quarta-feira, 20 de outubro de 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A virgindade das palavras - Manoel de Barros

Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para o trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichés. Só os poetas podem salvar o idioma da esclerose. Além disso a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens.

Poema e Poesia

POEMA E POESIA: TENTATIVA DE DISTINÇÃO
contributo pessoal



É curial a distinção nos dias de hoje, mais do que antigamente, entre poema e poesia. Costumo distinguir estas duas realidades tomando a análise dos versos do poema (o poema enquanto conjunto de versos). Para mim um poema contém poesia se cada um dos seus versos, tomado isoladamente, de certa forma contrariar o tema do poema e conseguir ter uma existência autónoma. Caso não o consiga, muito provavelmente esse verso terá uma linha muito recta entre si e o seu único significado e a probabilidade de não conter poesia é grande.
Gosto de entender a poesia, separando-a definitivamente da prosa, enquanto contraficção. O que quero dizer é tão-somente isto: a vida impõe-nos uma ficção mais ou menos consciente: vamos para o trabalho, deparamo-nos com as mais variadas situações do dia-a-dia, há uma gestão pessoal que nos é, mais ou menos, imposta, há gente bem intencionada, gente mal intencionada no nosso caminho, etc. A poesia, enquanto momento de libertação, pode ser uma contra-resposta pessoal em termos de reequilíbrio do cérebro e emoções. Será essa contraficção. Mas esta contraficção pode e deve fugir à frieza da realidade em estado puro; pode e deve, também, conter elementos de nova ficção, de fantasia, do poético como o defini acima, da realidade que se superioriza em altura, dentro de uma linguagem que pretende descobrir o oculto, o longínquo. Talvez a diferença entre poema e poesia se resuma, afinal, a um «ver ao perto», no caso do poema que não participa da poesia como a configurei, e a um «ver ao longe», no caso da poesia propriamente dita, a mesma que pode ser encontrada no interior de um poema ou noutro qualquer texto.

Sylvia Beirute

O DOM DA PALAVRA (4)


[FOI UMA VEZ]


Um dia, uma mulher dirigiu-lhe a palavra, em inglês, e ele respondeu-lhe também em inglês. Não era bela, pelo menos de uma beleza convencional, mas tinha um olhar intenso de um estranho azul, e ele sentiu-se bem em responder-lhe. Ela sorriu e ele sorriu-lhe de volta. Tinha um mapa da cidade na mão e apontava para onde queria ir, a pouco mais de quinhentos metros de onde estavam. Hermínio Campânula começou a explicar-lhe com gesto simples e inequívocos como poderia chegar lá, mas ela sorria-lhe e ele sorria-lhe e, sem dar por isso deu por si a levá-la onde ela queria ir, ao mesmo tempo que iam tagarelando incessantemente, um e outro, sem saber o que cada um ia dizendo. Talvez fosse sueca ou de um outro qualquer país do norte, ele não sabia, e estava certo que ela também não sabia que língua ele falava, mas isso pouco importava, porque pela primeira vez há muito tempo ele falava com alguém que não se admirava por não compreender o que ele dizia. Pensou por breves instantes que talvez tivesse passado a falar uma qualquer língua rara e fosse por isso que ninguém o entendia, mas depressa esqueceu essa ideia e limitou-se a saborear aquele prazer inusitado de falar com alguém que lhe respondia sem espanto. Também não deu grande importância à descoberta que fizera, que também em inglês não era percebido, porque depois lhe ter feito a primeira pergunta em inglês, ela passara a falar na sua própria língua, sinal de que não entendera e ele fez o mesmo, falando também na sua própria língua, tanto mais própria quanto ninguém o entendia.

Acompanhou-a à igreja que ela procurava, entrou com ela e percorreram-na sem falar, o silêncio quebrado apenas e ali por alguns risos discretos. Depois saíram e vaguearam pela cidade sem destino, olhando em redor e dentro dos olhos de cada um, sorrindo sempre muito. Ao fim da tarde ele levou-a à estação dos caminhos-de-ferro, que ela indicou no mapa com um sorriso, e beijaram-se sem deixarem nem por um instante de sorrir, até que ela entrou para o comboio, a sorrir, e ele viu o comboio afastar-se, a sorrir.

A partir dessa altura sentiu pela primeira vez que lhe era muito difícil suportar a solidão, de que a impossibilidade de compreenderem o que dizia, era sem dúvida uma das facetas mais evidentes e dolorosas, ainda que na generalidade ele não lhe atribuísse grande importância.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Toda a gente sabe que o Sócrates mentiu...

até o Leonard Cohen sabe

o barco mete água
o capitão mentiu

contributos para pensar a construção do poema

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens.

[ Depois da discussão que se esboçou aqui sobre a construção do poema apeteceu-me recolher alguns textos que abordem a questão da criação do poema e da sua natureza. Começo então por este fragmento de Arte Poética II, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Quem quiser participar faça o favor de me enviar o que quer publicado aqui nesta rubrica.

AO RUBRO


Excelente entrevista a Gavine Rubro [Diogo Leal] no Homem do Fraque. Sigam já a ligação e demorem-se na leitura.

[...]


As meninas


Foder? Foder é coisa de meninas!

Homem que é homem tem mais que fazer

Fazer a revolução, mudar o mundo,

salvar a nação Isso e o mais que

seja, talvez futebol, TV, pizza e muita

muita cerveja E as meninas? As meninas

que se fodam, tá-se mesmo a ver

O que as meninas melhor fazem

é foder foder Foder é para meninas!

domingo, 17 de outubro de 2010

as restrições libertam

É possivel escrever sob um propósito oculto sem que o leitor tome dele conhecimento...

mas quando se quer falar de constrangimentos e restrições é muito dificil não utilizar a letra “a”, como fiz na primeira linha. No entanto, George Perec escreveu um romance, La disparition (1969) em que não utilizou a vogal mais usada na lingua fancesa: o “e” e que constitui um exemplo extremo de lipograma, ou seja, um texto em que o autor se impõe não usar uma ou mais letras. Experimentem com uma qualquer vogal e verão que não é fácil.

A revista Minguante, por exemplo, após o seu número 0, foi sempre temática e nunca deixei de acreditar que o tema, mais do que restringir, permitia uma certa concentração, que funciona como uma forma de libertação.

E a restrição é motivadora. Desafia.

Os oulipianos pelos menos acreditaram (e acreditam ainda) nisso e fizeram da restrição a sua pedra de toque, criando ainda hoje novas “contraintes”.



O poema aberto e nu

... a poesia é a abertura nua que não se pode delimitar, a intimidade mais pura e mais selvagem de algo que não podemos traduzir ou determinar segundo os esquemas da compreensão racionalizante. Todavia, o poema não é um enigma. Ele é evidente na sua obscuridade ou na sua claridade ofuscante. O poema é uma manifestação da origem ou, por outras palavras, da Vida absoluta, e por isso mesmo é um mistério real. O leitor, tal como o poeta, é um ego que não tem outra luz além daquela que o poema projecta sobre si."

António Ramos Rosa
A Parede Azul - Estudos sobre poesia e artes plásticas
Caminho - colecção universitária

pingue-pongue literário

Gosto do pingue-pongue a quatro, ainda que não propriamente a pares, que tem acontecido entre blogues:

Dueto entre Luis Ene e Gavine Rubro: o Poema

A construção do poema

A construção do poema – reflexão

O processo

Sobre a poesia escrita a duas mãos

O homem do Fraque dixit


Apeteceu-me, por ora, continuar assim:


Tudo sem assim é


tudo está

aquém e além

das palavras


estou eu

estás tu e

está o mundo


que sem as palavras

não existiria

assim pois


o poema é

ao mesmo tempo

um grito e um eco


[Mais tarde, talvez, acrescentarei algumas palavras sobre o constrangimento ou a restrição como elemento fundamental do processo criativo na escrita]

UM POETA: Herberto Helder




sábado, 16 de outubro de 2010

O DOM DA PALAVRA (3)


[EM VOZ ALTA]


Nunca lhe passou pela cabeça consultar um médico, pois se um por lado não saberia como lhe dizer o que se estava a passar com ele, por outro não gostava muito de médicos e só recorria a eles quando a sua condição não podia ser ultrapassada de outra forma, ou seja, não propriamente em caso de vida ou de morte, mas quando a coisa o incomodava de verdade e se obstinava em não passar. Na presente situação não se sentia muito incomodado, ainda que, pouco a pouco, lhe crescesse, pouco a pouco, a vontade de falar.

Nunca falara sozinho, nunca tivera esse hábito, que lhe parecera sempre um sinal de perturbação mental, mas sempre gostara de se ouvir e, embora falasse pouco com os outros, gostava de ler em voz alta e fazia-o com alguma regularidade, quer se tratasse de um romance, um poema ou mesmo um artigo de jornal.

E por esses dias que deixou de falar com as pessoas, começou a ler mais em voz alta, mas quando saia à rua, hábito que nunca abandonou, o silêncio custava-lhe mais e várias vezes lhe apeteceu dirigir a palavra aos outros, pois se não o compreendessem, afinal o problema era deles e não seu que continuava a expressar-se com clareza.

Mas esse desejo raramente passou disso mesmo, de um mero desejo à espera de concretização, ainda que uma ou outra vez não tenha aguentado e tivesse chegado a cumprimentar uma ou outra pessoa com um simples bom dia ou um como vai isso, ao que os outros respondiam ou não, de uma forma ou outra, mas sempre sem darem mostras de terem realmente compreendido.

No entanto, na maior parte do tempo, não falar com os outros não lhe pesava, esquecendo-se até das circunstâncias que o haviam conduzido a essa situação.

“Não me percebem, pois bem, isso pouco me importa. Na verdade nunca quis ser compreendido pelos outros e tenho dúvidas que os outros alguma vez me tivessem compreendido.”

Mas ainda que assim pensasse, também sabia que não era nada disso e que, ainda que o que tivesse perdido não fosse grande coisa, a verdade é que lhe sentia a falta, ainda que não percebesse bem que falta sentia, se a de falar com os outros ou a de ser compreendido por eles, porque quando pensava nisso percebia que não era bem a mesma coisa, ainda que a diferença pudesse ser subtil. Mas durante algum tempo continuou ainda calado, assaltado apenas aqui e ali por esse estranho desejo de voltar a falar com os outros.

UM POETA: Mário Cesariny





sexta-feira, 15 de outubro de 2010

arte combinatória


O livro Cent mille milliards de poèmes de Raymond Queneau, foi publicado em 1960. É uma espécie de máquina de fazer poemas, permitindo a qualquer um compor o número de poemas anunciado no título, a partir de apenas dez poemas de 14 versos cada. Podem espreitar o livro na imagem acima e podem, com o auxílio dos meios informáticos, criar os poemas que quiserem, aqui ou aqui.
leia mais aqui e aqui.

A minha querida pátria



A MINHA QUERIDA PÁTRIA

a pátria
os camões
os aviões
e os gagos-coutinhos
coitadinhos

a pátria
e os mesmos
aldrabões
recém-chegados
à democracia social
era fatal

a pátria
novos camões
na governança
liderando
as mesmas
confusões
continuando
mesmo assim
as velhas traduções
de mau latim
da Eneida

enfim
sabem que mais?
pois
vou da peida

Mário-Henrique Leiria

O BRANCO DA FOLHA

se eu quisesse



Obrigado Diogo. Mais um conto do mesmo livro:


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O DOM DA PALAVRA (2)


[INCOMPREENDIDO]


Os outros não percebiam o que ele dizia, mas ele sabia o que dizia e não só sabia o que dizia como ouvia o que dizia. No princípio ainda pensou que fosse apenas uma ou outra palavra que não era percebida, mas quando repetiu o que dissera ou pedira explicações, não viu nos outros qualquer sinal de compreensão. A verdade é que não percebiam nada de nada do que ele dizia, pois não só não percebiam nada do que ele dizia como nada lhe podiam realmente dizer sobre isso uma vez que não o compreendiam. É claro que ainda falavam com ele, apesar de não o perceberem, perguntando se estava a brincar ou o que se passava com ele que não dizia coisa com coisas ou até se falava inglês, tudo isto perante a óbvia impossibilidade de o compreenderem.

Talvez porque não falasse com muita gente e porque com aqueles que falava se limitasse sempre a umas poucas palavras de circunstância, a verdade é que Hermínio Campânula não se preocupou muito que não o compreendessem, até porque ele continuava a compreender tudo o que lhe diziam e, conhecendo as pessoas como conhecia, o melhor era mesmo que não percebessem o que lhe acontecera.

Foi assim pensando que não deu muita importância ao que lhe acontecera e que levou a sua vida quase sem alterações, calando-se a maior parte das vezes e usando gestos discretos quando tal se tornava completamente necessário, sorrindo muito e abanando a cabeça de várias formas sempre que falavam com ele.

Surpreendeu-se com a variedade e a eficácia desses gestos e tomou consciência pela primeira vez de quanto eram diversos e plenos de significado. Só movimentos de cabeça possíveis eram mais que as mães, como Hermínio Campânula disse a si mesmo com um sorriso aberto, desde os comuns abanar a cabeça de cima para baixo e de um lado para o outro, os quais podiam, descobriu então, mudar facilmente de significado consoante a expressão facial, transformando por exemplo uma simples negativa num mais profundo não faço a mínima ideia, até um ligeiro oscilar com a cabeça que podia significar que quem lhe perguntava o que quer que fosse estava muito perto de acertar ou que ele mesmo não tinha a certeza sobre alguma coisa.

Não tentou usar a escrita para se fazer entender, talvez por medo que também não compreendessem o que escrevia, apesar de ele continuar a perceber o que escrevia, da mesma forma que percebia o que dizia e, se de certa forma tinha aceitado que não percebiam o que dizia, a verdade é que não se achava capaz de aceitar que não percebessem as suas palavras escritas.

Podem achar estranho que assim pensasse, mas ele não era um homem complicado e olhava o mundo de forma prática, nunca duvidando muito das suas decisões depois de tomadas e, tal atitude, pensava ele, tinha-lhe facilitado mais a vida do que lhe tinha dificultado. E também lhe parecia ridículo andar com bilhetinhos, como um mudo, ele que deixara de ser compreendido mas que nem por isso deixara de ser capaz de usar a voz.

É claro que ás vezes usava as palavras escritas para se fazer entender, apontando-as, como fazia nos restaurantes, apontando na lista o que lhe apetecia comer, e quando o criado lhe perguntava o que queria beber, se não lhe desse logo uma opção, como muitas vezes acontecia, “Quer uma cerveja?”, Hermínio Campânula, fazia um ar pensativo e nove em cada dez vezes o empregado sugeria alguma coisa, “Quer um jarrinho de vinho? Tinto?”, e quando assim não acontecia ele abanava a cabeça dizendo que não queria nada e arrumava a questão.

Mas a maior parte das vezes não precisava de usar quaisquer estratégias pois bastava-lhe pegar nas coisas que queria e pagar, tarefa que não lhe exigia em quase todos os casos quaisquer competências de comunicação, podendo executá-la no mais perfeito silêncio e sem precisar de se relacionar com quem quer que fosse, como podia fazer nas suas idas ao supermercado em que, desde o agarrar no que queria até pagar na máquina com o cartão, não precisava falar com quer que fosse. O que, diga-se, ele sempre preferira.

Foi desta forma que não só passou a falar com menos pessoas, chegando mesmo a evitá-las, como percebeu que já antes falava afinal muito pouco e com muito poucas pessoas.

Foi também por essa altura que passou a apreciar ainda mais estar em silêncio, não tanto pelo que lhe permitia ouvir-se melhor a si próprio, mas pelo que lhe permitia ainda mais ouvir os outros.

Hermínio Campânula sempre gostara de ouvir os outros e por isso sempre preferira locais públicos, com quanto mais gente melhor, em que pudesse ouvir os outros e passar despercebido. Era uma mania que tinha, como ele dizia a si próprio, não tanto para a justificar mas sobretudo para sublinhar a si mesmo quem era. Mania que o levava aos centros comerciais, às feiras e mercados, ao centro da cidade e aos cafés, de que era cliente habitual. E também às salas de cinema, preferindo, por motivos óbvios, o intervalo e a saída, em que se misturava com os outros e escutava com atenção o que diziam. Em tempos frequentara também reuniões e manifestações políticas mas concluíra que as conversas eram sempre as mesmas e muitas vezes exigiam a sua participação, e ele queria estar calado e ouvir. Pelo mesmo motivo deixou de frequentar concertos, qualquer que fosse a música, pois se nuns se falava de mais de coisa nenhuma, noutros se falava de menos de coisa alguma.

Agora que ninguém o compreendia e que tudo o aconselhava a calar-se, abraçou ainda mais o silêncio que sempre amara, num casamento que lhe pareceu perfeito; pois se ninguém o percebia e ele continuava a ouvir os outros, nada melhor do que concentrar-se nessa tarefa que podia agora desempenhar melhor do que nunca, completamente concentrado a ouvir os outros, desviado afinal de si próprio e de qualquer veleidade de comunicar com os outros.

Sentia-se quase feliz, como disse a si mesmo, mas esta era uma forma de dizer a si próprio que se sentia bem e que ele utilizava muitas vezes, mesmo quando os outros ainda o compreendiam.


O PROCESSO

Já vem sendo hábito, não sei se bom ou mau, concordar com as observações da Sylvia sobre o que aqui se escreve e publica, e desta vez não foi diferente.
Optei pela apresentação do que chamei A Construção do Poema para dar ênfase ao processo de construção do poema sobre o seu resultado, neste caso uma criação colectiva.
E confesso que fiquei fascinado pelo processo em si que, para além do seu aspecto colectivo, funcionou (lembrando-me o Oulipo) como um verdadeiro pretexto para o texto.
Já tinha escrito contos a duas e mais mãos (ou teclados) e aí a regra era simples: continuava-se o texto (podendo ou não haver acordo sobre o tema), continuava-se o que estava escrito (podendo haver ou não limitação sobre o quanto se podia escrever: um parágrafo, x linhas...). Quanto a poemas, foi a primeira vez.
A regra fixada, de forma não restritiva, foi que cada um poderia escrever os versos que quisesse, continuando o poema ou intercalando-os nos já existentes. Esta regra, a par do facto de ser uma criação colectiva e cada autor não ter controlo sobre a escrita do outro, surge como uma verdadeira restrição que vai determinar a estrutura do texto.
Quebrei a regra (ou inovei-a) apagando um verso que tinha escrito e o poema desenvolveu-se desde o princípio apesar das restrições ou por causa delas.
Chegados ao poema, quando olhei o produto final e o registo do processo, encontrei mais mistério e força no registo da construção do poema do que no poema final. Talvez se deva ao meu profundo gosto pela narrativa, ao gosto por contar histórias. O texto (o poema) tal como o apresentei conta, além do mais, uma história: a história da sua construção, a história de um encontro.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Construção do Poema

[A prática colectiva da escrita não é tão praticada como poderia. A desafio de Gavine Rubro, escrevemos um poema a dois teclados. Como guardei e ordenei os vários passos do processo pareceu-me curioso deixá-los aqui por inteiro.]

1.

é dificil começar um poema
rasgar o silêncio da folha
como se o mundo nos falasse
pela primeira vez
num dueto impossível

2.

é difícil começar um poema
foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
rasgar o silêncio da folha
torcer hirtas, as sílabas
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e piscasse-nos o olho
pela primeira vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
num dueto impossível

3.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil começar
rasgar o silêncio da folha
torcer hirtas, as sílabas
escutar os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
num dueto impossível

4.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil começar
esta tinta, das árvores ao manuscrito das linhas,
como se ziguezagueassem no colo das malas,
as interrogativas
rasgar o silêncio da folha
pseudo-assassinar os idosos cânones cépticos gramaticais, decrépitos
torcer hirtas, as sílabas
contra o opulento fundamentalismo da orto-cali-grafia
escutar os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
segundo o empenho das veias e do oxigénio
conforme a mão, o miolo desassombrado
Como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
Insuportáveis são os não esforços, vãos
num dueto impossível

5.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil
começar
esta tinta, das árvores ao manuscrito das linhas,
como se ziguezagueassem no colo das malas,
as interrogativas
rasgar
o silêncio da folha
pseudo-assassinar
os idosos cânones cépticos gramaticais, decrépitos
torcer hirtas, as sílabas
contra o opulento fundamentalismo da orto-cali-grafia
escutar
os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
segundo o empenho das veias e do oxigénio
conforme a mão, o miolo desassombrado
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
começar
e seguir em frente
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
insuportáveis são os não esforços, vãos
num dueto impossível
é difícil começar assim como é difícil
terminar
que o diga o Herberto Helder
...
o poema não tem
princípio nem
fim

Queneau:Si tu t'imagines

Queneau:Si tu t'imagines

HOMEM DO FRAQUE

Por princípio não sou muito a favor do anonimato. Em geral serve para nos escondermos e, nos dias de hoje, demonstra muitas vezes alguma falta de coragem. Tal se tem visto nos blogues, quer nos seus autores quer nos seus comentadores. Mas se este era o princípio, no final podem haver sempre excepções.
O Homem do Fraque parece ter intenções sérias (no bom sentido) e o anonimato não parece servir fins menos próprios.
Anuncia-se como um blogue sobre livros, espaços e escritores que promete especial atenção ao Algarve.
Tenho gostado de o ler e vou continuar a fazê-lo.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A GAVETA DA PEDRA



DIA 14 DE OUTUBRO A GAVETA CHEGA AO PÁTIO

veja mais aqui

O DOM DA PALAVRA (1)

[A PRIMEIRA VEZ]


A primeira vez que lhe aconteceu foi numa manhã como outra qualquer e Hermínio Campânula nem se apercebeu do que lhe estava a acontecer. Atravessava a praça em direcção ao café da esquina, como fazia todos os dias, pelo menos uma vez por dia, quando alguém lhe perguntou onde ficavam os correios.

Já não se recordava da pessoa que lhe fez a pergunta, mas ainda se recordava da surpresa que lhe atravessou o rosto e da forma como a pessoa se afastou sorrindo e abanando a cabeça, como se o que ele dissera a tivesse ao mesmo tempo surpreendido, desiludido e divertido.

Ainda esteve para lhe lançar alguma ironia ou mesmo algum insulto, mas achou que não valia a pena e seguiu o seu caminho até ao café, onde pediu uma bica ao empregado atrás do balcão, com o gesto habitual, unindo o polegar e o indicador e levando-os à boca, para não ser forçado a elevar a voz sobre o barulho reinante.

Hermínio Campânula não era um homem de muitas palavras e dificilmente se poderia dizer que tivesse o dom da palavra, mas era capaz de expressar-se com facilidade e nunca tivera dificuldades em se fazer entender e, além disso, era ao mesmo tempo bastante tímido e bastante seguro de si, o que talvez possa explicar que não tivesse percebido logo o que lhe acontecera.

A segunda vez que lhe aconteceu foi no talho, em que entrou apenas para comprar meio quilo de carne picada, como enunciou de forma clara quando lhe perguntaram o que queria, mas como o talhante olhasse para ele com cara de quem não tinha percebido nada, apontou para a carne picada, o dedo colado ao vidro, e pouco depois levantou a mão direita indicando que era suficiente, o que na verdade foi mais do que suficiente para ser entendido. Ao sair, a menina da caixa sorriu-lhe, e ele respondeu-lhe com um sorriso.

Na semana que se seguiu aconteceram-lhe outros pequenos incidentes que o levaram finalmente a concluir que as pessoas não compreendiam o que ele lhes dizia; não compreendiam nada do que ele lhes dizia, e isto apesar de ele as compreender perfeitamente e se compreender perfeitamente a si mesmo. Não parecia ter qualquer dificuldade em dizer as palavras nem em articular o seu discurso mas a verdade é que ninguém o entendia quando falava e não o escondiam, rindo e abanando a cabeça. Os que o conheciam pensavam talvez que ele estava a brincar ou que tinha enlouquecido e os que não conheciam pensavam talvez que ele era louco ou estrangeiro.

A sua primeira reacção foi deixar de falar e ficou surpreendido com o pouco incómodo que lhe causava o silêncio, quer porque conseguia o que queria sem falar, quer porque ninguém parecia importar-se que ele não falasse. A verdade é que ele queria sempre muito pouco e falava com muito pouca gente, mas mesmo assim admirou-se que fosse tão fácil ficar em silêncio.

Quantas vezes não tinha dito a si próprio que até agradecia se nunca mais fosse capaz de dizer uma só palavra! Não era o caso, porque ele era capaz de falar, mas era como se não fosse, porque ninguém o entendia.

Mas antes de se calar e aceitar o que lhe acontecera ou, se preferirem, porque não tenho bem a certeza da ordem, antes de aceitar o que lhe acontecera e se calar ainda tentou investigar e perceber o que lhe tinha acontecido.


domingo, 10 de outubro de 2010

folhetim

A Perda do Dedo Mínimo não foi escrito à medida da sua publicação, estava já escrito, mas tinha sido escrito em fragmentos, o que permitia a sua publicação assim, sem mais. Os títulos são os que então usei.
Já escrevi noutras ocasiões à medida que publicava, mas desta vez foi porque reparei que se prestava muito bem a isso.
No entanto, esta análise não perde validade, antes pelo contrário.
Na escrita de contos, no geral, embora não seja o mesmo, gosto de interromper a escrita, de deixar espaços em branco, como silêncios mais ou menos prolongados, a serem ocupados pelo leitor.

paixão e alegria

A propósito do estado da literatura e do rescaldo (confesso que prefiro a palavra balanço, mas quero respeitar-lhe a escolha:) que o Valter fez (esquecendo-se de se indicar como participante) quero repetir aqui, sem quaisquer comentários, algumas palavras de Jorge Luis Borges que então li. No restante, vou continuar a frequentar as noites de poesia do Draculea (ou DracuLeia:) e enche-me de alegria que aconteçam.


"(...) Passei a minha vida a ler, a analisar, a escrever (a tentar escrever) e a divertir-me. Acho que esta última coisa é a mais importante.
(...) escrevem sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa e não o que realmente é: uma paixão e uma alegria.
(...) a vida é, tenho a certeza, feita de poesia."

Jorge Luis Borges, Este Ofício de Poeta, editorial teorema

sábado, 9 de outubro de 2010

Manifesto em forma de assim



Eu sou da literatura assim

como sou do Benfica

com bons resultados maus resultados

sem resultados alguns

desde pequenino tal qual meu pai

eu sou assim

sou assim e não quero mudar

a não ser pra continuar a

sim


A PERDA DO DEDO MÍNIMO IX


[PONTO FINAL]


Um dia, uma mulher num bar agarrou-lhe a mão direita e acariciou-a exactamente no local onde lhe faltava o dedo mínimo e ele sentiu que, se fosse preciso alguma razão para justificar aquela perda, essa carícia seria sem dúvida razão mais do que suficiente para justificar a perda do dedo mínimo.

A partir desse momento passou a dar mais importância à falta do dedo do que ao próprio dedo e, dessa forma, separou-se finalmente do dedo mínimo da mão direita de uma vez por todas.

ainda Ruy Belo

Ontem, num documentário sobre o Japão, falava-se de como os japoneses têm mantido a tradição, inovando-a, o que, apesar de aparentemente contraditório, me faz todo o sentido. Agora, ao googlar Ruy Belo e o poema O Valor do Vento, reencontro de certa forma essa ideia, a propósito da construção dos seus poemas - aqui