segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [5]


[…]



Para que ele viva nestas páginas, terei de insuflar-lhe vida, terei de fazer com que ele viva de novo através de mim. Esta história é a sua história, sem dúvida, mas é também a minha história, e nem de outra forma a conseguiria escrever.


É-me bastante fácil evocá-lo, conheci-o bem, mas confesso que me seria igualmente fácil ainda que só o tivesse visto uma vez, o que diz muito mais dele do que dos meus poderes de observação e de efabulação.


Alto, magro, calvície precoce mas avançada, olhar fixo e insistente, nunca sorria, mas soltava inesperadas gargalhadas, longas e ásperas. Sempre achei que daria uma personagem magnífica.


Poderia dizer, sem errar muito, que ele vivia encerrado num mundo pessoal, no qual a literatura ocupava a maior parte, mas isso seria, ao mesmo tempo, dizer de mais e de menos.


Ouvi-o muitas vezes confessar que mais importante que os escritores são os seus livros, e talvez isso explique a sua atitude e o modo como defendeu o seu livro. Dizia também que era melhor ler os escritores do que conhecê-los, mas isso não impediu que nos conhecêssemos numa tertúlia de escritores, ainda que só mais tarde me tivesse confidenciado que ali aparecera completamente por acaso, apesar de nessa altura já ter escrito o seu romance premiado, facto que não me referiu, nem mesmo quando lhe perguntei se escrevia, tendo-se limitado a olhar-me com a sua mirada fixa e insistente.


Só mais tarde, quando começou a sua “cruzada”, é que me procurou para pedir a minha opinião, não sobre o que devia fazer, mas sobre como o poderia fazer.

domingo, 7 de novembro de 2010

A justa medida


Quanto tempo devemos dedicar à contemplação?

Quanto de nós mesmos devemos pôr naquilo que fazemos?

Que tamanho deve ter um texto literário?


A resposta é simples e única. É sempre pouco. É sempre demais.


sábado, 6 de novembro de 2010

Juan and the Magic Tree


David Heathfield

A verdade e o palácio


Clara Haddad

ainda sobre contar histórias

Ocorre-me que a literatura acolhe hoje cada vez mais a oralidade (veja-se o recurso regular à interpelação ao leitor em Doutor Avalanche) e que os contadores de histórias recorrem cada vez mais à escrita (lendo contos escritos, ainda que tradicionais, ou de autor).
E apetecia-me continuar a falar de oral e de oralidade mas, como muito bem me disse Thomas Bakk, isso de oral e de oralidade... parece coisa de dentista.

literatura de cordel, dita e no papel

Thomas Bakk

Contar historias


Contar histórias, apetece-me dizer, é contar histórias, é contar histórias, quer seja no papel quer seja em volta alta. Talvez * uma semelhança entre os contadores de histórias e os escritores de hoje (adeptos ou não de formas breves) seja a necessidade urgente de se reinventarem e de reinventar os seus instrumentos. Só assim ** se percebe que os contadores de histórias tenham começado a contar histórias escritas (por eles mesmos ou por outros) e que os escritores comecem muitas vezes a dizer as suas histórias em público (e ou a escrevê-los para serem ditas).



* Estou viciado nas notas de rodapé, é apenas o que esta nota de rodapé diz.
** E esta reafirma. A culpa é do Rui Manuel Amaral. Leiam a entrada anterior (se é que ainda não a leram).

Doutor Avalanche

Sobre o novo livro de Rui Manuel Amaral posso , sem a menor hesitação, dizer que





ou talvez* não**.

* Digo "talvez", mas na verdade não tenho dúvidas que assim seja.
** Digo "não", mas podia perfeitamente dizer "sim".
*** Se não perceberam este texto não desesperem, é apenas porque ainda não leram Doutor Avalanche, o novo livro de Rui Manuel Amaral.


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [4]


[…]



O escritor olhou o negro da capa, atravessado pelo que parecia um ténue mas decidido raio de luz, pegou no livro, virou-o e revirou-o, folheou-o, abriu-o uma e outra vez, sopesou-o, sentiu-lhe a textura, a flexibilidade e depois atirou-o para cima da mesa e ficou a olhá-lo como se olha alguém que ainda queremos, mas já não desejamos.


Não tinha dúvidas sobre o que ia fazer: sabia o que tinha de fazer, ainda que tivesse preferido não ter de o fazer.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Poema a preto e branco



depois de

muitos livros derrubados

depois de

inúmeros olhares fixos e

incontáveis ataques relâmpago

depois de

vários lápis e canetas

atirados ao chão e

perseguidos até à morte

depois de tudo isto

a gata Becas mostra-se

finalmente num poema

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Destaque


Mutações do conto nas sociedades urbanas
(Mod. Eduarda Keating - CEHUM)
Leitura de microcontos – Luís Ene
Conto oral – David Heathfield
Contos e microcontos – Luís Ene, Rui Amaral, Clara Haddad e Celso Sanmartin em
conversa com Rita Patrício, Cristina Álvares e Sofia Afonso
Performance de um contador – Thomas Bakk

Centro de Estudos Humanísticos da Universidade de Braga - dia 4 - 14:30
programa completo aqui.

por aí

Não me perguntem porquê [3]

[…]

Há muitos anos que deixei de escrever, há quase tantos anos quantos se passaram desde a última vez que publiquei, mas agora estou decidido e irei até ao fim. Talvez esta não tenha sido a melhor forma de começar, mas não pretendo perder tempo a reflectir, quero apenas escrever e ir por aí adiante.

Quero falar do meu amigo porque quero que ele viva nestas páginas, e digo isto porque é assim mesmo que o sinto e não porque procure qualquer razão para o fazer: escrevo por necessidade; escrevo porque não posso deixar de fazê-lo, e só isso me importa.

Contarei esta história como a sinto, e à medida que se me for revelando, sem hesitações, mas também sem certezas, a não ser a de que contarei esta história o melhor que me for possível e a de que a contarei com verdade, a verdade tal qual a concebo.

O que comecei a contar aconteceu há pouco mais de um ano e, ainda que eu já conhecesse o Ângelo Durão antes disso, penso que esta é sem dúvida uma boa forma, ainda que não a melhor, de começar a contar a história que tenho para contar, pois ainda que tudo tenha começado antes, foi também nesse momento que tudo começou verdadeiramente.

Vou continuar a contar esta história até ao fim, devo-o a ele e devo-o a mim, é tudo o que tenho de saber.

Só preciso continuar a escrever, só preciso continuar a contar, na esperança de que se alguém vier a ler esta história possa, afinal, sentir tudo o que só escrevendo esta história conseguirei transmitir.

Ainda que não consiga dizer o mais importante, sei que se o escrever como o sinto, outros o poderão sentir também, e encontrar a verdade das mentiras com que conto esta história.

Estarei sempre presente no que escrevo, mesmo quando pareça estar ausente, e direi sempre a verdade, mesmo quando tiver de a imaginar, o que acontecerá muitas vezes: sei que só assim conseguirei contar esta história.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [2]

[…]


Quando abria um romance pela primeira vez, lia-lhe sempre o princípio e o fim, era um hábito de longa data, e naquele dia o hábito prevaleceu, ainda que conhecesse muito bem o romance em questão, uma vez que fora ele que o escrevera.

Leu as primeiras duas ou três linhas e depois saltou para o fim que, para seu espanto, encontrou diferente. Olhou o fim, olhou a capa, depois olhou o princípio e de novo o fim.

Ficou um bocado sem dizer nada, repetindo os mesmos gestos. Depois levantou-se, declarou terminada a sessão de autógrafos e pareceu ter a intenção de se dirigir de imediato para o local onde o livro estava à venda, mesmo ali ao lado, no outro extremo do pequeno pavilhão, a poucos metros de distância, mas deu finalmente pela mulher à sua frente, a mão estendida na sua direcção para que lhe devolvesse o livro, e entregou-lho num gesto mecânico, ao mesmo tempo que lhe dizia com solenidade: “Há um erro neste exemplar que altera por completo o sentido do livro!”

“Falta-lhe alguma coisa?”, perguntou a mulher, ao que ele respondeu, quase gritando, que era exactamente o contrário, e parou por momentos de falar, como para ganhar fôlego para prosseguir, mas ao aperceber-se de que estava alguém a comprar mais um exemplar naquele exacto momento, quase correu os poucos metros que o separavam da banca, não sem antes pedir atabalhoadamente à mulher, que esperasse, se fizesse o favor, que voltava logo, logo.

Quando o escritor lhe ordenou, sem mais, que não vendesse nem mais um livro, o representante local da editora, pediu-lhe repetidamente que se acalmasse e explicasse o que se passava, mas a venda já tinha sido feita, o comprador afastara-se já, e o escritor começou a gritar ao representante local da editora que guardasse os livros, ou melhor, que lhe desse os livros, que era inaceitável, que iam ver com quem se tinham metido, e tudo isto sublinhado pela sua mirada fixa e insistente. O outro continuava a olhá-lo, mas desistira já de lhe pedir que se acalmasse, e esperava apenas que tal acontecesse naturalmente. No entanto, o escritor entrara num estado de total excitação e pegava agora em cada um dos livros expostos e a todos espreitava o final, e de cada vez que o fazia, soltava um sonoro e rotundo “Foda-se!”, sublinhado com uma gargalhada longa e áspera, até que o representante local da editora perdeu as estribeiras e lhe gritou:

“Mas que bicho lhe mordeu?”

“O final não é este!”, respondeu-lhe o escritor, soletrando cada uma das palavras como se as proferisse com dificuldade, e apontava para as últimas páginas de um exemplar que mantinha aberto à sua frente. “O final não é este!”, repetiu perante o silêncio do representante local da editora e, sem qualquer transição, atirou o livro à cabeça do outro, que se desviou por muito pouco. Ficaram a fitar-se em silêncio, como a medir-se um ao outro, imóveis, e o escritor repetiu ainda, “O final não é este!”, parecendo incapaz de dizer outra coisa, e o representante local da editora, a deitar contas á vida, repetiu também ele a frase, transformando-a numa interrogação, como que a tentar ganhar tempo, “O final não é este?”, mas não ficou à espera de uma resposta e abandonou o pavilhão pela direita, rapidamente, sem olhar para trás.

O escritor não o seguiu, nem com o olhar, que estava pousado nos livros em cima da mesa, e começou de imediato a guardá-los na caixa de cartão, que encontrou no chão, abandonando também o pavilhão pouco depois com a caixa ao ombro.

Quando o representante local da editora voltou, acompanhado de um amigo, não fosse o diabo tecê-las, não encontrou nem o escritor nem os seus livros. Demorou-se apenas o tempo necessário para recolher o casaco e a maleta que deixara abandonados numa cadeira. Nem uma hora decorrera desde que a sessão fora dada por iniciada.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Não me perguntem porquê [1]



Perguntavas-me o que faz de alguém um escritor. Bastará ser publicado? É preciso ser reconhecido pela crítica? Vender muitos livros?

Eu dizia-te que não era nada disso, que era algo pessoal, íntimo, mas a verdade é que eu ainda não tinha respondido a essa pergunta.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

poemas instantâneos (6)



Poema pernicioso

perigoso é
tentar
dizer

não existem
palavras para
o nocivo

o mal é
sempre
plural


pequenas histórias digitais (5)



Uma lagoa comeu uma nuvem. Foi assim que aconteceu.


Uma caneta bebeu uma rua. Ficou tudo na mesma.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

pequenas histórias digitais (4)



Um muro apunhalou um gato. Foram infelizes para sempre.


Uma pedra desejou uma flor. Depois nada foi igual.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

poemas instantâneos (5)

Todo o poema é o resultado de uma construção que se oferece ao leitor para que o reconstrua.

Já o processo de construção do poema, e há sempre um processo, consciente ou inconsciente, é outra coisa, e pode ou não ser visível e evidente.

Leia-se o que foi escrito a propósito do poema construido a duas mãos entre mim e o Gavine Rubro.


Os designados poemas instantâneos que tenho aqui publicado são produtos finais, mais ou menos conseguidos, mas são também resultado de um processo simples que pode ser reproduzido.

Deixo aqui o processo, para que o experimentem, se quiserem (podem enviar-me os resultados), e para que se interroguem por momentos se a poesia não será (também) jogo e divertimento.

Começou quando me interroguei sobre a diferença entre belo e bonito e, como muitas vezes faço, fui procurar o seu significado num dicionário on line. Foi então que olhei para o resultado como material poético e resolvi construir com ele um poema, interferindo o menos possível com o material e a ordem em que se apresentava.

Exemplifico com o primeiro dos poemas, mas podia ser qualquer um dos outros.

bonito

adj.

adj.

1. Agradável à vista ou ao ouvido.

2. Digno de menção.

3. Irón. Em bons lençóis, bem-arranjado.

s. m.

4. Brinquedo, boneco.

5. Espécie de atum.

fazê-la bonita: fazer um disparate.


Fazê-la bonita


Nem tudo o que é agradável

à vista ou ao ouvido

é digno de menção.

Quando em bons lençóis

até um atum parece

um brinquedo.



------------------------------------>Experimentem.


pequenas histórias digitais (3)



------> Um homem matou uma cegonha, e mais não sei.

------> Umas calças amaram um cão. Desapareceram sem deixar rasto.

Escusado será dizer...


... e ainda bem que assim é ... mas como há sempre quem se esqueça.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

poemas instantâneos (4)

Amor, - oris


Sentimento intenso

paixão

entusiasmo delicado

brandura

(faz isso com mais amor)

pode-se ou não

morrer de amor(es) e

por amor à arte

fazer amor

livre ou cortês

(vem cá amor)

com grande dedicação

ou cuidado

(se tens amor

pensas melhor)

Uma rosa




'Rose is a rose is a rose is a rose'


SUL

Apresentaram-me ao João Filipe Marques e a conversa (breve) levou-nos à revista Sul e ao blogue Um Pouco Mais de Sul que era, à data da sua criação, uma extensão da revista Sul e daí o nome de nascença.
Lembro-me de alguns detalhes da ascensão e queda da revista, contados pelo José Carlos Barros, mas não o suficiente para os reproduzir aqui.
Fica aqui o desafio a quem possa contar a história, que vale a pena ouvi-la.

pequenas histórias digitais (2)

5 813 512 222

Uma flor amou um homem. Um gato desejou um homem. Um cão amou um cão. Foi assim que tudo começou.


1 642 357 448

Um homem apunhalou uma pedra. Um cão bebeu uma flor. Uma nuvem matou uma pedra. É sempre a mesma coisa todos os dias.

domingo, 24 de outubro de 2010

Estamos tão sós





O que nos afasta
uns dos outros
é o que nos aproxima
uns dos outros. Este
ser ao mesmo tempo
um e outro. Este ser
ao mesmo tempo
todo e parte desse
todo. Estamos tão
sós quando nos
bastaria apenas ser.

Eu sei quem é o Homem do Fraque



O Homem do Fraque é... quem me fez esta entrevista.