mas não é apenas isso.

Há toda uma indefinição que um conto talvez não admitisse, mesmo que o que se diga seja apenas a ponta do icebergue.

E poder-se-á dizer que tem princípio meio e fim?

Talvez se possa dizer que é microficção um qualquer texto de ficção para o qual se levante afinal a questão, mas isto ainda é um conto?

As microficções não são, ou não são apenas, contos muito, muito pequenos.

A brevidade não é a única, nem talvez a mais importante, das suas características.

Na confluência de diversos géneros e diversas influências, as microficções exigem um espaço próprio no território mais vasto da ficção.



II


É um aforismo?

É um conto muito pequeno?

É um haikai?

Não! É uma microficção!!



III


O que é a microficção?

A ficção no seu mínimo, a ficção no seu máximo.



epifania (actualização)


Não sei se acredito na microficção como género literário, mas que existe, existe. Disse isto e os seus olhos iluminaram-se.

*

A gata observa o labor literário, coincidência, ou não, miou, quando ele deixava um ponto (final).
Francisco Coimbra (na caixa de comentários)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

GRANDE PODA

Estranhei, mas como percebo pouco de poda, fiquei na dúvida.
Ou talvez não!

69.

[ a propósito de um parvébio]

Ela desceu-se por cima dele e ele subiu-se por baixo dela. Com eles o sexo era sempre tão elaborado ao ponto de se tornar demasiado complicado.

domingo, 28 de novembro de 2010

uma ideia uma aldeia


Conheça Tamera

reciclagem



Vai censurar a puta que te pariu, ó monte de merda, disse ele, mas o autoclismo foi inflexível.

escrita, escritores, poetas, poemas, microficções, ser e fazer



[Estava a reflectir sobre tudo o que acima refiro e a pensar escrever um texto mais ou menos sério sobre isso; saiu-me uma microficção.]



Era um homem nada complicado. Escrevia poemas mas não era poeta. Fazia broche mas não era homossexual. Apenas lhe acontecia.

Jaume Plensa


conheça a obra e o autor aqui

sábado, 27 de novembro de 2010

rádio arte

Para aqueles que me perguntaram como podiam ouvir as peças apresentadas em Radiação, podem agora fazê-lo aqui, autor a autor.