
Nada é simples quando se trata de palavras.
Quando se trata de palavras até a palavra simples é complicada.
um blog de Luís Ene
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
estado 1 literatura 2
Para todos os que ali estiveram ontem, mas em especial para o Rogério Cão, que fiquei a conhecer um pouco melhor, fica este esboço de poema.
Pessoas assim
há pessoas assim
intensas
verdadeiras
com raízes fundas
como asas
que se dizem
no silêncio
abafado
das palavras
há pessoas assim
é verdade
mas não
são muitas
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Quem era este escritor?

A sua escrita foi elogiada por Ernest Hemingway, Graham Greene, Evelyn Waugh, Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marquez, Karel Capek, Marshall McLuhan, Paul Claudel, Dorothy L. Sayers, Agatha Christie, Sigrid Undset, Ronald Knox, Kingsley Amis, W.H. Auden, Anthony Burgess, E.F. Schumacher, Neil Gaiman, e Orson Welles. Para só dizer alguns.
Pode encontrá-lo aqui e aqui (em inglês).
UM HOMEM ESCREVE
Um homem escreve.
Está fechado no seu gabinete. Na verdade está encerrado na sua sala, porque as palavras quase nunca nos dizem o que dizem. A sala é pequena, pouco mais de quatro por três metros, com uma porta e uma janela, em cada um dos dois lados mais pequenos do rectângulo. Está ali das nove às dezoito horas, todos os dias, com excepção dos fins-de-semana e dos feriados, com uma hora para o almoço. Cumpre sempre o horário com uma rigidez cadavérica, tão cadavérica quanto o seu rosto cansado.
Um homem escreve.
Está em frente a um mar de Inverno e ri. Não está ninguém na praia a não ser ele. Senta-se na areia e perde-se na contemplação do mar. Umas vezes tão revolto e outras tão calmo e no entanto sempre o mesmo mar. Da mochila tira uma garrafa de vinho tinto meio cheia, bebe um gole longo e deita a rolha fora. O seu cabelo está revolto como o mar, mas os seus olhos estão cheios de luz. Hoje está ali, amanhã estará onde lhe apetecer ou onde tiver que estar, o que para ele é afinal a mesma coisa.
Um homem escreve.
Escreve e escreve e é sempre o mesmo homem que escreve, é sempre o mesmo homem que se escreve.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
noite de poesia..
aula de poesia
Era um comum fim de tarde
(ainda não era noite
e já não era dia)
quando
(de repente)
me surpreendi:
o empregado negro
(chama-se Marcus)
completamente
vestido de negro
(ainda que o polo fosse
riscado de cinzento
muito escuro)
passou à minha frente
levando uma bandeja
com três imperiais
iluminadas
iluminadas.
E então
(ou será agora)
sou surpreendido
por esta pergunta:
Então isto é que é
a poesia?
domingo, 26 de setembro de 2010
algarve artist network
Exercício?
.
.
O Stan percorreu 29,3 quilómetros da sua casa em Toronto até à casa de um amigo residente num prédio em Mississauga. Antes de sair do carro, Stan coloca uma máscara cirúrgica, luvas de cabedal e óculos escuros.
O Stan usa a máscara porque está preocupado com a pneumonia atípica, uma doença com uma taxa de fatalidade global entre os sete e os quinze porcento – as estimativas variam. Também está preocupado com a febre hemorrágica da Ébola, que tem uma taxa de fatalidade global de cerca de noventa porcento. Dois pacientes, quase recuperados da pneumonia atípica, encontram-se a 47,2 quilómetros do Stan, no Hospital Geral de Toronto. Os pacientes com Ébola mais próximos encontram-se em África, a 12.580 quilómetros de distância.
O Stan não está preocupado com a Sr.ª Imelda Foster, que limpa um apartamento no último andar do prédio. Se o Stan conhecesse a Sr.ª Foster, daria valor ao seu entusiasmo pela lixívia como desinfectante. Os olhos da Sr.ª Foster já não são o que eram, mas ela compensa os problemas de vista esfregando a mesma superfície repetidamente.
O Stan usa luvas porque o preocupam as mordeduras das aranhas. A única aranha venenosa do Ontário é a viúva-negra do norte, a Latrodectus variolus, que produz um veneno quinze vezes mais tóxico que o de uma cascavel. Embora a aranha injecte muito menos veneno do que uma cobra quando morde, quase um porcento dos ataques da L. variolus são fatais. As fatalidades concentram-se nos muito novos ou muito doentes. O Stan tem trinta e sete anos e está em excelente forma física. Ainda assim, evita meter as suas mãos em sítios onde não pode ver e, pelo sim pelo não, usa luvas.
O Stan não está preocupado com Tanya Scott, a menina de quatro anos que vive no apartamento do último andar, onde a Sr.ª Imelda Foster faz as suas limpezas. Se Stan soubesse da existência da pequena Tanya, daria valor à diligência com que a Sr.ª Foster aspira toda a casa, até a varanda. Não há uma única teia de aranha no apartamento.
O Stan usa óculos escuros. Estima-se que o Sol continue a brilhar por mais cinco mil milhões de anos, ao fim dos quais a sua luminosidade aumentará para o dobro, o que preocupa Stan.
O Stan não está preocupado com o cisne de vidro, pesando 457 gramas, que Tanya Scott tirou ontem do seu lugar na mesinha da sala, deixou no parapeito da varanda para ver cintilar ao sol, e do qual se acabou por esquecer. Quando aparece para limpar a varanda, a Sr.ª Foster não repara no cisne e derruba-o do parapeito com o tubo do aspirador.
No instante em que o cisne inicia a sua descida, Stan encontra-se a 38 metros do ponto directamente por baixo da figurinha de vidro, e avança em linha recta nessa direcção, a uma velocidade constante de 3,2 quilómetros por hora. O objecto em queda acelera a um ritmo de aproximadamente 10 metros por segundo. O parapeito ergue-se 112 metros acima do passeio.
PERGUNTA: Será que o Stan se preocupa com o que deve?
Bruce Holland Rogers,
[Em Quatro contos Inéditos que pode ler ou descarregar aqui. Muito curiosa e inteligente esta atitude publicitária dos Livros de Areia]
sábado, 25 de setembro de 2010
José Amaro Dionísio - Serial Killer
SERIAL KILLER
Ela tinha razão, não existe nada para proteger. Disse-o numa frase curta e profissional, e ele sentiu-se ridículo. Quisera introduzir nessa hipnose um pouco de mistério, pôs-se a falar em atmosferas dashiellianas, virá a escrever fspstueiesa quando deveria simplesmente ter perguntado: faria sentido para si termos um encontro inexistente e sem agenda? Visto da janela o nevoeiro curva as árvores, uma criança desenha no passeio a sua ilha, imperceptível na coalha o focinho de um cão. Há instantes assim: o que resta de céu e terra deixa escapar um pouco de luz e a gente semicerra os olhos e a bruma levanta um ecrã gigante. O vinho atravessa então o copo e desfaz a distância, baralho de sombras com a memória escondida em parte incerta da última carta. Mas as coisas realmente importantes não têm nome, inventam o seu vocabulário. Nascem dentro de nós e morrem connosco. Absolvidos na noite cada qual cai então por si e sempre só. Ele próprio teve um nome, mas perdeu-o. É verdade que estava lá, no declínio da perda, havia contudo demasiado brilho à sua volta e só se lembra de ter ficado cego com a ponta do cigarro. Depois veio a rua e veio vazia. Disseram-lhe anos mais tarde que esse tinha sido um instante muito próximo da sua morte, mas isso só lhe disseram porque nessa altura perder a face já não tinha importância para eles. Desde então começou a procurar a blasfémia nos espelhos, e livre o vidro vinha partir-se-lhe nas veias da mão. Hoje só poderá pronunciar um nome que se devore a si mesmo, um nome inexistente, sem rasto, um nome que teça um encontro ele próprio inexistente, feito de nada. Foi isso que pensou quando escreveu fspstueiesa, refugiou-se em boicotes, partes gagas, claro que um encontro desses além de inexistente só poderia ter lugar num não lugar, este quarto surdo aos pés da China, um dia zombie, a igreja de lama, o bar entre pálpebras caído, sentado ao centro, e ela respondeu-lhe, e respondeu bem, deixa-te de códigos secretos não há aqui nada para proteger. Ele devaneia e não pára, pede depois uma vez mais o chão à terra, fodeste-me com a brutalidade dum cavalo a fugir da sua sombra, dirá ela de manhã, um som de voz muito lento, os olhos no rio das Pérolas, e ele sente a elegia da escuridão sem endereço, esse canto onde se pode começar a matar.
José Amaro Dionísio
as pessoas
para a Paula
Era um artista enorme, extraordinário, e era um homem pequeno, mesquinho, execrável. As pessoas admiravam-se. As pessoas não compreendiam. As pessoas têm esta incompreensível crença que lhes diz que é preciso compreender.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
LEITURAS PERNICIOSAS
José Amaro Dionísio
Pesquiso e pouco mais encontro sobre o autor (nascido em Faro em 1947) para além da referida entrevista e dois poemas. No entanto fico interessado e intrigado.
Quem é que acrescenta mais?
quod erad demonstratum
Algumas discussões sobre literatura (e não só) que ainda persistem devem-se sobretudo (estou convencido que assim é) ao pouco que se conhece e ao pouco que se lê. Relativamente a certas discussões lembro-me sempre de um filme do Woody Allen em que o personagem tira um autor da cartola (por assim dizer) para pôr fim a uma discussão. Não podendo fazer isso pode-se sempre ir buscar um exemplo, em vez de apresentar outos argumentos. Quando na Minguante diziamos que a micronarrativa podia ser em verso algumas pessoas questionaram, assim como algumas pessoas questionam que contar uma história possa ser poético (que uma simples história possa ser um poema). Pois bem, um exemplo, entre muitos, de um poeta com autoridade, um prémio Camões, se é que um poeta pode pode ser autoridade, se é que um poeta precisa de prémios para se afirmar.
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Meu pai
meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem
quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro
Ferreira Gullar
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saiba mais sobre Ferreira Gullar aqui. aconselho os e-poemas
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
o regresso
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
uma sugestão
A propósito do que diz o Diogo e ontem em conversa o Valter também me referia – sobre repensar o modelo das sessões de poesia no Draculea – gostava de dar a minha opinião e deixar uma sugestão.
As sessões actuais estão muito bem – leitura aberta de material próprio – e não me parece que devam ser alteradas, a não ser em alguns eventuais pormenores.
O que acho é que há necessidade de diversificação. Pormenorizando: podiam também existir sessões abertas mas não dirigidas a umpúblico, em que os autores pudessem discutir o que andam a fazer e trocar opiniões; assim como sessões de poetry slam – desafios de leitura - e ainda apresentação de autores e obras. 4 possibilidades / 4 modelos que dariam para preencher com variedade as diversas terças-feiras, talvez em horário menos tardio (a partir da 22:00).
E porque não um clube de leitura?
[Só não sei, e desculpem-me a expressão, é se haverá cu para tanta literatura.]
Um abraço.
sonho-te












