sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A minha querida pátria



A MINHA QUERIDA PÁTRIA

a pátria
os camões
os aviões
e os gagos-coutinhos
coitadinhos

a pátria
e os mesmos
aldrabões
recém-chegados
à democracia social
era fatal

a pátria
novos camões
na governança
liderando
as mesmas
confusões
continuando
mesmo assim
as velhas traduções
de mau latim
da Eneida

enfim
sabem que mais?
pois
vou da peida

Mário-Henrique Leiria

O BRANCO DA FOLHA

se eu quisesse



Obrigado Diogo. Mais um conto do mesmo livro:


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O DOM DA PALAVRA (2)


[INCOMPREENDIDO]


Os outros não percebiam o que ele dizia, mas ele sabia o que dizia e não só sabia o que dizia como ouvia o que dizia. No princípio ainda pensou que fosse apenas uma ou outra palavra que não era percebida, mas quando repetiu o que dissera ou pedira explicações, não viu nos outros qualquer sinal de compreensão. A verdade é que não percebiam nada de nada do que ele dizia, pois não só não percebiam nada do que ele dizia como nada lhe podiam realmente dizer sobre isso uma vez que não o compreendiam. É claro que ainda falavam com ele, apesar de não o perceberem, perguntando se estava a brincar ou o que se passava com ele que não dizia coisa com coisas ou até se falava inglês, tudo isto perante a óbvia impossibilidade de o compreenderem.

Talvez porque não falasse com muita gente e porque com aqueles que falava se limitasse sempre a umas poucas palavras de circunstância, a verdade é que Hermínio Campânula não se preocupou muito que não o compreendessem, até porque ele continuava a compreender tudo o que lhe diziam e, conhecendo as pessoas como conhecia, o melhor era mesmo que não percebessem o que lhe acontecera.

Foi assim pensando que não deu muita importância ao que lhe acontecera e que levou a sua vida quase sem alterações, calando-se a maior parte das vezes e usando gestos discretos quando tal se tornava completamente necessário, sorrindo muito e abanando a cabeça de várias formas sempre que falavam com ele.

Surpreendeu-se com a variedade e a eficácia desses gestos e tomou consciência pela primeira vez de quanto eram diversos e plenos de significado. Só movimentos de cabeça possíveis eram mais que as mães, como Hermínio Campânula disse a si mesmo com um sorriso aberto, desde os comuns abanar a cabeça de cima para baixo e de um lado para o outro, os quais podiam, descobriu então, mudar facilmente de significado consoante a expressão facial, transformando por exemplo uma simples negativa num mais profundo não faço a mínima ideia, até um ligeiro oscilar com a cabeça que podia significar que quem lhe perguntava o que quer que fosse estava muito perto de acertar ou que ele mesmo não tinha a certeza sobre alguma coisa.

Não tentou usar a escrita para se fazer entender, talvez por medo que também não compreendessem o que escrevia, apesar de ele continuar a perceber o que escrevia, da mesma forma que percebia o que dizia e, se de certa forma tinha aceitado que não percebiam o que dizia, a verdade é que não se achava capaz de aceitar que não percebessem as suas palavras escritas.

Podem achar estranho que assim pensasse, mas ele não era um homem complicado e olhava o mundo de forma prática, nunca duvidando muito das suas decisões depois de tomadas e, tal atitude, pensava ele, tinha-lhe facilitado mais a vida do que lhe tinha dificultado. E também lhe parecia ridículo andar com bilhetinhos, como um mudo, ele que deixara de ser compreendido mas que nem por isso deixara de ser capaz de usar a voz.

É claro que ás vezes usava as palavras escritas para se fazer entender, apontando-as, como fazia nos restaurantes, apontando na lista o que lhe apetecia comer, e quando o criado lhe perguntava o que queria beber, se não lhe desse logo uma opção, como muitas vezes acontecia, “Quer uma cerveja?”, Hermínio Campânula, fazia um ar pensativo e nove em cada dez vezes o empregado sugeria alguma coisa, “Quer um jarrinho de vinho? Tinto?”, e quando assim não acontecia ele abanava a cabeça dizendo que não queria nada e arrumava a questão.

Mas a maior parte das vezes não precisava de usar quaisquer estratégias pois bastava-lhe pegar nas coisas que queria e pagar, tarefa que não lhe exigia em quase todos os casos quaisquer competências de comunicação, podendo executá-la no mais perfeito silêncio e sem precisar de se relacionar com quem quer que fosse, como podia fazer nas suas idas ao supermercado em que, desde o agarrar no que queria até pagar na máquina com o cartão, não precisava falar com quer que fosse. O que, diga-se, ele sempre preferira.

Foi desta forma que não só passou a falar com menos pessoas, chegando mesmo a evitá-las, como percebeu que já antes falava afinal muito pouco e com muito poucas pessoas.

Foi também por essa altura que passou a apreciar ainda mais estar em silêncio, não tanto pelo que lhe permitia ouvir-se melhor a si próprio, mas pelo que lhe permitia ainda mais ouvir os outros.

Hermínio Campânula sempre gostara de ouvir os outros e por isso sempre preferira locais públicos, com quanto mais gente melhor, em que pudesse ouvir os outros e passar despercebido. Era uma mania que tinha, como ele dizia a si próprio, não tanto para a justificar mas sobretudo para sublinhar a si mesmo quem era. Mania que o levava aos centros comerciais, às feiras e mercados, ao centro da cidade e aos cafés, de que era cliente habitual. E também às salas de cinema, preferindo, por motivos óbvios, o intervalo e a saída, em que se misturava com os outros e escutava com atenção o que diziam. Em tempos frequentara também reuniões e manifestações políticas mas concluíra que as conversas eram sempre as mesmas e muitas vezes exigiam a sua participação, e ele queria estar calado e ouvir. Pelo mesmo motivo deixou de frequentar concertos, qualquer que fosse a música, pois se nuns se falava de mais de coisa nenhuma, noutros se falava de menos de coisa alguma.

Agora que ninguém o compreendia e que tudo o aconselhava a calar-se, abraçou ainda mais o silêncio que sempre amara, num casamento que lhe pareceu perfeito; pois se ninguém o percebia e ele continuava a ouvir os outros, nada melhor do que concentrar-se nessa tarefa que podia agora desempenhar melhor do que nunca, completamente concentrado a ouvir os outros, desviado afinal de si próprio e de qualquer veleidade de comunicar com os outros.

Sentia-se quase feliz, como disse a si mesmo, mas esta era uma forma de dizer a si próprio que se sentia bem e que ele utilizava muitas vezes, mesmo quando os outros ainda o compreendiam.


O PROCESSO

Já vem sendo hábito, não sei se bom ou mau, concordar com as observações da Sylvia sobre o que aqui se escreve e publica, e desta vez não foi diferente.
Optei pela apresentação do que chamei A Construção do Poema para dar ênfase ao processo de construção do poema sobre o seu resultado, neste caso uma criação colectiva.
E confesso que fiquei fascinado pelo processo em si que, para além do seu aspecto colectivo, funcionou (lembrando-me o Oulipo) como um verdadeiro pretexto para o texto.
Já tinha escrito contos a duas e mais mãos (ou teclados) e aí a regra era simples: continuava-se o texto (podendo ou não haver acordo sobre o tema), continuava-se o que estava escrito (podendo haver ou não limitação sobre o quanto se podia escrever: um parágrafo, x linhas...). Quanto a poemas, foi a primeira vez.
A regra fixada, de forma não restritiva, foi que cada um poderia escrever os versos que quisesse, continuando o poema ou intercalando-os nos já existentes. Esta regra, a par do facto de ser uma criação colectiva e cada autor não ter controlo sobre a escrita do outro, surge como uma verdadeira restrição que vai determinar a estrutura do texto.
Quebrei a regra (ou inovei-a) apagando um verso que tinha escrito e o poema desenvolveu-se desde o princípio apesar das restrições ou por causa delas.
Chegados ao poema, quando olhei o produto final e o registo do processo, encontrei mais mistério e força no registo da construção do poema do que no poema final. Talvez se deva ao meu profundo gosto pela narrativa, ao gosto por contar histórias. O texto (o poema) tal como o apresentei conta, além do mais, uma história: a história da sua construção, a história de um encontro.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Construção do Poema

[A prática colectiva da escrita não é tão praticada como poderia. A desafio de Gavine Rubro, escrevemos um poema a dois teclados. Como guardei e ordenei os vários passos do processo pareceu-me curioso deixá-los aqui por inteiro.]

1.

é dificil começar um poema
rasgar o silêncio da folha
como se o mundo nos falasse
pela primeira vez
num dueto impossível

2.

é difícil começar um poema
foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
rasgar o silêncio da folha
torcer hirtas, as sílabas
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e piscasse-nos o olho
pela primeira vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
num dueto impossível

3.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil começar
rasgar o silêncio da folha
torcer hirtas, as sílabas
escutar os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
num dueto impossível

4.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil começar
esta tinta, das árvores ao manuscrito das linhas,
como se ziguezagueassem no colo das malas,
as interrogativas
rasgar o silêncio da folha
pseudo-assassinar os idosos cânones cépticos gramaticais, decrépitos
torcer hirtas, as sílabas
contra o opulento fundamentalismo da orto-cali-grafia
escutar os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
segundo o empenho das veias e do oxigénio
conforme a mão, o miolo desassombrado
Como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
Insuportáveis são os não esforços, vãos
num dueto impossível

5.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil
começar
esta tinta, das árvores ao manuscrito das linhas,
como se ziguezagueassem no colo das malas,
as interrogativas
rasgar
o silêncio da folha
pseudo-assassinar
os idosos cânones cépticos gramaticais, decrépitos
torcer hirtas, as sílabas
contra o opulento fundamentalismo da orto-cali-grafia
escutar
os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
segundo o empenho das veias e do oxigénio
conforme a mão, o miolo desassombrado
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
começar
e seguir em frente
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
insuportáveis são os não esforços, vãos
num dueto impossível
é difícil começar assim como é difícil
terminar
que o diga o Herberto Helder
...
o poema não tem
princípio nem
fim

Queneau:Si tu t'imagines

Queneau:Si tu t'imagines

HOMEM DO FRAQUE

Por princípio não sou muito a favor do anonimato. Em geral serve para nos escondermos e, nos dias de hoje, demonstra muitas vezes alguma falta de coragem. Tal se tem visto nos blogues, quer nos seus autores quer nos seus comentadores. Mas se este era o princípio, no final podem haver sempre excepções.
O Homem do Fraque parece ter intenções sérias (no bom sentido) e o anonimato não parece servir fins menos próprios.
Anuncia-se como um blogue sobre livros, espaços e escritores que promete especial atenção ao Algarve.
Tenho gostado de o ler e vou continuar a fazê-lo.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A GAVETA DA PEDRA



DIA 14 DE OUTUBRO A GAVETA CHEGA AO PÁTIO

veja mais aqui

O DOM DA PALAVRA (1)

[A PRIMEIRA VEZ]


A primeira vez que lhe aconteceu foi numa manhã como outra qualquer e Hermínio Campânula nem se apercebeu do que lhe estava a acontecer. Atravessava a praça em direcção ao café da esquina, como fazia todos os dias, pelo menos uma vez por dia, quando alguém lhe perguntou onde ficavam os correios.

Já não se recordava da pessoa que lhe fez a pergunta, mas ainda se recordava da surpresa que lhe atravessou o rosto e da forma como a pessoa se afastou sorrindo e abanando a cabeça, como se o que ele dissera a tivesse ao mesmo tempo surpreendido, desiludido e divertido.

Ainda esteve para lhe lançar alguma ironia ou mesmo algum insulto, mas achou que não valia a pena e seguiu o seu caminho até ao café, onde pediu uma bica ao empregado atrás do balcão, com o gesto habitual, unindo o polegar e o indicador e levando-os à boca, para não ser forçado a elevar a voz sobre o barulho reinante.

Hermínio Campânula não era um homem de muitas palavras e dificilmente se poderia dizer que tivesse o dom da palavra, mas era capaz de expressar-se com facilidade e nunca tivera dificuldades em se fazer entender e, além disso, era ao mesmo tempo bastante tímido e bastante seguro de si, o que talvez possa explicar que não tivesse percebido logo o que lhe acontecera.

A segunda vez que lhe aconteceu foi no talho, em que entrou apenas para comprar meio quilo de carne picada, como enunciou de forma clara quando lhe perguntaram o que queria, mas como o talhante olhasse para ele com cara de quem não tinha percebido nada, apontou para a carne picada, o dedo colado ao vidro, e pouco depois levantou a mão direita indicando que era suficiente, o que na verdade foi mais do que suficiente para ser entendido. Ao sair, a menina da caixa sorriu-lhe, e ele respondeu-lhe com um sorriso.

Na semana que se seguiu aconteceram-lhe outros pequenos incidentes que o levaram finalmente a concluir que as pessoas não compreendiam o que ele lhes dizia; não compreendiam nada do que ele lhes dizia, e isto apesar de ele as compreender perfeitamente e se compreender perfeitamente a si mesmo. Não parecia ter qualquer dificuldade em dizer as palavras nem em articular o seu discurso mas a verdade é que ninguém o entendia quando falava e não o escondiam, rindo e abanando a cabeça. Os que o conheciam pensavam talvez que ele estava a brincar ou que tinha enlouquecido e os que não conheciam pensavam talvez que ele era louco ou estrangeiro.

A sua primeira reacção foi deixar de falar e ficou surpreendido com o pouco incómodo que lhe causava o silêncio, quer porque conseguia o que queria sem falar, quer porque ninguém parecia importar-se que ele não falasse. A verdade é que ele queria sempre muito pouco e falava com muito pouca gente, mas mesmo assim admirou-se que fosse tão fácil ficar em silêncio.

Quantas vezes não tinha dito a si próprio que até agradecia se nunca mais fosse capaz de dizer uma só palavra! Não era o caso, porque ele era capaz de falar, mas era como se não fosse, porque ninguém o entendia.

Mas antes de se calar e aceitar o que lhe acontecera ou, se preferirem, porque não tenho bem a certeza da ordem, antes de aceitar o que lhe acontecera e se calar ainda tentou investigar e perceber o que lhe tinha acontecido.


domingo, 10 de outubro de 2010

folhetim

A Perda do Dedo Mínimo não foi escrito à medida da sua publicação, estava já escrito, mas tinha sido escrito em fragmentos, o que permitia a sua publicação assim, sem mais. Os títulos são os que então usei.
Já escrevi noutras ocasiões à medida que publicava, mas desta vez foi porque reparei que se prestava muito bem a isso.
No entanto, esta análise não perde validade, antes pelo contrário.
Na escrita de contos, no geral, embora não seja o mesmo, gosto de interromper a escrita, de deixar espaços em branco, como silêncios mais ou menos prolongados, a serem ocupados pelo leitor.

paixão e alegria

A propósito do estado da literatura e do rescaldo (confesso que prefiro a palavra balanço, mas quero respeitar-lhe a escolha:) que o Valter fez (esquecendo-se de se indicar como participante) quero repetir aqui, sem quaisquer comentários, algumas palavras de Jorge Luis Borges que então li. No restante, vou continuar a frequentar as noites de poesia do Draculea (ou DracuLeia:) e enche-me de alegria que aconteçam.


"(...) Passei a minha vida a ler, a analisar, a escrever (a tentar escrever) e a divertir-me. Acho que esta última coisa é a mais importante.
(...) escrevem sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa e não o que realmente é: uma paixão e uma alegria.
(...) a vida é, tenho a certeza, feita de poesia."

Jorge Luis Borges, Este Ofício de Poeta, editorial teorema

sábado, 9 de outubro de 2010

Manifesto em forma de assim



Eu sou da literatura assim

como sou do Benfica

com bons resultados maus resultados

sem resultados alguns

desde pequenino tal qual meu pai

eu sou assim

sou assim e não quero mudar

a não ser pra continuar a

sim


A PERDA DO DEDO MÍNIMO IX


[PONTO FINAL]


Um dia, uma mulher num bar agarrou-lhe a mão direita e acariciou-a exactamente no local onde lhe faltava o dedo mínimo e ele sentiu que, se fosse preciso alguma razão para justificar aquela perda, essa carícia seria sem dúvida razão mais do que suficiente para justificar a perda do dedo mínimo.

A partir desse momento passou a dar mais importância à falta do dedo do que ao próprio dedo e, dessa forma, separou-se finalmente do dedo mínimo da mão direita de uma vez por todas.

ainda Ruy Belo

Ontem, num documentário sobre o Japão, falava-se de como os japoneses têm mantido a tradição, inovando-a, o que, apesar de aparentemente contraditório, me faz todo o sentido. Agora, ao googlar Ruy Belo e o poema O Valor do Vento, reencontro de certa forma essa ideia, a propósito da construção dos seus poemas - aqui

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

imagine john lennon

A PERDA DO DEDO MÍNIMO VIII


[APONTAR]


Perdera o dedo mínimo mas, por estranho que parecesse não conseguia ver-se livre dele de uma vez por todas porque, a verdade é que nunca ele recebera tanta atenção quanto a que passou a receber depois que desapareceu sem qualquer explicação de um dia para o outro.

Às vezes fechava os olhos, concentrava-se, e tentava sentir todos os dedos das mãos e quase ia jurar que sentia o dedo mínimo da mão direita no exacto lugar onde agora não estava.

Tinha ouvido falar em pessoas que haviam perdido braços e pernas, ou apenas parte deles, e continuavam a senti-los, a experimentar dor nesse braços e pernas perdidos, chamavam-lhes membros fantasmas, e com certeza que isso se aplicava a um dedo, ainda que fosse o menor de todos, mas a verdade é que só sentia o dedo, ou julgava senti-lo, quando se esforçava por senti-lo, e dificilmente poderia dizer que o dedo, ainda que ele não o conseguisse esquecer, de alguma forma o assombrava.

Não dera inicialmente qualquer importância à perda do dedo, mas esse mesmo dedo que já não existia ganhara cada vez maior importância e agora, por mais que quisesse, não conseguia esquecê-lo.

Ignorou o exterior, onde tinha a certeza não encontraria respostas e voltou-se para dentro de si, onde sabia que encontraria a pergunta certa.

“Que importância tem a perda de um dedo mínimo? Será que tem mais ou menos importância do que outra perda qualquer? O que é importante e o que não é importante?”

Continuou a fazer perguntas mas não encontrava respostas ou, quando as encontrava, elas não o satisfaziam, como aliás lhe acontecia muitas vezes que procurava responder com palavras a perguntas que estavam para além delas.

Há pessoas que acreditam que as palavras podem dizer o mundo e há outras que acreditam que o mais simples dos eventos é completamente indizível. Como é fácil de perceber, ele acreditava nas palavras mas apenas como meio de apontar para o que estava para além delas.

“É preferível ter uma luz fraca a não ter luz nenhuma, sobretudo se não conseguimos ver no escuro.”

As perguntas que fazia agora a si mesmo eram as mesmas que sempre fizera e a perda do dedo mínimo não tinha nada a ver com isso, porque se não tivesse acontecido, ele estaria agora a fazê-las na mesma, pois sempre se questionara sobre o que era verdadeiramente importante e sobre quem ele verdadeiramente era e, quando percebeu isto, foi como se tivesse perdido de novo o dedo, pois voltou a não dar-lhe qualquer importância e quase se esqueceu que alguma vez o perdera.

“Mas afinal que falta me faz o dedo mínimo da mão direita?”

Olhou a mão direita e sentiu-a incompleta, e era afinal dessa sensação que ele não se conseguia libertar, da sensação de incompletude. Riu-se quando essa ideia lhe surgiu e afastou-a de imediato porque, ainda que se tivesse rido, a verdade é que essa ideia não tinha graça nenhuma, era pelo contrário a ideia mais sem graça que alguma vez tivera. Mas depois de pensar um pouco mais, voltou a rir-se, e agora com muito mais vontade.

“Já percebi, é o dedo que agora me falta que aponta para a minha incompletude e é isso afinal que me incomoda e não a perda do dedo em si.”

E riu ainda mais, soltou gritos de alegria e bateu palmas, tendo verificado, não sem espanto, que as palmas soavam da mesma maneira do que antes de perder o dedo, ou pelo menos assim lhe parecia.

A partir desse momento deixou de olhar para a mão direita e passou a metê-la no bolso das calças ou do casaco, sempre que não estava a usá-la, prática que só abandonou por achar que lhe conferia um certo ar napoleónico, personagem por quem ele tinha tanto de embirração cega quanto tinha de admiração esclarecida por Dom Quixote. Mas esconder a mão direita era afinal chamá-la para o centro da sua atenção e mais valia que estivesse à mostra, para que ele mais facilmente a pudesse ignorar, e foi o que ele fez durante muito tempo.


O ESTADO DA LITERATURA - DIZ O QUE TENS A DIZER

3 comentários:
Valter Ego disse...
Luís, fazemos "aquilo" na sexta? Exportamos a discussão do Ene Coisas para o DRACULEA?
Abraço, V.

7 de Outubro de 2010 03:22
luís ene disse...
Valter.
Sim, fazemos. Tenho estado a pensar nisso. Mas em vez de abrir a discussão logo de entrada, lembrei-me de dar espaço para cada um dos presentes, escritor ou não, dizer de suas palavras qual é, por assim dizer, a sua posição perante a literatura e perante as questões do inquérito. Faço-me entender? Eu poderia dizer de mim mesmo que sou escritor, que fui publicado, o que me aconteceu, o que senti, que outros escritores conheci em Faro, o que fizemos... como estou hoje e onde quero ir.
Uma espécie de sessão dos alcoólicos anónimos. Sem prejuízo de discussão e debate.
Ofereço-me para começar e proponho que tu vás a seguir.
Se concordares diz e passa-se este texto, melhorado, para os blogues.
um abraço

7 de Outubro de 2010 05:59
Valter Ego disse...
Parece-nos muito boa ideia; força nisso!

O ESTADO DA LITERATURA - HOJE SEXTA-FEIRA NO DRACULEA BAR - A PARTIR DAS 22:30 - VEM DIZER O QUE TENS PARA DIZER

lucian freud

Factory in North London - 1972
Oil on canvas
71x71cm
Private collection

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

zeí & cia


Mudo as Maria

Bafo de Baco . 09 Out 10
23h30

RUY BELO

Cinco Palavras Cinco Pedras

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
e delas vem a música precisa
para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas

A PERDA DO DEDO MÍNIMO VII


[ACIDENTE DE TRABALHO]


Um mês depois, estava Rui Medonho sentado numa esplanada, esquecido do seu dedo mínimo, quando reparou num homem sentado numa mesa perto de si e que, tal como ele, não tinha o dedo mínimo da mão direita. A sua primeira reacção foi esconder a sua mão direita, como se quisesse cortar qualquer contacto com aquele homem, mas fez exactamente o contrário, pois levantou-se e dirigiu-se ao outro, a mão direita estendida à sua frente, ostentando o dedo em falta, e perguntou-lhe o que lhe tinha acontecido ao dedo. Ainda esperou que o outro lhe respondesse que um dia acordara assim, mas a resposta, ainda que igualmente lacónica, foi outra. “Acidente de trabalho”, disse o outro, não acrescentando mais nada e desinteressando-se por completo de Rui Medonho, que regressou à sua mesa. Não voltou a olhar para o homem sem o dedo mínimo e aquele acabou mesmo por se ir embora sem que ele desse por isso.

“Acidente de trabalho. Soa bem… e talvez seja melhor do que dizer a verdade.”

Nessa altura lembrou-se de uma história que o fazia sempre sorrir, nem sabia bem porquê, talvez pelo inesperado, e que lhe contara um conhecido seu, sobre um homem a quem um cão arrancara um dedo.

Supostamente tratava-se de um amigo do seu conhecido, que fora convidado para jantar em casa também de um amigo e que, ao entrar no pátio dessa casa, se tinha sentido intimidado por um enorme cão que o olhou em silêncio. Estava parado, a olhar para o cão que o olhava também, quando o amigo apareceu e o sossegou dizendo que o cão, apesar do mau aspecto, era dócil e que até lhe podia fazer uma festa, se quisesse. Sossegado pelo amigo e porque não queria dar parte de fraco, o homem avançou a mão na direcção da cabeça do cão, para lhe fazer uma festa, e o cão, num movimento rápido e inesperado, arrancou-lhe um dedo com uma só dentada.

Não sabia se tinha sido o dedo mínimo, mas estava convencido que tinha sido um dedo da mão direita.

“Talvez possa dizer que um cão me arrancou um dedo.”

“Talvez possa dizer que sofri um acidente de trabalho.”

Mas as pessoas deixaram de lhe perguntar o que lhe acontecera ao dedo, o que fez que ele não tivesse que voltar a decidir o que responder, ainda que o mais certo fosse ele dizer a verdade, porque assim era a sua natureza e por nenhuma outra razão a não ser essa.



quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO VI


[RIR DE SI PRÓPRIO]


Por esses dias, a primeira coisa que fazia quando acordava, era olhar a mão direita, para ver se tinha ou não tinha o dedo mínimo, e só então esfregava os olhos com dois dedos, como era seu hábito logo que acordava, e quando esfregava os olhos nenhuma diferença sentia afinal, mas o dedo mínimo continuava a faltar-lhe e não havia maneira de ele se esquecer dele de uma vez por todas.

“Nunca dei muita atenção ao dedo mínimo, porque há se ser diferente agora?”

Às vezes quase lhe apetecia que lhe desaparecesse a mão toda, para deixar de se preocupar com o dedo, mas depois ria-se e dizia a si mesmo que mais valia ir o braço todo, e ria-se ainda mais.

Há pessoas que se riem de si próprias e outras que nunca se riem de si próprias. Ele ria-se de si próprio, mas esse riso aproximava-se normalmente demasiado da tristeza para que ele pudesse ser incluído sem mais no primeiro grupo. No entanto, seja como for, ele ria-se de si próprio. E ria-se também dos outros, sobretudo quando se descobria neles. A perda do dedo mínimo não modificara de forma significativa o seu carácter, da mesma forma que não parecia ter trazido alterações de relevo no seu comportamento.



terça-feira, 5 de outubro de 2010

HÁ DIAS


Há dias em que quero meter tudo dentro do poema
A loura magra de passo duro que caminha à minha frente
O sol de Outono que me cega por instantes
A música retro de um grupo português de rock alternativo
O vagabundo de blusão de couro com apenas meia gola de pele
E mais e mais e mais Muito muito mais
Mas tudo está fora do poema Tudo é já poema

estado 1 literatura 4

A investigação sobre o estado da literatura que se desenvolve neste blog iniciou-se no dia 18 de Agosto deste ano e ainda continua. Expliquei a entradas tantas a origem da investigação e avancei com algumas linhas de discussão, que se transformaram numa espécie de inquérito. Só queria dizer que estou contente não só por ter desenvolvido esta investigação mas também por ela me ter trazido onde me trouxe. Passado pouco mais de um mês conheço muito mais escritores do que conhecia, o que escrevem e como são, restabeleci alguns contactos que estavam adormecidos, tenho alguns coelhos na cartola e...
vou estar pela terceira vez nas terças de poesia do Draculea.
Obrigado a todos.

A PERDA DO DEDO MÍNIMO V

[QUEM SABE SE UM DIA]


Ainda não tinham passado duas semanas desde que perdera o dedo mínimo da mão direita quando, ao olhar a mão, sentiu vontade de voltar a ter esse dedo e, no entanto, nunca nem por um momento deixara, durante esse período, de pensar que esse dedo não lhe fazia qualquer falta e de sentir exactamente a mesma coisa, ao ponto de quase se esquecer que alguma vez tivera esse dedo.

“Mas que porra é esta, não dei qualquer importância à perda do dedo e só não me esqueci por completo dele porque me lembraram a sua falta, e agora dou por mim a querê-lo de volta?”

Há pessoas que se queixam constantemente da vida e recusam sempre o que lhes acontece e outras que aceitam sem reservas o que vida lhes traz e tentam tirar disso o melhor partido. Ele era diferente, como já devem ter percebido, pois embora não aceitasse sem reservas as coisas como elas eram, também não as negava pura e simplesmente. Ele já não tinha o dedo e o mais provável é que nunca o voltasse a ter, mas era ainda mais improvável que o tivesse perdido como o perdeu, e a verdade é que o perdera.

“Quem sabe se um dia não acordo com cinco dedos na mão direita?”



segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO IV

[UM HOMEM SEM]


Uns dias antes de perder o dedo mínimo da mão direita, só então se lembrou, falara com um indivíduo sem um braço, ou parte dele, porque a manga dobrada do blusão de ganga não permitia avaliar com exactidão a extensão da perda, que se sentara no café numa mesa ao lado da sua e lhe pedira um cigarro. Não lhe despertara especial interesse, mas o facto de não ter um braço, o direito, não lhe passara despercebido, ainda que não se tivesse interrogado na altura como acontecera e que diferenças lhe trouxera à sua vida de todos os dias.

Um braço, ou parte dele, não é o mesmo que um simples dedo, ainda por cima se for o menor deles, mas naquele momento, ao pensar na perda do braço direito do homem a quem dera um cigarro, não conseguiu deixar de pensar que também ele, ainda que só tivesse perdido um dedo mínimo, tinha-se tornado outro, tal como o homem que perdera o braço, porque ninguém que perde um braço ou um dedo pode continuar o mesmo depois disso.

Pensou em como seria agora fácil descrevê-lo como o homem a quem faltava o dedo mínimo da mão direita, pois mesmo aqueles que nada soubessem dele poderiam facilmente descrevê-lo dessa forma, o homem sem dedo mínimo na mão direita, e essa simples menção seria mais do que suficiente para o identificar, assim como ele se referia ao homem que lhe pedira um cigarro como o homem que não tinha um braço. Mas que significado teria o facto de agora a sua mão direita não ostentar um dedo mínimo?

As pessoas são muitas vezes o que parecem e outras vezes parecem o que são, o que embora parecendo o mesmo, nem sempre é o que parece. E no entanto, mudando de aspecto, talvez mudem sempre quem são, porque os outros e eles mesmos se vêem como parecem e assim se vendo o mais certo é que sejam mais quem parecem do que quem na realidade são.

“Será que a perda do dedo mínimo da mão direita me alterou mais do que sou capaz de perceber?”

Há pessoas que se conhecem bastante bem e outras que se desconhecem de um todo. É fácil perceber que Rui Medonho não pertencia a nenhuma dessas categorias, ainda que não lhe faltasse vontade de se conhecer e tivesse uma consciência de si que poderia sem dúvida servir esse fim mas, acima de tudo, gostava de divagar, e esse gosto afastava-o quase sempre de si.

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O Draculea continua a marcar a favor da literatura: Exposição de Poesia de Margarete Silva.
E amanhã, feriado à parte, há mais uma terça de poesia.

domingo, 3 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO III

[O QUE LHE ACONTECERA]


No dia seguinte, a primeira coisa que fez quando acordou foi olhar pela janela para ver como estava o dia. Só depois olhou para a mão direita. Olhou-a ao pormenor, girando-a para a poder observar de vários ângulos, mas a conclusão era sempre a mesma: parecia que nunca tivera um dedo mínimo na mão direita.

Depois fechou a mão direita num punho, as unhas enterradas na carne, uma dor ténue na palma da mão, e esqueceu-se por completo que lhe faltava o dedo mínimo.

Na semana que se seguiu, não fossem os outros e Rui Medonho nunca se teria lembrado que alguma vez tivera cinco dedos na mão direita, mas os olhares mal disfarçados e alguns comentários que lhe lançaram, impediram-no de se desligar, de uma vez por todas, do seu dedo mínimo da mão direita, dedo que lhe faltava, é verdade, mas de que, e também não era menos verdade, ele não sentia falta alguma.

No café, na mercearia, sentiu que olhavam para a sua mão direita e tomou consciência, novamente, que não só lhe faltava o dedo mínimo nessa mão, como não tinha qualquer explicação para esse facto. O primeiro comentário que lhe fizeram tomou uma forma ambígua – “Nunca me tinha apercebido que só tinha quatro dedos na mão direita!” - e ele respondeu com um sorriso igualmente ambíguo, mas da segunda vez perguntaram-lhe directamente o que lhe tinha acontecido ao dedo, e ele olhou também para a mão direita, para o lugar onde devia estar o dedo mínimo, tentando ganhar tempo, mas achou melhor dizer a verdade.

“Acordei um dia destes e dei por mim sem o dedo mínimo da mão direita.”

O seu interlocutor sorriu, fez um ar surpreendido, e mudou de assunto, o que voltou a acontecer quando respondeu da mesma forma a outras pessoas que também lhe perguntaram o que lhe acontecera ao dedo.

Mas estes acontecimentos levaram-no a pensar não só na perda do seu dedo mínimo, mas também para além dessa perda.

Pensou que aquele acontecimento não era diferente de muitos que lhe tinham acontecido toda a sua vida, pois também nunca os conseguira explicar a si mesmo, ainda que muitas vezes os tivesse explicado aos outros, mas isso não era muito diferente do que tinha feito agora dizendo a verdade, ou seja, fugir afinal a qualquer explicação. Dizer a verdade sobre o que aconteceu é muito diferente de explicar o que aconteceu, e por isso ele continuou a dizer a verdade a quem lhe perguntava o que acontecera ao seu dedo mínimo. Mas começou a pensar na perda do seu dedo mínimo, em como isso o poderia ter alterado.

“Quem sou eu afinal? O que posso ainda perder sem deixar de ser quem sou?”

Disse isto e ficou a pensar quem era, o que lhe acontecia muitas vezes, tantas que nunca sabia afinal quem era, tornando essa pergunta, já de si inútil, completamente inútil. E durante muito tempo pensou no que poderia ainda perder e de que forma alteraria quem afinal era.

Finalmente, olhou a mão direita e começou a rir.


sábado, 2 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO II

[A FALTA]


Ao longo do dia, a estranheza que sentiu perante a perda do dedo mínimo da mão direita foi substituída pela estranheza perante a pouca falta que lhe fazia o dedo mínimo da mão direita, sentimento que foi crescendo à medida que ia desenvolvendo a sua rotina diária.

“Afinal o dedo não me faz falta nenhuma, é que como se sempre tivesse tido apenas quatro dedos na mão direita.”

Cortou uma fatia de pão, tirou o pacote de leite do frigorífico, pôs o pão a torrar, encheu um copo de leite, barrou o pão com manteiga e não sentia a falta do dedo, sensação que se prolongou durante a manhã mas, no entanto, quando olhava a mão, via com clareza o lugar onde o dedo tinha estado.

Não conseguia explicar o que sentia quando olhava para o dedo em falta, mas quando olhava para a mão direita era sempre para o dedo em falta que olhava, como se apenas pensando no dedo que uma vez tivera conseguisse ver a ausência desse dedo. Quanto mais tentava lançar luz sobre o que sentia perante a falta do seu dedo mínimo, mais as sombras aumentavam, impedindo-o de ver com clareza, uma sensação que na verdade lhe era bastante familiar.

Não conseguia perceber que, não sentindo a falta do dedo, não conseguisse olhar para a mão sem ver o dedo em falta.

“Mas por que raios me incomoda a perda de um dedo mínimo? Ainda se me fizesse alguma falta!”

Tamborilou, com a mão direita, como era seu hábito, sobre o tampo da mesa, e nem nessa altura sentiu falta do dedo mínimo mas, no entanto, não conseguia deixar de pensar nele, mesmo que fosse apenas sobre a pouca falta que lhe fazia o dito cujo.

Continuava a não se interrogar nem porque perdera ou dedo nem como tal acontecera, e isso dizia muito dele, porque a verdade é que não era pessoa que gastasse muito tempo a perguntar a si mesmo porque é que a sua vida era como era ou se esforçasse por perceber como as coisas tinham acontecido na sua vida.

Há pessoas que se limitam a ser, sem nunca ou quase nunca se interrogarem, seja o que for que sejam, e há pessoas que se interrogam tanto que se esquecem quase sempre de ser. É fácil de ver que ele não pertencia a nenhuma dessas categorias; talvez fosse apenas preguiçoso, demasiado preguiçoso para se interrogar, ou não estivesse para se chatear e lhe fosse muito mais fácil aceitar.

“Afinal o que me importa a perda de um dedo! E ainda por cima a perda de um dedo mínimo!”

Ensaiou vários gestos e concluiu com facilidade que o dedo mínimo da mão direita era o que menos falta lhe fazia, ainda que fosse dextro. O polegar ou o indicador da mão direita, esses sim, que lhe fariam falta, mas mesmo assim ainda lhe restaria a mão esquerda.

Olhou as mãos ainda durante algum tempo, ora uma ora outra, e decidiu não dar mais importância à perda do dedo mínimo, que afinal não lhe servia para nada, mas foi então que sentiu mais a sua falta, não porque precisasse realmente dele, mas porque se sentiu incompleto sem ele.

“Um dedo mínimo, que se foda o dedo mínimo!”

Fechou as mãos em punhos e mais uma vez confirmou que o dedo mínimo não lhe fazia falta nenhuma.