A PERDA DO DEDO MÍNIMO
e Outras Perdas
Luís Ene
QUEM JÁ NÃO SE PERGUNTOU: SOU UM MONSTRO OU ISTO É SER UMA PESSOA.
Clarice Lispector, a hora da estrela
A PERDA DO DEDO MÍNIMO
[A MÃO DIREITA]
Numa manhã de primavera, Rui Medonho acordou de um sono tranquilo, passou as mãos pela cara, e viu que lhe faltava o dedo mínimo da mão direita. Quando passou as mãos pela cara e esfregou os olhos, operação em que usava sempre apenas dois dedos, não sentiu de imediato a falta do dedo mínimo, mas teve um vago pressentimento de que alguma coisa não estava bem.
Olhou as mãos, estendidas à altura do peito, as palmas para cima, o olhar errando de uma para a outra e, pensou mais tarde, só pelo confronto se apercebeu da perda.
“Mas que porra aconteceu?”
Olhou com mais atenção a mão direita, virando uma e outra vez, ora a palma ora as costas e depois confrontou-a com a mão esquerda.
A mão direita só tinha quatro dedos.
“Falta-me o dedo mínimo! Falta-me o dedo mínimo da mão direita!”
Mas era como se nunca tivesse tido um dedo mínimo na mão direita. Não conseguia ver qualquer sinal de perda do dedo nem sentia qualquer dor e estava certo que no dia anterior, quando adormecera, tinha cinco dedos na mão direita, tal como ainda tinha cinco dedos na mão esquerda. E voltou a olhar a mão esquerda e a mão direita e ambas pareciam ser exactamente como eram. Só na diferença entre as mãos é que ele percebia que algo não estava bem. Se olhasse só para a mão direita quase acreditaria que não havia nada de errado.
E não se cansava de olhar para a mão direita.
“Quatro dedos. Apenas quatro dedos.”
Não se interrogou então – nem depois – porque perdera o dedo, nem mesmo como o perdera, mas não conseguia sair do torpor que aquela perda lhe provocara.
Não tinha dedo mínimo!
Será que lhe faria falta? Seria apenas o princípio de outras perdas ou a perda do dedo mínimo seria o máximo que lhe aconteceria?
Continuou a olhar a mão direita e depois voltou a confrontá-la com a esquerda e durante muito tempo se perdeu nessa contemplação, mas quando se dirigiu à casa de banho e lavou a cara com as duas mãos, esqueceu-se por momentos que perdera o dedo mínimo da mão direita e o torpor que experimentara perante essa perda começou lentamente a desaparecer.
[A FALTA]
Ao longo do dia, a estranheza que sentiu perante a perda do dedo mínimo da mão direita foi substituída pela estranheza perante a pouca falta que lhe fazia o dedo mínimo da mão direita, sentimento que foi crescendo à medida que ia desenvolvendo a sua rotina diária.
“Afinal o dedo não me faz falta nenhuma, é que como se sempre tivesse tido apenas quatro dedos na mão direita.”
Cortou uma fatia de pão, tirou o pacote de leite do frigorífico, pôs o pão a torrar, encheu um copo de leite, barrou o pão com manteiga e não sentia a falta do dedo, sensação que se prolongou durante a manhã mas, no entanto, quando olhava a mão, via com clareza o lugar onde o dedo tinha estado.
Não conseguia explicar o que sentia quando olhava para o dedo em falta, mas quando olhava para a mão direita era sempre para o dedo em falta que olhava, como se apenas pensando no dedo que uma vez tivera conseguisse ver a ausência desse dedo. Quanto mais tentava lançar luz sobre o que sentia perante a falta do seu dedo mínimo, mais as sombras aumentavam, impedindo-o de ver com clareza, uma sensação que na verdade lhe era bastante familiar.
Não conseguia perceber que, não sentindo a falta do dedo, não conseguisse olhar para a mão sem ver o dedo em falta.
“Mas por que raios me incomoda a perda de um dedo mínimo? Ainda se me fizesse alguma falta!”
Tamborilou, com a mão direita, como era seu hábito, sobre o tampo da mesa, e nem nessa altura sentiu falta do dedo mínimo mas, no entanto, não conseguia deixar de pensar nele, mesmo que fosse apenas sobre a pouca falta que lhe fazia o dito cujo.
Continuava a não se interrogar nem porque perdera ou dedo nem como tal acontecera, e isso dizia muito dele, porque a verdade é que não era pessoa que gastasse muito tempo a perguntar a si mesmo porque é que a sua vida era como era ou se esforçasse por perceber como as coisas tinham acontecido na sua vida.
Há pessoas que se limitam a ser, sem nunca ou quase nunca se interrogarem, seja o que for que sejam, e há pessoas que se interrogam tanto que se esquecem quase sempre de ser. É fácil de ver que ele não pertencia a nenhuma dessas categorias; talvez fosse apenas preguiçoso, demasiado preguiçoso para se interrogar, ou não estivesse para se chatear e lhe fosse muito mais fácil aceitar.
“Afinal o que me importa a perda de um dedo! E ainda por cima a perda de um dedo mínimo!”
Ensaiou vários gestos e concluiu com facilidade que o dedo mínimo da mão direita era o que menos falta lhe fazia, ainda que fosse dextro. O polegar ou o indicador da mão direita, esses sim, que lhe fariam falta, mas mesmo assim ainda lhe restaria a mão esquerda.
Olhou as mãos ainda durante algum tempo, ora uma ora outra, e decidiu não dar mais importância à perda do dedo mínimo, que afinal não lhe servia para nada, mas foi então que sentiu mais a sua falta, não porque precisasse realmente dele, mas porque se sentiu incompleto sem ele.
“Um dedo mínimo, que se foda o dedo mínimo!”
Fechou as mãos em punhos e mais uma vez confirmou que o dedo mínimo não lhe fazia falta nenhuma.
[O QUE LHE ACONTECERA]
No dia seguinte, a primeira coisa que fez quando acordou foi olhar pela janela para ver como estava o dia. Só depois olhou para a mão direita. Olhou-a ao pormenor, girando-a para a poder observar de vários ângulos, mas a conclusão era sempre a mesma: parecia que nunca tivera um dedo mínimo na mão direita.
Depois fechou a mão direita num punho, as unhas enterradas na carne, uma dor ténue na palma da mão, e esqueceu-se por completo que lhe faltava o dedo mínimo.
Na semana que se seguiu, não fossem os outros e Rui Medonho nunca se teria lembrado que alguma vez tivera cinco dedos na mão direita, mas os olhares mal disfarçados e alguns comentários que lhe lançaram, impediram-no de se desligar, de uma vez por todas, do seu dedo mínimo da mão direita, dedo que lhe faltava, é verdade, mas de que, e também não era menos verdade, ele não sentia falta alguma.
No café, na mercearia, sentiu que olhavam para a sua mão direita e tomou consciência, novamente, que não só lhe faltava o dedo mínimo nessa mão, como não tinha qualquer explicação para esse facto. O primeiro comentário que lhe fizeram tomou uma forma ambígua – “Nunca me tinha apercebido que só tinha quatro dedos na mão direita!” - e ele respondeu com um sorriso igualmente ambíguo, mas da segunda vez perguntaram-lhe directamente o que lhe tinha acontecido ao dedo, e ele olhou também para a mão direita, para o lugar onde devia estar o dedo mínimo, tentando ganhar tempo, mas achou melhor dizer a verdade.
“Acordei um dia destes e dei por mim sem o dedo mínimo da mão direita.”
O seu interlocutor sorriu, fez um ar surpreendido, e mudou de assunto, o que voltou a acontecer quando respondeu da mesma forma a outras pessoas que também lhe perguntaram o que lhe acontecera ao dedo.
Mas estes acontecimentos levaram-no a pensar não só na perda do seu dedo mínimo, mas também para além dessa perda.
Pensou que aquele acontecimento não era diferente de muitos que lhe tinham acontecido toda a sua vida, pois também nunca os conseguira explicar a si mesmo, ainda que muitas vezes os tivesse explicado aos outros, mas isso não era muito diferente do que tinha feito agora dizendo a verdade, ou seja, fugir afinal a qualquer explicação. Dizer a verdade sobre o que aconteceu é muito diferente de explicar o que aconteceu, e por isso ele continuou a dizer a verdade a quem lhe perguntava o que acontecera ao seu dedo mínimo. Mas começou a pensar na perda do seu dedo mínimo, em como isso o poderia ter alterado.
“Quem sou eu afinal? O que posso ainda perder sem deixar de ser quem sou?”
Disse isto e ficou a pensar quem era, o que lhe acontecia muitas vezes, tantas que nunca sabia afinal quem era, tornando essa pergunta, já de si inútil, completamente inútil. E durante muito tempo pensou no que poderia ainda perder e de que forma alteraria quem afinal era.
Finalmente, olhou a mão direita e começou a rir.
[UM HOMEM SEM]
Uns dias antes de perder o dedo mínimo da mão direita, só então se lembrou, falara com um indivíduo sem um braço, ou parte dele, porque a manga dobrada do blusão de ganga não permitia avaliar com exactidão a extensão da perda, que se sentara no café numa mesa ao lado da sua e lhe pedira um cigarro. Não lhe despertara especial interesse, mas o facto de não ter um braço, o direito, não lhe passara despercebido, ainda que não se tivesse interrogado na altura como acontecera e que diferenças lhe trouxera à sua vida de todos os dias.
Um braço, ou parte dele, não é o mesmo que um simples dedo, ainda por cima se for o menor deles, mas naquele momento, ao pensar na perda do braço direito do homem a quem dera um cigarro, não conseguiu deixar de pensar que também ele, ainda que só tivesse perdido um dedo mínimo, tinha-se tornado outro, tal como o homem que perdera o braço, porque ninguém que perde um braço ou um dedo pode continuar o mesmo depois disso.
Pensou em como seria agora fácil descrevê-lo como o homem a quem faltava o dedo mínimo da mão direita, pois mesmo aqueles que nada soubessem dele poderiam facilmente descrevê-lo dessa forma, o homem sem dedo mínimo na mão direita, e essa simples menção seria mais do que suficiente para o identificar, assim como ele se referia ao homem que lhe pedira um cigarro como o homem que não tinha um braço. Mas que significado teria o facto de agora a sua mão direita não ostentar um dedo mínimo?
As pessoas são muitas vezes o que parecem e outras vezes parecem o que são, o que embora parecendo o mesmo, nem sempre é o que parece. E no entanto, mudando de aspecto, talvez mudem sempre quem são, porque os outros e eles mesmos se vêem como parecem e assim se vendo o mais certo é que sejam mais quem parecem do que quem na realidade são.
“Será que a perda do dedo mínimo da mão direita me alterou mais do que sou capaz de perceber?”
Há pessoas que se conhecem bastante bem e outras que se desconhecem de um todo. É fácil perceber que Rui Medonho não pertencia a nenhuma dessas categorias, ainda que não lhe faltasse vontade de se conhecer e tivesse uma consciência de si que poderia sem dúvida servir esse fim mas, acima de tudo, gostava de divagar, e esse gosto afastava-o quase sempre de si.
[QUEM SABE SE UM DIA]
Ainda não tinham passado duas semanas desde que perdera o dedo mínimo da mão direita quando, ao olhar a mão, sentiu vontade de voltar a ter esse dedo e, no entanto, nunca nem por um momento deixara, durante esse período, de pensar que esse dedo não lhe fazia qualquer falta e de sentir exactamente a mesma coisa, ao ponto de quase se esquecer que alguma vez tivera esse dedo.
“Mas que porra é esta, não dei qualquer importância à perda do dedo e só não me esqueci por completo dele porque me lembraram a sua falta, e agora dou por mim a querê-lo de volta?”
Há pessoas que se queixam constantemente da vida e recusam sempre o que lhes acontece e outras que aceitam sem reservas o que vida lhes traz e tentam tirar disso o melhor partido. Ele era diferente, como já devem ter percebido, pois embora não aceitasse sem reservas as coisas como elas eram, também não as negava pura e simplesmente. Ele já não tinha o dedo e o mais provável é que nunca o voltasse a ter, mas era ainda mais improvável que o tivesse perdido como o perdeu, e a verdade é que o perdera.
“Quem sabe se um dia não acordo com cinco dedos na mão direita?”
[RIR DE SI PRÓPRIO]
Por esses dias, a primeira coisa que fazia quando acordava, era olhar a mão direita, para ver se tinha ou não tinha o dedo mínimo, e só então esfregava os olhos com dois dedos, como era seu hábito logo que acordava, e quando esfregava os olhos nenhuma diferença sentia afinal, mas o dedo mínimo continuava a faltar-lhe e não havia maneira de ele se esquecer dele de uma vez por todas.
“Nunca dei muita atenção ao dedo mínimo, porque há se ser diferente agora?”
Às vezes quase lhe apetecia que lhe desaparecesse a mão toda, para deixar de se preocupar com o dedo, mas depois ria-se e dizia a si mesmo que mais valia ir o braço todo, e ria-se ainda mais.
Há pessoas que se riem de si próprias e outras que nunca se riem de si próprias. Ele ria-se de si próprio, mas esse riso aproximava-se normalmente demasiado da tristeza para que ele pudesse ser incluído sem mais no primeiro grupo. No entanto, seja como for, ele ria-se de si próprio. E ria-se também dos outros, sobretudo quando se descobria neles. A perda do dedo mínimo não modificara de forma significativa o seu carácter, da mesma forma que não parecia ter trazido alterações de relevo no seu comportamento.
[ACIDENTE DE TRABALHO]
Um mês depois, estava Rui Medonho sentado numa esplanada, esquecido do seu dedo mínimo, quando reparou num homem sentado numa mesa perto de si e que, tal como ele, não tinha o dedo mínimo da mão direita. A sua primeira reacção foi esconder a sua mão direita, como se quisesse cortar qualquer contacto com aquele homem, mas fez exactamente o contrário, pois levantou-se e dirigiu-se ao outro, a mão direita estendida à sua frente, ostentando o dedo em falta, e perguntou-lhe o que lhe tinha acontecido ao dedo. Ainda esperou que o outro lhe respondesse que um dia acordara assim, mas a resposta, ainda que igualmente lacónica, foi outra. “Acidente de trabalho”, disse o outro, não acrescentando mais nada e desinteressando-se por completo de Rui Medonho, que regressou à sua mesa. Não voltou a olhar para o homem sem o dedo mínimo e aquele acabou mesmo por se ir embora sem que ele desse por isso.
“Acidente de trabalho. Soa bem… e talvez seja melhor do que dizer a verdade.”
Nessa altura lembrou-se de uma história que o fazia sempre sorrir, nem sabia bem porquê, talvez pelo inesperado, e que lhe contara um conhecido seu, sobre um homem a quem um cão arrancara um dedo.
Supostamente tratava-se de um amigo do seu conhecido, que fora convidado para jantar em casa também de um amigo e que, ao entrar no pátio dessa casa, se tinha sentido intimidado por um enorme cão que o olhou em silêncio. Estava parado, a olhar para o cão que o olhava também, quando o amigo apareceu e o sossegou dizendo que o cão, apesar do mau aspecto, era dócil e que até lhe podia fazer uma festa, se quisesse. Sossegado pelo amigo e porque não queria dar parte de fraco, o homem avançou a mão na direcção da cabeça do cão, para lhe fazer uma festa, e o cão, num movimento rápido e inesperado, arrancou-lhe um dedo com uma só dentada.
Não sabia se tinha sido o dedo mínimo, mas estava convencido que tinha sido um dedo da mão direita.
“Talvez possa dizer que um cão me arrancou um dedo.”
“Talvez possa dizer que sofri um acidente de trabalho.”
Mas as pessoas deixaram de lhe perguntar o que lhe acontecera ao dedo, o que fez que ele não tivesse que voltar a decidir o que responder, ainda que o mais certo fosse ele dizer a verdade, porque assim era a sua natureza e por nenhuma outra razão a não ser essa.
[APONTAR]
Perdera o dedo mínimo mas, por estranho que parecesse não conseguia ver-se livre dele de uma vez por todas porque, a verdade é que nunca ele recebera tanta atenção quanto a que passou a receber depois que desapareceu sem qualquer explicação de um dia para o outro.
Às vezes fechava os olhos, concentrava-se, e tentava sentir todos os dedos das mãos e quase ia jurar que sentia o dedo mínimo da mão direita no exacto lugar onde agora não estava.
Tinha ouvido falar em pessoas que haviam perdido braços e pernas, ou apenas parte deles, e continuavam a senti-los, a experimentar dor nesse braços e pernas perdidos, chamavam-lhes membros fantasmas, e com certeza que isso se aplicava a um dedo, ainda que fosse o menor de todos, mas a verdade é que só sentia o dedo, ou julgava senti-lo, quando se esforçava por senti-lo, e dificilmente poderia dizer que o dedo, ainda que ele não o conseguisse esquecer, de alguma forma o assombrava.
Não dera inicialmente qualquer importância à perda do dedo, mas esse mesmo dedo que já não existia ganhara cada vez maior importância e agora, por mais que quisesse, não conseguia esquecê-lo.
Ignorou o exterior, onde tinha a certeza não encontraria respostas e voltou-se para dentro de si, onde sabia que encontraria a pergunta certa.
“Que importância tem a perda de um dedo mínimo? Será que tem mais ou menos importância do que outra perda qualquer? O que é importante e o que não é importante?”
Continuou a fazer perguntas mas não encontrava respostas ou, quando as encontrava, elas não o satisfaziam, como aliás lhe acontecia muitas vezes que procurava responder com palavras a perguntas que estavam para além delas.
Há pessoas que acreditam que as palavras podem dizer o mundo e há outras que acreditam que o mais simples dos eventos é completamente indizível. Como é fácil de perceber, ele acreditava nas palavras mas apenas como meio de apontar para o que estava para além delas.
“É preferível ter uma luz fraca a não ter luz nenhuma, sobretudo se não conseguimos ver no escuro.”
As perguntas que fazia agora a si mesmo eram as mesmas que sempre fizera e a perda do dedo mínimo não tinha nada a ver com isso, porque se não tivesse acontecido, ele estaria agora a fazê-las na mesma, pois sempre se questionara sobre o que era verdadeiramente importante e sobre quem ele verdadeiramente era e, quando percebeu isto, foi como se tivesse perdido de novo o dedo, pois voltou a não dar-lhe qualquer importância e quase se esqueceu que alguma vez o perdera.
“Mas afinal que falta me faz o dedo mínimo da mão direita?”
Olhou a mão direita e sentiu-a incompleta, e era afinal dessa sensação que ele não se conseguia libertar, da sensação de incompletude. Riu-se quando essa ideia lhe surgiu e afastou-a de imediato porque, ainda que se tivesse rido, a verdade é que essa ideia não tinha graça nenhuma, era pelo contrário a ideia mais sem graça que alguma vez tivera. Mas depois de pensar um pouco mais, voltou a rir-se, e agora com muito mais vontade.
“Já percebi, é o dedo que agora me falta que aponta para a minha incompletude e é isso afinal que me incomoda e não a perda do dedo em si.”
E riu ainda mais, soltou gritos de alegria e bateu palmas, tendo verificado, não sem espanto, que as palmas soavam da mesma maneira do que antes de perder o dedo, ou pelo menos assim lhe parecia.
A partir desse momento deixou de olhar para a mão direita e passou a metê-la no bolso das calças ou do casaco, sempre que não estava a usá-la, prática que só abandonou por achar que lhe conferia um certo ar napoleónico, personagem por quem ele tinha tanto de embirração cega quanto tinha de admiração esclarecida por Dom Quixote. Mas esconder a mão direita era afinal chamá-la para o centro da sua atenção e mais valia que estivesse à mostra, para que ele mais facilmente a pudesse ignorar, e foi o que ele fez durante muito tempo.
[PONTO FINAL]
Um dia, uma mulher num bar agarrou-lhe a mão direita e acariciou-a exactamente no local onde lhe faltava o dedo mínimo e ele sentiu que, se fosse preciso alguma razão para justificar aquela perda, essa carícia seria sem dúvida razão mais do que suficiente para justificar a perda do dedo mínimo.
A partir desse momento passou a dar mais importância à falta do dedo do que ao próprio dedo e, dessa forma, separou-se finalmente do dedo mínimo da mão direita de uma vez por todas.
O DOM DA PALAVRA
[A PRIMEIRA VEZ]
A primeira vez que lhe aconteceu foi numa manhã como outra qualquer e Hermínio Campânula nem se apercebeu do que lhe estava a acontecer. Atravessava a praça em direcção ao café da esquina, como fazia todos os dias, pelo menos uma vez por dia, quando alguém lhe perguntou onde ficavam os correios.
Já não se recordava da pessoa que lhe fez a pergunta, mas ainda se recordava da surpresa que lhe atravessou o rosto e da forma como a pessoa se afastou sorrindo e abanando a cabeça, como se o que ele dissera a tivesse ao mesmo tempo surpreendido, desiludido e divertido.
Ainda esteve para lhe lançar alguma ironia ou mesmo algum insulto, mas achou que não valia a pena e seguiu o seu caminho até ao café, onde pediu uma bica ao empregado atrás do balcão, com o gesto habitual, unindo o polegar e o indicador e levando-os à boca, para não ser forçado a elevar a voz sobre o barulho reinante.
Hermínio Campânula não era um homem de muitas palavras e dificilmente se poderia dizer que tivesse o dom da palavra, mas era capaz de expressar-se com facilidade e nunca tivera dificuldades em se fazer entender e, além disso, era ao mesmo tempo bastante tímido e bastante seguro de si, o que talvez possa explicar que não tivesse percebido logo o que lhe acontecera.
A segunda vez que lhe aconteceu foi no talho, em que entrou apenas para comprar meio quilo de carne picada, como enunciou de forma clara quando lhe perguntaram o que queria, mas como o talhante olhasse para ele com cara de quem não tinha percebido nada, apontou para a carne picada, o dedo colado ao vidro, e pouco depois levantou a mão direita indicando que era suficiente, o que na verdade foi mais do que suficiente para ser entendido. Ao sair, a menina da caixa sorriu-lhe, e ele respondeu-lhe com um sorriso.
Na semana que se seguiu aconteceram-lhe outros pequenos incidentes que o levaram finalmente a concluir que as pessoas não compreendiam o que ele lhes dizia; não compreendiam nada do que ele lhes dizia, e isto apesar de ele as compreender perfeitamente e se compreender perfeitamente a si mesmo. Não parecia ter qualquer dificuldade em dizer as palavras nem em articular o seu discurso mas a verdade é que ninguém o entendia quando falava e não o escondiam, rindo e abanando a cabeça. Os que o conheciam pensavam talvez que ele estava a brincar ou que tinha enlouquecido e os que não conheciam pensavam talvez que ele era louco ou estrangeiro.
A sua primeira reacção foi deixar de falar e ficou surpreendido com o pouco incómodo que lhe causava o silêncio, quer porque conseguia o que queria sem falar, quer porque ninguém parecia importar-se que ele não falasse. A verdade é que ele queria sempre muito pouco e falava com muito pouca gente, mas mesmo assim admirou-se que fosse tão fácil ficar em silêncio.
Quantas vezes não tinha dito a si próprio que até agradecia se nunca mais fosse capaz de dizer uma só palavra! Não era o caso, porque ele era capaz de falar, mas era como se não fosse, porque ninguém o entendia.
Mas antes de se calar e aceitar o que lhe acontecera ou, se preferirem, porque não tenho bem a certeza da ordem, antes de aceitar o que lhe acontecera e se calar ainda tentou investigar e perceber o que lhe tinha acontecido.
[INCOMPREENDIDO]
Os outros não percebiam o que ele dizia, mas ele sabia o que dizia e não só sabia o que dizia como ouvia o que dizia. No princípio ainda pensou que fosse apenas uma ou outra palavra que não era percebida, mas quando repetiu o que dissera ou pedira explicações, não viu nos outros qualquer sinal de compreensão. A verdade é que não percebiam nada de nada do que ele dizia, pois não só não percebiam nada do que ele dizia como nada lhe podiam realmente dizer sobre isso uma vez que não o compreendiam. É claro que ainda falavam com ele, apesar de não o perceberem, perguntando se estava a brincar ou o que se passava com ele que não dizia coisa com coisas ou até se falava inglês, tudo isto perante a óbvia impossibilidade de o compreenderem.
Talvez porque não falasse com muita gente e porque com aqueles que falava se limitasse sempre a umas poucas palavras de circunstância, a verdade é que Hermínio Campânula não se preocupou muito que não o compreendessem, até porque ele continuava a compreender tudo o que lhe diziam e, conhecendo as pessoas como conhecia, o melhor era mesmo que não percebessem o que lhe acontecera.
Foi assim pensando que não deu muita importância ao que lhe acontecera e que levou a sua vida quase sem alterações, calando-se a maior parte das vezes e usando gestos discretos quando tal se tornava completamente necessário, sorrindo muito e abanando a cabeça de várias formas sempre que falavam com ele.
Surpreendeu-se com a variedade e a eficácia desses gestos e tomou consciência pela primeira vez de quanto eram diversos e plenos de significado. Só movimentos de cabeça possíveis eram mais que as mães, como Hermínio Campânula disse a si mesmo com um sorriso aberto, desde os comuns abanar a cabeça de cima para baixo e de um lado para o outro, os quais podiam, descobriu então, mudar facilmente de significado consoante a expressão facial, transformando por exemplo uma simples negativa num mais profundo não faço a mínima ideia, até um ligeiro oscilar com a cabeça que podia significar que quem lhe perguntava o que quer que fosse estava muito perto de acertar ou que ele mesmo não tinha a certeza sobre alguma coisa.
Não tentou usar a escrita para se fazer entender, talvez por medo que também não compreendessem o que escrevia, apesar de ele continuar a perceber o que escrevia, da mesma forma que percebia o que dizia e, se de certa forma tinha aceitado que não percebiam o que dizia, a verdade é que não se achava capaz de aceitar que não percebessem as suas palavras escritas.
Podem achar estranho que assim pensasse, mas ele não era um homem complicado e olhava o mundo de forma prática, nunca duvidando muito das suas decisões depois de tomadas e, tal atitude, pensava ele, tinha-lhe facilitado mais a vida do que lhe tinha dificultado. E também lhe parecia ridículo andar com bilhetinhos, como um mudo, ele que deixara de ser compreendido mas que nem por isso deixara de ser capaz de usar a voz.
É claro que ás vezes usava as palavras escritas para se fazer entender, apontando-as, como fazia nos restaurantes, apontando na lista o que lhe apetecia comer, e quando o criado lhe perguntava o que queria beber, se não lhe desse logo uma opção, como muitas vezes acontecia, “Quer uma cerveja?”, Hermínio Campânula, fazia um ar pensativo e nove em cada dez vezes o empregado sugeria alguma coisa, “Quer um jarrinho de vinho? Tinto?”, e quando assim não acontecia ele abanava a cabeça dizendo que não queria nada e arrumava a questão.
Mas a maior parte das vezes não precisava de usar quaisquer estratégias pois bastava-lhe pegar nas coisas que queria e pagar, tarefa que não lhe exigia em quase todos os casos quaisquer competências de comunicação, podendo executá-la no mais perfeito silêncio e sem precisar de se relacionar com quem quer que fosse, como podia fazer nas suas idas ao supermercado em que, desde o agarrar no que queria até pagar na máquina com o cartão, não precisava falar com quer que fosse. O que, diga-se, ele sempre preferira.
Foi desta forma que não só passou a falar com menos pessoas, chegando mesmo a evitá-las, como percebeu que já antes falava afinal muito pouco e com muito poucas pessoas.
Foi também por essa altura que passou a apreciar ainda mais estar em silêncio, não tanto pelo que lhe permitia ouvir-se melhor a si próprio, mas pelo que lhe permitia ainda mais ouvir os outros.
Hermínio Campânula sempre gostara de ouvir os outros e por isso sempre preferira locais públicos, com quanto mais gente melhor, em que pudesse ouvir os outros e passar despercebido. Era uma mania que tinha, como ele dizia a si próprio, não tanto para a justificar mas sobretudo para sublinhar a si mesmo quem era. Mania que o levava aos centros comerciais, às feiras e mercados, ao centro da cidade e aos cafés, de que era cliente habitual. E também às salas de cinema, preferindo, por motivos óbvios, o intervalo e a saída, em que se misturava com os outros e escutava com atenção o que diziam. Em tempos frequentara também reuniões e manifestações políticas mas concluíra que as conversas eram sempre as mesmas e muitas vezes exigiam a sua participação, e ele queria estar calado e ouvir. Pelo mesmo motivo deixou de frequentar concertos, qualquer que fosse a música, pois se nuns se falava de mais de coisa nenhuma, noutros se falava de menos de coisa alguma.
Agora que ninguém o compreendia e que tudo o aconselhava a calar-se, abraçou ainda mais o silêncio que sempre amara, num casamento que lhe pareceu perfeito; pois se ninguém o percebia e ele continuava a ouvir os outros, nada melhor do que concentrar-se nessa tarefa que podia agora desempenhar melhor do que nunca, completamente concentrado a ouvir os outros, desviado afinal de si próprio e de qualquer veleidade de comunicar com os outros.
Sentia-se quase feliz, como disse a si mesmo, mas esta era uma forma de dizer a si próprio que se sentia bem e que ele utilizava muitas vezes, mesmo quando os outros ainda o compreendiam.
[EM VOZ ALTA]
Nunca lhe passou pela cabeça consultar um médico, pois se um por lado não saberia como lhe dizer o que se estava a passar com ele, por outro não gostava muito de médicos e só recorria a eles quando a sua condição não podia ser ultrapassada de outra forma, ou seja, não propriamente em caso de vida ou de morte, mas quando a coisa o incomodava de verdade e se obstinava em não passar. Na presente situação não se sentia muito incomodado, ainda que, pouco a pouco, lhe crescesse, pouco a pouco, a vontade de falar.
Nunca falara sozinho, nunca tivera esse hábito, que lhe parecera sempre um sinal de perturbação mental, mas sempre gostara de se ouvir e, embora falasse pouco com os outros, gostava de ler em voz alta e fazia-o com alguma regularidade, quer se tratasse de um romance, um poema ou mesmo um artigo de jornal.
E por esses dias que deixou de falar com as pessoas, começou a ler mais em voz alta, mas quando saia à rua, hábito que nunca abandonou, o silêncio custava-lhe mais e várias vezes lhe apeteceu dirigir a palavra aos outros, pois se não o compreendessem, afinal o problema era deles e não seu que continuava a expressar-se com clareza.
Mas esse desejo raramente passou disso mesmo, de um mero desejo à espera de concretização, ainda que uma ou outra vez não tenha aguentado e tivesse chegado a cumprimentar uma ou outra pessoa com um simples bom dia ou um como vai isso, ao que os outros respondiam ou não, de uma forma ou outra, mas sempre sem darem mostras de terem realmente compreendido.
No entanto, na maior parte do tempo, não falar com os outros não lhe pesava, esquecendo-se até das circunstâncias que o haviam conduzido a essa situação.
“Não me percebem, pois bem, isso pouco me importa. Na verdade nunca quis ser compreendido pelos outros e tenho dúvidas que os outros alguma vez me tivessem compreendido.”
Mas ainda que assim pensasse, também sabia que não era nada disso e que, ainda que o que tivesse perdido não fosse grande coisa, a verdade é que lhe sentia a falta, ainda que não percebesse bem que falta sentia, se a de falar com os outros ou a de ser compreendido por eles, porque quando pensava nisso percebia que não era bem a mesma coisa, ainda que a diferença pudesse ser subtil. Mas durante algum tempo continuou ainda calado, assaltado apenas aqui e ali por esse estranho desejo de voltar a falar com os outros.
[FOI UMA VEZ]
Um dia, uma mulher dirigiu-lhe a palavra, em inglês, e ele respondeu-lhe também em inglês. Não era bela, pelo menos de uma beleza convencional, mas tinha um olhar intenso de um estranho azul, e ele sentiu-se bem em responder-lhe. Ela sorriu e ele sorriu-lhe de volta. Tinha um mapa da cidade na mão e apontava para onde queria ir, a pouco mais de quinhentos metros de onde estavam. Hermínio Campânula começou a explicar-lhe com gesto simples e inequívocos como poderia chegar lá, mas ela sorria-lhe e ele sorria-lhe e, sem dar por isso deu por si a levá-la onde ela queria ir, ao mesmo tempo que iam tagarelando incessantemente, um e outro, sem saber o que cada um ia dizendo. Talvez fosse sueca ou de um outro qualquer país do norte, ele não sabia, e estava certo que ela também não sabia que língua ele falava, mas isso pouco importava, porque pela primeira vez há muito tempo ele falava com alguém que não se admirava por não compreender o que ele dizia. Pensou por breves instantes que talvez tivesse passado a falar uma qualquer língua rara e fosse por isso que ninguém o entendia, mas depressa esqueceu essa ideia e limitou-se a saborear aquele prazer inusitado de falar com alguém que lhe respondia sem espanto. Também não deu grande importância à descoberta que fizera, que também em inglês não era percebido, porque depois lhe ter feito a primeira pergunta em inglês, ela passara a falar na sua própria língua, sinal de que não entendera e ele fez o mesmo, falando também na sua própria língua, tanto mais própria quanto ninguém o entendia.
Acompanhou-a à igreja que ela procurava, entrou com ela e percorreram-na sem falar, o silêncio quebrado apenas e ali por alguns risos discretos. Depois saíram e vaguearam pela cidade sem destino, olhando em redor e dentro dos olhos de cada um, sorrindo sempre muito. Ao fim da tarde ele levou-a à estação dos caminhos-de-ferro, que ela indicou no mapa com um sorriso, e beijaram-se sem deixarem nem por um instante de sorrir, até que ela entrou para o comboio, a sorrir, e ele viu o comboio afastar-se, a sorrir.
A partir dessa altura sentiu pela primeira vez que lhe era muito difícil suportar a solidão, de que a impossibilidade de compreenderem o que dizia, era sem dúvida uma das facetas mais evidentes e dolorosas, ainda que na generalidade ele não lhe atribuísse grande importância.
[QUASE FELIZ]
Hermínio Campânula era um homem simples, mas nem por isso era menos sensível aos paradoxos, e sabia que muitas vezes o que nos preocupa mais é o que menos nos devia preocupar, assim como as coisas que menos importância deviam ter são as ganham muitas vezes uma importância desmedida e sem controlo. Por isso percebeu com facilidade que tinha de tomar uma decisão sobre o que lhe acontecera e, se não tinha dúvidas que o melhor era ignorar o que lhe acontecera, a verdade é que não sabia qual a forma que essa ignorância devia tomar. Podia simplesmente continuar a falar, como sempre fizera, ignorando dessa forma não só o que lhe acontecera mas também aqueles que insistiam em não compreender o que ele dizia; ou podia continuar calado, o que lhe parecia sem dúvida mais prudente e não contrariava a sua natureza silenciosa e contemplativa, ainda que a vontade de falar como os outros, como já tivera ocasião de perceber, não desapareceria com facilidade e poderia fazê-lo infeliz e miserável. Perdido nestes pensamentos e incapaz de tomar uma decisão sobre um assunto tão delicado, resolveu ir passar uns dias junto ao mar, numa pequena aldeia habitada quase em exclusivo por estrangeiros.
Depois de muitas horas de passeios solitários e de ruidosos convívios nos cafés e bares Hermínio Campânula decidiu finalmente que ficaria por ali, iria viver ali, onde podia falar sem que ninguém o percebesse e sem que ele, na maior parte das vezes, percebesse o que lhe diziam.
Sentia-se quase feliz e isso era muito mais do alguma vez esperara sentir, como não se cansava de repetir a quem o quisesse ouvir.
“Quase feliz, sim, quase feliz, onde é que se viu uma coisa assim!”
UMA QUESTÃO DE GOSTO
[ANG LEE]
Estavam na esplanada, ao fim da tarde, a falar disto e daquilo, num fim de tarde como outro qualquer das suas vidas. O dia ia-se escoando devagar, não estava nem frio nem calor e os silêncios sem propósito marcavam mais a conversa do que aquilo que diziam.
“Olha, hoje passa na televisão um filme do Ang Lee.”
“O quê?”
“Um filme do Ang Lee. Não é um dos teus realizadores preferidos?”
“O Ang Lee?”
“Sim, o Ang Lee. Estás a brincar comigo?”
Não era despropositado que ela lhe perguntasse se ele estava a brincar, pois ele tinha o irritante hábito de desconversar sobre tudo e mais alguma coisa. Não que gostasse de provocar, não era essa a sua intenção, mas era da sua natureza duvidar, e essa sua atitude traduzia-se quase em negar quase sempre o que lhe diziam.
“A brincar contigo? Não!”
“Mas gostas ou não do Ang Lee?”
“Apanhaste-me desprevenido. Acho que nunca tinha pensado nisso.”
“Nunca tinhas pensado se gostavas ou não do Ang Lee? Agora tenho a certeza que estás a brincar, ainda que não perceba onde está a piada. Disseste-me várias vezes que o Ang Lee era um dos teus realizadores preferidos.”
Ele olhou-a mas não disse nada.
“Que se foda o Ang Lee!”, pensou, e continuou a olhar para ela em silêncio ainda por mais algum tempo, e ela suportou-lhe o olhar também em silêncio.”
“Qual é o filme?”
“Tempestade de Gelo. Já viste?”
“Curiosamente penso que é um dos poucos que não vi. Recordo-me bem de “A arte de viver”, “O banquete de Casamento” e de “Comer Beber Viver”, do princípio dos anos 90, e de “O tigre e o Dragão”, que vi vezes sem conta, e do “Hulk”, sem dúvida um filme menor, para depois regressar com o comovente "O Segredo de Brokeback Mountain", que tanta falsa polémica provocou.”
“Afinal sempre gostas dos filmes do Ang Lee!”
“Parece que sim”, respondeu ele após uma breve hesitação, “Parece que gosto do Ang Lee”, e sorriu: “Talvez veja hoje esse filme e tire as dúvidas de vez. A que horas é?”
“Às 10 horas, na Fox Next.”
“Está bem”, disse ele, e sorriu de novo, um sorriso breve.
E por ali ficaram ainda mais um bocado, a falar disto e daquilo, como sempre faziam quando não tinham nada para fazer, mas os silêncios tornaram-se maiores e acabaram por não dizer nada, voltados para dentro de si, ele e ela pensando como ele era estranho.
“Estranho”, pensava ele, “porque é não fui capaz de lhe responder com um simples sim ou um não quando me perguntou se eu gostava ou não do Ang Lee!”
Ao fim e ao cabo era uma pergunta da treta, fácil de responder e que apenas dependia dele, e ele admirava-se como é que não fora capaz de responder e, ainda mais, como continuava a não ser capaz de responder quando fazia essa mesma pergunta a si mesmo.
“Será que gosto do Ang Lee?”
E ainda que a pergunta, tal com a resposta, lhe parecesse completamente sem valor, não conseguiu deixar de sentir uma inquietação a crescer em si, a dominá-lo, e soube que tinha de encontrar uma resposta.
“Mas que porra é que se está a passar comigo?”
Estranho, pensou ela, aquele gajo era mesmo estranho, mas não disse nada, e ficou a olhar para ele, sem dizer nada, à espera do que viesse a seguir, mas ele levantou-se, disse até à próxima e foi à sua vida. Ela ainda lhe lançou um irónico “bom filme”, mas ele já não a ouviu.
[SAMUEL BECKETT]
Nessa mesma noite, Alfredo Aranha esqueceu-se por completo de ver, à hora indicada, o filme do Ang Lee que a amiga lhe recomendara e nem mesmo o pôde ver mais tarde, pois nem por um momento se lembrou de programar a sua gravação, o que lhe teria sido fácil.
Esquecera-se por completo do Ang Lee, mas não se esquecera de como lhe fora difícil responder a uma simples pergunta sobre se gostava ou não de uma coisa. Era como se lhe tivessem perguntado algo para que ele não tivesse uma pergunta igualmente fácil, nem que fosse um simples “não sei” ou “estou-me nas tintas.” E a verdade é que não se lembrava de alguma vez ter experimentado dificuldades para responder a uma pergunta assim. No entanto, apesar de se sentir inquieto não deu qualquer importância a essa mesma inquietação e ter-se-ia esquecido por completo do que acontecera se não tivesse voltado a acontecer.
“Não consigo perceber porque é que gostas de Beckett!”
“Eu gosto de Beckett?”
E o amigo riu-se.
“Uma nova estratégia, quem diria!”
Alfredo Aranha nem percebeu o que o outro queria dizer, tão preocupado que ficou por não ser capaz de sentir em si se gostava ou não de Beckett, tanto mais que se lembrava perfeitamente de ler Beckett e de ser talvez um dos escritores que recordava ter lido de fio a pavio, de forma sistemática, mas sentia-se incapaz de dizer se gostava ou não de Beckett.
“Normalmente se te fizesse uma observação destas mandavas-me logo para o caralho. Será que cresceste e tomaste consciência de que há mais literatura para além de Beckett. Ou cansaste-te de discutir literatura comigo?”
“Talvez. Talvez.”
E o outro ficou a olhar com espanto para Alfredo Aranha, que parecia também ele demasiado espantado para dizer o que quer que fosse.
“O que não impede de te mandar na mesma para o caralho.”
E riram-se os dois, mas Alfredo Aranha queria pensar no que lhe acontecera e não se lembrou de melhor forma de se ir embora do que mandar o amigo para o caralho, com um sorriso aberto, e ir-se embora.
“Vai então para o caralho, se não te importas, tu e o Beckett”, e dito isto levantou-se e atravessou o largo pensativo, as árvores murmurando ao vento que se levantava muitas vezes ao fim da tarde, vindo do mar.
[GOSTAS OU NÃO GOSTAS?]
Alfredo Aranha não era capaz de dizer do que gostava e do que não gostava, foi essa a primeira possibilidade que ele teve de considerar, e depressa percebeu que, apesar de não ser assim tão linear, era na verdade o que lhe tinha acontecido, tornara-se incapaz de responder de imediato a qualquer pergunta sobre os seus gostos, porque sobre quase tudo que perguntou a si mesmo foi sempre incapaz de responder, ainda que fossem perguntas simples e de resposta directa, porque perguntar se gostamos de uma coisa ou de outra não exige normalmente muita reflexão, sobretudo se a pergunta se referir a algo que conhecemos bem e que faz parte da nossa vida. Mas o melhor é seguir o raciocínio de Alfredo Aranha, tal como ele próprio o traçou pela primeira vez.
“Vejamos, não consigo responder se gosto do Ang Lee nem se gosto do Beckett, mas sei que antes responderia com facilidade a qualquer dessas perguntas e quase sei, se pensar nisso, qual a resposta que daria, por isso talvez não seja tanto eu saber se gosto ou não gosto mas se sou capaz de sabê-lo, o que está longe de ser a mesma coisa, um pouco como aquelas pessoas que são capazes de ver e não vêem, não em sentido figurado, mas em sentido próprio.”
Sabia mas não sabia que sabia, e isso era na prática o mesmo que não saber, foi isso que ele concluiu perante a evidência de não ser capaz de saber se gostava ou não de uma coisa, a não ser, nalguns casos, se pensasse muito nisso ou experimentasse, porque certamente haveria coisas que ele nunca tinha sabido se gostava ou não pela simples razão que nunca experimentara. Mas será preciso experimentar uma coisa para ter a certeza que não gostamos? E os gostos não mudam?
E ao tentar apreender estas questões aconteceu-lhe o mesmo que àqueles que se iniciam numa língua pela aprendizagem dos palavrões, porque os primeiros pensamentos que lhe ocorreram tinham a ver com piadas grosseiras e de mau gosto.
É preciso experimentar uma coisa para saber se gostamos ou não? É claro que todos diremos que sim, mas na prática nem sempre o fazemos. Alfredo Aranha lembrava-se de na sua juventude lhe terem perguntado se gostava de levar no cu, ao que ele respondera que não, e logo lhe responderam, num concerto de risos alarves, que se não gostava era porque já tinha experimentado. O mesmo no que respeita à pergunta se gostava de merda.
Mas afinal, ainda que essa fosse talvez uma boa pergunta, não lhe resolvia de certeza o seu problema, se é que era um problema, pois na verdade não lhe parecia muito importante saber antecipadamente do que gostava e do que não gostava. Talvez até seja melhor assim, pensou, mas, fosse como fosse, as primeiras alterações à sua vida de todos os dias, produzidas por essa mudança, mostraram-se sem dúvida aborrecidas e mesmo constrangedoras, apesar de na maior parte das vezes poderem ser resolvidas com facilidade.
[MUITO, POUCO OU NADA]
Sentiu fome e foi até à cozinha, abriu o frigorífico e olhou para dentro. Na porta estava um pacote de leite e outro de sumo, e numa das prateleiras encontrou fiambre e queijo. Em cima da mesa da cozinha estava um saco com pão. Alfredo Aranha decidiu beber leite e comer uma sandes mista, pois se tinha ali aquelas coisas era porque as costumava comer. Mas quando agarrou no pacote de leite, ficou por um momento a pensar se gostava de leite frio ou quente.
“Vamos lá ver se gosto de leite frio”, disse, e despejou leite num copo e bebeu um gole. E parecia que gostava, ainda que não soubesse ao certo se não gostaria mais dele quente, mas resolveu deixar para mais tarde essa experiência. Cortou o pão e fez uma sandes de queijo e fiambre, mas antes de lhe dar uma dentada percebeu que não tinha posto manteiga e ficou se não tinha posto manteiga porque não gosta de manteiga nas sandes ou o teria feito apenas por esquecimento. Resolveu comê-la mesmo assim e gostou, pelo que ficou a pensar se em vez de tentar resolver o seu problema pela lógica não deveria afinal enfrentá-lo com o coração, porque como ele já concluíra, sabia o que gostava mas não sabia que o sabia, apenas isso, e o melhor era confiar em si mesmo, ou como as pessoas tanto gostam de dizer, o melhor era confiar no seu coração, e foi isso que ele fez a partir daí, não só a respeito de comida mas também em outras matérias. Mas fosse como fosse a verdade é que ele nunca sabia se a escolha era certa, nem mesmo quando lhe acontecia gostar de uma coisa que acredita ser uma coisa de que gostava.
Felizmente na prática era muito menos complicado do que é tentar explicá-lo e bastava fazer a maior parte das coisas sem pensar. Se lhe oferecessem uma fruta, por exemplo, bastava não pensar se gostava ou não daquela fruta e deixar que um gesto natural de aceitação ou de recusa falasse por si, e normalmente não se enganava, o que parecia querer dizer que ele tinha razão e sabia afinal muitas das coisas de que gostava e de que não gostava, pelo menos no que se referia a fruta, só que não conseguia afirmá-lo quando lhe perguntavam se gostava, e o mesmo acontecia quando perguntava a si mesmo se gostava ou não, ainda que nesse caso fosse diferente, porque ainda que não fosse capaz de o dizer sem hesitações, a verdade é que quase que tinha a certeza em si de gostar ou não gostar. Mas ele percebeu com facilidade que o melhor era sempre não pensar muito, ainda que os resultados variassem.
Aconteceu-lhe pedir nos restaurantes alguns pratos detestáveis e outros mais ou menos, mas concluiu passado pouco tempo que era boa boca e gostava de quase todos os alimentos. Também percebeu com facilidade que muitas vezes não era uma questão de gostar ou não gostar mas muito mais de gostar, como naquela lengalenga, muito, pouco ou nada. Porque o gostar tem gradações, é claro, e muitas vezes ainda que ele intuísse que gostava, ou não, ainda lhe restava saber se gostava muito, pouco ou até se lhe era indiferente.
[COM O PASSAR DO TEMPO]
A princípio sentiu-se como se tivesse, face a cada coisa e a cada evento, a obrigação de redefinir tudo o que gostava e o que não gostava, numa extensa lista com duas colunas, até porque não tinha a certeza de que uma vez que confirmasse que gostava de leite, frio, não o fosse esquecer depois, mas desistiu, talvez por preguiça ou apenas porque sempre confiara nos seus instintos, ou no seu coração, e afinal porque tinha algo de pura aventura tentar descobrir a cada passo se gostava ou não de uma coisa. E foi assim que começou a experimentar coisas novas e também outras que estava certo já experimentara, apenas porque não sabia se gostava ou não dessas coisas. E neste afã, que o ocupou por muito dias, ele descobriu afinal uma inebriante vontade de viver e de experimentar coisas, mas o passar do tempo e o prazer que sentia não o fizeram esquecer que continuava a não ser capaz, na maior parte dos casos, de dizer se gostava ou não gostava, de forma espontânea e natural. É claro que sentia em si uma evolução, e em muito casos já era capaz de saber, no geral, se gostava ou não de uma coisa, mas depois não era capaz de ir mais longe. Sabia, por exemplo, que gostava de ler, e se lhe perguntassem tal coisa, ele saberia que gostava, ainda que não fosse ainda capaz de responder com um simples sim ou não ou não sei ou talvez. Mas se lhe perguntassem se gostava de ler um autor em concreto ou um género determinado ele não saberia o que dizer e muito menos seria capaz de dizê-lo. No entanto, se estivesse frente a uma estante e se descontraísse, olhando os títulos, sem se preocupar com o que gostava, normalmente escolhia um livro ou um autor de que gostava. Por isso o problema continuava a ser quando os outros o interrogavam sem aviso sobre os seus gostos, pois com o passar do tempo só nessas ocasiões se perturbava verdadeiramente, mas até para isso arranjou uma solução fácil e divertida.
Para cada dia, logo pela manhã, escolhia uma resposta e mantinha-se fiel a ela quando lhe perguntavam o que gostava e, com o tempo, tinha mesmo uma resposta fixa para cada dia da semana, e o sistema funcionava na perfeição.
“Gostas do Ang Lee?”
“Mais ou menos:”
“Gostas do Beckett.”
“Incondicionalmente”
As perguntas nem sempre assim directas, gostas ou não gostas, mas ele tinha um resposta para todas.
“Gostas de leite frio ou quente?”
“É-me igual.”
“Queres manteiga na sandes?”
“Pode ser.”
É claro que às vezes os resultados não eram os melhores, mas outras vezes eram melhores do que ele imaginara e, fosse como fosse, com aquele sistema ele nunca hesitava e com o tempo habituou-se a ele, assim como se habituara a experimentar coisas novas e outras de que já não se lembrava. E as coisas estavam afinal como sempre havia estado, ou até melhor, e o facto de ele continuar a não ser capaz de responder de forma espontânea e natural a um simples pergunta sobre se gostava ou não gostava de algo deixou por completo de o incomodar.
[A PRIMEIRA VEZ]
Um dia, quando estava num bar com alguns amigos, e se preparava para experimentar uma bebida nova, um deles lançou-lhe uma daquelas perguntas para as quais ele tinha sempre uma resposta preparada.
“Tu gostas de experimentar coisas novas, não gostas?”
“Gosto, é verdade. Gosto mesmo.”
E pela primeira vez há muito tempo, Alfredo Aranha afirmou, sem pensar, o seu gosto sobre uma coisa.
E depois emborcou a bebida de um trago, sem se aperceber do que acontecera.
O ESPELHO MALCRIADO
[ESPELHO MEU, ESPELHO MEU]
Quando se viu ao espelho depois de uma noite mal dormida, a sua primeira reacção foi de espanto e até de medo, pois por mais que olhasse para o espelho, intensamente, os olhos bem abertos, arregalados, a verdade é que não se via, e não era que não visse nada ou visse tudo desfocado, pois até via, não se via era a ele próprio. Continuou a olhar e via perfeitamente o que devia estar atrás dele, como comprovou, como se preciso fosse, quando olhou para trás de si e depois de novo para o espelho. Via a cortina da casa de banho, via os azulejos da parede da casa de banho, via os produtos de higiene na prateleira da caso de banho, via a toalha amarela pendurada, não se via era a si mesmo.
Passou as mãos pelo rosto e sentiu a pele flácida, os olhos inchados, a boca seca e gretada. Que mau aspecto, disse a si mesmo em voz alta, e olhou-se no espelho para de novo não se ver.
“Porra, foda-se, que merda é esta!”
Passou de novo as mãos pelo rosto, pelo cabelo crespo, e de novo se olhou ao espelho e não se viu.
Fechou os olhos, abriu os olhos, fechou e abriu-os de novo mas continuava a não se ver.
“Porra, será que me tornei numa espécie de homem invisível!”
Olhou o espelho de diversos ângulos mas o resultado era o mesmo. Não se via no espelho, nunca se via. O espelho, avaro, recusava-se a devolver a sua imagem.
“Porra, merda, foda-se, devo mas é estar ainda a dormir.”
Passou a mãos pelo rosto sem o lavar, soltou mais uma ou duas pragas e foi deitar-se na cama, sem ver que horas eram, apesar de a luz que entrava pela janela dizer que o sol já ia alto.
Adormeceu quase seguida. Quando acordou arrastou-se até à casa de banho, lavou a cara, e só se lembrou do que acontecera quando voltou a olhar-se ao espelho e voltou a não se ver.
“Porra, merda, foda-se!”
Não se via de um todo, e não era que estivesse invisível, pois não se via de um todo, nem mesmo o que vestia. E quando colocou os óculos no rosto, deixou de os ver também, ainda que visse melhor com eles, pelo menos ao longe, que era esse o seu problema. Pareceu acordar de vez e foi tentar-se ver nos outros espelhos que tinha em casa, mas nenhum devolvia a sua imagem.
“Porra, merda, foda-se, mas o que é que me aconteceu!”
Sentou-se no sofá da sala e tentou acalmar-se, olhando em volta, ouvindo os sons que vinham do exterior, passando as mãos pelo rosto e olhando para si mesmo, para as pernas para as mãos, até para o nariz, sentindo os olhos entortarem-se ligeiramente.
“Porra, consigo ver-me. Estarei a ficar maluco.”
Foi até à casa de banho, mas ficou à porta, durante alguns momentos, olhando o espelho de relance, mas depois avançou e colocou-se em frente ao espelho, olhando-o bem de frente. Continuava a não se ver.
“Porra, merda, foda-se!”
Olhou ainda na direcção do o espelho, mas não se ver reflectido, provocou-lhe um calafrio que o atravessou como um raio e saiu da casa de banho praguejando.
“Porra, merda, foda-se, vou mas é sair. Apanhar ar só me pode fazer bem.”
[OLHAR-SE NO ESPELHO]
Roberto Conde caminhou sem destino pela parte baixa da cidade, sentindo-se cada vez mais seguro de si. Podia ver as pessoas e era visto por elas, como pôde comprovar com facilidade, sentindo os seus olhares e trocando alguns cumprimentos.
“Porra, merda, foda-se, devo estar a ficar mas é maluco.”
Parou à espera que ficasse verde, para atravessar a rua, e ao olhar para a vitrina de um stand de automóveis do outro lado, viu as pessoas que estavam ao seu lado, também à espera, reflectidas na superfície iluminada do vidro, mas não se viu a si próprio, por mais que olhasse.
Atravessou a rua num passo cauteloso, olhando sempre para o vidro do stand de automóveis, onde deveria avistar a sua imagem reflectida, mas via sempre para além de si mesmo, por mais perto estivesse do vidro.
Esteve quase a gritar de verdadeiro terror, mas soltou afinal uma estrondosa gargalhada.
“Será que me transformei num vampiro?”
A ideia era tão ridícula que teve o condão de o acalmar, e depois de um último olhar ao vidro do stand de automóveis, afastou-se a sorrir. Foi então que se lembrou de uma conversa que tivera com um amigo de longa data, uns dias antes, e que terminara de forma abrupta, depois o outro se ter, na sua opinião, armado em moralista. Curiosamente, a sua última tirada, em forma de sinistra profecia, tinha sido que um dia ele não ia conseguir olhar-se no espelho.
“Olhar-me ao espelho, é claro que me consigo olhar no espelho!”, ripostara ele, na ocasião, e repetiu-o, mas, ainda que a afirmação continuasse retórica, parecia agora completamente falsa.
“Mas que grande porra!”
Pelos vistos esse dia chegara, o dia em que não se podia olhar no espelho, pensou ele, e começou a rir alto, para surpresa dos que passavam por ali, e o olharam admirados, o que ainda o fez rir mais.
Tentou prosseguir com a sua vida de todos os dias e deixar para mais tarde aquele problema, se é que era um problema, como se habituara afinal a fazer.
Não lhe foi difícil evitar espelhos pois, como lhe foi fácil constatar, não dava muito atenção a si mesmo e evitava até normalmente olhar-se no espelho. Talvez afinal o amigo tivesse razão e ele gostasse cada vez menos de se olhar no espelho, foi o que pensou por instantes, antes de se esquecer de tudo aquilo. Já tinha problemas de sobra, não ser capaz de se ver ao espelho seria sem dúvida o menor deles, se é que chegaria a ser um problema.
“Mas se eu não me vejo no espelho será que as outras pessoas também não me vêem?”
Sorriu um sorriso aberto e disse a si mesmo que estava a ficar maluco, mas aquela pergunta não o deixava em paz. De certa forma, estava a tentar ser lógico, pelo menos à maneira dele, e excluída a hipótese de estar invisível ainda restaria sem dúvida a possibilidade, por qualquer razão misteriosa, de os espelhos não reflectirem pura e simplesmente a sua imagem, o que explicaria que ele não a visse e que as outras pessoas também não a vissem. Afinal o mesmo que se passava com os vampiros, disse a si mesmo, mas dessa vez não sorriu.
[A VIDA DE TODOS OS DIAS]
Nos dias que se seguiram Roberto Conde retomou com facilidade a sua vida de todos os dias, sem ter de alterar os seus hábitos em quase nada. É verdade que evitava os espelhos ou qualquer superfície que actuasse como tal, pois a verdade é que o perturbava não se ver reflectido e era sempre tomado por irreprimíveis calafrios. Mas tirando isso, levava a sua vida de todos os dias, a sua vidinha, como ele costuma dizer.
Não retirou os espelhos do seu apartamento, porque não lhe pareceu natural, mas, tal como na rua, evitava olhá-los. Não sentia falta de se olhar no espelho e com o passar do tempo foi dizendo a si mesmo que até era melhor assim, apesar de ter percebido com facilidade que não perdera consciência do seu corpo, pois continuava a ver grande parte dele. O rosto, claro, estava fora de questão, ainda que pudesse com facilidade espreitar o nariz e os lábios e ter vislumbres do seu cabelo. E também não podia ver aquelas partes do corpo que só com a ajuda de dois espelhos se conseguem ver, como as costas. Fosse como fosse, isso não incomodava, e os outros viam-no, o que até lhe poderia ter sido útil se ele alguma vez se tivesse preocupado com as opiniões dos outros.
“Se os cegos não vêem e levam a sua vida, porque razão não poderia eu levar a minha, tal como antes, se apenas não consigo ver a minha imagem reflectida no espelho?”
Acostumou-se a fazer a sua higiene pessoal sem se olhar ao espelho, chegando mesmo a tentar fazê-lo de luzes apagadas, para não ter a tentação de se olhar no espelho, mas pareceu-lhe que estava a exagerar e nunca mais o fez. No que se refere ao vestuário ainda menos sentiu a falta do espelho, porque quase nunca se olhava ao espelho para ver se estava bem.
E assim foi levando a vida de todos os dias, mas ainda havia um questão por resolver.
[ESTÃO A VER-ME?]
Roberto Conde continuou a levar a sua vida de todos os dias, mas não se esqueceu que continuava sem saber se os outros conseguiam ver a sua imagem reflectida, porque ainda que ele visse os outros, era muito provável que os outros, tal como ele, não o vissem reflectido, e isso seria sem dúvida perturbador, quer para os outros quer para ele.
Como passara a evitar os espelhos não era fácil chegar a uma conclusão, pois só os outros poderiam responder a essa pergunta e ele não se queria aproximar dos espelhos e muito menos perguntar a alguém se o via no espelho. Com o passar do tempo, a necessidade de dar resposta a essa pergunta tornou-se cada vez mais premente, e Roberto Conde decidiu enfrentá-la de uma vez por todas, mas depressa descobriu que não era fácil, pelo menos para ele.
Não lhe passou pela cabeça, nem por um instante, pedir a alguém, de forma simples, que lhe dissesse se o conseguia ver reflectido num espelho. Isso estava fora de questão e, só de pensar que os outros, tal como ele, não o vissem no espelho, deixava-o tão perturbado que quase desistia.
A verdade é que se os outros não fossem capazes de ver o seu reflexo ele já deveria saber, pois não é certamente coisa que passasse despercebida e, ainda que ele fizesse o possível para evitar os espelhos, já lhe deveriam ter escapado alguns, até porque evitava olhar na direcção de qualquer coisa que parecesse capaz de reflectir a luz.
“Se tiver que acontecer, acontece, e se não aconteceu até agora é porque muito provavelmente nunca acontecerá.”
E com estes argumentos Roberto Conde ia adiando a resposta à pergunta.
[O QUE TEM DE SER, TEM DE SER]
Roberto Conde já quase se esquecera do que lhe acontecera, tanto que em algumas ocasiões que se olhou inadvertidamente no espelho (e não se viu) quase morria de susto.
“Porra, merda, foda-se, já me esquecia que não me posso ver ao espelho.”
E ria-se muito.
“Pois é, já me esquecia, gosto tão pouco de mim que nem me consigo ver ao espelho.”
E continuava a rir, lembrado de que não se conseguia ver ao espelho, mas já esquecido quanto à questão que em tempos o atormentara.
“Conseguirão os outros ver o meu reflexo?”
E assim como lhe acontecia às vezes olhar-se inadvertidamente ao espelho, no recato do seu apartamento, também lhe aconteceu um dia parar em frente de um espelho.
Parara diante de um espelho, mas de costas, e só quando a mulher à sua frente começou a ajeitar o cabelo olhando-se no espelho, ao mesmo tempo que lhe sorria, é que ele percebeu. Então, voltou-se com esforço e olhou para o espelho e depois para a mulher que lhe sorria ainda e depois de novo para o espelho, com os olhos muito abertos, arregalados, e quase gritou.
“Porra, merda, foda-se!”
Não só ele não aparecia reflectido no espelho como o mesmo acontecia à mulher que o acompanhava.
A PRIMEIRA VEZ
[OS DETECTIVES SELVAGENS]
No dia em que completou quarenta e três anos de idade, Aniceto Grave entrou numa livraria para oferecer um livro a si mesmo e saiu com o livro na mão, sem pagar.
Era a sua livraria preferida e ia ali quase todos os dias, entrando por uma porta e saindo por outra, como fazia invariavelmente, por preferência e hábito, que os hábitos afinal não são mais do que a cristalização das preferências.
Entrava quase sempre pela porta das traseiras, como ele lhe chamava, embora não fosse fácil dizer qual era a porta das traseiras e qual era a porta principal. A livraria estendia-se em L e duas mesas estantes acompanhavam esse L, com a caixa registadora no vértice desse mesmo L. As paredes estavam cobertas de estantes até ao tecto. Nunca estava muita gente na livraria mas Aniceto Grave conhecia sempre uma ou outra pessoa, além dos empregados, ainda que fosse apenas de já os ter visto antes na livraria.
Naquele dia, como nos outros, entrou na livraria e percorreu-a lentamente olhando os livros em destaque, sem se deter em nenhum, deixando apenas o olhar correr pelas capas, e só depois voltou atrás e deu toda a sua atenção aos romances expostos no segmento mais longo do L.
Agarrou um, analisou-lhe a capa e a contra-capa, abriu-o ao acaso várias vezes e devolveu-o ao seu lugar. Repetiu este ritual, cinco ou seis vezes, de cada vez com um romance diferente, e depois voltou a fazer a mesma coisa, mas apenas com dois ou três. No final repetiu ainda mais uma vez o ritual, apenas com um dos livros.
Aquela livraria, ao contrário do que vem sendo corrente actualmente, não tinha um espaço apropriado para leitura – com um dois cómodos ou menos cómodos sofás – ou outro espaço que pudesse servir para o mesmo efeito – uma cafetaria com um balcão com bancos ou algumas pequenas mesas. Ele até preferia assim, pois gostava do namoro breve e discreto que travava com os livros, preferindo voltar várias vezes à livraria do que passar lá muito tempo de uma só vez.
Aniceto Grave olhou para o livro, hesitando, deveria levá-lo, não deveria levá-lo, e voltou a colocá-lo no seu lugar. Recomeçou o seu passeio pela livraria, como se não tivesse qualquer propósito, mas pouco depois voltou atrás, agarrou no livro e decidiu-se, ia levar aquele, gostava do título, fora-lhe recomendado, tinha cerca de quinhentas páginas e, o que também era importante para ele, o preço até não era exagerado tendo em atenção tudo o resto.
Não é que lhe faltasse dinheiro, mas também não lhe sobrava, e era sempre muito cuidadoso nas suas compras. No que se referia aos livros até era perdulário, desde que o livro lhe interessasse, mas queixava-se sempre do preço exagerado das luxuosas edições portuguesas que não davam opção aos leitores a não ser comprá-las assim mesmo, e isto era se quisessem ler a obra. Ainda chegou a comprar alguns autores na sua língua original, em edições paperback, mas tinha pouco jeito para línguas e preferia, apesar de tudo, ler as traduções portuguesas.
Aniceto Grave dirigiu-se para o balcão com o livro e, como estivessem duas pessoas à espera para serem atendidas, passeou-se ainda um pouco mais pela livraria, com o livro sempre na mão, e depois saiu pela porta principal, sem mais nem menos, sempre com o livro na mão, sem o pagar e sem olhar para trás.
Na ocasião não sentiu nada de especial, saiu apenas com o livro na mão, sem o pagar e sem pensar duas vezes no que fazia. Depois também não. E no entanto era a sua primeira vez.
[O LIVRO REPOSTO]
Ainda que tivesse sido a primeira vez que Aniceto Grave trouxera um livro de uma livraria sem pagar, estava longe de ter sido a primeira vez que pensara fazê-lo, pois muitas vezes planeara fazê-lo, para provar a si mesmo que era capaz, mas a verdade é que não era capaz e nunca conseguira, até aquele momento, fazê-lo, nem nunca alguma vez pensara seriamente que um dia o faria. Sempre fora assim, e a verdade é que não fazia esforço para ser assim, apenas lhe acontecia.
Quando estava na universidade não tinha dinheiro para comprar livros e passava os dias na biblioteca, a ler livros que só ali podiam ser lidos. A partir daí passou a demorar-se nas bibliotecas, que nunca deixou de frequentar, apenas o tempo suficiente para escolher e requisitar para leitura domiciliária os livros que lhe interessavam. Mas mesmo nessa altura nunca tirou um livro de uma livraria ou deixou de entregar qualquer livro que tivesse trazido da biblioteca, ao contrário dos seus colegas, que não só faziam como o incitavam a fazê-lo, e riam dele quando percebiam que ele era incapaz de fazê-lo.
Os colegas chamavam-lhe banana, otário, mariquinhas e parvalhão, e ele encolhia os ombros, era verdade que não era capaz, mas nunca perceberam que ele não o fazia por medo, inépcia ou nervosismo, mas apenas porque não era capaz. Assim, sem mais, não era capaz, e se pensava nisso às vezes, a verdade é que, quando estava numa livraria ou numa biblioteca nunca lhe passava pela cabeça levar um livro consigo sem dar contas a quem quer que fosse.
Os colegas sabiam apenas que ele não o fazia, que era respeitador, nunca tirava nada a ninguém, era alguém a que se podia confiar fosse o que fosse que ele, um grande parvo afinal, como Aniceto Grave dizia a si mesmo, um grande parvo, mas era assim que ele era e não adiantava tentar mudar, pois se havia coisa que ele não conseguia mudar em si era aquela, por mais que tentasse.
Um dia dois ou três colegas encontraram-no numa livraria a olhar para os livros com languidez e, Aniceto para cá, Grave para lá, enfiaram-lhe um livro dentro da pasta surrada que na altura carregava consigo para todo o lado, e ele não deu por nada, ocupado que estava a evitar com gentileza os abraços maliciosos dos outros e os empurrões dissimulados.
Depois que os outros se foram embora, olhando para ele e rindo e gracejando entre si, situação a que ele estava por demais habituado para achar suspeita, ficou ainda por ali, durante algum tempo, e quando saiu eles já se tinham cansado de esperar por ele e tinham-se ido embora.
Só muito mais tarde nesse dia, ao abrir a pasta, encontrou o livro e percebeu o que acontecera. A princípio quase entrou em pânico mas pouco a pouco foi-se acalmando. Sabia muito bem o que tinha de fazer.
Regressou à livraria nesse mesmo dia, quase à hora de fecho, tirou o livro da pasta e colocou-o no seu exacto lugar, junto a outros livros do mesmo. Fez tudo isto sem pensar, de modo quase automático, tão automático que nunca mais se lembrou do nome do autor.
Na livraria ninguém deu por nada. Quem é que se lembraria que alguém traria livros para uma livraria em vez de os levar, pagando ou não? No entanto, existem registos de casos em que foram introduzidos livros em livrarias, sendo um dos mais conhecidos sido levado a cabo por um jovem autor que publicara o seu primeiro livro em edição de autor e que, ao introduzi-lo sub-repticiamente na livraria, queria assim protestar quanto à política das editoras e das livrarias para com as obras dos jovens autores. Mas Aniceto Grave queria apenas repor um livro que dali tinha sido retirado indevidamente, e foi isso que capaz. Ainda pensou por instantes em explicar o que acontecera a um empregado e entregar-lhe um livro, mas Aniceto Grave era incapaz de tirar o que não lhe pertencia ou de alguma forma ficar com o que lhe não pertencia, mas não era parvo, e fez o que devia ser feito, e foi como se o livro dali nunca tivesse saído.
Se tivesse ficado com o livro, teria sido essa a primeira vez que Aniceto Grave metia a mão em qualquer coisa que não lhe pertencesse. Mas Aniceto Grave era incapaz de se apropriar do que não lhe pertencia.
[O CONFORMISTA]
As outras crianças acusavam-no sempre de tudo o que acontecia no bairro, quer fosse um vidro partido ou uma camisola tirada de um estendal, pois ainda que soubessem que ninguém acreditaria que tinha sido ele, achavam que ele merecia que o fizessem, para ver se ele gostava. Era a forma de lhe mostrarem o quanto o detestavam por ele ser tão santinho que só lhe faltavam as asinhas.
Aniceto Grave não tem boas recordações da infância e da adolescência, a não ser dos momentos passados em família e dos momentos que passou sozinho, a ler ou em outras brincadeiras solitárias. As amizades na infância e na adolescência fazem-se, escusado será dizer, sempre à volta de transgressões, pequenas ou grandes, inocentes ou sérias, e Aniceto Grave era avesso a transgressões, ficava sempre sem jeito e recusava-se a participar, e nem era por questões éticas ou morais, era apenas porque ele mesmo assim e não era capaz de transgredir, quando todos os outros não só faziam como excluíam do seu convívio quem não o fizessem.
Aniceto Grave não apanhava fruta nos pomares sem autorização.
Aniceto Grave não espreitava as miúdas no balneário, através dos buracos na parede de contraplacado.
Aniceto Grave não andava à pancada.
Aniceto Grave não urinava nos muros da escola.
Aniceto Grave não maltratava as lagartixas que costumavam capturar com um laço nos dias solarengos.
Aniceto Grave não tocava às campainhas.
Aniceto Grave era um chato e um menino da mamã, um sonso e um trambolho que ninguém queria aturar.
A verdade é que, quando se tratava de praticar um crime, ou uma simples transgressão, Aniceto Grave era incapaz de passar ao acto, o que lhe acontecia sem esforço, como uma lâmpada que se funde ao ser acesa, sem nunca chegar a dar luz.
[SEGUNDO ACTO]
Mas naquele dia Aniceto Grave saiu da livraria com um livro, sem pagar e, verdade seja dita, nunca o devolveu. Algo lhe tinha acontecido e Aniceto Grave não percebia se de um ganho ou de uma perda que se tratava. Ganhara a capacidade de praticar crimes ou perdera a capacidade de não os praticar?
Olhou o livro pousado em cima da mesa do café, aquele livro que trouxera sem pagar de uma livraria, e não sabia o que sentia. Tinha sido a primeira que fizera uma coisa assim, quem diria que ele era capaz, quem diria que alguma vez ele seria capaz de uma coisa assim. Não estava contente nem estava triste, não estava orgulhoso nem estava arrependido, estava surpreendido, estupefacto. O que significaria aquela inusitada passagem ao acto?
Seria capaz de repeti-lo? Sem dúvida!
Seria capaz de praticar outros crimes? Sem dúvida!
Aniceto Grave não tinha dúvidas, algo se quebrara dentro de si, e com a mesma facilidade com que antes era incapaz de praticar crimes, era agora capaz de praticar qualquer crime, por mais hediondo que fosse. Estava certo disso. Alguma coisa mudara em si, de forma furtiva e no entanto definitiva. Ele não tinha dúvidas.
Toda a sua vida tinha ouvido dizer que qualquer um é capaz de praticar um crime, criadas que estejam as condições necessárias, como se qualquer homem fosse um criminoso em potência, e sempre se sentira excluído, como se não fosse humano, porque ele sempre fora incapaz de praticar um crime, até aquele momento.
Olhou de novo o livro em cima, olhou à sua volta, olhou para dentro de si mesmo e sorriu. Era capaz de praticar qualquer crime, era capaz de pensar um crime e praticá-lo, disse a si mesmo, e sorriu.
[MORAL DA HISTÓRIA]
Aniceto Grave não voltou a roubar um livro que fosse. Não se arrependeu nem se emendou, por assim dizer, apenas não voltou a roubar um livro que fosse.
Também não é do meu conhecimento que tenha praticado outros crimes, pelo menos até ao momento em que escrevo, ainda que não tenha a certeza absoluta.
Do que eu tenho a certeza absoluta é que Aniceto Grave nunca se sentiu tão feliz como naquele dia em que percebeu que se tinha libertado da maldição que o perseguia desde criança, sob a forma da incapacidade de praticar crimes.
Agora ele podia praticar crimes, era capaz de o fazer, se quisesse, é claro, e ele não queria praticar crimes, mas podia, se quisesse.
O ANTAGONISTA
[O ESCOLHIDO]
Naquele dia, como em tantos outros, Vítor Vilão bebera bastante, tanto quanto os seus amigos, é verdade, mas fora ele o escolhido para levar todos a casa, por parecer aos outros que era o que estava em melhores condições para conduzir.
Vítor Vilão aceitou, até porque como disse a si mesmo, estava tão bêbado que nem se sentia bêbado, apesar de o carro não ser o seu, que o proprietário já ressonava há muito e só a custo o tinham conseguido enfiar dentro do carro.
Já passava da três da manhã e tinham estado a beber sem descanso desde o fim da tarde daquele dia de Verão. Cerveja, vinho branco, vodka, Vítor Vilão tinha bebido tudo o que fora colocado à sua frente. Bebiam todos bem, mas ele era sem dúvida o campeão, temido e respeitado nos concursos de bota abaixo.
Sentou-se ao volante, ligou o motor e arrancou. Nem por instante pensou que se a polícia o mandasse parar seria a terceira vez em pouco mais de um ano que seria apanhado a conduzir alcoolizado.
“Porra que estou tão bêbado que nem me sinto bêbado.”
Os amigos riram-se e elogiaram-no sem reservas, maior bebedor ainda estava para nascer.
Lembravam muito bem de como ele derrotara o alemão gigantesco, no café do Joaquim Maneta.
[O CAMPEÃO]
Tinha acontecido há um ano, noite alta, quando já bebiam há muito, encostados ao balcão do café do Joaquim Maneta, a porta já fechada, não fosse por passar por ali a polícia.
O alemão, enorme, transbordava do banco em que estava sentado, e o Rodinhas deu conta do fenómeno ao Vítor, que olhava compenetrado para dentro de um enésimo copo de medronho, especialidade da casa, que o Joaquim Maneta só punha à disposição deles, clientes habituais merecem muito respeito, e de mais ninguém, ora fiquem lá com a garrafa e vão-se servindo que como este não bebem vocês em mais lado nenhum.
O Vítor olhou para o alemão e o alemão, olhou para ele também, sabe-se lá porquê, que estas coisas acontecem mesmo assim e, nesta troca de olhares, vai o Vítor e ergue o copo de medronho, em jeito de saudação e desafio, que daquele medronho não bebia ele, o Adamastor germânico, e riu-se, mais de si próprio do que do outro, e estava já a olhar de novo para dentro do copo de medronho, quando o Rodinhas o avisou, alvoraçado, que o alemão vinha aí.
O Vítor voltou-se o suficiente para comprovar se era ou não assim, a mão na garrafa não fosse o outro vir de maus modos, esperava que não que era mal empregue, mas nunca se sabia, e era que a besta alemã parou mesmo ao seu lado e apontou para a garrafa, fazendo de seguida o gesto de levar um copo à boca, um sorriso nos lábios. O cabrão queria experimentar o belo do medronho, concluiu o Vítor, e vai de agarrar na garrafa com uma mão, afastando-a do outro, numa clara negativa e, como se não fosse suficiente, sublinhada com o indicador espetado na cara do outro, agitado em inequívoco não.
O alemão abriu muito os olhos, pequenos no enorme rosto, o cabelo cortado rente e uma pêra estilizada, muito negra, a cavalgar-lhe a papada, e riu, a boca muito aberta, o corpo gigantesco agitando-se convulsivamente. Vítor ficou a olhá-lo, espantado, o que é que queria aquele cabrão, e ainda mais espantado ficou quando o outro leva a mão ao bolso, agora é que lhe dava com a garrafa, e lhe estendeu duas ou três notas amarrotadas. Vítor agarrou as notas, o outro largou-as, contou o dinheiro, depositou-o em cima do balcão, e colocou ele mesmo idêntica quantia ao lado. Olhou a garrafa, a mais de meio, e pediu dois copos de água, dando um ao alemão e ficando com o outro. Depois encheu os dois copos até acima e ergueu o seu, num gesto claro de desafio, apontando para o dinheiro em cima do balcão, o primeiro a desistir perderia o dinheiro, e de seguida, sem mais, bebeu um gole longo de medronho e sorriu para o alemão.
O gigante olhou para ele, a jeito que intrigado, um olho semicerrado, deu um golo curto, riu-se, e depois um golo longo, mais longo que o de Vítor, e olhou-o com ar interrogativo, ao que Vítor respondeu esvaziando o copo de um só trago, e o alemão imitou-o, estendendo-lhe depois o copo para que o enchesse. Gritos de incitamento, em português e alemão, festejaram o início do combate, que se prolongou por vários copos e ainda mais uma garrafas. Só faltou pegar cada um em sua garrafa, que se o alemão era gigantesco, Vítor não lhe ficava atrás genica e dava-lhe com tanta força como o outro e mais parecia que tudo iria terminar num empate, o que não envergonharia nenhum dos dois e muito menos o titã português.
Vítor ainda olhava para dentro do copo, como sempre fazia antes de emborcar o que quer que fosse, quando o alemão caiu no chão com estrondo, o copo ainda a meio derramado no chão. Vítor olhou para o outro e, ainda antes de gritar vitória ou agarrar o dinheiro, bebeu o seu copo até à última gota.
Os amigos levaram-no em ombros, campeão incontestado, e a sua vitória correu os bares, repetindo-se os desafios e, não obstante algumas derrotas a sua fama não diminuiu, antes pelo contrário, que de derrotas também são feitas as vitórias e os grandes campeões.
[NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS]
Vítor Vilão bebia bem. Bebia bastante. Gostava de beber. E a verdade, dizia a si mesmo, é que a bebida só lhe trouxera alegrias. Tinha amigos, amigos dos copos, mas bons amigos, muito bons amigos, e era temido e reconhecido como um bebedor de respeito. Por isso bebia e continuaria a beber. Só tinha de deixar de conduzir quando bebia, pensou, o olhar fixo na estrada, mas os amigos insistiam sempre que ele deveria conduzir e como é que ele lhes poderia dizer que não, eram seus amigos, bons amigos e ponto final.
E de repente, à sua frente, uma operação stop, porra, que merda, os amigos a dizer-lhe que fizesse inversão de marcha e ele dizer que não, porra, merda, isso ainda seria pior, calma, muita calma, o que é preciso é calma, e reduziu a velocidade, o suficiente para se acalmar, mas não o bastante para chamar a atenção, que reduzir a velocidade à vista dos bófias é coisa de bêbado e eles sabiam-no bem.
Ainda bem que o carro não era dele, pois se fosse, logo o conheceriam, que os chuis, como os elefantes, nunca esquecem, sobretudo os bêbados, presas fáceis, e ele já estava na lista negra arquivada no mais recôndito das suas cabecinhas ocas.
A aproximar-se, a aproximar-se, e o polícia a mandá-lo parar.
Estacionou na berma, abriu a janela, ninguém dizia pio, e o GNR a sorrir, grande cabrão, bêbado outra vez, e a pedir-lhe com cortesia, que saísse, se fizesse favor, era só um minuto para soprar no balão, se fizesse o obséquio, e Vítor Vilão, a dizer que sim, estava bem fodido, é para já senhor agente, o prazer é todo meu.
Soprou no balão, olhou o guarda, o guarda olhou para ele, o que estaria a pensar o grande cabrão, e ficou à espera enquanto o outro olhava a maquineta em silêncio. Depois, sem dizer nada afastou-se e foi ter com o colega que estava dentro do carro, e Vítor viu-os a falar animadamente.
Porra que desta é que se ia foder, pensou Vítor Vilão e respirou fundo e olhou para os colegas dentro do carro, a rirem-se e dirigirem-lhe inequívocos gestos de encorajamento e esperou que lhe dessem de novo atenção.
Os GNR vieram agora os dois e aquele que lhe pedira que soprasse pediu de novo a Vítor Vilão que soprasse, o que ele fez e uma vez feito, ficaram os dois a olhar fixamente para o resultado, claramente intrigados, a troca de olhares furtiva a sublinhar a desorientação.
Vítor Vilão não disse nada, porra que devo ter rebentado com a escala, e ficou à espera de mais desenvolvimentos, que não se fizeram esperar. Um dos guardas foi até ao carro, pediu para saírem todos, o que todos fizeram, menos o Totas, que continuou a ressonar, mas o guarda não pareceu importar-se. Pediu a todos para soprarem no balão, o que eles fizeram, ordeiramente, estar bêbado não é crime, a não ser que se vá ao volante.
O guarda soltou exclamações de espanto, resultado a resultado, e o rosto abriu-se-lhe num sorriso. Depois voltou para perto de Vítor Vilão e pediu-lhe que soprasse de novo, se fazia favor, desculpe insistir, não tem problema senhor agente, é claro que sopro
E soprou, soprou e ficou à espera.
[A METAMORFOSE]
Pode ir embora, o guarda a dirigir-se a Vítor Vilão, desculpe pode repetir, Vítor Vilão a retribuir-lhe o olhar, pode ir embora, Vítor Vilão a olhar o agente, a não acreditar mas a afastar-se, e o GNR a dizer-lhe faça boa viagem e deixe-me louvá-lo por tomar conta desses bêbados, que fosse um deles ao volante e já não sairia daqui, bem lhe podem estar agradecidos.
Vítor Vilão não sabia o que pensar, mas ala que se faz tarde, afinal sempre há duas sem três, ainda que aquela fosse a terceira mas acabasse afinal por não ser. Os amigos não se calavam, chamavam-lhe campeão, queriam à viva força ir beber mais, e Vítor Vilão não sabia o que lhes dizer e muito menos o que pensar, porra, merda, ia mas era passar a acreditar em milagres.
Só mais tarde, pouco a pouco, percebeu que já não o que lhe acontecera. Bebesse o que bebesse, nunca ficava embriagado.
[O MILAGRE]
Era fantástico, inacreditável, um verdadeiro milagre, e no entanto de uma simplicidade extrema, como Vítor Vilão concluiu com facilidade. Bebesse o que bebesse nunca ficava embriagado. E não o dizia de ânimo leve nem sem provas provadas, porque nos dias que se seguiram bebeu ainda mais do que era habitual e nem por um instante se sentiu embriagado, e não era porque estivesse tão embriagado que nem sabia que estava embriagado mas simplesmente porque era notório, mesmo sem aparelhos de medição, que a ingestão de álcool não lhe produzia qualquer efeito fosse em que quantidade fosse.
Acordou tarde, esquecido do que lhe acontecera no dia anterior, mas à medida que foi acordando, que estranho não lhe doer a cabeça, foi-se lembrando de tudo, pouco a pouco, levantou-se, olhou-se no espelho, estava com bom aspecto, e foi sentar-se na sala, a ver televisão, um programa qualquer, só para passar o tempo.
Levantou-se, foi até à cozinha e trouxe a garrafa de vodka que tinha sempre no frigorífico, pois gostava de bebê-la bastante fria, e um copo pequeno, pois gostava de a beber pura e de um trago só, e voltou para a sala. Encheu o copo, olhou através dele, tão incolor quanto a água e quase sem sabor, e bebeu-o de uma só vez, sentindo com volúpia a queimadura do álcool. A garrafa estava meia. Vítor Vilão bebeu-a toda, copo após copo, mas não sem se pôr à prova de vez em quando, fazendo um quatro, andando em linha recta e usando o seu senso comum, sempre com o mesmo resultado. Bebesse o quanto bebesse, não conseguia ficar embriagado, pois sentia-se sempre como se nada tivesse bebido.
Nessa noite, quando saiu com os amigos, bebeu como sempre bebia e chegou facilmente a duas conclusões. A primeira era que gostava de beber e não ia deixar de o fazer, ainda que não conseguisse ficar bêbado, o que tirava grande piada à coisa mas não a arruinava de um todo. A segunda foi que os amigos não percebiam que ele não ficava embriagado, quer porque ele nunca fora de dar nas vistas, quer porque depressa ficavam embriagados e cedo perdiam o discernimento necessário para desconfiar que ele não se embriagava.
Essas duas conclusões conduziram-no ainda mais facilmente a uma terceira conclusão. Nunca iria contar aos amigos que era agora incapaz de se embriagar. Bebesse o que bebesse nunca se embriagava.
[INTERVALO]
Vítor Vilão nunca viu com bons olhos a sua sobriedade involuntária e forçada e, verdade seja dita, só lhe viu uma única vantagem, a de lhe garantir de uma vez por todas e para toda a eternidade, o titulo de maior bebedor de todos os tempos.
Contam-se várias histórias, mas a minha preferida é a das duas garrafas de vodka que mamou sem mesmo piscar um olho que fosse, perante a estupefacção do adversário e o gáudio do público.
Pediu duas garrafas de vodka, agarrou numa das garrafas e bebeu-a quase sem pausas, olhando o adversário e sorrindo, decidido a ganhar por KO. E quando o outro o acusou, ou talvez tivesse sido alguém do público, que a garrafa não estava cheia de vodka mas de água, encheu um pequeno copo, deu-o a provar, e bebeu a segunda garrafa de vodka, de um trago só e, esvaziada a garrafa, divertiu-se a andar em linha e fazer quatros mais que perfeitos.
Depois disso, dizem, nunca mais foi desafiado.
[ELOGIO FÚNEBRE]
Vítor Vilão nunca deixou de beber, forte e feio, como garantem os seus amigos, mas nunca mais se embriagou, e essa foi afinal a grande história da sua vida e também o seu maior segredo.
Mas fosse como fosse, um dia Vítor Vilão haveria de morrer.
E morreu.
De cirrose hepática.
DENTRO E FORA DE SI
[DETERMINADO]
Duarte Luz tinha tomado uma decisão. Foi até à estação dos caminhos-de-ferro e perguntou o horário do próximo comboio para Lisboa. Comprou o bilhete e sobraram-lhe apenas meia dúzia de moedas pretas.
Estava decidido, determinado, e no entanto sabia que não podia fazer outra coisa. Aliás, era só isso que sabia, que não podia fazer outra coisa, e assustou-se, tanto mais que nem por um momento pensou em voltar atrás, assim como nem por um momento alguma vez se lamentou da sua decisão.
Mas assustou-se, de verdade, porque pela primeira vez na sua vida se sentiu fora de si.
[APAIXONADO]
Duarte Luz tinha então dezoito anos, estava apaixonado e só isso lhe interessava. Viajou toda a noite para ir à procura dela. Estava determinado. Queria estar com ela. Precisava de a ver. Precisava de falar com ela. Estava apaixonado. E pouco lhe importava que não soubesse onde ela agora vivia nem tivesse qualquer contacto telefónico. Estava determinado. Ia para Lisboa e havia de encontrá-la. Tinha a certeza. Estava apaixonado, ia tudo dar certo, dizia a si mesmo, mas ainda que ele tivesse a certeza que assim não seria, a verdade é que não deixaria de fazer o que a paixão lhe dizia que fizesse.
Duarte Luz estava determinado. Estava apaixonado e só lhe restava obedecer a essa paixão.
[INEVITÁVEL]
Encontrou-a pouco menos de uma hora depois de chegar a Lisboa, e soube que fora inevitável que assim tivesse acontecido, da mesma forma que seria inevitável que ela recusasse categoricamente o seu amor, Porque a paixão é uma força poderosa e imponderável. A única certeza, pensou muitas vezes desde então Duarte Luz, é que a paixão leva-nos para fora de nós, e essa constatação assustou-o de morte.
Tinha vindo à procura dela porque não tivera outra solução: estava apaixonado por ela. E o facto de ela ter recusado o seu amor em nada mudava a natureza e a inevitabilidade do comportamento de Duarte Luz, pois afinal tinha sido a ele que a paixão agarrara pelos cabelos e levara de rojo até ela, pois se decidira afinal ter ido ter com ela, tinha sido porque não podia fazer outra coisa e, assim pensando, negava ele o livre arbítrio, o que fazia sem sequer se aperceber disso.
Já tinha pressentido antes que muito do que sentia em si não era mais do que a sombra do que acontecia fora de si, independentemente de si, mas até aquele momento nunca se sentira tão vulnerável, e pela primeira vez assustou-se de verdade, convencido que ficou que tudo o que era realmente importante acontecia fora de si, só lhe chegando ecos, simples ecos, poderosos ecos, sinais inequívocos da sua impotência.
[A DECISÃO]
Decidiu então que nunca mais obedeceria a qualquer impulso que tivesse origem fora de si, mas quando quis precisar o queria dizer com isso não foi capaz. A paixão tinha-se formado independentemente da sua vontade, e talvez até contra a sua vontade, mas daí a concluir que era algo que se lhe impusera vindo de fora, talvez fosse excessivo, mas foi assim que ele o sentiu, e isso assustou-o de morte, porque soube que nada pudera fazer senão obedecer-lhe. Mas se ele apenas pôde obedecer, como poderia ele decidir não obedecer? Duarte Luz não pensou nisso, apenas decidiu, nada mais, e a verdade é que nunca mais se apaixonou ou, para ser mais preciso, tornou-se cego, e também surdo e mudo à paixão. Tinha-se fechado dentro de si, a sete chaves, e o mundo tinha ficado lá fora, mas ele não se apercebeu disso e continuou a viver como se nada tivesse acontecido.
[O VIDRO]
Entre Duarte Luz e a realidade erguera-se um vidro, como dizia o poeta, e a vida acontecia lá fora e acontecia dentro dele, mas sem verdadeira correspondência. Vivia fechado dentro de si e, ainda que não se pudesse dizer que vivia alheado do mundo, a verdade é que tudo que acontecia no mundo acontecia fora dele. E assim ia vivendo a sua vida, sem que se apercebesse realmente do que ganhara e do que perdera, como se fosse afinal assim que tinha de ser. Não se sentia triste nem se sentia contente, e muito tempo passou até que se tivesse apercebido que as coisas tinham mudado.
[SENTADO, NADA FAZENDO]
Os amigos e conhecidos habituaram-se aos frequentes silêncios de Duarte Luz, à imobilidade que os acompanhava, ao modo como parecia fugir com facilidade para fora de si. Pouco a pouco o seu comportamento passou a ser-lhes normal, previsível, e com o tempo o que esperavam dele é que estivesse sentado, nada fazendo, como lhe era cada vez mais habitual.
Duarte Luz é que demorou a ter consciência do que lhe acontecera, uma vez que naquelas situações ficava fora de si, tão fora de si que não dava por nada.
E de todas as vezes, acontecia sempre o mesmo: André Luz estava sentado, nada fazendo, e por algum tempo esquecia-se de quem era, ou esquecia-se que era, talvez seja melhor dizer assim, e limitava-se a existir, tal qual o vazio em que o seu olhar parecia descansar. Ficava imóvel, um sorriso breve a iluminar-lhe o rosto e todo ele parecia serenidade. No entanto, aquele era um estado que lhe acontecia sem que o procurasse, tal e qual uma doença.
[A DOENÇA]
Convenceu-se que estava doente, que era vítima de uma doença que se tinha instalado pouco a pouco e se apoderara completamente dele, sem que ele se tivesse afinal apercebido do que estava a acontecer, e este pensamento trouxe-lhe algum consolo, pois se finalmente tomara consciência do que lhe tinha acontecido, isso deveria afinal ser um sinal da possibilidade de uma cura.
Pouco a pouco, tal como a doença se instalara, ele foi percebendo há quanto tempo estava doente, reconhecendo todas as manifestações da doença, que lançavam as suas raízes ao tempo em que decidira que nunca mais obedeceria a qualquer impulso que tivesse origem fora de si.
Nunca percebeu qual era a relação, se alguma existia, mas não teve dúvidas que foi a partir do momento em que tomou aquela decisão que começou afinal a ficar completamente fora de si, tão fora de si que nem mesmo se apercebia do que lhe acontecia.
[PERDAS E GANHOS]
Fazer o relato das diversas perdas de consciência que Duarte Luz sofreu ao longo dos anos é tarefa completamente inútil e maçadora, pois o mais importante é sem dúvida o que lhe aconteceu a partir do momento em que tomou consciência dessas perdas.
Quando tomou consciência que se escapara tantas vezes para fora de si, tão para fora de si que nem dera por isso, assustou-se, assustou-se de morte, e então percebeu que fora assim que tudo começara, tudo começara com o medo de ficar fora de si, e decidiu não voltar a ter medo. Sentou-se, nada fazendo, e deixou-se ir, consciente pela primeira vez na sua vida de que não existiam perdas e ganhos, que não existia dentro e fora de si.
O PRAZER DA LEITURA
[O DOM]
- Dizem vocês que o que somos depende exclusivamente de nós mesmos, das decisões que tomamos, da nossa vontade e determinação, mas eu acredito exactamente no contrário, acredito que o livre arbítrio não existe, pelo menos para mim.
Olhou para os outros, desafiador, e fez uma pequena pausa, à espera de interpelações, mas ninguém falou.
Fosse como fosse, ele tinha uma voz extraordinária e sabia como ninguém incutir vida à narrativa mais sem graça, quer pelas tonalidades que era capaz de conferir a cada palavra, dando-lhe vida própria, quer pelas pausas que sabia usar com mestria.
- O que somos depende do acaso ou, se preferirem, é determinado pelo acaso.
E de novo se calou, olhando demoradamente cada um dos seus ouvintes, convidando-os com o olhar a darem a sua opinião, mas ninguém falava, presos pela magia da sua voz e da intensidade que emanava dele, mesmo quando ficava imóvel, nada fazendo.
- Quem eu sou hoje depende exclusivamente do acaso, pois nem por um momento desejei ser quem sou. Fui sempre uma pessoa reservada, tenho verdadeiro pavor de falar em público e o que mais desejo era ser capaz de ler em silêncio, apenas para mim.
E de novo olhou para os outros, mas o seu olhar estava agora afogado de melancolia e, embora nem por um momento tivessem duvidado dele, nalguns rostos surgiram tímidos sorrisos de incredulidade. Artur Calado sorriu em resposta, e o seu sorriso, talvez por mimetismo, foi também de incredulidade.
- Sabem que eu gosto de ler, mas o que desconhecem é que nunca procurei ler em voz alta. Se o faço hoje, e recebo reconhecimento por essa actividade, é apenas por mero acaso ou, se preferirem, porque não pude deixar de o fazer.
Neste ponto, Artur Calado olhou para além da mesa de café onde estava sentado com alguns amigos e conhecidos e apercebeu-se que outras pessoas de outras mesas o seguiam com atenção, presas pela sonoridade da sua voz, como acontecia sempre que lia em público.
Levou a chávena à boca antes que o café ficasse completamente frio e deu um gole, mas engasgou-se e tossiu durante alguns instantes, até conseguir recuperar a voz.
Agarrou o livro em cima da mesa e começou de imediato a ler, em voz alta, e as palavras encheram o café, prendendo cada um dos presentes, sem apelo nem agravo, até que Artur virou uma página com um gesto brusco, arrancando-a, e parou de ler, incomodado com o percalço.
Era tímido e desastrado e poderia ter levado uma vida triste e desanimada como ele se não fosse o seu surpreendente dom.
[LER ALTO]
Deixou que o olhar se passeasse pelos livros nas estantes mas não fez qualquer gesto para agarrar em qualquer deles, pois sabia muito bem o que aconteceria e, naquele momento, queria estar em silêncio, o que lhe era cada vez mais difícil, pois cada vez mais lhe acontecia dar por si a pensar em voz alta.
Sentou-se perto da janela e ficou a olhar para fora, para o telhado castanho, para o céu cinzento, tentando não pensar, esforçando-se por estar em silêncio. De tempos a tempos o seu olhar era atraído pelos livros e Artur Calado acabou por se levantar e agarrar num ao acaso, quase sem dar por isso. Voltou a sentar-se, respirou fundo, ruidosamente, e abriu-o na primeira página, deixando-se que o seu olhar fosse atraído pela mancha impressa e começou de imediato a ler, em voz alta. Tentou calar-se, tapou a boca com a mão, mas de nada adiantou. Atirou o livro para longe, com raiva, e cobriu o rosto com as mãos, os olhos e a boca tapados, os cotovelos enterrados nas coxas.
[A MALDIÇÃO]
- Tens um dom surpreendente, nunca me canso de te ouvir, é verdadeiramente surpreendente, imprimes uma tal intensidade ao que dizes que chega a ser hipnótico.
Artur Calado acenou com a cabeça em sinal de concordância, e disse para si mesmo que era sem dúvida um dom, mas também era muito mais do que um dom, ainda que estivesse certo que ninguém acreditaria nisso.
Nos últimos anos fizera um trajecto meteórico, que muitos ligavam à sua ousadia e determinação, apesar de todos aclamarem o seu surpreendente dom para a leitura em voz alta. Começou por ler em praças e jardins e só depois começou a entrar nos circuitos dos bares e das bibliotecas, percurso que lhe assegurou a fama e lhe valeu, a partir de um certo momento, contratos milionários para gravações e sessões restritas. Pode dizer-se que antes de Artur Calado não existia leitura em voz alta de contos e romances e, apesar de outros terem tentado desde então, é de prever que depois dele nunca mais atinja as mesmas proporções, porque a verdade é que mais ninguém lia em voz alta como ele.
Com o tempo Artur Calado foi aprimorando a sua exibição, ainda que de forma discreta e talvez completamente desnecessária, pois a magia estava na sua voz e na extraordinária forma como lia. Lia sentado, imóvel, o livro à sua frente aberto numa estante, as páginas voltadas com regularidade por uma bela assistente de quem ninguém se lembrava no final, porque todos ficavam presos da sua voz, hipnotizados, aliás como o próprio Artur Calado, ao ponto de se dizer que não era ele que lia o livro mas o livro que falava através dele, como se ele fosse um simples instrumento.
Todos os que alguma vez o ouviram garantiam que fora uma das mais extraordinárias experiências da sua vida, e os seus agora raros espectáculos esgotavam num abrir e fechar de olhos, os bilhetes vendidos a preços exorbitantes.
Artur Calado tinha um dom surpreendente, verdadeiramente surpreendente, como ele dizia a si mesmo, ainda que para ele fosse muito mais do que isso; para ele era uma maldição.
[O HOMEM SEM QUALIDADES]
Artur Calado foi uma criança e um adolescente triste e desastrado, descrição que pode parecer pobre mas que lhe assentava na perfeição, e entrou na idade adulta sem nada fazer prever o dom que mais tarde revelou. Era bastante reservado, falava muito pouco e quase ninguém reparava nele, a não ser pela manifesta ausência de qualidades. O único prazer que dava sentido à sua existência era a leitura, a que dedicava longas horas de silêncio e de solidão.
Quem o conhecia agora, dono de uma voz surpreendente, capaz de enfeitiçar uma audiência, não só acreditava que ele era um homem extraordinário, determinado e invulgarmente dotado, como tinha a certeza que ele sempre fora assim, o que até não é de admirar, pois até os mais próximos dele se esqueceram como ele tinha sido antes, tão intenso era o seu ser actual. Achavam também que ele era um homem feliz, porque fazia o que gostava, pois só assim ele podia ser tão bom como era, e de novo se enganavam.
Artur Calado detestava cada vez mais os livros e a leitura em voz alta pouco prazer lhe dava. Ainda lia em voz alta, é verdade, mas apenas porque era o que sabia fazer e porque os outros retiravam dessa leitura um prazer que há muito tempo lhe estava negado.
[LEITURA AUTOMÁTICA]
Não se lembra que livro estava a ler quando lhe aconteceu pela primeira vez, mas quando pensa nisso ainda sente o mesmo calafrio de medo que o atravessou naquele momento.
Estava a ler, em silêncio, quando ouviu uma voz que lia exactamente o que ele lia, e por momentos julgou que era o livro que lhe falava. Fechou-o, voltou a abri-lo e, de cada vez que o abria ouvia a voz, e de cada vez que o fechava deixava-a de a ouvir. Fechou o livro de vez e arrumou-o na estante, como se o depositasse num cofre. Olhou os outros livros e por várias vezes sentiu vontade de pegar num e ler, mas já era tarde e o melhor era dormir.
No dia seguinte já quase se tinha esquecido do que acontecera na noite anterior, mas quando agarrou outro livro e o abriu, voltou a ouvir uma voz, não a mesma do dia anterior, mas outra voz, e o mesmo calafrio da noite anterior voltou a percorrer-lhe o corpo. Deixou escapar-lhe o livro das mãos, que caiu no chão com um barulho cavo de ponto final.
Durante vários dias não voltou a pegar num livro e quando finalmente retirou um da estante, sentiu-se sem forças para o abrir e pousou-o em cima da mesa. Sentia-se mais triste e desanimado do que sempre e de pouco lhe serviu descobrir finalmente a verdade.
[A VERDADE]
A verdade era que a voz que ouvia era a sua, ainda que não fosse fácil explicar o que lhe acontecera, tão invulgar era. Bastava-lhe abrir um livro para começar a lê-lo em voz alta, de uma forma completamente automática, não precisando de fazer mais nada do que abrir o livro e olhar na direcção da mancha impressa para a sua voz se fazer ouvir, uma voz que era e não era a sua, e que ele só conseguia explicar dizendo que eram os livros que falavam, pois consoante mudava o livro que lia, assim também a voz mudava.
Nunca se habituou verdadeiramente a essa voz que era e não era sua e nunca começou uma leitura sem que sentisse o mesmo calafrio que o percorreu da primeira vez. Continuou a ler em voz alta porque era a única forma de continuar a ler, uma vez que perdera de uma vez por todas a capacidade de ler em silêncio, para si próprio. O seu dom era a sua maldição, dizia a si mesmo, e aceitava o seu destino, mais triste e desanimado do que alguma vez se sentira.
O BRAÇO DIREITO
[A DISTRAÇÃO]
Tentou levar a chávena aos lábios mas o braço levou-a numa rota que a fez encostar-se à cara, do lado esquerdo, e gritou mais de espanto que de dor, largando a chávena que caiu na mesa, o pouco de café que restava espalhando-se pelo tampo. Os amigos riram e exortaram-no a ter mais cuidado e a ver o que fazia, com um olhar cúmplice ás nádegas espalhafatosas que rebolavam na direcção do balcão.
- Até lhes dava uma palmada – disse um deles, e piscou o olho a Jaime Bunda, como lhe chamavam, apenas porque era Jaime de seu nome cristão e um dia os enfastiara elogiando um romance policial com esse mesmo nome, que era bom, que era divertido, que deviam ler, e eles está bem, está bem, ó Jaime, Jaime Bunda e assim ficou desde então, apesar dos seus protestos ou talvez por causa deles. Talvez por isso ele lhes recorde que não gosta de rabos, ainda por cima como aquele, cheio de si, e os outros a rirem-se ainda mais, bunda, pois é, Jaime Bunda não tem bunda, Jaime Bunda não gosta de bunda.
Jaime calou-se, nem valia a pena responder, a verdade é que era sumido de rabo, sempre lhe tinham dito, e foi sem dúvida por isso que a alcunha pegou tão bem, Bunda, Jaime Bunda, e dela já não se livrou.
Só mais tarde é que percebeu que aquele tinha sido o primeiro sintoma: aquela distracção não tinha sido sua, mas sim do seu braço, do seu braço direito.
[IR A JULGAMENTO]
O juiz olhou-o divertido, mas não respondeu logo, e deixou que a seriedade lhe voltasse ao rosto, antes de lhe dirigir a palavra.
- Sei que é difícil deixar de ser quem se é, mas tem de fazer um esforço, ou da próxima vez, se existir uma próxima vez, corre o risco de ser condenado numa pena de prisão efectiva.
Jaime ainda esboçou uma resposta, mas o advogado tomou a palavra e dirigiu-se directamente ao juiz chamando a atenção para todas as qualidades do arguido e de quanta vontade tinha em se corrigir, ao que o juiz bocejou prontamente e disse entre dentes, está bem, está bem, chega.
Eu sou mesmo assim, tinha dito Jaime, não faço por mal, mas logo percebeu que o que estava a dizer só para ele fazia sentido e calou-se, já o juiz o olhava divertido e o advogado abria a boca de espanto.
Os factos de que era acusado eram claros e existiam testemunhas que os comprovavam à saciedade e no entanto ele não era responsável pelo que acontecera, ainda que ninguém acreditasse nele, pois a verdade é que não tinha sido ele mas sim o seu braço direito a agir.
[O QUE DEVO FAZER?]
O médico olhou-o divertido e demorou alguns instantes antes de responder.
- Senhor Jaime, tenho de o aconselhar a procurar acompanhamento psiquiátrico ou psicológico. O problema que me descreveu está completamente fora da minha área de conhecimentos e nada posso fazer.
E continuou a olhá-lo, em silêncio.
Jaime não disse mais nada, levantou-se e saiu. Tinha tentado durante mais de meia hora explicar ao médico que não tinha controlo total no seu braço direito, que tinha movimentos involuntários, mas o outro não se convencia, tanto mais que às suas perguntas, precisas e rigorosas, Jaime dava resposta vagas e imprecisas.
- Mas com que frequência é que se verificam esses movimentos? – dizia o médico olhando-lhe para o braço direito.
- Às vezes – respondia Jaime. – Só me acontece às vezes.
- Às vezes? – repetiu o médico. – Não consegue especificar melhor?
- É que depende – dizia Jaime.
E os silêncios iam aumentando, de parte a parte.
- E como descreveria esses movimentos?
- É o meu braço direito que se descontrola.
- E faz o quê, exactamente?
- Avança, a mão aberta, e agarra.
- Agarra? Agarra o quê?
Jaime olhou-o e calou-se por instantes, antes de responder.
- Apalpa. Belisca. Age por si mesmo, como se tivesse vontade própria. O que devo fazer?
[ACEITAR O PROBLEMA]
O psicólogo olhou-o divertido, sem no entanto abandonar a sua atitude de escuta, e abanou ligeiramente a cabeça calva em sinal de compreensão.
- Se bem percebi, queixa-se que o seu braço direito age por iniciativa própria e contra a sua vontade, apalpando e beliscando o rabo às mulheres.
- Sim, não a todas as mulheres, e não sempre, mas no geral pode dizer-se assim.
- E nunca tal lhe aconteceu por sua vontade, mas sempre por vontade, digamos assim, do seu braço direito?
- Nunca na minha vida apalpei ou belisquei o rabo a uma mulher. Sem o consentimento delas, claro, porque eu gosto de mulheres, mas não tenho por hábito ficar de olhos pregados num rabo de mulher e muito menos apalpá-lo ou beliscá-lo assim sem mais ou menos.
- Às vezes agimos de forma involuntária, mas nem por isso essas acções se podem dizer desligadas de nós.
- Ó doutor poupe-me, eu conheço Freud, mas neste caso não tem nada a ver. A verdade é que não sou eu, antes fosse, mas o meu braço direito, e eu nada posso fazer.
- E isso é um problema para si?
- Claro que é um problema.
- Aceita então que tem um problema. E quer resolvê-lo?
- Não só quero resolvê-lo como tenho de resolvê-lo, antes que dê cabo da minha vida.
[CONHECER O PROBLEMA]
Ia a subir a rua, a mesma por onde passava todos os dias de manhã quando ia para o trabalho, alternando entre a estrada e o passeio por causa dos carros que o invadiam quando ao passar à frente duma mulher que ia na mesma direcção, o seu braço direito lhe apalpou o rabo.
Não havia outra forma de o dizer, pois tinha sido assim mesmo que acontecera, o seu braço direito movera-se sem que o comandasse e apalpou o rabo da mulher. Ele nem viu o rabo, apenas o apalpou, e ficou tão admirado que estacou, a olhar alternadamente para a mão e para o rabo da mulher que se afastava depois de lhe ter chamado porco. Porco, foi o que ela disse, e cuspira para o chão, e ele ficara calado a olhar ora para a mão ora para o rabo dela, sim, para o rabo dela, espantado.
Nos dias seguintes quase se esqueceu do que acontecera mas, como se costuma dizer, o problema estava lá e voltaria, bastava que se repetissem as circunstâncias, e foi afinal o que sucedeu, e desta vez a mulher não se limitou a insultá-lo.
[AGIR]
À terceira é de vez, disse Jaime a si mesmo, e decidiu-se a resolver o problema que já lhe tinha trazido problemas de sobra.
Para resolver um problema, dissera-lhe o psicólogo, é preciso conhecer o problema, tomar consciência dos seus diversos aspectos, e depois traçar uma estratégia e agir. Se alguma coisa falhar volta-se ao princípio. E foi isso que ele fez, de uma forma e simples e directa.
O que era preciso era que ele deixasse de apalpar e beliscar o rabo às mulheres e para tanto bastava afinal que o seu braço direito não tivesse essa oportunidade, já que o resto do corpo, ao contrário do braço lascivo, ainda lhe obedecia.
A verdade é que durante o dia não existiam assim tantas oportunidades para que seu braço direito prevaricasse, bastando que ele tivesse cuidado e se mantivesse atento à proximidade dum rabo tentador. Por outro lado, como concluiu com facilidade, o seu braço direito não reagia a qualquer rabo, tinha os seus gostos, e só os mais avantajados e esculturais pareciam despertar a sua vontade própria, o que facilitaria a sua tarefa.
Jaime passou então a evitar as multidões, o que não lhe alterou em muito os hábitos, já que sempre as detestara, e passou a dedicar muito mais atenção ao que acontecia à sua volta, de forma a não dar qualquer oportunidade ao seu braço direito, o que verificou com satisfação não ser afinal muito difícil.
E foi assim que deu por resolvido o seu problema, não nas suas causas, mas nas suas consequências.
[…]
Curiosamente, verdade seja dita, Jaime passou a olhar com frequência para o rabo das mulheres, o que antes quase não fazia, e a sua alcunha sobrepôs-se ao seu nome, de tal forma que passou a ser conhecido apenas por Bunda, Jaime Bunda.
A GALINHA DOS OVOS DE OURO
[UM AVISO]
É impossível explicar o que aconteceu a Álvaro Bizarro, mas esta impossibilidade não é desconhecida nem de quem escreve nem de quem lê, e é talvez na maior parte das vezes por isso mesmo que se escreve e que se lê. Gostaria no entanto de abrir com este aviso, para deixar bem claro que o que fica por dizer não é porque o queira ocultar mas apenas porque não sou capaz de dizê-lo.
[A DISCREPÂNCIA]
Entrou no quarto e olhou para a cama onde a mulher já dormia, iluminada pela ténue claridade que entrava pela janela. Ficou ali parado, à entrada do quarto, como se não fosse o dele, a mão direita passeando-se pelo seu rosto e pelo cabelo. Tossiu de leve, como a dar conta da sua presença, mas saiu de imediato do quarto, sem sequer espreitar a mulher adormecida.
Atravessou o corredor e entrou na sala. A mulher estava sentada no sofá e sorriu-lhe, perguntando-lhe em voz baixa mas decidida se iam para a cama. Álvaro Bizarro estacou à porta da sala, mas depois retribuiu o sorriso e estendeu-lhe a mão, que ela agarrou e encaminharam-se os dois para o quarto vazio.
E essa foi a primeira discrepância de que ele deu conta, mas tal como as outras que se seguiram, só podia explicá-la com a sua própria loucura.
[DEJÁ VU]
Estava na cozinha quando ela chegou e logo começou a gritar com ele, por isto e por aquilo, como acontecia cada vez mais. Olhou-a e tentou descobrir naquela mulher que lhe gritava a outra mulher que tanto amara e que, por mais que lamentasse, amava ainda. Ela riu-se ao vê-lo assim parado, os olhos muito abertos, e o seu riso era tão insultuoso como as suas palavras. Álvaro Bizarro passou por ela, em silêncio, e foi fechar-se no escritório. Ficou de pé, em frente à porta, à espera que ela o seguisse até ali, como de outras vezes, mas tal não aconteceu. O apartamento estava em silêncio, só quebrado pelo súbito tocar da campainha e um bater sincopado na porta de entrada.
Saiu do escritório, dirigiu-se até à porta, olhando desconfiado em redor, e abriu a porta á mulher, sorridente, que o abraçou e beijou.
- Desculpa, esqueci-me da chave, não sei onde ando com a cabeça.
E sorria-lhe, e beijava-o, e dizia que o amava.
Álvaro Bizarro olhava-a surpreendido, em silêncio.
- Estás com ar cansado, querido.
- Estou melhor agora que chegaste.
E sorriu-lhe, e beijou-a, e disse que a amava.
E essa foi a segunda vez que aconteceu.
[LOUCO]
Álvaro Bizarro não estava louco mas, por mais que procurasse, não conseguia encontrar qualquer explicação lógica para o que lhe estava a acontecer.
Era como se conseguisse passar de um mundo em que a mulher o odiava para outro em que a mulher o amava. Ou como se conseguisse fazer ressurgir aquela mulher que antes o amava e agora o odiava.
O mundo era o mesmo, concluiu, que não encontrava qualquer diferença, a mulher é que mudava, como se viajasse no tempo, pois era afinal a mesma mulher, pois só assim se explicava que quando uma surgia a outra desaparecia.
Não era fácil pensar o que lhe estava a acontecer, e Álvaro Bizarro não tentou nem por um momento perceber o que estava a acontecer, mas nem por um momento duvidou que aquela mulher que o amava era a sua mulher, a mesma mulher que agora o odiava e que ele amava ainda.
[COMPLETAMENTE LOUCO]
Nos dias que se seguiram Álvaro Bizarro conviveu ora com a mulher que o odiava ora com a mulher que o amava, e como estava há tanto tempo afastado daquela mulher que o amava quase que suportava sem esforço aquela mulher que odiava cada vez mais. Sentia-se quase feliz e às vezes até se esquecia que eram duas mulheres ou, melhor seria dizer, eram duas mulheres numa, se é que faz mais sentido. Foi num desses momentos que passou a mão com ternura pelo rosto da mulher que o odiava, e esta lhe disse que tinha de sair de casa, que estava farta dele, que tivesse mas era juízo. Álvaro Bizarro gritou-lhe que se calasse e, pela primeira vez odiou aquela mulher que o odiava, e amou ainda mais aquela mulher que o amava, a mesma que o esperava no quarto, que o desejava, como pôde comprovar quando foi ter com ela.
Odiava-a cada vez mais ao mesmo tempo que a amava cada vez mais e começava a ser-lhe cada vez mais difícil adequar o seu comportamento ora a uma ora a outra, sucedendo-lhe várias vezes falar de amor à mulher que o odiava e falar com desprezo à mulher que o amava. E antes de ficar completamente louco teve uma ideia.
[A SOLUÇÃO]
Diz-se que só os loucos são capazes de soluções perfeitas, e talvez afinal Álvaro Bizarro estivesse louco porque pensou ter encontrado a solução perfeita para o seu desespero.
De certeza que o leitor atento já antecipou o final, por isso o melhor é dizê-lo em poucas palavras.
Álvaro Bizarro matou a mulher que odiava e depois percorreu as diversas divisões da casa à espera de ver surgir a mulher que amava, mas esta nunca apareceu.
O MELHOR AMIGO DO HOMEM
Estava sentado no sofá e fazia festas na cabeça do cão, que apoiava as patas dianteiras nos seus joelhos e o olhava com a língua de fora.
- Cãozinho lindo. Parvalhão.
E continuava a acariciar a cabeça do cão e a falar-lhe.
-Seu parvalhão, seu cão idiota.
E o cão aqui e ali soltava um latido breve e olhava-o com os olhos muito abertos.
E ali estavam os dois, o homem e o cão, o cão e o homem, e pareciam felizes naquele jogo inocente, o cão e o homem, o homem e o cão, quase não se distinguindo, como se os dois formassem afinal um novo ser, porque afinal uma matilha, uma multidão ou uma floresta são sempre mais do que o conjunto dos seus elementos. Mas isto não pensava o homem, nem pensava o cão, limitavam-se a estar ali, um com o outro.
O telefone tocou e o homem levantou-se para o atender. Trocou meia dúzia de palavras e desligou. Voltou a sentar-se no sofá e de novo o cão se ergueu sobre os seus joelhos e de novo o homem lhe fez festas na cabeça, mas de um modo automático, olhando de relance para a janela, desinteressado do que fazia, e quando o cão de novo latiu, olhou-o com uma expressão que dizia claramente que tivesse mas era juízo e se calasse.
- Tu é que tens uma rica vida!
- Lá vens tu com a tua mania que és o centro do universo. Apre, quando é que aprendes!
O homem olhou pela janela ao lado do sofá, para o céu cinzento, e não lhe respondeu.
Estava farto destas conversas com o cão e só por distracção dissera o que dissera, completamente esquecido de como ele era capaz de o aborrecer com as suas opiniões sobre o que era ser cão e o que era ser homem.
Voltou a fazer festas ao cão, tentando pôr fim à conversa, mas o cão não parecia estar disposto a deixar passar a ocasião de mais uma vez fazer ouvir a sua opinião sobre o assunto.
- O que é que tu sabes de ser cão? Na verdade nem sabes muito bem o que é isso de ser homem, passas a vida a lamentar-te e a ter pena de ti próprio. Se tens tanta inveja de mim faz como eu.
- O que queres dizer com isso? Que arranje um dono como tu?
O homem sorriu o seu habitual sorriso triste e o cão sentou-se sobre as patas traseiras, a língua de fora, e em vez de falar soltou um latido forte que era a sua forma de dizer ao homem que tivesse juízo.
- Mas tu não tens um dono?
O homem levantou-se e foi até à sala, onde se sentou a ver televisão, tendo o cuidado de fechar a porta para o cão não entrar, mas o cão nem tinha saído de onde estava, deitado no chão.
- Quem me dera ser cão!
E riu, porque o cão não estava ali para responder, mas logo voltou a sorrir o seu sorriso triste porque sabia muito bem o que o cão lhe responderia.
- Ser cão é coisa de cão e ser homem é coisa de homem, talvez se tentasses ser mais homem não pensasses tanto em ser cão.
- Mas seu fosse cão não pensava, limitava-me a ser, e não tinha quaisquer problemas.
- Vê-se mesmo que não sabes nada de ser cão, mas também não admira porque também sabes muito pouco de ser homem. Eu sei ser cão e ao sabê-lo sei muito sobre ser, e esta é uma grande vantagem que tenho sobre ti.
E neste ponto o cão ria-se muito.
- Vês como te sentes feliz por ser cão!
- És mesmo patético.
E se o homem sentia sempre que o cão tinha razão, o cão sentia sempre que nunca lhe conseguiria dizer o que ele precisava de ouvir, e um e outro sentiam-se tristes e desanimados com estas conversas que não conseguiam evitar e que não os levavam a lugar nenhum. Por isso o homem e o cão falavam cada vez menos um com o outro, mas nem por isso essas conversas deixavam de acontecer, pois ainda que os deixassem tristes e desanimados, eram um forte elo de ligação entre os dois, da mesma forma que os passeios matinais ao longo do rio e as brincadeiras em comum. Por isso tentavam preservar esses momentos, evitando conversar durante os passeios e as brincadeiras, mas tal nem sempre se mostrava possível e, neste aspecto, a responsabilidade era partilhada, pois se o homem tinha dificuldade em não se lamentar da vida, por seu lado o cão tinha dificuldade em não responder às queixas e lamúrias do homem.
- Merda de vida!
Disse isto e olhou para o cão, que cheirava uma árvore, e teve vontade de se desculpar, de dizer que não era nada, que não ligasse e, por momentos o cão olhou para ele sem dizer nada, mas foi por pouco tempo.
- Estás aqui estás a dizer que eu é que tenho uma rica vida.
O cão calou-se, com um esforço óbvio, mas logo voltou a falar, num sussurro irónico.
- Queres cheirar o mijo nesta árvore?
E riu. O homem riu também e fingiu baixar-se para cheirar o tronco da árvore.
- Que nojo.
- Faz parte de ser cão.
O homem olhou o rio e calou-se, enquanto o cão se afastava, cheirando tudo à sua volta, inebriado.
E durante o resto do passeio não falaram, mas quando chegaram a casa começaram a conversar quase sem dar por isso.
- Talvez seja da natureza do homem, ou da minha, pôr o mundo em questão. Talvez seja assim que eu sou.
-Talvez.
- Talvez eu não posso ser de outra maneira.
- Talvez.
O homem estava sentado no sofá e o cão tinha as suas patas dianteiras pousadas nos seus joelhos e, sem que desse por isso, o homem começou a acariciar-lhe as longas orelhas em silêncio.
- Eu apenas gostava que tu fosses como és e te aceitasses como és. Serias mais feliz. Só por isso te respondo e contradigo quando começas com as tuas lamentações que mais não são do que fugas de ti mesmo.
O cão parou de falar e soltou um latido breve. O homem continuou a acariciar-lhe as orelhas e o alto da cabeça.
- Cãozinho lindo, parvalhão.
Aquele cão era mesmo seu amigo, pensou o homem, era o seu melhor amigo.
A MÃO QUE ESCREVE
Escrevo. À mão. Com a mão esquerda. Lentamente. Com esforço.
Mas cada vez melhor.
É bom voltar a escrever. Há tanto tempo que eu não escrevia.
Escrevo com dificuldade. Mas sempre escrevi com dificuldade. Com muito esforço. Avançando lentamente. Sem saber para onde ia. Como agora.
Talvez por isso sempre tenha escrito à mão. Como se fosse um movimento do corpo e não da mente. Como se caminhasse sem nunca saber onde chegaria. Confiando no meu corpo. Nas minhas pernas. Nos meus olhos. Nos meus sentidos.
Escrever como respirar. Como se a escrita fosse algo involuntário. Como se só pudéssemos ser quando não nos interrogamos quem somos. Quando não procuramos ser. Quando apenas, um enorme apenas, quando apenas somos.
Escrevo com a mão esquerda. Com dificuldade. Devagar. Mas as palavras que escrevo são minhas.
Escrevo para mim. Escrever para ser.
Escrevo e duvido do que escrevo. Escrevo e odeio o que escrevo. Escrevo e sinto uma enorme ternura pelo escrevo.
Escrevo e sou eu que escrevo.
É difícil escrever. É impossível explicar.
É possível escrever. É possível contar.
Foi-me devolvida essa possibilidade. Conquistei-a.
[…]
Sempre escrevi com esforço, lutando contra as palavras, a pontuação, o sentido, a ortografia.
Passei muitas horas a olhar a folha em branco. Risquei muito do que escrevi. Destruí grande parte. E isso impedia-me de escrever.
Sempre soube que escrever é começar e ir até ao fim. É aceitar que a imperfeição é a própria essência da escrita. E só não digo que é a própria essência de qualquer actividade humana porque o pouco que sei se restringe à escrita e ao acto de escrever.
A escrita foi sempre a minha forma preferida de me aproximar do mundo. Talvez a única forma de que disponho. Mesmo agora que escrevo com a mão esquerda, lentamente, com dificuldade, sinto-me feliz, pleno daquela dolorosa felicidade que é sabermo-nos perto do que sempre estará fora do nosso alcance.
Mas agora, como sempre, o que escrevo, ainda que com dificuldade, quase palavra a palavra, ainda que me escreva, escreve-me tanto mais quanto se escreve a si mesmo.
Julgo que não é um fenómeno que se restrinja à escrita, sei muito pouco sobre o que quer que seja para o explicar correctamente, no entanto ouvi muitas vezes que para sermos quem somos nos devemos deixar ir. Confiar em nós próprios e deixarmo-nos ir. Talvez porque, paradoxalmente, muito do que parecemos ser não é aquilo que somos. Ora a escrita mostra-nos isso com muita facilidade.
Se eu me limitasse a escrever o que sei, para que me serviria escrever? Sempre escrevi para descobrir o que não sei. Para descobrir o que de outra forma nunca saberia. O facto de estar a escrever para mim não me desobriga de tentar ser o mais claro possível. De chegar o mais perto possível do que tento desvelar.
[…]
Os escritores são sem dúvida todos diferentes e escrevem todos de forma diferente uns dos outros, pelo menos os melhores, mas é curioso observar como dizem todos muitas coisas iguais no que se refere ao acto de escrever. Antes de começar a escrever nunca tinha reparado nisso. Depois, à medida que eu próprio fui reflectindo sobre o acto de escrever, cheguei às mesmas conclusões que muitos deles e, nessa altura, percebi que todos os escritores sabem afinal muito pouco sobre o acto de escrever. Percebi que o acto de escrever é um mistério e percebi que a escrita é tanto mais excelente quanto assenta nesse mistério.
Uma das coisas que todos os escritores dizem é que não são eles que escrevem o que escrevem. Que nunca sabem onde a história vai. Que o que escrevem lhes escapa. Não é humildade. Os escritores não são humildes. Os escritores procuram a verdade. E esta é a verdade. Procuram a verdade mas não procuram explicar a verdade. Eu sei que é assim. Descobri que é assim quando comecei a escrever.
É verdade, ainda que, como todas as verdades, seja paradoxal, porque a verdade, pelo menos a verdade tal como a podemos alcançar, é sempre paradoxal. A escrita ensinou-me isso.
Eu próprio cheguei a dizer, quando me perguntaram sobre o acto de escrever, que era a minha mão que escrevia. Que a minha mão era mais inteligente do que eu. Dizia-o não porque acreditasse que era a minha mão que escrevia, mas apenas porque sabia que não tinha resposta para o mistério que me fazia escrever coisas que eu não sabia. Que me fazia escrever muito melhor do que alguma vez eu seria capaz de escrever se escrevesse apenas o que sabia e o que era capaz de escrever. E dizia então que era a mão que escrevia, e que escrevia tanto melhor quanto mais contente estivesse. Coisas que se dizem quando não se sabe o que se dizer. Coisas que se dizem para se dizer o que não se é capaz de dizer.
[…]
Agora escrevo com a mão esquerda. Escrevo cada vez com mais facilidade. Mas ainda com esforço. Lentamente. Há tanto tempo que não escrevia assim. A escrita arrastando-se. A escrita lutando por avançar. No início era assim que eu escrevia.
Escreve-se, escrevendo. No início dizia isso mesmo a mim próprio. Era uma forma de me animar, de me motivar. Era uma frase com outra qualquer, mas servia o seu propósito. E eu escrevia. E eu deixava-me escrever. Mais tarde poderia cortar, moldar, reescrever, mas primeiro era preciso escrever, era preciso que o que tinha de ser escrito se escrevesse. E para isso eu tinha de me afastar. Tinha de me afastar do acto de escrever. Tinha, afinal, de deixar que fosse a minha mão a escrever.
A minha mão direita escrevia e escrevia e escrevia. A minha mão direita escrevia cada vez melhor. Escrevia o que eu nunca seria capaz de escrever. E a partir de certa altura, nem sei ao certo quando, deixei de escrever. Deixei por completo de escrever. Não sei como aconteceu. Não sei porque aconteceu. Apenas sei que, a partir de certa altura, já não era eu que escrevia. Era a mão que escrevia.
A mão escrevia e eu nada tinha a ver com o que ela escrevia. Tinha deixado de escrever e não havia nada a fazer. A minha mão direita escreve maravilhosamente. Escreve como eu nunca conseguirei escrever e, no entanto, voltei a escrever.
Tinha de voltar a escrever. Não sou capaz de deixar de escrever. Agora escrevo com a mão esquerda. Sou eu que escrevo. Escrevo com dificuldade. Escrevo por necessidade. Escrevo só para mim. E quando a mão direita está feliz, escreve também. Nunca a impedi de escrever e nunca a impedirei.
O LADO DE CÁ
José Silva não era um homem triste, era antes um homem simples que levava uma vida simples e, sobretudo, um homem solitário que levava uma vida solitária. Talvez seja forçado dizer que era um homem satisfeito, mas a verdade é que não dava sinais de descontentamento e mostrava-se perfeitamente adaptado à vida que levava. No entanto, José Silva dizia muitas vezes a si mesmo que vivia do lado de cá da vida e essa afirmação, apesar de ser uma mera constatação, revelava a solidão que ainda sentia, apesar de há muito esse sentimento ter para ele um sabor agridoce. Aprendera a alimentar-se da solidão.
Há anos que não trocava com ninguém mais do que duas ou três palavras de conveniência e mesmo assim só quando não tinha outra possibilidade, preferindo fazer compras em grande superfícies e pedindo o que queria através de simples monossílabos. Café. Pagar. Cigarros. Estava reformado por invalidez e sobrevivia com uma pequena pensão que mal cobria as suas necessidades básicas, que eram bastante reduzidas. Vivia sozinho num pequeno apartamento onde quase nunca estava e onde ninguém o visitava. O seu único prazer era deambular pelas ruas, sentar-se em jardins e à entrada das igrejas. Quando estava bom tempo e lhe sobrava dinheiro sentava-se horas sem fim numa esplanada qualquer, a beber um interminável café ou uma perpétua cerveja.
A maior parte do tempo, ninguém lhe dirigia a palavra, mas às vezes acontecia alguém perguntar-lhe as horas, uma direcção ou pedir-lhe um cigarro e ele respondia com o menor número de palavras possíveis ou limitava-se a entregar um cigarro em silêncio.
Os poucos contactos que mantinha não lhe traziam qualquer satisfação e, ainda que não os evitasse, bem podia passar sem eles. Vivia do lado de cá e todos os outros viviam do lado de lá, situação que longe de lhe desagradar até lhe trazia algum prazer. Entre ele e os outros erguia-se um vidro grosso, mas ele gostava de observar e imaginar. Era isso que lhe restava. Era por isso que deambulava pelas ruas, era por isso que fazia tudo para passar despercebido.
Escutava bocados de conversa, olhava discretamente as pessoas que passavam por ele e imaginava-se no lugar delas. Não podia ser aquelas pessoas, não podia viver a vida delas, mas por momentos era isso que fazia, por alguns instantes vivia do lado de lá, sem nunca sair do lado de cá, onde se sentia bem, onde estava seguro.
A solidão era-lhe necessária, pois só assim conseguia viver plenamente a vida dos outros, a vida do lado de lá, e por isso levava a vida que levava, do lado de cá, ainda que nunca a tivesse desejado, ainda que tivesse chegado onde chegara a fugir da solidão. Fora sempre um solitário mas nem sempre levara uma vida solitária, circunstâncias de vida que não procurou fizeram que caísse afinal na solidão e a única forma que encontrou de lhe fugir foi afinal aceitá-la na sua plenitude.
Um dia, estava sentado num discreto jardim junto a uma igreja menor, quando se apercebeu que as pessoas que passavam lhe lançavam olhares intrigados, chegando mesmo a parar para melhor o olharem. João Silva levantou-se do banco sem procurar qualquer explicação para o sucedido, tão perturbado ficou. Estava habituado a olhar as pessoas e não a ser olhado por elas, e ainda por cima de uma forma óbvia, ostensiva, intrusiva. Desceu a rua e continuou sem destino, como sempre fazia, mas as pessoas por quem passava olhavam-no, paravam e duas ou três até lhe dirigiram a palavra. João Silva sentiu-se tão incomodado que correu para casa, não tendo voltado a sair nesse dia.
No dia seguinte aconteceu-lhe o mesmo. As pessoas olhavam para ele. As pessoas paravam a olhar para ele. As pessoas dirigiam-lhe a palavra. João Silva nem as ouvia. Correu outra vez para casa e não saiu durante vários dias. Ao principio nada mais aconteceu, mas quando estava de novo decidido a sair, eis que começaram a bater-lhe à porta, com insistência, e quando olhava via sempre pessoas diferentes, chegando mesmo em certas ocasiões a juntar-se uma pequena multidão à sua porta. João Silva pensou enlouquecer.
Começou a sair apenas entre a meia-noite e as seis da manhã, mas esse novo horário não impediu que as pessoas o interpelassem na rua e o esperassem à sua porta, às horas mais improváveis. Quando já não aguentou mais, fez o que em si era um comportamento dominante: fugiu. Para a frente, que era sua forma de fugir aos problemas. Quando já não aguentou mais saiu para a rua, como sempre fizera, dizendo a si mesmo que assim como as pessoas começaram de repente a interessar-se por ele, sem qualquer motivo, assim também, de repente, passariam a não dar por ele, como antes. E a verdade é que não havia motivo algum para o comportamento das pessoas, ainda que António Silva, tão perturbado estava, nem tenha sequer reflectido sobre isso e tivesse aceitado o interesse exacerbado das pessoas relativamente a si da mesma forma que antes aceitara o seu pálido desinteresse. As pessoas olhavam para ele, falavam com ele, abraçavam-no, beijavam-no, e ele tudo aceitava, sem um sorriso, com um ar enfadado, entediado, incomodado, mas nada parecia capaz de diminuir o interesse das pessoas.
Conseguia ainda andar pelas ruas, conseguia ainda sentar-se numa esplanada, mas não conseguia já observar as pessoas como antes fazia, sem esforço, e muito menos imaginar as suas vidas, imaginar-se, ainda que por momentos, a viver a vida de uma qualquer outra pessoa. Tinha passado irremediavelmente para o lado de lá.
Ficou tão perturbado com a sua nova condição que se fechou em casa, saindo à rua muito raramente e apenas por curtos períodos. Continuou a ser, cada vez mais, um homem solitário que levava uma vida solitária, só que passou a ser também um homem triste, muito triste, que já não era capaz de se alimentar da solidão.
Faleceu poucos anos depois sem nunca ter conseguido regressar para o lado de cá. O seu funeral atraiu milhares de pessoas e foi transmitido pela televisão estatal em horário nobre.