Nada é simples quando se trata de palavras.
Quando se trata de palavras até a palavra simples é complicada.
um blog de Luís Ene
terça-feira, 2 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Não me perguntem porquê [2]
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Não me perguntem porquê [1]
Perguntavas-me o que faz de alguém um escritor. Bastará ser publicado? É preciso ser reconhecido pela crítica? Vender muitos livros?
Eu dizia-te que não era nada disso, que era algo pessoal, íntimo, mas a verdade é que eu ainda não tinha respondido a essa pergunta.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
pequenas histórias digitais (5)
Uma lagoa comeu uma nuvem. Foi assim que aconteceu.
Uma caneta bebeu uma rua. Ficou tudo na mesma.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
pequenas histórias digitais (4)
Um muro apunhalou um gato. Foram infelizes para sempre.
Uma pedra desejou uma flor. Depois nada foi igual.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
poemas instantâneos (5)
Todo o poema é o resultado de uma construção que se oferece ao leitor para que o reconstrua.
Já o processo de construção do poema, e há sempre um processo, consciente ou inconsciente, é outra coisa, e pode ou não ser visível e evidente.
Leia-se o que foi escrito a propósito do poema construido a duas mãos entre mim e o Gavine Rubro.
Os designados poemas instantâneos que tenho aqui publicado são produtos finais, mais ou menos conseguidos, mas são também resultado de um processo simples que pode ser reproduzido.
Deixo aqui o processo, para que o experimentem, se quiserem (podem enviar-me os resultados), e para que se interroguem por momentos se a poesia não será (também) jogo e divertimento.
Começou quando me interroguei sobre a diferença entre belo e bonito e, como muitas vezes faço, fui procurar o seu significado num dicionário on line. Foi então que olhei para o resultado como material poético e resolvi construir com ele um poema, interferindo o menos possível com o material e a ordem em que se apresentava.
Exemplifico com o primeiro dos poemas, mas podia ser qualquer um dos outros.
adj.
adj.
1. Agradável à vista ou ao ouvido.
2. Digno de menção.
3. Irón. Em bons lençóis, bem-arranjado.
s. m.
4. Brinquedo, boneco.
5. Espécie de atum.
fazê-la bonita: fazer um disparate.
Fazê-la bonita
Nem tudo o que é agradável
à vista ou ao ouvido
é digno de menção.
Quando em bons lençóis
até um atum parece
um brinquedo.
------------------------------------>Experimentem.
pequenas histórias digitais (3)
------> Um homem matou uma cegonha, e mais não sei.
------> Umas calças amaram um cão. Desapareceram sem deixar rasto.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
poemas instantâneos (4)
Amor, - oris
Sentimento intenso
paixão
entusiasmo delicado
brandura
(faz isso com mais amor)
pode-se ou não
morrer de amor(es) e
por amor à arte
fazer amor
livre ou cortês
(vem cá amor)
com grande dedicação
ou cuidado
(se tens amor
pensas melhor)
SUL
Lembro-me de alguns detalhes da ascensão e queda da revista, contados pelo José Carlos Barros, mas não o suficiente para os reproduzir aqui.
Fica aqui o desafio a quem possa contar a história, que vale a pena ouvi-la.
pequenas histórias digitais (2)
5 813 512 222
Uma flor amou um homem. Um gato desejou um homem. Um cão amou um cão. Foi assim que tudo começou.
1 642 357 448
Um homem apunhalou uma pedra. Um cão bebeu uma flor. Uma nuvem matou uma pedra. É sempre a mesma coisa todos os dias.
domingo, 24 de outubro de 2010
Estamos tão sós
pequenas histórias digitais
1 123 245 365
Um homem comeu um cão. Um gato amou uma pedra. Uma flor bebeu uma lagoa. A moral desta história fica por tua conta, leitor.
1 948 571 627
Um muro matou uma rua. Uma cegonha desejou uma nuvem. Uma caneta apunhalou umas calças. Juro que foi isto que aconteceu.
poemas instantâneos (3)
Todo o poema é inexplicável
a poesia é um culto secreto
toma as tuas precauções
avança em segredo e
à cautela
reza dez ave-marias
e um pai-nosso
sábado, 23 de outubro de 2010
poemas instantâneos (2)
feito num
instante
repentino
rápido
assim é
o poema
poemas instantâneos (1)
Nem tudo o que é agradável
à vista ou ao ouvido
é digno de menção.
Quando em bons lençóis
até um atum parece
um brinquedo.
Belo!
Nem tudo o que é belo
é aprazível deleitoso ameno
Nem tudo o que é belo
é perfeito para o fim a que se destina
Nem tudo o que é belo
nos satisfaz completamente
Nem tudo o que é belo
é nobre generoso certo
Nem tudo o que é belo
é perfeitamente belo
só o sexo
é excelentemente
belo
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Conversas de passagem
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
lido por aí
Paleta
a que faltam
algumas cores. Talvez
porque há substâncias
a que não soubeste
dar expressão. Ou porque elas
são incolores. Ou porque
em toda a realidade
há fendas
que nem pela palavra
nem pela cor
alguma vez
saberás preencher.
Albano Martins
Escrito a vermelho
Campo das Letras
1999
1ª edição
arte combinatória
O DOM DA PALAVRA (fim)
[QUASE FELIZ]
Hermínio Campânula era um homem simples, mas nem por isso era menos sensível aos paradoxos, e sabia que muitas vezes o que nos preocupa mais é o que menos nos devia preocupar, assim como as coisas que menos importância deviam ter são as ganham muitas vezes uma importância desmedida e sem controlo. Por isso percebeu com facilidade que tinha de tomar uma decisão sobre o que lhe acontecera e, se não tinha dúvidas que o melhor era ignorar o que lhe acontecera, a verdade é que não sabia qual a forma que essa ignorância devia tomar. Podia simplesmente continuar a falar, como sempre fizera, ignorando dessa forma não só o que lhe acontecera mas também aqueles que insistiam em não compreender o que ele dizia; ou podia continuar calado, o que lhe parecia sem dúvida mais prudente e não contrariava a sua natureza silenciosa e contemplativa, ainda que a vontade de falar como os outros, como já tivera ocasião de perceber, não desapareceria com facilidade e poderia fazê-lo infeliz e miserável. Perdido nestes pensamentos e incapaz de tomar uma decisão sobre um assunto tão delicado, resolveu ir passar uns dias junto ao mar, numa pequena aldeia habitada quase em exclusivo por estrangeiros.
Depois de muitas horas de passeios solitários e de ruidosos convívios nos cafés e bares Hermínio Campânula decidiu finalmente que ficaria por ali, iria viver ali, onde podia falar sem que ninguém o percebesse e sem que ele, na maior parte das vezes, percebesse o que lhe diziam.
Sentia-se quase feliz e isso era muito mais do alguma vez esperara sentir, como não se cansava de repetir a quem o quisesse ouvir.
“Quase feliz, sim, quase feliz, onde é que se viu uma coisa assim!”
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
poema é a flor abrupta
A porta continua aberta.
Filtro
filtra
cada imagem
já destilada
pela distância,
deixa-a
mais límpida
embora
inadequada
às coisas
que tenta
captar
no passado
indiferente.
Carlos de Oliveira, in 'Micropaisagem'




