quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Exercícios inconsequentes! (actualizado)

“O dinossauro” de Augusto Monterroso é um dos textos mais estudados, citados, resenhados e parodiados na história da palavra escrita, apesar de ter uma extensão de exatamente sete palavras. (*)
A proposta/desafio é que o alterem, mantendo ou não o número de palavras original (7), da forma que quiserem e lhes for possível.
A proposta é que se divirtam, que sejam ousados, provocadores, que experimentem, sim que experimentem a microficção e que assim fazendo a pensem. Não tenham medo, ousem, divirtam-se, que a literatura também é alegria.

Aqui deixo "O dinossauro" na versão original, uma tradução e a minha modificação.

“Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.”


Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá.


*


Quando despertou, o morto ainda estava lá.

Quando adormeceu de novo, o morto saiu.

Quando despertou, não deu conta de nada.

Quando adormeceu, ainda outra vez, nada aconteceu.

Quando despertou, estava no lugar do morto.

Quando tentou dormir, percebeu que não conseguia.

Quando o morto voltou, adormeceu de vez.


*


Quando despertou, o dinossauro ainda estava ali.

E não ia embora. Fitava-o com curiosidade.

Adormeceu. Acordou. Adormeceu. Sempre a mesma coisa.

Acordou, viu o bicho. Obviamente que sonhava.


Sara Monteiro


*


Quando decidiu fugir, o dinossauro foi atrás.


Margarida Brito


*

Quando acordou, faltava ainda uma palavra.

*

Deus acordou. O caos ainda estava lá.

*

Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá.
Presente dos pais. Atirou-o longe. Ainda queria um cachorro.

*

Quando sonhou, a solidão ainda estava lá.

*
Quando despertou, a escuridão ainda estava lá... a sete palmos debaixo da terra.


Wilson Gorj


*

quando despertou, o corpo ainda vivia lá.

quando saiu, deixou a sombra ficar lá.

quando voltou, o dinossauro ainda jazia lá.


Van


*

Adormeceu. Quando acordou o mundo tinha acabado.

Sara Monteiro


*

O sonho de Deus

Adormeceu. Quando acordou tinha acabado o mundo.

Luís Ene


*

– Quando acordou, o dinossauro ainda estava ali.
– Um homem acordou junto de um dinossauro?!
– Não, nesta história há só o dinossauro.
– Não entendo: afinal quem é que acordou?
– O próprio dinossauro, quem havia de ser...
– Acordou e estava no mesmo sítio. Surpreendente...
– Um pouco: o pesado quadrúpede sonhara-se alado*.

* ou "Para ele sim: sonhou que tinha asas."

Carlos Tijolo

*

(Quando despertou, o outro ser ainda dormitava.)

Dari


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

private joke

[dedicado ao Rogério e ao Valter]


O Cão e o Urso


Certo dia

um cão encontrou

um urso


e tão perturbado ficou

que lhe chamou

ursinho.


O urso sorriu,

olhou-o com atenção

e depois comeu-o,


não sem antes

lhe ter chamado

almocinho.


Wilson Gorj

NM – A prática do miniconto pode levar o escritor a se repetir ou a se tornar chato? Muitos "minicontistas" (este vocábulo já foi cunhado?) se tornam meros piadistas. Você não teme se tornar um escritor de piadas?

WG – Tornar-se chato e repetitivo é um risco ao qual estão sujeitos escritores de todos os gêneros. Chatice e repetição não decorrem necessariamente de formatos e tamanhos, mas principalmente da falta de motivação e criatividade. Muitos autores se forçam a escrever sobre qualquer coisa que lhes ocorra durante a escrita; não partem de uma idéia para escrever seus textos; em vez disso, vão encadeando palavras e palavras na expectativa de que a ideia surja em meio ao emaranhado de frases gratuitas; certamente reside aí o perigo da repetição, da chatice. De uns tempos para cá, tenho recorrido à escrita apenas quando me ocorre uma ideia que valha a pena, ou melhor, a tinta, pois meus textos são paridos à caneta (o computador é onde se desenvolvem). Às vezes passo dias sem escrever uma única linha; a mente seca, estéril. E mesmo quando ela entra no cio, depois de fertilizada por algum pensamento, evito precipitar no caderno a ideia concebida. Deixo-a em processo de gestação. Se for fraca, o aborto será espontâneo; se não, a caneta fará sua parte. A maioria das minhas ideias nascem travessas, brincalhonas. De onde concluo que o humor seja meu gene predominante. Daí muitos dos meus minicontos soarem como piada. Alguns, suponho eu, conseguem transcender este caráter meramente anedótico. Nestes casos, o humor é apenas um meio, não o fim. A piada, então, torna-se uma máscara a encobrir algo mais profundo.

Leia toda a entrevista aqui. Vale a pena.


Ana Maria Shua

Da minha perspectiva de escritora, não me interesso muito pelas classificações.

De todas as maneiras, adoro a definição de Violeta Rojo que chama o mini-conto

de “gênero des-generado”. Mas tenho que admitir que não é o mesmo que um conto,

quando ele nasce posso dar-me conta de que ele brota de uma outra parte de meu

cérebro.


(…)


Num livro de microficções, assim como num livro de contos, cada pequeno texto exige-

lhe mais uma vez o esforço de concentração num pequeno mundo por descobrir. Ler

microficções é muito mais trabalhoso que ler romances.


Ana Maria Shua

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Os escritores e os seus fantasmas

[dedicado ao Rui Costa e ao Rui Manuel Amaral]


Tenho vontade de contar uma história, disse um. E eu também, disse outro, e ambos puseram mãos à obra. Um escreveu com facilidade um extenso romance com mais de oitocentas páginas, outro escreveu-se penosamente em meia dúzia de linhas.


P.S.

Acho que ficaria melhor se tivesse acrescentado umas das seguintes moralidades:

Cada um escreve segundo as suas capacidades, cada um escreve segundo as suas necessidades.

Para escrever um texto longo basta começar e ir por aí adiante, já um texto breve exige uma enorme disciplina e um extremo controlo.


P.P.S.

Talvez devesse ter mencionado que o título - ao mesmo tempo uma epígrafe - é o mesmo de um livro de Ernesto Sabato, um dos maiores romancistas da América latina, e a sua escolha foi intencional.

A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO?

II


Rui Manuel Amaral, por exemplo, quando lhe é pedido que classifique os seus textos, responde habitualmente que não gosta das expressões "microconto" ou "micronarrativa" porque estão demasiado conotadas com um conjunto de regras que não segue, e o mesmo quanto à expressão microficção, aplicada cada vez mais aos seus textos, inclusive na publicidade dos seus livros, sendo mesmo designado pela sua editora como “o nosso grande microficcionista”.


Não gostando assim dos termos micro-narrativa, micro-conto ou micro-ficção Rui Manuel Amaral afirma que os seus contos são geralmente breves, de facto, mas porque essa é a forma que mais lhe convém para contar uma história. Prefere, refere ainda, dizer que escreve histórias ou ficções.

Rui Manuel Amaral escreve pois ficção, mas não microficção.


Confesso que não vejo a razão para Rui Manuel Amaral negar que escreve microficção, pelo menos se pensarmos a microficção como o conjunto dos textos breves de ficção que escapam actualmente a qualquer classificação. Até porque o Rui Manuel Amaral não se importa de dizer que escreve contos, ou histórias ou ficções.


A verdade é que os textos de Rui Manuel Amaral escapam na minha opinião à designação de contos, não porque sejam menos, mas porque são algo mais. E não é só, nem de longe, a brevidade que lhes confere essa diferença. Curioso é que o seu editor e muitos dos que comentam os seus textos os considerem microficções, enquanto o seu autor se tem afadigado a negá-lo.


Se há um preconceito em relação à microficção, nomeadamente por parte da crítica e dos editores, não posso deixar de estranhar que seja um autor de microficção ele próprio a alimentá-lo. O Rui Manuel Amaral ou qualquer outro autor que escreva microficção não precisa assumi-lo, mas também não me parece que precise negá-lo, o que de certa forma já não o faz quando diz, numa entrevista recente, lembrando que tem sido sistematicamente associado à microficção, que é uma espécie de rótulo com o qual não se identifica, mas que também não o incomoda.

Seja como for, Rui Manuel Amaral parece revelar, face à microficção uma desconfiança que não se percebe, ainda que se aceite como opção do autor.

Mas passemos à frente.

[CONTINUA]

domingo, 5 de dezembro de 2010

A MICROFICÇÃO EM PORTUGAL, UM GÉNERO BASTARDO?


Um quase ensaio em formato de folhetim e "work in progress"


I


Rui Costa, co-organizador da Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, afirmava-se “surpreso com o facto de esta ter sido a primeira antologia de micro–ficção portuguesa, sabendo nós como ela vem sendo praticada há alguns anos em Portugal e noutros países”. Editada em 2008, ela foi na verdade a primeira e mantém-se ainda a única antologia de microficção portuguesa.


Por outro lado, no “Esboço para um ensaio sobre micronarrativa”, prefácio da Primeira Antologia, Henrique Manuel Bento Fialho afirma que “ninguém pode negar que, sob a capa de poema, poema em prosa, aforismo, ou o que quer que seja, a micronarrativa vai marcando presença na literatura portuguesa.”


Apesar do termo utilizado por Rui Costa e Henrique Manuel Bento Fialho ser diferente, quer um quer outro afirmam o mesmo, reconhecendo a presença crescente na literatura portuguesa de um conjunto de textos literários breves que parecem não caber exlusivamente em qualquer dos géneros consagrados.


Rui Costa afirma que aquilo que mais o “atrai na micro-ficção é a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A micro-ficção não é um género literário, é a riqueza da impossibilidade de o ser. Confunde os géneros e deixa-nos (bem) perdidos no caminho para qualquer definição.”


A expressão “micronarrativa” foi usada pela Minguante, publicação digital dedicada exclusivamente ao que definia como narrativas breves que não deveriam exceder duzentas palavras e poderiam apresentar-se em prosa ou em verso. A Minguante, com uma participação de centenas de autores, confirmou, se necessário fosse, a presença forte da microficção em Portugal.


Qualquer que seja o termo utilizado, pode assim concluir-se com facilidade que existe a realidade que qualquer um desses termos pretende abarcar: textos literários breves (ficções ou narrativas) que parecem fintar todos os géneros. Pode também concluir-se sem grandes considerandos que a prática desses textos breves vem marcando presença na literatura portuguesa já há alguns anos.


No entanto, Henrique Manuel Bento Fialho, no prefácio à Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, sinaliza a não assunção em Portugal da micronarrativa enquanto tal, afirmando no entanto que não caberia averiguar ali os factores que a determinam.


A brevidade e a seu carácter ficcional (ou narrativo) não serão as únicas características destes textos literários, que designarei a partir de agora por microficção, expressão que parece ganhar alguma projecção internacional, e que uso não para afirmar a existência de um novo género ou a escolha definitiva desta nomenclatura, mas apenas de forma prática para abranger todos esses textos breves que parecem escapar a todos os géneros, participando muitas vezes em vários deles, e que vêm a ser cada vez mais praticados na literatura portuguesa.


Tal como o Rui Costa, também eu fico surpreendido, não só pelo aparecimento tardio e isolado de uma antologia de microficcção portuguesa, mas também pela desconfiança com que a microficção vem sendo recebida em Portugal, como se de um filho bastardo se tratasse, por parte da crítica, das editoras, e até por parte de alguns daqueles que as escrevem.


Existirão sem dúvida factores que condicionam e determinam que assim seja, e gostaria de os tentar perceber, mas de momento apenas quero dar conta de alguma desconfiança e receio relativamente à microficção que tenho sentido por parte dos próprios autores, mesmo dos que a escrevem hoje em dia em Portugal.


Para tanto, não como ponto de chegada mas como ponto de partida, pretendendo ser provocador mas não ofensivo, passarei em revista de forma sumária algumas posições e declaraçãos de autores que em Portugal têm escrito microficção e participaram na primeira (e única) antologia de microficção bem como na Minguante, publicação exclusivamente dirigida à microficção. São eles, para além do Rui Costa e do Henrique Manuel Bento Fialho já referidos, o Rui Manuel Amaral, o Paulo Rodrigues Ferreira e o Paulo Kellerman. Poderiam ser outros, muitos ficam sem dúvida de fora, mas eram os que estavam mais à mão, por assim dizer. Foram utilizadas sobretudo as suas declarações em entrevistas à Minguante.


Vejamos então algumas das posições destes autores que escrevem microficções relativamente à própria microficção. Mas antes, que fique claro que escrevo não como um estudioso da microficção, que não sou, mas apenas como um praticante que sou, já de longa data.


[CONTINUA UM DIA DESTES]

As árvores (actualização)

*

Pois nós somos como troncos de árvore na neve. Temos a impressão de que assentam sobre ela, e que com um pequeno empurrão seríamos capazes de os deslocar. Não, não somos capazes, porque eles estão firmemente presos à terra. Mas - quem diria? - até isso é ilusório.

Parábolas e fragmentos, Franz Kafka, I Meditação, Assírio & Alvim
tradução João Barrento

*

Porque somos como troncos de árvore na neve. Aparentemente estão apenas pousados na neve e com um simples empurrão conseguir-se-ia afastá-los. Não, não é possível porque estão firmemente ligados ao solo. Mas reparem que até isto é apenas aparente.

Franz Kaka, Os contos, Assírio & Alvim
Observação, tradução de José Maria Vieira Mendes

*

Porque somos como árvores. Aparentemente poderiam deslocar-se quase sem esforço, tal como nós. Não, não conseguem, porque têm raízes profundas que as prendem firmemente à terra. Mas, olhando bem, até isso é apenas aparente.

Completamente mudado por Luís Ene

*

Somos árvores. Poderíamos nos deslocar quase sem esforço, mas não conseguimos. Temos raízes profundas que nos prendem firmemente. Mas até isso, se olharmos bem, é ilusão.

A versão de Wilson Gorj

Somos como árvores na neve. Olhando, temos a impressão de que, como elas, poderíamos deslizar sem esforço. Mas temos raízes profundas. Ou pensamos que temos.

Livremente mudado por Sara Monteiro

poemas zen

No fundo das montanhas está guardado um tesouro
para aquele que nunca o procurar.

O bebedor nocturno, Herberto Helder, poemas mudados para português, Assírio & Alvim

sábado, 4 de dezembro de 2010

A Música é outra: participa (actualização)




ler aqui


O vento pára, as flores caem, um pássaro canta
- a montanha conserva o seu mistério.

poemas zen, O bebedor Nocturno, Herberto Helder, poemas mudados para português, Assírio & Alvim

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

preto & branco

A Próxima Aldeia



O meu avô costumava dizer: " A vida é espantosamente curta. Neste momento, comprime-se tanto na minha lembrança que, por exemplo, mal consigo perceber como pode um jovem decidir dirigir-se para a próxima aldeia sem temer que - abstraindo já dos acidentes infelizes - o tempo duma vida normal e sem azares não baste nem de longe para tal viagem."


Um médico rural (contos curtos)
Franz Kafka
tradução de Manuel Resende

Franz Kafka, Os contos, 1.º Volume, textos publicados em vida do autor (conforme Edição Crítica da Obra), Assírio & Alvim

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Brincar com a língua


(texto originalmente publicado no Jornal A Voz de Loulé)


Contar uma história é como jogar um jogo, um qualquer jogo, quer se pense no jogo do berlinde (às três covas, por exemplo) ou no jogo do xadrez. Existem regras, existem dificuldades e até existem adversários. Mas o essencial num jogo é que nos possamos divertir.

Este é o terceiro de três artigos (é portanto o último) em que vos falo aqui de contar histórias, e vou tentar mostrar-vos como tal actividade pode ser divertida, realçando um aspecto que nada mais é que a superação de várias dificuldades. Quando se conta uma história, quando se a escreve, temos de ter em conta todas as histórias que já foram contadas e, no entanto, contar a nossa história, contar uma nova história. E contamos e escrevemos contra a língua, a sua ambiguidade, a sua sonoridade, a sua gramática. A superação dessas dificuldades traz sem dúvida prazer a quem escreve e a quem lê. Do que vos quero falar é de como podemos brincar com a língua.

Tomemos por exemplos os lugares comuns, ou as frases feitas. Se por um lado é bom ter essas expressões sempre à mão, por outro lado é ainda melhor parodiá-las, subvertê-las, brincar com elas, como se de um jogo se tratasse. Conhecem a expressão “ir desta para melhor”? É curioso como diz tanto da nossa mentalidade e será sem dúvida divertido usá-la. Vejamos então uma pequena história, que é afinal delas que aqui temos tratado.

1. Quando a morte veio para o levar, ele recebeu-a com um sorriso aberto: finalmente ia desta para melhor.

Será que a morte nos leva desta para melhor? Tenho dúvidas, e mesmo que assim seja, não me parece que recebesse a morte com agrado. Mas isso é outra história.

E quanto a dizeres populares, sempre tão expressivos e vivos? É claro que também se pode brincar com eles. Vejam lá se conhecem os que empurrei para a seguinte história, todos eles com um denominador comum.

2. Par de botas

Era um borra-botas sem emenda e um incorrigível lambe botas. E, como se isso não bastasse, tinha uma mulher feia como uma bota da tropa. Mas não se preocupem com ele pois cedo bateu a bota.

Estão a ver como consegui em muito pouco texto meter quase tudo e ainda um par de botas! Foi divertido para mim escrevê-lo e espero que o tenha sido para vocês lê-lo.

Mas se a ideia principal é brincar com a língua, cedo percebi que era fácil brincar mesmo com ela, a palavra língua e os seus diversos significados, usando sobretudo essa ambiguidade para criar efeitos divertidos. Pois bem, língua tem basicamente três significados: órgão principal da articulação da palavra, da deglutição e da gustação; linguagem e idioma. É com estes três significados que podemos jogar, bem como com as expressões populares que a eles se referem, como por exemplo “soltar a língua” ou “tropeçar na língua”.

3. Era um homem muito calado mas adorava trava-línguas. Este era na verdade o único tema que lhe soltava a língua e o fazia falar durante horas.

4. Tropeçava muitas vezes na língua, razão que o levou a deixar de falar enquanto andava.

Brincar com a língua, espero estar a convencê-los disso, é não só divertido mas também importante, porque nos dá a conhecer a língua que usamos e a tirar dela mais prazer e utilidade.

5. Lengalenga

O que é importante é distinguir o que é importante do que não é importante.

Perceberam alguma coisa? Perceberam pelo menos que me diverti a usar numa frase tão curta a palavra importante três vezes!

Para terminar, uma brincadeira com a língua que usa não só a nossa língua mas também a dos nossos vizinhos espanhóis, aqui tão perto. Sem dúvida que conhecem a palavra embaraçar, e já uma vez ou outra o ficaram. Agora se pensarmos em “embarazar”, que se pronuncia da mesma forma (pelo menos foi o que me garantiram) aí as probabilidades serão menores, pois embaraçar significa engravidar. E olhem que acontece aos melhores. Quando a Parker Pen começou a vender uma caneta esferográfica no México, os anúncios deveriam dizer "it won't leak in your pocket and embarrass you", ou seja, “não vazará no seu bolso e não o embaraçará”. No entanto, a empresa pensou que a palavra "embarazar" tivesse o mesmo significado que embaraçar, de modo que o anúncio acabou por dizer, depois de traduzido, qualquer coisa como: "Não vaza no bolso e você não engravida".

Então até qualquer dia. Deixo-vos com um abraço e a última brincadeira com a língua.

6. Conselho aos homens

Em Espanha, tenta nunca embaraçar uma mulher, a não ser que o desejes mesmo, e ela também.


*

microficções aqui

*

[...]



No princípio já era mau, mas não era má pessoa; depois tornou-se pior, muito pior, cada vez pior, até que deixou de ser pessoa.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

( Micro) ensaio


O que é a microficção?

I


Existem diferenças entre o texto sempre citado do escritor guatemalteco Augusto Monterroso (Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.) e um conto qualquer, por mais breve que seja?

É claro que é breve, muito breve, são apenas sete palavras. Mas não é apenas isso.

Há toda uma indefinição que um conto talvez não admitisse, mesmo que o que se diga seja apenas a ponta do icebergue.

E poder-se-á dizer que tem princípio meio e fim?

Talvez se possa dizer que é microficção um qualquer texto de ficção para o qual se levante afinal a questão, mas isto ainda é um conto?

As microficções não são, ou não são apenas, contos muito, muito pequenos.

A brevidade não é a única, nem talvez a mais importante, das suas características.

Na confluência de diversos géneros e diversas influências, as microficções exigem um espaço próprio no território mais vasto da ficção.



II


É um aforismo?

É um conto muito pequeno?

É um haikai?

Não! É uma microficção!!



III


O que é a microficção?

A ficção no seu mínimo, a ficção no seu máximo.



epifania (actualização)


Não sei se acredito na microficção como género literário, mas que existe, existe. Disse isto e os seus olhos iluminaram-se.

*

A gata observa o labor literário, coincidência, ou não, miou, quando ele deixava um ponto (final).
Francisco Coimbra (na caixa de comentários)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

GRANDE PODA

Estranhei, mas como percebo pouco de poda, fiquei na dúvida.
Ou talvez não!

69.

[ a propósito de um parvébio]

Ela desceu-se por cima dele e ele subiu-se por baixo dela. Com eles o sexo era sempre tão elaborado ao ponto de se tornar demasiado complicado.

domingo, 28 de novembro de 2010

uma ideia uma aldeia


Conheça Tamera

reciclagem



Vai censurar a puta que te pariu, ó monte de merda, disse ele, mas o autoclismo foi inflexível.

escrita, escritores, poetas, poemas, microficções, ser e fazer



[Estava a reflectir sobre tudo o que acima refiro e a pensar escrever um texto mais ou menos sério sobre isso; saiu-me uma microficção.]



Era um homem nada complicado. Escrevia poemas mas não era poeta. Fazia broche mas não era homossexual. Apenas lhe acontecia.

Jaume Plensa


conheça a obra e o autor aqui

sábado, 27 de novembro de 2010

rádio arte

Para aqueles que me perguntaram como podiam ouvir as peças apresentadas em Radiação, podem agora fazê-lo aqui, autor a autor.

LISTAS


1.


Durante dias e dias ocupou-se a escrever, uma e outra vez, uma lista das coisas que queria fazer antes de morrer, mas a lista nunca lhe parecia terminada.

Então, parou de escrevê-la, e durante outros tantos dias e dias pensou e pensou nos motivos da sua insatisfação.

Finalmente, decidiu-se.

Escreveu uma lista definitiva das coisas que queria fazer enquanto estivesse vivo. Tinha um único item:

    • Deixar de pensar na morte.




2.


Fez uma lista de tudo o que detestava na sua vida.

A lista estendia-se por muitas e muitas páginas.

Olhou a lista com desânimo, depois rasgou-a.

Sentiu-se logo muito melhor.



3.


O seu nome estava na lista. Só então percebeu que estava morto.



4.


Era o primeiro da lista. Foi o primeiro a morrer.


5.



Primeiro, fez uma lista das suas despesas.

Depois, fez uma lista das suas receitas.

Finalmente, riu-se.

Escusado será dizer que ele acreditava que rir é o melhor remédio e levava isso muito a sério.



6.


A princípio a pequena história estava triste e isso incomodou-a, incomodou-a tanto que quase se apagou, mas depois riu-se de si própria e toda ela se iluminou.

Quando a lista classificada dos candidatos foi dado a conhecer ninguém estranhou que a pequena história figurasse em primeiro lugar

Não me perguntem porquê [12]

[…]


“Então alteraram o livro contra a tua vontade?”
Olhou para Ângelo Durão, que lhe devolveu o olhar, e continuou quase de imediato, sem esperar qualquer resposta.
“Pois é, a mim também já me quiseram fazer o mesmo, mas eu mandei-os dar uma volta ao bilhar grande. No que eu escrevo ninguém mexe.”
Olhou à sua volta, fulminando todos com o olhar, as sobrancelhas carregadas, ao mesmo tempo que sorria, e repetiu a última frase antes de prosseguir.
“No que escrevo ninguém mexe! Vejam lá que um editor queria alterar o título de um romance meu, onde já se viu, os editores são todos a mesma merda, são como os críticos, escritores frustrados. Comigo é que não fazem farinha, ou publicam o que lhes envio tal qual está ou nada feito. Eu é que sou o escritor e é bom que não se esqueçam disso!”
Ângelo Durão continuava calado, o olhar passeando-se pelo salão, pelos grandes espelhos inclinados, pelas portas de madeira envidraçadas, pelo pequeno palco ao fundo. Tinha explicado à tertúlia ao que vinha, agora esperava.
O outro olhou Ângelo Durão, à espera de aprovação, mas ele nem lhe retribuiu o olhar, ocupado que estava a observar tudo à sua volta. E só quando o outro insistiu, repetindo a última frase, agora mais alto, é que Ângelo o olhou, mas nada disse, limitando-se a devolver-lhe o olhar.
“Eu é que sou o escritor e é bom que não se esqueçam disso!”
“Ó Francisco, tem dó, já conhecemos muito bem a tua opinião mas a verdade é que nem todos concordamos contigo. Eu até agradeço que me corrijam e me dêem sugestões, esse é afinal o trabalho do editor. Se aceitamos ou não as correcções e as sugestões, essa é outra questão, mas não me parece que devamos recusá-las liminarmente.”
Francisco Aresta carregou ainda mais as sobrancelhas e a boca pequena torceu-se num claro sorriso de escárnio, mas nada disse. Também ele conhecia muito bem a opinião do outro.
“Ainda há pouco li uma entrevista a um jovem escritor italiano, o escritor mais novo a receber o prémio Strega, e ele agradecia expressamente ao editor por lhe ter proposto um título diferente para o seu romance.”
Desta vez Francisco Aresta não se conteve e respondeu a Celestino, pontuando a frase com uma gargalhada: “No teu caso melhor seria que mudassem tudo!”
“Não sou um génio como tu!”, disse Celestino em voz pausada, mas Francisco Aresta nem lhe respondeu, ignorando-o por completo e voltando a concentrar-se em Ângelo Durão.
“Tens de consultar um advogado e fazer que ele consiga que as vendas sejam imediatamente suspensas. Já tive de fazer o mesmo uma vez, mas tratava-se de um caso de plágio, portanto uma situação diferente, mas vem a dar ao mesmo, o que é preciso é suspender as vendas e retirar o livro do mercado. Vê lá bem que uma gaja publicou um livro inteiro com poemas meus e ganhou um prémio importante com ele. Tudo de conluio com o cabrão de um editor a quem eu tinha enviado o livro.”
“Quem foi o advogado que consultaste?”
Francisco Aresta olhou o outro contrariado e replicou: “Porra, sabes muito bem quem foi que consultei! Porque raio é que me perguntas?”
“É capaz de ser uma boa escolha, sim senhor, é um bom advogado e também um poeta.”
“Um mau poeta!”, isso é que ele é, atalhou Francisco Aresta. “Antes beber um litro de azeite do que ler alguma coisa dele!”
Riram-se todos e Ângelo Durão olhou para o escritor de pêra e cabelo brancos, o mesmo que falara com ele da primeira vez, à espera que ele dissesse mais alguma coisa.
“É isso, é um bom princípio, já te dou o contacto dele. E até posso dar-lhe um toque, para ele estar preparado. Isto se quiseres, é claro”, disse para Ângelo Durão, e dirigindo-se sem transição aos outros: “Alguém tem mais ideias?”
“Que tal levá-lo à Rua do Imaginário?”

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

a qualidade da literatura na internet

A Sylvia Beirute afirma-se com vontade para reflectir sobre a poesia publicada na Internet versus a poesia publicada em papel. Fico à espera.
Pela minha parte ainda me lembro das recorrentes vozes que proclamavam que nos blogs o que abundava era a falta de qualidade, e que a literatura de qualidade só podia ser encontrada em papel. E quem diz blogs diz Internet.
Sempre discordei dessa afirmação, assim pura e dura, e sempre declarei que me surpreendia com a qualidade do que encontrava na Internet.
O tempo tem-me dado razão e muitos desse autores têm chegado ao papel.
Claro que a Internet favorece mais alguns géneros que outros e que as suas potencialidades ainda mal foram afloradas, sobretudo em português, mas atente-se por exemplo na microficção, esse género des-generado e promíscuo e o resultado é bastante favorável à Internet.
Sobretudo em Portugal! Sobretudo em Portugal! Responsabilidade dos editores e outros difusores, mas também dos leitores.

pessoana





- Um escritor é um escritor é um escritor é um escritor, ainda que não seja vários - disse ele.
Todos concordaram.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [11]

[…]



O advogado era um homem entroncado, de ombros largos e tórax proeminente, que se movia devagar mas com leveza. Acreditava que uma mente sã deve habitar um corpo saudável, e por isso desenvolvera o corpo e a mente com afinco e determinação. Era um homem pesado mas ágil, e essas características pareciam ter-se espelhado na sua poesia, que bebia dos clássicos mas que se abria também a experiências novas. Falava pausadamente e os seus gestos lentos tinham qualquer coisa de feminino, apesar da força que se sentia nele.

“Também escreve poesia?”

“Nunca escrevi poesia.”

“Mas devia, os ficcionistas têm muito a aprender com os poetas. Hoje em dia muitos escritores são poetas e romancistas, ainda que alguns poetas que passaram a escrever ficção não tenham voltado a escrever, ou pelo menos a publicar, poesia. É o caso, penso eu, do Paul Auster.”

O advogado, e também poeta, que muitos diziam mau poeta, tinha escrito, para além de um sem número de livros de poesia, também alguns livros técnicos sobre artes marciais, bem como inúmeros artigos em revistas e jornais.

“ Sei muito pouco sobre escritores e quase não leio poesia.”

O advogado olhou-o e passou uma das suas mãos enormes pelo rosto.

“Sei muito pouco sobre literatura!”, insistiu Ângelo.

“E no entanto isso não o impediu de escrever um excelente romance, segundo me disseram.”

O advogado cruzava e descruzava lentamente as mãos, apertando-as uma contra a outra, como se as acariciasse.

“Ganhou um prémio importante, quer em termos económicos quer em termos de prestígio.”

“Não sei nada sobre prémios!”, disse Ângelo Durão, num obstinado laconismo.

O advogado levantou-se do sofá onde tinha estado sentado, em frente a Ângelo Durão, e dirigiu-se para a secretária, sentando-se na cadeira giratória, que fez mover lentamente da direita para a esquerda, repetidamente, como se estivesse a decidir o que iria dizer.

“Quer então explicar-me o que o traz aqui?”

Talvez ele fosse um mau poeta, mas o que os escritores mais gostam, e sobretudo os poetas, é falar mal uns dos outros, e Ângelo Durão aprendera isso no contacto com a tertúlia, onde lhe fora afirmado que o advogado era um mau poeta, mas também que o mau poeta era um bom advogado, e ele estava ali para consultar um bom advogado, ainda que duvidasse que fosse assim que as coisas se iriam resolver.

“Ganhei um prémio literário, mas isso já você sabe!”, e Ângelo Durão calou-se de imediato, o que levou o outro a pensar que devia ser daqueles escritores que escrevem maravilhosamente mas que não gostam de falar, mas Ângelo Durão ia continuar e o advogado concedeu-lhe toda a sua atenção.

“O prémio, para além da entrega de um valor pecuniário, implicava a edição do livro. Foi isso que aconteceu. Mas o livro que foi publicado não é o livro que combinámos. E agora eu quero que o livro seja retirado do mercado.”

“E substituído?”

“O quê?”

“Se quer apenas que o livro seja retirado, ou pretende que seja retirado e substituído.”

“Pensei apenas em que fosse retirado. Isso parece-me o mais urgente, não quero que esse livro continue por aí.”

“Mas depois quer que seja substituído pelo, digamos, verdadeiro livro?”

Ângelo Durão ficou em silêncio, a olhá-lo com a sua mirada fixa, a careca a reluzir, o rosto sério, e o advogado deixou que um sorriso se desenhasse nos seus lábios, parecendo por instantes um enorme Buda.

“Vamos então por partes”, disse finalmente, “só lhe poderei dar uma opinião sobre o que fazer se conhecer a situação a fundo. Como julgo saber já um pouco da história, deixe que eu lhe faça algumas perguntas directas, que pode apenas responder com sim ou não.”

Ângelo Durão assentiu com a cabeça e o advogado começou a colocar-lhe as perguntas, à maior parte das quais Ângelo Durão respondia com igual gesto afirmativo.

“O seu romance ganhou um prémio que consistia na entrega de uma quantia em dinheiro e na sua publicação?”

“A versão enviada a concurso é a mesma que agora foi publicada?”

“Recebeu já toda a quantia em dinheiro?”

“Quando ganhou o prémio tinha já alterado a primeira versão?”

“Deu conhecimento desse facto de imediato aos responsáveis?”

“Foi só quando me enviaram as provas do romance para que me pronunciasse sobre as correcções efectuadas que pedi que retirassem o último capítulo.”

“E como o fez?”

“Devolvi as provas riscando todo o último parágrafo, e escrevi ao lado o sinal de eliminado, segundo as instruções de revisão que me enviaram.”

“Não contactou mais o editor, nem de outra forma lhe fez saber que não queria que o último capítulo não fosse incluído?”

“Só mais tarde voltou a contactá-lo e explicou-lhe a situação?”

“Pediu-lhe que o livro fosse retirado do mercado e ele negou-se?”

“Não se mostrou interessado em alterar o romance numa próxima edição?”

“O cabrão riu-se na minha cara!”, disse Ângelo Durão, e o advogado procurou raiva ou contrariedade no rosto do escritor mas só lhe encontrou tristeza, uma tristeza profunda, que muito o impressionou.

DA BREVIDADE


El dinosaurio


Cuando despertó, el dinosaurio todavia estaba ali


Augusto Monterrosso


*


Depois de muito tentar conseguiu. Conseguiu sabe-se lá o quê.


*


Mudou do dia para a noite. Foi uma mudança indesejada. De dia estava vivo e à noite estava morto.


*


Esta é uma história que não foi, mas podia ter sido, se alguma vez tivesse chegado a ser. O que não aconteceu!


*


PORQUÊ FALAR? Disse isto e calou-se. Mas no silêncio a pergunta repetida continuou a responder-lhe.


*


Os seus últimos pensamentos foram para a mulher e para os filhos. Depois disso nunca mais voltou a pensar. Desde então a vida tem-lhe corrido muito melhor.


*


Um certo dia um homem deu por si outro, obliterado de quem tinha sido, e sentiu-se imensamente feliz, pois todo o futuro podia agora finalmente ser seu.


*


Alva, a luz flutuava lá no alto. E ele, imerso em sombras, subia até ela o seu olhar. [Nada mais.]


*


A luz


É muito difícil manter a luz em nós quando tudo escurece à nossa volta, disse o homem, e logo concluiu, mas nunca ela é mais necessária do que nesses momentos.


*


Uma certa mulher era sempre quem tinha de ser, e com tal intensa verdade o era, que o ser era em si pura alegria e luz, e perto dela nunca ninguém se aborrecia.


*


Brevidade


A Morte encontrou-o vivo. Por pouco tempo.


*


Deitou-se para dormir e não acordou mais. E ainda hoje sonha uma morte feliz.


*


Escreveu dezenas de contos mínimos, belos como teoremas, e morreu cedo, antes dos trinta. A brevidade foi a sua bandeira.


*


Em menos de cinco minutos escreveu uma pequena história bela como um teorema. Empregou nessa acção toda a sua experiência de vida.


*


O príncipe acordou-a com um beijo. E isso foi apenas o começo.


*


Casaram e foram felizes para sempre, o que só foi possível graças ao divórcio.


***


[antologia de histórias mínimas retiradas de Mil e uma pequenas histórias - um diário mínimo]