sexta-feira, 19 de novembro de 2010

um poema de Sylvia Beirute

[gostei muito deste poema, por várias razões. tinha passado por ele, sem nada dizer, e agora refiro-o aqui. a gata becas também gostou. não o coloquei aqui por dificuldades técnicas :)]


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Escrever (também) é desafiar as palavras




O capítulo, reunido de emergência, redigiu prontamente um capítulo que proibia a leitura de um certo capítulo, julgado indecoroso. Foi o primeiro capítulo de uma longa série de acontecimentos que levou afinal à capitulação do capítulo.

Escrever (também) é brincar com as palavras




Queria fechar mais um capítulo, mas não se sentia capaz. Ainda tentou, mas acabou por capitular.

Não me perguntem porquê [9]



[…]



“Chamo-me Ângelo Durão e sou escritor”, disse ele, e ficou a olhar para o advogado como se isso fosse mais do que suficiente.

O advogado ficou também a olhá-lo, e o silêncio instalou-se como o pó que cobre os móveis sem quase se fazer notar. Pouco sabiam um do outro, mas sabiam o suficiente para poderem enumerar pouco a pouco o pouco que sabiam.

Além de advogado também é poeta, dizia para si mesmo Ângelo Durão, um mau poeta, facto que não o impede de publicar regularmente, tal como a noite se segue ao dia.

Ganhou um prémio importante com o seu primeiro romance, dizem que é muito bom, mas doido, conflituoso, uma espécie de enfant terrible.

Deve sem dúvida ter sensibilidade para estas questões, afinal de contas é poeta publicado, ainda que mau.

Sei mais ou menos o que me quer, não sei é se valerá a pena aceitar o caso, que com doidos nunca se sabe.

“Quer então explicar o que o traz aqui?”, disse finalmente o advogado, cruzando e descruzando as mãos sobre o colo.

“Tenho um problema”, disse Ângelo Durão, e calou-se de novo.

“Todos os que vêm ter comigo têm problemas que querem resolver. É para isso que aqui estou”, disse o advogado, encorajando-o a falar, sem deixar de cruzar e descruzar as mãos.

Ângelo Durão olhou as mãos fortes do advogado, o seu sorriso, e apeteceu-lhe ir embora. Não era assim que as coisas se iam resolver, disse para si mesmo, mas ficou.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [8]



[…]



Tinha escrito o romance uma primeira vez, em pouco mais de três meses; página após página, Ângelo Durão tinha escrito tudo o que lhe viera à cabeça.

Nunca escrevera nada antes, nem um conto, nem mesmo um poema, e muito menos um romance, mas escreveu de uma penada tudo o que lhe viera à cabeça. Escreveu e depois leu tudo, tal como escrevera, de fio a pavio.

Não era aquilo. Não era nada daquilo. Não tinha quaisquer dúvidas. Precisava fazer alguma coisa.

Tentou então que tudo batesse certo, reestruturar tudo o que escrevera, escrevendo e escrevendo de novo, usando o que escrevera agora como texto base; mas o romance desmoronava-se a cada alteração e parecia-lhe sempre um romance diferente, e nunca aquele que ele tinha de escrever. Até que desistiu e apagou tudo, definitivamente, sem apelo nem agravo.

Ana não chegou a ler essa primeiríssima versão.

Meses depois de ter abandonado tudo para apenas escrever, eis que lhe diz, sem mais nem menos, que vai começar tudo de novo.

Ana não compreende.

“Não podia ser alterado?” Ele responde que não. Tem de começar de novo. É o mesmo romance, só que tem de escrevê-lo outra vez.

Ana aceita, diz que está bem, mas não compreende.

“Mas não podias reescrever? Não é isso que os escritores fazem?” Mas Ângelo Durão diz que não sabe nada sobre escritores. O que ele sabe é que tem de escrever o romance outra vez. Tem um livro para escrever, mas não é aquele que escreveu. Por isso vai escrevê-lo outra vez.

Mas… começou ela, mas… desiste, e fica em silêncio, a olhá-lo.

“Confia em mim, tenho de escrever este livro”, diz ele. “Não sei porquê, mas sei que tenho de escrevê-lo”, e tenta sorrir, mas só os olhos desenham um ténue sorriso, quase ilegível.

“Tenho de escrevê-lo”, repete. “É uma questão de vida ou de morte.”

Então ela passa-lhe a mão pelo crânio nu, e diz-lhe mais uma vez que ele é louco, e que um dia terá de deixá-lo para que ele viva plenamente a sua loucura.

Ele encosta a cabeça no seu ombro e sente uma enorme vontade de chorar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

o amor é um território circunscrito

O amor é um território circunscrito

um local onde não se escolhe ir
e de onde não se escolhe sair
onde se vai não pelo que se é
mas apesar de quem se é

um local onde só os apaixonados vão
mas nem sempre aí permanecem
pois quando ali estão nada existe
em redor e isso confunde-os

os apaixonados não sabem
que o amor lhes abre os olhos
ao mesmo tempo que os cega

os apaixonados não sabem
que o amor não tem limites
e que só a si mesmo abarca


o amor é um território circunscrito
que a si mesmo se circunscreve

as palavras

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.

em Poemas Zen - O bebedor Nocturno, poemas mudados para português, por Herberto Helder

Viver




Perguntaram-lhe o que queria fazer antes de morrer, e ele surpreendeu-se:
- O que quero fazer antes de morrer? Mas que raio de pergunta é essa? Ainda se me perguntassem o que quero fazer depois de morto.
Mas na verdade a resposta seria afinal a mesma.

Olhos nos olhos - Variações

1
Olhou-a nos olhos, bem no fundo dos olhos, e depois mergulhou. Nunca mais voltou ao de cima.

2
Olha-me nos olhos e diz-me a verdade, disse ele, e ela olhou-o nos olhos, bem no fundo dos olhos e mentiu-lhe. No fundo, no fundo, era isso que ele queria, e ela bem o sabia.

3
Olhou a verdade nos olhos e ficou cego. Não quero afirmar que a verdade cegue, foi apenas assim que aconteceu.

4
Gostava de olhar as pessoas nos olhos. Era médico oftamologista.

5
Olha-me nos olhos, disse a serpente, e a pequena ave fez-lhe a vontade. Olhou-a nos olhos, bem no fundo dos olhos, e voou para longe. Do que é que estavam à espera?

6
Olha-me nos olhos, disse ele, e diz-me que não me amas. E ela olhou-o nos olhos e disse que não o amava. Qualquer pessoa veria que ela falava verdade. Qualquer pessoa menos ele, que estava cego de amor.

7
Olhem-me nos olhos, olhem-me bem nos olhos, dizia ele, mas ninguém conseguia. Ele era completamente vesgo.

A verdade dificilmente se revela à vista desarmada. É preciso intimidá-la.

SOBRE A MICRO-FICÇÃO

(texto lido no encontro sobre micro-ficção realizado em Casablanca no dia 23.05.2008 e publicado aqui)


1. Como já pude dizer numa entrevista a uma revista portuguesa online de micro-ficção (Minguante), o que mais me atrai na micro-ficção é a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A micro-ficção não é um género literário, é a riqueza da impossibilidade de o ser. Confunde os géneros e deixa-nos (bem) perdidos no caminho para qualquer definição.

2. O escritor contemporâneo tem atrás de si um passado onde a procura da Verdade naufragou violentamente em guerras, genocídios, preconceitos. As descrições totalizantes do mundo deram entretanto lugar à revalorização transformada da experiência individual e isto tem duas vertentes com fronteiras pouco claras: por um lado, deixámo-nos desmoralizar relativamente a uma acção com propriedades salvadoras; por outro, acabamos dando maior atenção à diversidade de expressões, artísticas e quotidianas, como se cada pequena ou grande obra encerrasse (e encerra) a sua verdade (já sem maiúscula) própria, do tamanho da pessoa que a suporta ou, se formos optimistas, do tamanho da partilha que formos capazes de gerar.

3. Num mundo onde se acelerou o processo de criação de ligações das unidades da Rede – falo da Internet mas falo também da matéria que pensa ou, mais simplesmente, de todos os suportes de desenvolvimento da vida – a forma leve da micro-ficção permite-lhe circular melhor: como se fosse possível estar em vários sítios ao mesmo tempo. A sua plasticidade nómada fá-la experimentar a banda desenhada ou a eficácia do spot publicitário; a poesia, se o ritmo deixar; o aforismo, havendo universo que se deixe comprimir. A micro-ficção é um mutante que vai acumulando formas, interacções, desequilíbrios.

4. E quanto ao tamanho? Quanto mais pequeno melhor, como os telemóveis? Pois, a pergunta é traiçoeira, porque os telemóveis só continuaram a diminuir de tamanho até ao ponto em que sua funcionalidade começou a exigir um écran maior. Mas a questão do tamanho parece-me pertinente, quando situada no contexto antropológico que lhe responde: o espaço parece não ser absolutamente infinito quando todos queremos um lugar, ainda que provisório e inseguro. Podemos fazer uma analogia com os livros: se mais pessoas publicam livros, parece natural que os livros tenham um tempo médio de exposição nas livrarias inferior. Isto tem a ver com um fenómeno de democratização em que tempo e espaço (às vezes é difícil distingui-los) aparecem divididos por um maior número de pessoas. O aparecimento dos blogs enquadra-se neste movimento, e sabemos que os blogs são o grande viveiro actual da micro-ficção (a duração média das visitas na maior parte dos blogs ronda os dois minutos, o que desaconselha a publicação nesses espaços de textos com centenas de páginas.)

Resumindo: a micro-ficção é ADN, e o profundo ADN cabe todo num cabelo. E também: cada um leva apenas um cabelo, incluindo o Rei, o Presidente e o Sábio.

5. Tive o prazer de co-organizar em Portugal a recente “Primeira Antologia de Micro-ficção Portuguesa”. Procurei a qualidade e a diversidade, e a maior parte dos autores participantes tiveram aqui a sua estreia em livro. Descobri-os sobretudo em blogues, ouvindo as sugestões do Henrique Fialho (autor do excelente prefácio) e do Luis Ene, dois dos primeiros entre nós a praticar e a reflectir sobre a micro-ficção.
Dou os parabéns aos organizadores deste encontro pioneiro.

Rui Costa

sábado, 13 de novembro de 2010

Apontamentos de uma viagem a Sevilha



I

As aves voam da mesma forma
despreocupada
tanto no cinzento como no azul
Será a felicidade
daltónica?

II

Olho os pinheiros que passam por mim
sabendo que sou eu que passo por eles
pinheiropinheiropinheiropinheiro
todosiguaistodostodosdiferentes
pinheiropinheiropinheiropinheiro
pinheiro é apenas uma palavra

III

Talvez este rio
esteja mesmo aqui e
não vá a lugar algum
Mas então de que tem
saudades o cais?



IV

Nem vou tentar
dizer estas árvores altivas
enfeitadas de frutos amargos e
de aves furtivas agitadas
por um vento gentil
Sei que só posso
dizer-me e
mesmo assim
fracassar

V

Se eu quisesse imitar o mundo
riscaria sem propósito a folha em branco
sem tentar dizer fosse o que fosse

à minha volta tudo acontece
sem que eu o possa evitar

à minha volta tudo acontece
sem que eu o precise dizer



[...]



Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha.

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [7]


[…]



Curiosamente, ou não, foi à tertúlia de escritores que Ângelo Durão recorreu. Tinha estado ali apenas uma vez, quase não tinha falado com ninguém, a não ser com um escritor de cabelo branco e pêra também branca, vinte anos mais velho, que lhe perguntara se ele também escrevia.

Ângelo Durão conhecia poucas pessoas e nenhuma delas era escritor. Ora o seu problema era sem dúvida um problema de escritor, e por isso pensou que o melhor que tinha a fazer era procurar a companhia de escritores.

Sabia que se reuniam regularmente numa associação cultural que explorava também um bar, onde tinha ido uma vez, beber um copo, a insistência da Ana, que dizia que ele nunca saía, nunca se divertia, só escrevia e, quando não escrevia, só pensava em escrever.

Por isso tinham saído naquela noite, por isso ele estava ali na mesma ocasião em que os escritores e candidatos a escritores também ali estavam. Ângelo Durão não conhecia nenhum escritor e nunca tivera vontade de conhecer, por nenhum motivo especial, a não ser que preferia os livros aos seus autores.

No que lhe dizia respeito, os livros podiam até não ter autores, como as árvores e as flores, disse, e nem por isso seriam menos importantes. Os escritores são pessoas como as outras, e por isso igualmente desagradáveis, dizia-lhe ele nessa noite, enquanto bebiam caneca atrás de caneca de cerveja, paixão partilhada pelos dois, mas Ana tinha algo para lhe dizer e ia dizê-lo, estava apenas a adiar.

“Enviei o teu romance.”

“O quê?”

“Enviei o teu romance!”

“Mas ainda não está terminado!”

“Não está terminado? O romance não está ainda terminado? Mas não me disseste.”

“Há muitas coisas que não te digo, há muitas coisas que não te posso dizer. Ainda hesito entre manter ou não o último capítulo.”

Estavam os dois ao balcão em forma de L, em pé, junto à porta que dava para a pequena sala de exposições, e foi para aí que se dirigiram à procura de alguma intimidade.

Nas paredes do pequeno compartimento espalhavam-se desenhos de diversos fellatios, em grandes planos que à primeira vista escondiam o óbvio, e isso pareceu diverti-los e distraí-los por instantes da conversa.

Ângelo Durão beijou-a nos lábios, delicadamente, e trincou-lhe ao de leve o lábio inferior, como se mais nada importasse.

“Olha, enviei-o, que se lixe!”

“Que se lixe!”

E pareciam de acordo, os corpos encostados, beijando-se sem pressas numa volúpia não inferior à que se soltava dos desenhos na parede.

“Enviaste para onde?”

“Para um concurso importante, com um óptimo prémio em dinheiro e com a possibilidade de o romance ser publicado.”

“Mas tu sabes que eu me estou nas tintas para isso!”

Os corpos continuavam colados, as bocas próximas, mas as palavras começavam, como sempre acontecia, a afastá-los.

“Eu sei que tu te estás nas tintas, mas eu não estou. Não podemos continuar a viver como vivemos. Tu não podes continuar a esconder-te do mundo. Já te disse que não quero viver assim. Tu sabes, Ângelo!

Ângelo olhou-a com o seu rosto severo, que o cabelo cortado muito curto, a acompanhar a calvície precoce e avançada, parecia acentuar. Era a mesma discussão de sempre e não lhe apetecia continuá-la, por isso voltou a beijá-la, mas desta vez foi ela que se afastou, dizendo que ia à casa de banho, e ele deixou-a ir, acompanhando-a até à até à porta.

“Vou ver se há alguma coisa ali”, disse ele antes se afastar em direcção ao salão onde se ouviam vozes animadas. Lia-se e discutia-se em voz alta, e ele sentou-se a uma mesa onde apenas estava um homem de cerca de cinquenta anos, de cabelo branco e pêra, também branca, que pouco depois se levantaria para ler um texto de sua autoria. Tinha entrado, sem saber, numa tertúlia de escritores.

Ficou por ali, esquecido de Ana, a ouvi-los ler e discutir com paixão sobre literatura, e foi neles que mais tarde pensou quando decidiu agir. Apesar de não gostar por aí além de escritores, aqueles tinham-no divertido.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

[..]



A verdade é como um tigre que tivesse muitos cornos, ou então como uma vaca a que faltasse o rabo.



em Poemas Zen - O bebedor Nocturno, poemas mudados para português, por Herberto Helder

peixe, frutas, valores selados

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

RADIAÇÃO

Quijote interactivo


Do mestre

[para o Vasco Vidigal]

É preciso aprender com um mestre,
diziam-lhe, e ele concordava,
sabia que tinha de aprender,
sabia isso muito, muito bem,
mas a verdade é que não conhecia
quem lhe pudesse ensinar o que
precisava aprender, e assim,
dessa forma, uma e outra vez
se foi adiando o seu destino,
até que, finalmente, se tornou
o seu próprio mestre e com ele
aprendeu, de uma vez por todas,
a ser o que afinal sempre fora.

Poesia ou prosa?

A decisão, se tiver que haver uma decisão, está sem dúvida do lado do leitor.


Horas Felizes

1. o vento é a música de dança das árvores.
2. as chaminés não sabem que é feio apontar.
3. os copos sentem-se vazios quando ninguém bebe por eles.
4. os lápis são escritores inseguros.
5. as esferográficas são operárias especializadas.
6. os agrafadores não gostam de ideias à solta.
7. os bigodes são aprendizes de ventríloquos.
8. o rio queixou-se das margens por assédio sexual.
9. fazer a barba é afinal desfazê-la.
10. o mar inspira e expira.
11. as rosas têm licença de uso e porte de arma.
12. os candeeiros dormem de dia.
13. todos os versos são linhas de fuga.
14. as horas felizes passam num instante porque se riem do tempo.

[incluido na Primeira antologia de micro-ficção portuguesa]

A arte da elipse




A arte da elipse parece-me, portanto, ser uma necessidade. Ela exige: ir sempre directamente ao cerne das coisas.

Milan Kundera, A arte do romance

Vasco Vidigal

Uma entrevista que não tinha lido e que se mantém actual. O Vasco ainda está aí e a Artadentro também. Para ficar!

Não me perguntem porquê [6]


[…]



“Você deve estar doido”, disse o editor tentando conter o riso e quase se engasgando. “Ainda que fosse possível fazer o que propõe”, continuou, “seria sempre impossível ficar por aí.” E riu à gargalhada, escondendo a boca com a mão.

O escritor ficou a olhá-lo, os olhos muito abertos, e o editor ainda se riu mais, e quanto mais se ria, mais o escritor parecia ficar mais sério, e quanto mais sério parecia ficar o escritor, mais o editor se ria. Até que o escritor começou também a rir, e os dois riram em uníssono durante algum tempo.

“Será que viu a luz?”, interrogou-se o editor. “Ou será que enlouqueceu?”, questionou-se depois, lembrando-se que nunca tinha visto o escritor sorrir, e muito menos rir, ainda que poucas vezes se tivessem visto; e assim pensando deixou de rir, para constatar que o escritor continuava a rir à gargalhada, sozinho, e parecia, parecia cada vez mais zangado, agitando a mão direita num punho que ameaçava ir transformar-se em soco a qualquer momento.

E de repente também ele deixou de rir, olhou o editor ainda com mais intensidade e saiu batendo a porta com estrondo.

O editor ficou a olhar para a porta, com o rosto crispado, mas pouco depois sorria já e logo a seguir ria de novo, às gargalhadas. “Filho de uma grande puta!”, disse em volta alta para si mesmo. “É um chato do caralho mas faz-me rir, sobretudo quanto mais se zanga.”

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Finais

1 É o fim, disse ele, mas já ninguém o ouviu.
2 É o fim, disse ele, e tudo voltou ao princípio.
3 É o fim, disse ele, mas na verdade era apenas o princípio do fim.
4 É o fim, disse ele, mas não estava sozinho e teve de continuar.
5 É o fim, disse ele, mas infelizmente era apenas o intervalo.
6 É o fim, disse ele, e morreu exactamente sobre a meta.
7 É o fim, disse ele, e ela concordou.
8 É o fim, disse ele, e não foi preciso repetir.
9 É o fim, disse ele, e foi mesmo a última coisa que disse.
10 É o fim, disse ele, e tinha razão, morreu ali mesmo.

contar o conto

Centésima página

Foi fácil chegar à Centésima Página, difícil foi sair.

"Se tivesse que escrever um livro de moral, as primeiras 99 páginas ficariam em branco e na 100ª PÁGINA escreveria uma só frase: Existe um único dever, o dever de amar".

Albert Camus (1913-1960)


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Efémeras


1 Mudou do dia para a noite. Foi uma mudança indesejada. De dia estava vivo e à noite estava morto.
2 Mudou de carro. Mudou de nome. Mudou de aspecto. Mudou de profissão. Mudou de residência. Nunca ninguém conseguiu perceber porquê. Nem ele.
3 Num momento estava vivo e noutro já estava morto. Nem teve tempo de pensar que a vida é como um interruptor, apagou-se de repente.
4 Matou-se lentamente, muito lentamente, por isso, quando estava quase a chegar ao fim, teve que voltar ao início e matar-se de novo. Era um perfeccionista.
5 A morte apanhou-o descalço, completamente desprevenido, mas uma coisa é certa, estivesse ele com calçado ligeiro e também não teria conseguido fugir dela.
6 A Morte encontrou-o vivo. Por pouco tempo.

Não me perguntem porquê [5]


[…]



Para que ele viva nestas páginas, terei de insuflar-lhe vida, terei de fazer com que ele viva de novo através de mim. Esta história é a sua história, sem dúvida, mas é também a minha história, e nem de outra forma a conseguiria escrever.


É-me bastante fácil evocá-lo, conheci-o bem, mas confesso que me seria igualmente fácil ainda que só o tivesse visto uma vez, o que diz muito mais dele do que dos meus poderes de observação e de efabulação.


Alto, magro, calvície precoce mas avançada, olhar fixo e insistente, nunca sorria, mas soltava inesperadas gargalhadas, longas e ásperas. Sempre achei que daria uma personagem magnífica.


Poderia dizer, sem errar muito, que ele vivia encerrado num mundo pessoal, no qual a literatura ocupava a maior parte, mas isso seria, ao mesmo tempo, dizer de mais e de menos.


Ouvi-o muitas vezes confessar que mais importante que os escritores são os seus livros, e talvez isso explique a sua atitude e o modo como defendeu o seu livro. Dizia também que era melhor ler os escritores do que conhecê-los, mas isso não impediu que nos conhecêssemos numa tertúlia de escritores, ainda que só mais tarde me tivesse confidenciado que ali aparecera completamente por acaso, apesar de nessa altura já ter escrito o seu romance premiado, facto que não me referiu, nem mesmo quando lhe perguntei se escrevia, tendo-se limitado a olhar-me com a sua mirada fixa e insistente.


Só mais tarde, quando começou a sua “cruzada”, é que me procurou para pedir a minha opinião, não sobre o que devia fazer, mas sobre como o poderia fazer.

domingo, 7 de novembro de 2010

A justa medida


Quanto tempo devemos dedicar à contemplação?

Quanto de nós mesmos devemos pôr naquilo que fazemos?

Que tamanho deve ter um texto literário?


A resposta é simples e única. É sempre pouco. É sempre demais.


sábado, 6 de novembro de 2010